Como se Caracterizou a Fase do Populismo no Brasil? Por que Getúlio Vargas Conseguiu Ficar Tanto Tempo no Governo Usando o Autoritarismo Para Governar? Que Organismos Foram Criados Por Vargas Com o Objetivo de Institucionalizar a Política Industrial no Brasil?
No período de 1930 a 1964,
instalou-se no Brasil a fase do populismo, a qual ainda hoje guarda suas marcas
na maneira personalista como se conduz a Administração Pública. Nesse período,
o Estado brasileiro adquiriu algumas características patrimonialistas em que o
público se tornou quase que uma extensão do privado, inaugurando uma outra fase
na economia nacional, na qual o setor dinâmico deixou de ser a agricultura e,
nesse momento, a indústria passou a ser o centro das atenções. Os dois marcos –
tanto 1930 como 1964 – são tidos como marcas de revolução, denominação essa
difícil de ser aceita, pelo caráter distinto das duas situações, como veremos
mais a seguir. Na Primeira República, os Estados tinham força, mas, a partir de
1930, com Getúlio Vargas, o governo brasileiro se fortaleceu, centralizando as
decisões e retirando o poder das regiões. Isso facilitou a condução das
políticas econômicas no período. O governo do presidente Getúlio Vargas, que
foi de 1930 a 1945, caracterizou-se por três (3) situações distintas:
·
Primeira – de 1930 a1934: fase do governo
provisório, que entrou em choque com o movimento Constitucionalista de 1932,
pedindo um governo em que a Constituição desse as cartadas.
·
Segunda – de 1934 a 1937: fase do governo
Constitucionalista, regida pela Constituição de 1934.
·
Terceira – de 1937 a 1945: fase do Estado
Novo. Surgiu a figura dos decretos-leis, o judiciário perdeu forças, o
autoritarismo e a repressão dominaram o quadro da época, foi nomeado
interventores para governarem os Estados.
Por que Getúlio Vargas conseguiu
ficar tanto tempo no governo usando o autoritarismo para governar? A resposta à
essa indagação encontra respaldo no populismo utilizado em que os acordos iam
dos coronéis aos industriais e as políticas com a classe trabalhadora. Foi tão
forte a sua presença política junto aos trabalhadores que quase tornou-se
possível a sua permanência no poder em 1945, com o movimento do Queremismo, ou
“Queremos Getúlio”. Mas o seu final estava decretado, as forças armadas não
mais o apoiavam e Vargas teve de sair do cargo. O desenvolvimento decisivo da
indústria a partir de 1930 no Brasil foi motivado pela Grande Depressão, que
fez todos perceberem que não havia outra saída para a economia do País. Na
interpretação de Furtado (1984, p. 198), [...] o fator dinâmico principal, nos
anos que se seguem à crise, passa a ser, sem nenhuma dúvida, o mercado interno.
A produção industrial, que se destinava em sua totalidade ao mercado interno,
sofre durante a depressão uma queda de menos de dez por cento, e já em 1933
recupera o nível de 1929. [...] Algumas das indústrias de maior vulto
instaladas no país, na depressão, o foram com equipamentos provenientes de
fábricas que haviam fechado suas portas em países mais fundamente atingidos pela
crise industrial. Foi nessa fase que começou o processo induzido de
industrialização por substituição de importações, que teve suas primeiras
explicações com Furtado e depois com o trabalho de Maria da Conceição Tavares
cuja contribuição preencheu a lacuna que faltava para o entendimento da
questão. É importante frisarmos ainda que o maior problema do processo de
substituição de importações na industrialização brasileira e na da América
Latina centrou-se na redução do coeficiente de importação, em outras palavras,
a relação entre o valor das importações e o produto interno.
A partir do momento em que essa
relação se torna insuficiente para atender às necessidades da expansão da
economia, tem-se o esgotamento do processo de substituição de importações, que
Tavares (1983, p. 118) assim expressou a sua preocupação à época
sobre o problema estratégico de [...] como o transitar de um modelo de
substituição de importações para um modelo autossustentado de crescimento? [Em
seguida, respondeu] [...] só o setor público, com o seu peso relativo dentro da
economia, tem capacidade de exercer uma demanda autônoma, capaz de se opor às
tendências negativas que emergem do esgotamento do impulso externo. Esse
trabalho de Maria da Conceição Tavares foi publicado em 1963 como forma de
externar a sua preocupação com a situação que o Brasil começava a enfrentar no
início da década de 1960, devido à anunciada estagnação que se vislumbrava pelo
período. Isso indicava que o modelo havia chegado ao esgotamento de fato,
apesar das propostas de uma condução alternativa visando romper com as
dificuldades. Contudo, a estagnação no final da década de 1960 não se
confirmou, pelo contrário iniciou-se uma fase de crescimento do produto interno
bruto que levou ao famoso “milagre econômico”, ocorrido entre 1968 e 1972.
Antes de falarmos sobre o “milagre econômico”, recuperemos rapidamente alguns
pontos do governo de Eurico Gaspar Dutra, o retorno de Getúlio Vargas e a
entrada de Juscelino Kubitschek à presidência da República do Brasil, dando
continuidade à proposta da discussão sobre a organização política, econômica e
social. Com base em Vianna (1990), podemos afirmar que o governo de Eurico
Gaspar Dutra deu continuação aos objetivos de modernização econômica iniciados
na era Vargas cujo governo havia criado uma série de organismos com o objetivo
de institucionalizar a política industrial no País. Entre eles, podemos
destacar:
·
A Comissão Executiva do Plano Siderúrgico
Nacional;
·
O Conselho Nacional do Petróleo;
·
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE);
·
A Companhia Vale do Rio Doce;
·
A Comissão da Indústria de Material Elétrico;
·
O Conselho Nacional de Política Industrial e
Comercial;
·
A Comissão Nacional de Ferrovias etc.
Para Vianna (1990, p. 116), é
preciso relativizar, portanto, a ideia de que o Governo Dutra abandonou as
políticas de governo e ações diretas voltadas para a promoção do
desenvolvimento industrial. Na verdade, o Governo Dutra revela, de certo modo,
sua preocupação em dar seguimento à acumulação industrial e à manutenção dos
investimentos iniciados no estado novo (particularmente a Companhia
Siderúrgica nacional). Isto se revela tanto no momento em que libera as
importações – entre outras razões para satisfazer a demanda reprimida de bens
de capital e matérias-primas da indústria nacional – como, após a instalação do
controle, quando este evolui paulatinamente no sentido de introduzir critérios
de seletividade. [...] A única iniciativa planejada do estado para o
desenvolvimento econômico, porém foi o Plano Salte, tentativa de
coordenação dos gastos públicos visando essencialmente aos setores de saúde,
alimentação, transporte e energia, prevendo investimentos para os anos de 1949
e 1953. Vargas retornou à presidência da República, eleito democraticamente em
1950. Alguns meses antes de sua posse, foi concretizada a criação da Comissão
Mista Brasil-Estados Unidos (CMBEU), com a finalidade de elaborar projetos
conjuntos, visando à expansão da infraestrutura em território nacional, com
atenção voltada ao setor energético e de transporte, mas que acabou sendo
interrompida no governo do republicano Eisenhower. Ainda assim o Plano Nacional
de Rodovias continuou a ser incrementado, contando com o apoio de estratégias
políticas do Estado. Com a finalidade de assegurar o desenvolvimento,
criou-se, em 1952, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e, em
1953, a Petrobras. Em 1954, em uma tentativa de golpe ao seu governo, Getúlio
Vargas se suicidou. Foi substituído em um primeiro momento por João Café
Filho (vice-presidente), logo em seguida por Carlos Coimbra da Luz (presidente
da Câmara dos Deputados) e, finalmente, para terminar o mandato, Nereu de
Oliveira Ramos (vice-presidente do Senado Federal). Todos os três ficaram
por pouco tempo no poder. Nesse interregno até a posse do presidente Juscelino
Kubitschek, combateu-se a inflação, por meio de uma política econômica severa,
formulada pelo economista Eugênio Guin., Ministro da Fazenda.Com a entrada do
presidente Juscelino Kubitschek, foram tomadas uma série de medidas de combate
aos desequilíbrios externos.
A política de industrialização
marcou profundamente o período, cujo principal emblema foi o Plano de Metas,
lançado em 1956. Entretanto, do ponto de vista estrutural, a política de
ciência e tecnologia nacional não foi tratada com a devida prioridade. Segundo
Araújo (2004, p. 29), apesar de já existirem algumas instituições
científicas desde o século XIX, o desenvolvimento tecnológico brasileiro não
tem sido suficiente para que o país possa impor uma lógica de desenvolvimento
econômico mais independente dos avanços obtidos por outros países. Apenas na
primeira metade da década de 50, instituições como o Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e tecnológico (CNPq) e a Coordenação de
Aperfeiçoamento de pessoal de Nível Superior (CAPES) foram fundadas. Na segunda
metade da década de 50, no governo de Kubitschek, a busca de autonomia
tecnológica brasileira foi abandonada com a implementação do Plano de Metas.
Nesse Plano, dado o objetivo de implantar em um curto período de
tempo segmentos industriais com uma maior complexidade tecnológica, o
desenvolvimento tecnológico brasileiro foi posto em segundo plano, já que a
importação de tecnologia e o desenvolvimento tecnológico feito pelas filiais
das empresas transnacionais – obtidos dos matizes localizados nos Países
Centrais – eram vistos como mais importantes. Além do incremento da
industrialização no governo de Juscelino Kubitschek, foi construída Brasília, a
nova capital do Brasil, no Centro-Oeste brasileiro.
Contudo, mesmo com essa série de
projetos, os desequilíbrios regionais não foram superados, as dificuldades na
captação de recursos se mantiveram, houve endividamento e a ampliação da rede
ferroviária sofreu um forte abalo, tendo como consequência o seu enfraquecimento.
Com a entrada de Jânio Quadros, em 1961, na presidência da República, houve um
recrudescimento da política industrial. A inflação herdada do governo do
presidente Juscelino Kubitschek acelerou-se, e os problemas fiscais e de
balanço de pagamentos precisaram ser
reorganizados. No curto espaço
de tempo que permaneceu como presidente, Jânio Quadros
procurou uma aproximação com a ex-União Soviética e mostrou-se favorável à
descolonização da África. Apesar de estar legitimado por uma votação
impressionante, Quadros renunciou em 25 de agosto de 1961, por falta de apoio
político para a implementação de um projeto econômico de tipo liberal, segundo
Dreyfus (1981).
Após a renúncia de Jânio Quadros
da presidência da República, houve momentos de impasse para que o
vice-presidente João Goulart assumisse a pasta de presidente. No dia da
renúncia, quando João Goulart estava na China, tentaram impedir o seu retorno
ao País e a sua posse como presidente. Para que Goulart assumisse o
poder, o Congresso Nacional teve de alterar o regime de governo de
presidencialismo para parlamentarismo e transferir a responsabilidade do
governo ao Primeiro Ministro. Goulart teve o mandato marcado por uma série de
conflitos no campo e nas cidades. A política econômica exposta no Plano
Trienal, elaborado por Celso Furtado, centrou-se na resolução das questões mais
imediatas, como a inflação, e deixou a industrialização para o segundo
plano. Houve muita revolta popular, o País clamava por reformas de base,
mas por baixo conspiravam contra o seu governo. Em 31 de março de 1964,
Goulart foi deposto pelos militares, que assumiram o governo com o pretexto de
ser por um curto período de tempo e ficaram por vinte anos (1964-1984).
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Rogério Dias de. Desempenho inovador brasileiro e comportamento tecnológico das firmas domésticas e transnacionais no final da década de 90. Dissertação de Mestrado (UNICAMP). Campinas: São Paulo, 2004.
DREIFUSS, René Armand. 1964: A conquista do
Estado. Ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 19. ed. São Paulo:
Nacional, 1984.
______. O longo amanhecer.
Reflexões sobre a formação do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
______. Introdução ao
desenvolvimento. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000. ______. Economia
Colonial no Brasil nos séculos XVI e XVII. São Paulo: HUCITEC e ABPHE, 2001.
______. Raízes do
subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
TAVARES, Maria da Conceição; FIORI, José Luís. (Des) ajuste
global e modernização conservadora. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
VIANNA, Sérgio Besserman.
Política Econômica Externa e Industrialização: 1946-1951. In: ABREU, Marcelo de
Paiva (Org.). A ordem do progresso. Cem anos de Política Econômica Republicana
(1889-1989). 15. tiragem. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
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