quinta-feira, 2 de abril de 2026

Deus e os Astrólogos, Segundo Santo Agostinho

Qual a Importância de Ptolomeu Para o Desenvolvimento da Astrologia na Idade Média? De Que Forma Ptolomeu Enxergava a Influência Astral na Vida das Pessoas? Por Que as Afirmações Populares de Astrólogos Pagãos Perturbaram os Primeiros Profetas do Cotidiano?

 


A Astrologia fez com as necessidades humanas um casamento que, séculos depois, terminaria num divórcio dividido entre ciência e religião. Por outro lado, a Astrologia teria sido na Roma Antiga apenas um fatalismo supersticioso ou um trinfo do irracional? Não se pode negar que o temor das estrelas inspirava certo temor dos astrólogos, embora a religião astral não estivesse separada da ciência astral. Os principais cientistas tinham como certa a influência das estrelas sobre os acontecimentos humanos, discordando apenas quanto ao como as estrelas exerciam os seus poderes. A grande enciclopédia científica da época – História Natural, de Plínio – propagava os rudimentos da astrologia mostrando em tudo a influência das estrelas. O mais influente de todos os cientistas romanos antigos – Cláudio Ptolomeu, de Alexandria – mostrou ser a autoridade mais duradoura em Astrologia, ao apresentar um estudo que dava substância e respeitabilidade a essa ciência nos mil anos seguintes. Mas, a sua reputação se ressentiu do destino excessivamente divulgado de duas de suas teorias errôneas. A Teoria Geocêntrica (ou Ptolomaica) se tornaria um sinônimo moderno de erro astronômico e, de igual modo, a sua opinião de que a maior parte da superfície da Terra era constituída de terra seca, tornou-se um sinônimo de erro geográfico.

Mas, nunca depois dele alguém forneceu uma visão tão abrangente de todo o conhecimento científico de uma época. Em verdade, Ptolomeu dominou a visão popular e literária do universo durante a Idade Média e o mundo descrito na Divina Comédia de Dante veio diretamente do “Almagesto” de Ptolomeu. Em muitos aspectos ele falou como um profeta, alargando o emprego da Matemática ao serviço da ciência e, ao mesmo tempo, que ia beber às melhores observações feitas antes de si, sublinhando a necessidade da observação repetida. Efetivamente, Ptolomeu foi um precursor do espírito científico e um pioneiro do método experimental, pois na trigonometria esférica ele proporcionou uma solução elegante para os problemas dos Relógios de Sol que tinham especial importância naquele tempo anterior aos relógios mecânicos. Não houve ramo da ciência física que ele não tenha estudado e organizado em novas e úteis formas. Na Geografia, na Astronomia, na Ótica e na Harmonia ele expôs em um sistema e o mais conhecido de todos foi o seu tratado em Geografia em Almagesto. A sua Geografia – que pretendia cartografar todo o mundo conhecido – foi pioneira na listagem de lugares por latitude e longitude. Os Árabes apreciaram a grandeza da obra de Ptolomeu e trouxeram para o Ocidente.

A sua Astronomia estava destinada a ter um nome árabe (Almagesto) e sua Geografia foi traduzida para arábico no início do século. Ptolomeu via a influência astral como puramente física; ou seja, apenas uma entre muitas outras forças. Ele admitia que a Astrologia não era mais exata do que qualquer outra ciência, embora isso não constituísse razão para que de uma cuidadosa observação da correspondência de acontecimentos terrestres com celestes, não resultassem algumas previsões úteis, mas não matematicamente certas. Com esse espírito prático, Ptolomeu construiu os alicerces da mais duradoura das ciências ocultas. Seus dois primeiros livros sobre geografia astrológica e previsão do tempo abrangem as influências dos corpos celestes sobre acontecimentos físicos terrestres e, os outros dois, cobrem a sua influência sobre acontecimentos humanos. Ele expôs a ciência dos horóscopos e a predição dos destinos humanos baseada na posição das estrelas no nascimento da pessoa e, embora sua obre tenha se tornado o principal manual de Astrologia durante mil anos em virtude de ignorar a técnica de responder a perguntas sobre o futuro através da posição dos corpos celestes, o seu trabalho não satisfez inteiramente as necessidades dos praticantes de Astrologia. A aventura ptolomaica no mundo oculto da Astrologia sobreviveu às suas obras nos campos mais familiares da ciência moderna. O “De Revolutionibus” de Copérnico (1543) – que foi o início de uma nova época e mudou o centro de sistema solar – ainda confirmou a influência dominante do Almagesto de Ptolomeu e, somente meio século depois, quando a “Mecânica da Astronomia Instaurada” de Tycho (1598) substituiu o catálogo de estrelas de Ptolomeu por um novo baseado em observações independentes, os dados deste (assim como as suas teorias) se tornaram finalmente obsoletas.

As afirmações populares de astrólogos pagãos perturbaram os primeiros profetas do cotidiano e, os padres da Igreja que declararam o seu próprio poder de prever o destino dos homens no outro mundo, invejavam os poderes daqueles que pretendiam saber o destino dos homens na Terra. Se os horóscopos dos astrólogos significavam o que diziam, onde então estaria o espaço para o livre arbítrio? Ou para a liberdade de preferir o bem ao mal? Ou de renegar Maomé e até mesmo trocar César por Jesus Cristo? A própria luta para se tornar cristão – para abandonar a superstição pagã em favor do livre arbítrio cristão – parecia ser luta contra a Astrologia. Na sua obra “Confissões”, Santo Agostinho (354-430) recorda que “aqueles impostores, a quem chamam de matemáticos, consultei então sem escrúpulo, pois pareciam não usar nenhum sacrifício, nem rezar a nenhum espírito para as suas adivinhações”. E sentiu-se tentado pelas opiniões dos astrólogos: “a causa do teu pecado é inevitavelmente determinada no céu; isto fez Vênus, ou Saturno, ou Marte: aquele homem, certamente, carne e sangue e altiva corrupção, fica inocente; enquanto o criador e ordenador do céu e das estrelas tem de arcar com a culpa”. Santo Agostinho lutou para rejeitar as adivinhações mentirosas e os desvarios dos astrólogos. Dois conhecidos recordaram-lhe que não existia tal arte para prever coisas futuras, mas que as conjecturas dos homens eram uma espécie de loteria e que, das muitas coisas que eles diziam que aconteceriam, algumas certamente ocorreriam, sem nada terem a ver com os que as tinham dito, e que por força e acaso nelas tropeçavam, de tanto falarem. “Nesse momento crucial em que germinavam dúvidas em seus pensamentos, Deus enviou-lhe um amigo. Não um consultante descuidado de astrólogos e sequer bem versado em tais artes, mas delas consultante curioso, e sabendo ademais algo que dizia ter ouvido ao Pai, apesar de desconhecer até que isso chegaria para derrubar o apreço dessa arte” ([1]).

Uma história contada por esse amigo – Firmino – abalou o jovem Agostinho e libertou-o da sua fé pagã. O pai de Firmino – interessado em Astrologia – “sempre observava a posição das estrelas e até tomava o cuidado de saber o nascimento dos seus próprios cachorros”. Não apenas na sua obra autobiográfica – “Confissões”, mas também na sua obra teórica “A Cidade de Deus”, Santo Agostinho discorre demoradamente contra os astrólogos. “O Império Romano – e todos os outros reinos – tem o seu destino traçado não pelas estrelas, mas sim pela vontade de Deus”. O seu argumento bíblico é o exemplo de Jacob e Esaú, “dois gêmeos nascidos tão a seguir um ao outro que o segundo segurava o calcanhar do primeiro e, no entanto, as suas vidas, modos de ser e ações foram tão diversos que essa mesma diferença fez deles inimigos um do outro”. E, logo depois, ele apresenta casos de outros gêmeos com minúcias. Teólogos cristãos da Idade Média conseguiram encontrar usos sagrados para a crença nos poderes astrais e, tanto Alberto Magno como São Tomás de Aquino admitiram a influência governadora das estrelas, mas insistiram em que a liberdade do homem era a sua própria força para resistir a essa influência. E, mesmo que os astrólogos fizessem predições verdadeiras, essas respeitavam acontecimentos em que estavam envolvidos grande número de homens. Em tais casos as paixões da maioria prevaleciam contra a racionalidade da minoria, mas o livre-arbítrio do indivíduo cristão não fora exercido. Assim, alguns teólogos medievais aproveitaram a crença prevalecente da Astrologia para reforçar as verdades do Cristianismo, gostando de lembrar a perdição astrológica do nascimento de Cristo, dado à luz por uma virgem. Se Jesus Cristo não estava Ele próprio sujeito ao domínio estrelar, estas tinham dado sinais da Sua vinda. Afinal, que outra coisa era a estrela de Belém? Não era provável que aqueles suficientemente sábios para seguir a estrela – os Magos – fossem realmente entendidos astrólogos?

 

 

 

https://www.facebook.com/juliocesar.s.santos




([1])  BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989. P. 55

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A Semana: Uma Porta Para a Ciência

De Onde Deriva a Palavra “Week”? Por Que os Romanos Fixaram Uma Semana de Oito Dias? Qual a Relação do Sabat Judeu Com a Semana de Sete Dias?

 


 

Enquanto o homem regeu sua vida apenas pelos ciclos da Natureza como a mudança das estações e as fases da Lua ele permaneceu prisioneiro dela. Se ele queria encher seu mundo de novidades humanas, teria de criar suas próprias medidas do tempo. E estes ciclos feitos pelo homem viriam a ser variados. A semana – ou algo bem parecido – foi o primeiro destes agrupamentos artificiais de tempo. A palavra inglesa “week” (semana) parece derivar de uma palavra do alemão que significa “mudar” ou “suceder”. Mas, a semana não é uma invenção ocidental nem foi em todos os lados um agrupamento de 7 dias e, na verdade, as pessoas descobriram pelo menos 15 maneiras – em aglomerados de 5 a 10 dias – para agrupar os seus dias. O que existe à escala planetária não é um determinado conjunto de dias, mas a necessidade de fazer qualquer tipo de conjunto. Daí a humanidade revelou um forte desejo de jogar com o tempo e de fazê-lo mais importante do que a Natureza o fez. A nossa semana de 7 dias surgiu da necessidade popular e da concordância espontânea, e não de uma lei ou da ordem de qualquer governo. Como aconteceu? Por quê? Quando? Por que uma semana de 7 dias? Os antigos Gregos não tinham semana e os Romanos viviam uma semana de 8 dias, onde os agricultores que trabalhavam sete dias nos campos iam passar na cidade o oitavo dia, sendo considerado um dia de repouso, festividades e sem escola. Mas, quando e porque os Romanos se fixaram nos oito dias e por que motivos mudaram para uma semana de 7 dias, não se sabe ao certo.

O número 7 tem um significado mágico quase em toda parte do mundo, pois os Japoneses – por exemplo – descobriram 7 deuses da felicidade, Roma erguia-se sobre 7 colinas, os antigos enumeravam as 7 Maravilhas do Mundo e os cristãos medievais enumeravam os 7 Pecados Mortais. A mudança romana de 8 para 7 dias parece não ter vindo de qualquer ato oficial, pois no princípio do século III os Romanos já viviam a semana de 7 dias. Devem ter andado no ar algumas novas ideias populares e uma delas era a do “sabat”, que chegou a Roma por meio dos Judeus. A ideia de um 7º dia de descanso parece ter sobrevivido dos anos em que os Judeus estiveram no cativeiro na Babilônia, onde os babilônicos observavam certos dias em que eram proibidas atividades específicas ao seu rei. Encontramos outra pista com os Romanos, os quais designavam o dia de Saturno (Sábado) como um dia de descanso; ou seja, um dia em que não deveriam travar batalhas ou iniciar qualquer viagem. Nenhuma pessoa poderia correr o risco de se expor aos infortúnios que Saturno poderia trazer e, segundo Tácito, o sabat era observado em honra de Saturno porque “das sete estrelas que regem os assuntos humanos, Saturno tem a mais alta esfera e o poder principal”. No século III a semana de sete dias tornara-se comum na vida de todo o Império Romano e cada dia era dedicado a um dos 7 planetas que, de acordo com a astronomia da época era Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Essa ordem não era a da sua então suposta distância da Terra; ou seja, a ordem “normal” pela qual Dante – por exemplo – descreveria mais tarde as zonas dos céus, pela qual também os nomes dos planetas foram recitados nas escolas até o tempo de Copérnico. A nossa ordem conhecida dos dias da semana veio dessa ordem dos planetas que os Romanos pensavam que “governavam” a primeira hora de cada dia. Os astrólogos da época utilizavam a “ordem” dos planetas de acordo com a sua suposta distância da Terra para calcularem a influência de cada planeta nos assuntos mundanos. Os dias da semana ingleses continuam a ser um testemunho vivo dos poderes da astrologia, pois os nossos dias da semana têm nomes derivados dos planetas tal como eram conhecidos em Roma há 2000 anos. Os dias da semana nas línguas europeias continuam a derivar dos nomes do planeta e a sobrevivência é ainda mais óbvia em línguas que não a inglesa, conforme abaixo:

 

INGLÊS / ESPANHOL:

 

·        Sunday (Sol) / Domingo

·        Monday (Lua) / Lunes

·        Tuesday (Marte) / Martes

·        Wednesdey (Mercúrio) / Miércoles

·        Thursday (Júpiter) / Jueves

·        Friday (Vênus) / Viemes

·        Saturday (Saturno) / Sábado

 

Quando as pessoas tentaram extinguir a idolatria antiga, substituíram os nomes planetários por números simples e, dessa forma, os “quares” ([1]) chamam aos seus dias de “primeiro dia”, “segundo dia”, etc... até ao “último dia”. Eles não efetuam suas reuniões religiosas no domingo, mas sim no primeiro dia. Na moderna Israel, os dias da semana também têm números ordinais. Um dos exemplos mais imprevistos da ideia planetária é a mudança cristã do “sabat” de sábado, ou “dia de Saturno”, para domingos, ou dia do Sol ([2]). Quando o Cristianismo criou raízes no Império Romano, padres da Igreja se preocuparam com a sobrevivência dos deuses pagãos nos nomes dos planetas que regiam a semana cristã. A Igreja do Oriente obteve algum êxito no extermínio dessa influência pagã, pois os nomes dos dias – tanto em grego moderno como em russo – deixaram de ser planetários. Mas, a cristandade ocidental revelou-se mais disposta a aproveitar em benefício próprio as crenças e os preconceitos romanos. O dia que os judeus achavam sensato abster-se trabalhar – Dia de Saturno – permaneceu como eixo fixo à volta do qual girariam os auspícios semanais. Então, os cristãos fixaram o seu Dia do Senhor, para que a passagem de cada semana revivesse o drama de Jesus Cristo e, tomando a comunhão, cada cristão tornava-se então um dos discípulos da Última Ceia. O guia desse drama místico era a liturgia da missa e, como os outros sacramentos, a eucaristia tornou-se uma representação repetitiva de um acontecimento simbólico fundamental da Igreja. A formação da nossa semana foi mais um passo em frente no domínio do Mundo pelo homem, na busca pela ciência. A semana era um agrupamento feito pelo próprio homem e não ditado pelas forças da Natureza, pois as influências planetárias eram invisíveis. A semana planetária foi um caminho para astrologia e esta foi um passo na direção de novas espécies de profecia. Rituais antigos traziam consigo uma “ciência” complicada quanto ao uso de partes de animais sacrificados, a fim de predizer o futuro das pessoas que ofereciam o sacrifício. Em meados do século XIX Sir Richard Burton apresentou uma complicada técnica para adivinhar o futuro, a partir da omoplata de um carneiro.

Os “osteomantes” – como eram chamados – dividiam o osso em 12 áreas (ou “casas”) e cada uma delas correspondia a uma pergunta diferente a respeito do futuro. Se na 1ª casa o osso fosse liso e claro, o augúrio seria propício e o consulente provaria ser um homem bom. Em contraste com esta espécie de profecia, a astrologia era progressiva, pois as influências dos corpos celestes sobre os acontecimentos na Terra eram por ela descrita como forças repetitivas, invisíveis como as que viriam a reger o espírito científico do homem. Sendo assim, não surpreende o fato de que o homem mais antigo se sentisse atemorizado pelo céu e seduzido pelas estrelas, pois estas primeiras luzes noturnas iluminavam a fantasia popular. Todos os agricultores sabiam que as nuvens do céu, o calor do Sol e a dádiva das chuvas decidiam a sorte das suas culturas e, consequentemente, governavam suas próprias vidas. Claro que os acontecimentos celestes mais sutis exigiam uma interpretação adequada feita por sacerdotes e, esta sedução exercida pelo céu, acabou originando uma fértil “tradição celeste”. Os poderes do Sol, da chuva e a correspondência entre os acontecimentos no céu e acontecimentos na Terra suscitaram a procura de outras correspondências. Os Babilônicos – por exemplo – elaboraram uma estrutura mitológica para essas correspondências universais e o seu imaginário seria perpetuado pelos Gregos, Judeus e Romanos nos séculos seguintes. A teoria da correspondência transformou-se na astrologia, a qual procurou elos entre o espaço e o tempo, entre os movimentos dos corpos físicos e o desenrolar de toda a experiência humana. Dessa forma, o desenvolvimento da ciência dependeria da disposição do homem para acreditar no improvável e passar por cima dos ditames do senso comum. Sendo assim, o céu foi o laboratório da primeira ciência da humanidade assim como o interior do corpo humano, o íntimo e os negros continentes do átomo seriam os cenários das suas ciências mais recentes. O homem procurou utilizar o seu conhecimento crescente dos padrões da experiência repetitiva na interminável luta para quebrar o anel de ferro da repetição ([3]).

A profecia social floresceu na Babilônia, quando se previam os grandes acontecimentos – batalhas, secas, pestes ou colheitas – que afetavam toda a comunidade e, durante séculos, este tipo de astrologia permaneceu mais como uma tradição do que como uma doutrina. Os Gregos transformaram-na numa ciência, quando a astrologia pessoal passou a traçar a sorte de uma pessoa a partir da posição dos corpos celestes no momento do seu nascimento. Os gregos se sentiam igualmente divididos entre a vontade de saber as boas notícias e o receio de saber as más. Na Roma Antiga, a astrologia atingiu uma influência raramente igualada, onde os astrólogos constituíam uma profissão reconhecida cuja reputação variava conforme a turbulência dos tempos. Durante a República Romana tornaram-se tão poderosos e impopulares que no ano 139 a.C. foram expulsos não só de Roma, mas também de toda a Itália. Depois, durante o Império, quando as suas perigosas profecias levaram alguns astrólogos a julgamento por traição, foram completamente banidos, embora o mesmo imperador que bania alguns astrólogos empregava outros para orientar a sua casa imperial.

 

 _______________________

([1])  Membros de uma seita protestante, fundada no século XVIII (N. do Autor)

([2])  Em inglês, o domingo equivale efetivamente a Dia de Sol, Sunday. Em português e em espanhol, o significado é Dia do Senhor (do latim Dominicus (N. do Autor)  

([3])  BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989. p 30

 

https://www.facebook.com/juliocesar.s.santos 

segunda-feira, 30 de março de 2026

GERENCIAMENTO de PROJETOS de SOFTWARES

Por Que Alguns Projetos de Softwares Fracassaram Nas Décadas de 60 e 70? O Que é Gerenciamento de Projetos? Quais as Principais Atividades de Gerenciamento de Softwares? Quais as Disciplinas Contidas na Metodologia PMI?




 Durante as décadas de 60 e 70 constatou-se alguns fracassos de muitos projetos de softwares em organizações de médio/grande porte, indicando certas dificuldades no gerenciamento de projetos. No entender de alguns especialistas muitos deles fracassaram porque a abordagem gerencial estava equivocada, pois as necessidades de gerenciamento de projetos de softwares são diferentes das empregadas em empresas de manufatura. Para eles, o trabalho do gerente de software é garantir que o projeto cumpra as restrições impostas (orçamentárias, de prazos, de requisitos, etc.) e entregar um produto de software que contribua para o alcance das metas da organização. Esses gestores são os responsáveis por planejar e programar o desenvolvimento do projeto, supervisionando o trabalho a fim de assegurar que ele seja realizado em conformidade com os padrões requeridos e monitorando o progresso para verificar se está dentro do prazo e do orçamento aprovado. Assim, o gerenciamento   não   pode   garantir   o   sucesso   do   projeto, mas   o   mau gerenciamento geralmente resulta no seu fracasso. Dessa forma, a engenharia de software é distinta de outros tipos de engenharia, tornando o gerenciamento de software difícil. As principais diferenças são:

 

·        O produto é intangível;

·        Não há processo de software padrão;

·        Grandes projetos de software são frequentemente únicos.

 

O Que é Gerenciamento de Projetos?

 

Segundo Carneiro (2000), o Gerenciamento de Projetos é a aplicação de Conhecimento, Habilidades, Ferramentas e Técnicas nas atividades de projetos de forma a atender ou superar as expectativas dos stakeholders (interessados, atores, participantes) e que envolve o balanceamento de:

 

·        Escopo, tempo, custo e qualidade;

·        Necessidades (requisitos   definidos) e   expectativas (subjetivos   ou   não definidos);

·        Diferentes expectativas e necessidades de todos aqueles que participam do projeto direta ou indiretamente.

 

Para o autor acima isso indica que, para realizar o gerenciamento de projetos, não é necessário apenas a vontade ou a necessidade da realização dessa tarefa. É preciso reconhecer que a gerente de projetos precisa de   conhecimentos específicos da área para melhor desempenhar as suas funções. Existe uma tendência   das   empresas   em   administrar   as   operações com a abordagem de projeto. Essa abordagem, de forma simplificada, prevê a aplicação das técnicas, habilidades, ferramentas e conhecimento na condução de operações da empresa. O termo usado para essa tendência (ou filosofia) é o gerenciamento por projetos, que visa alinhar os grandes objetivos estratégicos da empresa com inúmeros projetos, coordenados e gerenciados, de forma a garantir a sua execução no menor tempo, na melhor qualidade e no melhor custo.

 

Atividades de Gerenciamento

 

O trabalho de um gerente de software varia muito, dependendo da organização e do produto a ser desenvolvido. Na maioria das vezes, ele assume algumas ou todas as seguintes atividades:

 

·        Elaboração de propostas;

·        Planejamento e programação de projetos;

·        Levantamento dos custos do projeto;

·        Monitoramento e revisões de projetos;

·        Seleção e avaliação de pessoal;

·        Elaboração de relatórios e apresentações.

 

As Áreas de Conhecimento em Gestão de Projetos na visão do PMIO PMI (Project Management Institute) identificam 9 (nove) áreas de conhecimento em gerenciamento de projetos. Mas, apesar desta abordagem de apresentá-las de forma separada por razões didáticas, deve-se estudá-las com a percepção de todas estão intimamente   interligadas. O gerenciamento de um projeto sem a aplicação do conhecimento de uma ou mais destas áreas poderá implicar em uma deficiência do próprio projeto, que, normalmente só é constatada tardiamente. Depois ter despendido muito esforço, custo e tempo para encontrar as razões desta deficiência. Durante algum tempo o principal enfoque do gerenciamento de projetos era a gerência do tempo: fazer com   que as coisas acontecessem dentro do prazo esperado. Em algumas empresas, em especial no governo, o enfoque de gerenciamento de projeto era mais orçamentário, ou seja, quando acabasse o dinheiro, acabaria o projeto. Outros elementos foram se juntando ao gerenciamento do projeto, além do prazo e custos, tais como o escopo do projeto (o que deveria ser feito), foram identificados como importante para a gestão de um projeto tratar a questão de qualidade, ou seja, atender ao especificado e tratado entre as partes ([1]).

Outros aspectos foram sendo agregando ao gerenciamento de projeto, tais como risco e comunicação. Todo projeto tem risco e o planejamento e tratamento desses riscos faz parte das atividades de gerenciamento do projeto.  Comunicação também é fator fundamental em um projeto.  Sem a devida comunicação entre os envolvidos um projeto pode estar fadado ao insucesso. As informações devem fluir no tempo, na profundidade e no conteúdo desejado por cada envolvido, de acordo com a sua necessidade ou grau de envolvimento. Não devemos esquecer que os projetos são executados por pessoas. Então o cuidado com o ser humano, tais como:  a motivação da equipe, o recrutamento de pessoas especializadas para cada tipo de tarefa, o treinamento, a formação de time e outros aspectos são também fundamentais ao sucesso do projeto. Em alguns projetos têm que adquirir bens ou produtos e o gerenciamento dessas aquisições também são importantes para a condução de um projeto. Percebe-se então que o gerenciamento de projetos envolve o tratamento de vários aspectos importantes. Esses aspectos são chamados na “Metodologia PMI de Disciplinas”. As disciplinas são:

 

·        Gerenciamento de Integração entre os elementos do projeto;

·        Gerenciamento de Escopo de Projeto;

·        Gerenciamento de Tempo do projeto;

·        Gerenciamento do Custo;

·        Gerenciamento da Qualidade;

·        Gerenciamento de Recursos Humanos;

·        Gerenciamento de Comunicação;

·        Gerenciamento de Risco;

·        Gerenciamento de Contratos.

 

Assim sendo, todas estas disciplinas – aliadas às técnicas, métodos e ferramentas de cada uma – apoiam a condução do projeto de forma a garantir qualidade, atendimento aos prazos, custos e requisitos desejados. Portanto, caberá ao gerente de projetos integrar todas essas disciplinas, cuidando de todos esses aspectos desde o início do projeto, passando pelo planejamento e outras fases do projeto, até a sua conclusão. A Integração dos processos também deverá ser tratada como uma disciplina pelo PM.

 

Qualidade dos Softwares

 

Hoje em dia, muito se fala em qualidade de software, mas nem sempre as pessoas têm uma noção bem clara desse conceito. Pode-se considerar qualidade sob diferentes pontos de vista e, portanto, pode-se ter diferentes definições, sendo algumas das mais comuns listadas a seguir:

 

·        Software sem defeitos;

·        Software adequado ao uso (conforme a definição de qualidade de Juran) ([2]);

·        Software que atende as especificações (conforme a definição de qualidade de Crosby) ([3]);

·        Software produzido por uma empresa que possui o certificado ISO9000 para seu sistema de qualidade;

·        Software que possui confiabilidade/usabilidade/manutenibilidade.

 

 

Pessoas com diferentes interesses sobre um produto têm visões diferentes sobre o conceito de qualidade. Por exemplo, clientes (mercado) usualmente consideram que o software tem qualidade se ele possui características que atendam suas necessidades. Já os desenvolvedores veem a qualidade através   das medidas de suas propriedades que são comparadas com indicadores de qualidade preestabelecidos. Para o setor de software um produto de qualidade é aquele com custo mínimo associado ao retrabalho durante o desenvolvimento e após a entrega do produto. Não tem sentido produzir um grande sistema de software se ele não funciona, não faz exatamente o que o cliente espera, não fica pronto no prazo ou se não puder merecer confiança, ou ainda, se ele não puder ser modificado ou mantido. O software é desenvolvido a um custo cada vez maior, com menor produtividade e com menos qualidade.  Equipes individuais de projeto tentam ser mais produtivas, asno contexto de uma empresa que não se preocupa com a qualidade, tais esforços no nível de projeto provavelmente não trarão resultados expressivos, visto que na maioria dessas empresas vários projetos de desenvolvimento de sistemas são cancelados antes de serem concluídos.  Isto significa que iniciativas individuais de programadores e analistas de sistemas para melhoria de qualidade dificilmente mudarão a cultura da empresa onde os sistemas são desenvolvidos. Assim sendo, mais importantes serão as iniciativas no nível corporativo.


 

REFERÊNCIAS

 


Aprimorando o conhecimento sobre gestão de qualidade total. Disponível em:<http://www.ucg.br/site_docente/eng/ximena/pdf/aula2.pdf> acesso   em 19/10/2004

BRAZ JÚNIOR., Osmar de Oliveira.  Técnicas de Análise de Sistemas (apostila).  Tubarão:  UNISUL. 1997.

CARNEIRO, Margareth Fabíola dos Santos; Gerenciamento de Projetos (apostila), ENAP, 2000

Conhecendo mais sobre TQC. Disponível em:<http://www.furnas.com.br/portug/institucional/glossario.asp?letra=t> acesso em 19/10/2004

DeMARCO, Tom.  Análise Estruturada e Especificação de Sistema –2ª reimpressão Rio de Janeiro: Editora Campus. 1989.

FOURNIER, Roger.  Guia Prático para Desenvolvimento e Manutenção de Sistemas Estruturados –1ª Edição. São Paulo: Makron Book. 1994.

KELLER, Robert. Análise Estruturada na Prática –1ª edição. São Paulo: McGraw-Hill Editora. 1990.

KIMURA, Marcos. Curso básico de MS Project (apostila). Brasília: ENAP, 2002.

PAULA FILHO, Wilson de Pádua.  Engenharia de Software –Fundamentos, Métodos e Padrões –1ª edição. Rio de Janeiro: LTC Editora. 2001.

PARREIRA JÚNIOR, Walteno Martins & TEODORO NETO, Euclides Martins & GOMES, Gina Marcia dos Santos.  Análise e Programação Orientada ao Objeto –in I Encontro de Iniciação Científica e III Encontro de Pesquisa -ILES/ULBRA –Itumbiara-GO -2002

PRESSMAN, Roger S.  Engenharia de Software –3ª edição.  São Paulo:  Makron Books.  1995.

SOMMERVILLE, Ian. Engenharia de Software –6ª edição. São Paulo: Addison Wesley. 2003.

YOURDON, Edward.  Administrando o ciclo de vida do sistema –2ª edição.  Rio de Janeiro:  Editora Campus. 1989.

 

 

 

https://www.facebook.com/juliocesar.s.santos



([1])  CARNEIRO, Margareth Fabíola dos Santos; Gerenciamento de Projetos (apostila), ENAP, 2000, p. 24

 

([2])  Joseph Juran desenvolveu várias metodologias para controlar e melhorar a qualidade, incluindo o Princípio de Pareto, a Trilogia Juran e a Qualidade por Design

([3])  Philip Crosby acreditava que, ao fazer certo da primeira vez, as empresas evitam retrabalho, desperdícios e insatisfação dos clientes, tudo isso resultando em menor custo total

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

As Tentações da Lua na Medição do Tempo

Quais Foram os Principais Significados Místicos e Românticos Sobre a Lua na Antiguidade? Qual a Importância da Lua na Elaboração do Calendário Humano? Como os Egípcios Elaboravam o Seu Calendário?

 



Do noroeste da Groelândia até a ponta da Patagônia as pessoas saudavam a Lua Nova, cantando, bebendo ou orando. Os esquimós faziam um banquete, apagavam as luzes e trocavam de mulheres. Alguns africanos entoavam a prece da “Lua Jovem” e, até hoje, ao luar todos querem dançar. Há 2000 anos Tácito disse que as comunidades germânicas efetuavam suas reuniões na Lua Cheia ou na Lua Nova, pois eles acreditavam ser uma “época mais auspiciosa para iniciar negócios”. Em toda parte, encontramos significados místicos e românticos sobre a lua: _ em “aluado”, “lunático” e em “luar” e até nos cenários iluminados pelo luar dos encontros dos namorados. E, mais profundamente, encontramos a relação da Lua com a medição, pois a palavra “moon” (em inglês) – e suas cognatas em outras línguas – estão enraizadas na base “me” que significa “medida”, recordando-nos o serviço primitivo da Lua como a primeira medidora universal de tempo. Por causa do seu fácil uso como medida do tempo, a Lua revelou-se uma armadilha para a humanidade, pois embora as suas fases fossem ciclos práticos que todos podiam ver, eram também um “beco sem saída”. Na verdade, do que caçadores e agricultores mais precisavam era de um calendário das estações do ano; ou seja, uma maneira de prever a chegada da chuva, da neve, do calor ou do frio. Quanto faltava para semear? Quando seria de esperar a primeira geada? E as grandes chuvas? Dessa forma, a Lua pouco ajudava no tocante a essas necessidades. É verdade que os ciclos da Lua tinham uma estranha coincidência com o ciclo menstrual das mulheres, pois o tempo necessário para a Lua regressar à mesma posição no CE era de 28 dias e, uma mulher grávida, podia esperar o nascimento de seu filho após 10 desses meses lunares.

 

Como sabemos agora, as estações do ano são governadas pelos movimentos da Terra à volta do Sol e, cada sucessão das estações, assinala o regresso da Terra ao mesmo lugar. Daí o homem precisava de um calendário para se orientar nas estações. Como começar? Os babilônicos começaram pelo calendário lunar e, sua obstinação em agarrar-se aos ciclos lunares para fazer o seu calendário, teve consequência importantes. Ao procurarem uma forma de medir o ciclo das estações por múltiplos de ciclos lunares, acabaram por descobrir o “ciclo metônico” de 19 anos. Verificaram que se usassem um ciclo de 19 anos, destinassem a 7 desses anos 13 meses e aos outros 12 anos apenas 12 meses, eles poderiam utilizar as fases visíveis da Lua como base do seu calendário. A sua inserção de meses extras evitava a inconveniência de um ano “errante”, em que as estações erravam gradualmente através dos meses lunares, de tal forma que não havia nenhum modo fácil de saber que mês traria a nova estação. Assim, este calendário era excessivamente complicado para uso quotidiano. De algum modo os egípcios escaparam da tentação à Lua, pois eles foram os primeiros a descobrirem a duração do ano solar e a defini-la de uma forma útil e prática. Como aconteceu com muitas outras realizações humanas, sabemos o quê, mas continuamos intrigados quanto ao porquê, o como e até o quando. O primeiro enigma que nos deparamos é: por que foram os egípcios? Eles não possuíam instrumentos astronômicos que não fossem conhecidos, não evidenciavam nenhum gênio para a matemática e sua astronomia era incipiente quando comparada aos gregos e outros povos do Mediterrâneo. No entanto, parece que no ano de 2500 a.C. eles descobriram uma forma de predizer quando o Sol nascente (ou poente) douraria a ponta do obelisco, o que os ajudava a acrescentar uma aura às suas cerimônias e aos seus aniversários. O esquema babilônico era pouco prático e os caprichos locais prevaleciam.

Na Grécia cada cidade-estado fazia seu próprio calendário, intercalando de forma arbitrária o mês suplementar para assinalar um festival local ou para satisfazer necessidades políticas. Mesmo sem a ânsia grega pela matemática, os Egípcios resolveram o problema inventando um calendário que satisfazia as necessidades quotidianas em toda sua região. Já no ano 3200 a. C. o vale do Nilo estava unido ao delta num único reino que durou 3000 anos, até o século de Cleópatra. Como os próprios corpos celestes, o Nilo apresentava um ritmo natural e regular. O ritmo do Nilo era o ritmo da vida egípcia e a subida anual das suas águas estabelecia o calendário de semear e colher com as suas três estações: inundação, crescimento e colheita. As cheias – do fim de julho a fins de outubro – traziam sedimentos ricos em que as sementeiras eram feitas e cresciam de outubro a fevereiro, a fim de serem colhidas de fevereiro até o fim de junho. Sendo assim, o calendário egípcio era “nilômetro”; isto é, uma escala virtual em que o nível da cheia era anualmente marcado. Mas, os Egípcios descobriram muito cedo que 12 meses de 30dias cada poderiam proporcionar um calendário útil das estações se lhes fossem acrescentados mais 5 dias no fim, para fazer um ano de 365 dias. Foi este o “ano civil”, ou “ano do Nilo” que os Egípcios começaram a utilizar já em 4241 a. C. Sabendo-se que o ano solar não tem exatamente 365 dias, o ano Egípcio de 365 dias tornar-se-ia (com o correr dos séculos) um “ano errante”, com cada mês nomeado a ocorrer numa estação diferente. A discrepância era tão pequena que eram precisos muitos anos, muitos mais do que os de vida de qualquer pessoa, para que o erro perturbasse o quotidiano dos egípcios e, apesar disso, este calendário egípcio era muito melhor do que qualquer outro conhecido ao tempo, tanto que foi adotado por Júlio Cesar para elaborar o seu calendário Juliano. Ele sobreviveu à Idade Média e ainda foi usado por Copérnico nas suas tábuas planetárias – no século XVI.

No tocante ao seu próprio calendário, os Egípcios conseguiram declarar a sua independência da Lua – mesmo continuando a conservar seu grande fascínio – e muitos povos (incluindo os próprios egípcios) tinham um ciclo lunar para reger seus festivais religiosos e aniversários místicos. Os Judeus, por exemplo, conservam seu calendário lunar e cada mês judaico continua a começar pelo aparecimento de uma lua nova. Para manterem o seu calendário lunar sincronizado com o ano sazonal, eles acrescentavam um mês extra por cada ano bissexto. Dessa forma, o ano judaico foi feito para compreender 12 meses, cada um de 29 ou 30 dias, totalizando cerca de 354 dias. A fim de preencher o ano solar, os anos bissextos judaicos acrescentaram um mês extra nos 3º, 6º, 8º, 11º, 14º, 17º e 19º anos de cada período de 19 anos. Ocasionalmente eram necessários alguns ajustes para que determinadas festas ocorressem na sua própria estação, como por exemplo para garantir que o Passover ([1]) – Festival da Primavera – fosse depois do Equinócio Vernal. Acompanhando os Judeus na maioria dos aniversários religiosos, o Cristianismo manteve o seu laço com o calendário lunar. As “festas móveis” da Igreja foram deslocadas no calendário solar a fim de coincidi-las com os ciclos lunares. O mais importante desses festejos cristãos regidos pela Lua é a Páscoa, a qual “é celebrada sempre no 1º domingo depois da Lua Cheia que calha no 21º dia de março; e, se a Lua Cheia calhar num domingo, o dia de Páscoa será no domingo seguinte”. Uma dúzia de outras festas são fixadas em relação à Páscoa, resultando daí que a Páscoa controla 17 semanas do calendário eclesiástico. Por isso, a fixação da data da Páscoa se tornou uma questão da extrema importância. Ora, consta que Jesus foi crucificado no Passover e, diante disso, o aniversário da ressurreição da Páscoa dependeria dos cálculos lunares pelos quais o Sinédrio definia o Passover. Obedecendo à sua própria interpretação da Bíblia, os primeiros cristãos fixaram a morte de Jesus numa sexta-feira e a ressurreição da Páscoa no domingo seguinte.

Mas, se o aniversário da festa obedecesse ao calendário lunar judaico, não haveria nenhuma garantia de que a Páscoa ocorreria num domingo. A disputa levou a uma das maiores cismas entre a Igreja Ortodoxa Oriental e a Igreja de Roma. Obedecendo ao calendário lunar, os cristãos orientais continuaram a observar a Páscoa no 14º dia do mês lunar, independentemente do dia da semana e, logo no 1º Concílio Ecumênico Mundial (em Niceia, no ano de 325) uma das questões unificadoras a decidir foi a data da Páscoa. Ela foi fixada numa data tal, a fim de permanecer no calendário lunar tradicional e, simultaneamente, garantir que a Páscoa seria sempre celebrada em um domingo. Mas isto não resolveu o problema, pois alguém tinha de continuar a prever as fases da Lua e situá-las num calendário solar. O Concílio de Niceia confiou esta tarefa ao Bispo de Alexandria que deveria prever as fases da Lua para todos os anos futuros. O desacordo quanto ao modo de predizer esses ciclos originou uma divisão na Igreja, donde resultou que diferentes partes do Mundo continuassem a festejar a Páscoa em domingos diferentes.

Assim sendo, a reforma do calendário efetuada pelo Papa Gregório XIII foi necessária porque o ano que Júlio Cesar fora buscar aos Egípcios – e que regera a civilização ocidental até então – não era uma medida exata do ano solar. Ou seja, o tempo necessário para a Terra completar uma órbita à volta do Sol (365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos), equivalia a cerca de 11 minutos e 14 segundos menos do que os 365,25 dias do ano Egípcio. Em consequência disso, as datas do calendário perdiam sua relação com os acontecimentos solares e com as suas estações. O Papa Gregório XIII foi um reformador enérgico e decidiu colocar o calendário na ordem, pois em 1582 ele ordenou que ao dia 4 de outubro se seguisse o dia 15 de outubro. Isso significava que no ano seguinte o equinócio ocorreria em 21 de março, como o calendário solar das estações exigia. Desse modo, o ano sazonal regressou ao que fora no ano de 325 e os anos bissextos do antigo “Calendário Juliano” foram reajustados. E, para evitar a acumulação de outra discrepância de 11 minutos por ano, o “Calendário Gregoriano” omitiu o dia intercalado dos anos seculares (ou os anos terminados em 00), a não ser que fossem divisíveis por 400. Daí isso resultou no calendário moderno, pelo qual o Ocidente ainda se rege. Mas, pelo fato de a reforma ter vindo de Roma, a Inglaterra protestante e suas colônias americanas se recusaram a adotar essa norma até 1752. Outros contratempos também foram notados quando, em 1582, o Papa Gregório retirou 10 dias ao calendário e houve protestos dos servos, os quais exigiam o seu pagamento mensal pelo mês encurtado e os patrões se recusavam pagar. Na verdade, o mundo jamais aceitou inteiramente a reforma gregoriana. A Igreja Ortodoxa do Oriente, avessa a se submeter a qualquer norma romana, manteve-se fiel ao calendário Juliano para calcular a Páscoa. E assim, o mundo cristão, supostamente unido por um profeta da paz, não conseguiu sequer estar de acordo quanto à data da ressurreição do seu Salvador.

Todavia, para os assuntos do quotidiano, todo o mundo cristão tem compartilhado um calendário solar que se coaduna com a agricultura e com o mercado. Mas o Islã – insistindo na obediência às palavras de Maomé – continua a viver pelos ciclos da Lua. O “Crescente” – símbolo da Lua Nova – aparece na bandeira muçulmana e, certamente, isso aponta para a sua apropriação para os povos que se submeteram obedientemente ao programa de suas vidas à medida divinamente ordenada da Lua. Não é à toa que no século XIII o “Crescente” de tornou o símbolo militar e religioso dos Turcos Otomanos. Há motivos para crer que a sua adoção (e subserviência como símbolo do Islã) provêm do domínio da Lua Nova, que é não apenas sinal do princípio e fim do período de jejum muçulmano, como também a pontuação de todo o calendário. Conforme o Alcorão, as luas novas são tempos assinalados para as pessoas e para a peregrinação e, dessa forma, o mundo muçulmano vem tentando viver pela Lua ([2]). Mas, assim como César submeteu o seu mundo à conveniência solar – com os meses servindo de índices das estações – Maomé sujeitou o seu mundo aos ciclos da Lua. Esses ciclos lunares guiaram os fiéis nas datas divinamente ordenadas dos deveres religiosos: a peregrinação à Meca e o mês de jejum do Ramadã. Uma das questões mais discutidas no Islã é a permissão (ou não) de se definir o princípio e o fim das festas, não pela observação, mas sim recorrendo aos cálculos. Os membros da seita ismaelita (que se dividiam a esse respeito) não conseguiram convencer os outros muçulmanos que continuavam a afirmar a necessidade de “observar”; isto é, de “ver realmente” a Lua Nova. A enorme obediência ao calendário lunar tornou-se uma rigorosa lealdade ao Islã tradicional e, o “recurso aos cálculos” (como a atração aos sofisticados cálculos de um ano solar, em vez dos ditames de um ciclo lunar) tem caracterizado as revoltas contra a tradição. Em 1926, quando Mustafá Kemal proclamou o fim do sultanato na Turquia e modernizou a nação adotando um novo código de leis – tornou o casamento civil obrigatório, aboliu o uso de “fez” pelos homens e do véu pelas mulheres –, abandonou também o calendário lunar no Islã e adotou o calendário solar do Ocidente. Embora para muitos ocidentais o calendário possa parecer um sistema de contabilização cronológica, a verdade é que se mostrou uma das instituições humanas mais rígidas, advindo da forte aura mística do Sol e da Lua e dos limites fixos das estações. Frequentemente alguns revolucionários vêm tentando refazer o calendário, embora o seu êxito tenha durado pouco. A Convenção Nacional da Revolução Francesa, por exemplo, nomeou uma comissão para a reforma do calendário – matemáticos, educadores, poetas e o astrônomo Laplace – que, em 1792, apresentou seu “Calendário Decimal”, onde a semana de 7 dias foi substituída pela semana de 10 dias (chamada de década), cada dia com um nome numérico latino e um mês composto por 3 décadas. O dia era dividido em 10 horas, constando cada uma de 100 minutos e tendo cada minuto 100 segundos. Além dos 360 dias destes 12 meses, os 5 ou 6 dias complementares receberam os nomes de Les Vertus, Le Génie, Le Travail, L’Opinion e Las Recompenses, com um dia intercalado (chamado de Sans-Cullotides), o qual era dedicado a feriados e desportos. Porém, este calendário – destinado a abrandar a força da Igreja sobre a vida e sobre o pensamento – durou apenas 13 anos e, quando Napoleão tomou o poder, restaurou o calendário gregoriano com seus dias santos e feriados tradicionais, pelo que recebeu a bênção do Papa. Por outro lado, em 1911, a Revolução Chinesa trouxe consigo uma reforma que introduziu o calendário do Ocidente, a par do calendário tradicional chinês. E, em 1929, a União Soviética – cujo objetivo era dissolver o ano cristão – substituiu o calendário gregoriano por um “revolucionário”, onde a semana teria 5 dias (4 para trabalha e 1 livre) e cada mês teria 6 semanas. Os dias complementares para os 365 (ou 366) seriam feriados. Os nomes gregorianos dos meses foram mantidos, mas os dias da semana passaram a ser numerados e, em 1940, a antiga União Soviética já regressaria ao calendário gregoriano tão familiar.

 

 


([1])  Festa tradicionalmente com a duração de 8 dias, quando se comemorava a fuga dos judeus do Egito. Pass + Over, que em inglês significa “passar de”, “sair de” ou “deixar”, é a tradução da palavra hebraica “PESAB”

([2])  BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989



https://www.facebook.com/juliocesar.s.santos