segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Logística na Área de Serviços

De Que Forma a Logística Ajudou Nas Relações Comerciais No Século 15? Qual o Impacto da Revolução Industrial na Logística? Por Que Atualmente Estamos Todos no Ramo de Serviços? Qual o Papel Estratégico da Logística no Setor Terciário?




 

Desde o início dos tempos o comércio é um fator de nivelamento da sociedade e as maiores evoluções sociais ocorreram a partir desta importante atividade. O comércio originou-se do escambo evoluindo até as atuais compras pela internet e, diante disso, é importante apresentar esta evolução e como a logística – por meio dos serviços prestados – ajudou nas relações comerciais. As grandes navegações nos séculos XV e XVI têm origem na necessidade de expansão econômica da Europa. Em meados do século XV, o crescimento econômico ficou ameaçado e a produção agrícola era insuficiente para alimentar toda a população, enquanto nas cidades havia excedentes de produção. Em consequência disso, a nobreza estava em declínio econômico, com os produtos orientais cada vez mais caros e sem muitos metais preciosos para a emissão de moedas. Assim, a descoberta de novos mercados fora dos domínios europeus se apresentou como solução para esses problemas. Desta forma, as grandes navegações promoveram a expansão comercial e marítima da Europa. Surgiu então a burguesia mercantil, a qual estava interessada em ampliar seus lucros e fortalecimento do Estado, com a centralização do poder monárquico. Portugal assumiu a vanguarda do expansionismo europeu, seguido depois pela Espanha, e revolucionou a arte da navegação. A liderança inglesa no século 18, com um enorme poder naval, fez a Inglaterra dominar as expedições marítimas. O mercantilismo foi a política econômica adotada na Europa nos séculos XVI e XVII; assumiu formas diferentes nos diversos países e teve duas etapas principais:

 

·        Metalismo: na qual a riqueza de uma nação era medida pela quantidade de metais preciosos que ela possuía;

·        Balança Comercial Favorável: em que a riqueza era avaliada pela diferença entre exportações e importações, ou seja, quanto mais positivo esse saldo, mais rico o país.

 

Nesse contexto, percebeu-se que a logística desempenharia um papel fundamental na geração de riqueza, pois apenas com a gestão eficiente dos serviços seria possível alcançar competitividade nas transações comerciais internacionais.

 

Revolução Industrial

 

Trata-se do conjunto de transformações técnicas e econômicas que se iniciaram na Inglaterra durante a segunda metade do século XVIII e que, ao longo do século XIX, se espalharam por toda Europa e também para a América do Norte. A invenção da máquina a vapor e a sua posterior aplicação à indústria e aos transportes (implicando na evolução logística) é considerada como a grande causa do surgimento da Revolução Industrial. A primeira fase da Revolução Industrial teve lugar entre 1750-1850 e a segunda fase a partir de 1850. Durante e após o período da 1ª e 2ª Revolução Industrial surgiram muitos meios de comunicação (telégrafo, telefone e atualmente a internet). Em 1850, a Inglaterra se integrou através de redes telefônicas com o restante da Europa, ainda antes do desenvolvimento da telefonia em grande escala. Logo após este período iniciou-se a comunicação através da propagação de ondas de rádio e com a Revolução Industrial constatou-se que os jornais impressos tiveram papel muito importante na divulgação das informações. Já nos Estados Unidos da América, as vendas através de catálogo expandiram a atividade comercial nas grandes cidades, impactando na evolução dos serviços da logística de distribuição. Surgiu, então, a TV que modificou o comércio por meio da publicidade, visto que as propagandas “passaram a entrar” na casa e na vida das pessoas, modificando e moldando hábitos de compra e consumo. A televisão como a conhecemos nos dias atuais, com imagens em movimento, surgiu em 1927. Entretanto, como meio de comunicação em massa, tornou-se popular apenas em 1930 com as primeiras transmissões realizadas pela BBC de Londres, em 1936.

 

Mudança no Foco das Empresas

 

Na década de 1960, as empresas tinham seu foco estratégico voltado para a produção, ficando os clientes à margem da sua atividade e somente no consumo daquilo que era possível fabricar. Nesta época, a demanda era maior que a oferta, isto é, havia mais clientes com vontade e capacidade financeira para a compra do que empresas produtoras. Já na década de 1970, os consumidores não só passaram a participar do desenvolvimento de novos produtos, como também passaram a exigir serviços de pós-venda. Nas décadas de 1980 e 1990, o cliente passou a assumir o papel principal dentro das organizações empresariais, em função das opiniões que geravam. Nessas décadas, apareceram as políticas de marketing e vendas com foco no cliente e consumidor final, tentando satisfazer as suas mais variadas necessidades.

Atualmente, o sucesso das empresas passou a depender da capacidade de administrar, identificar e executar as mudanças que o mercado necessita. Nesse sentido, busca-se exceder as suas expectativas, isto é, oferecendo um “algo a mais”. Desse modo, as organizações procuram agregar valor por meio da logística, como, por exemplo, na redução do volume de estoque, em entregas no prazo, entre outras ações. Este é o cenário atual, onde há um grande desenvolvimento de competências logísticas, principalmente aquelas ligadas à prestação de serviços com valor agregado. No entanto, é necessário entender a importância da área de serviços para a economia de um país e sua interdependência para o desenvolvimento econômico das nações, além da sua perspectiva em relação aos fatores produtivos, a participação no PIB (Produto Interno Bruto) e ainda, o seu potencial de geração de emprego e renda.

 

Administração de Serviços

 

Estamos todos nos serviços hoje em dia e, no futuro, estaremos bem mais ([1]). É possível afirmar que, atualmente, vivemos numa sociedade de serviços, consequência inevitável do grau elevado de personalização e de interação dentro de um meio desregulamentado e competitivo, onde os consumidores tornam-se cada vez mais exigentes, ou seja, os serviços estão presentes na vida das pessoas e estarão cada vez mais. Neste sentido, verificamos que a economia de um país pode ser dividida em três setores: primário, secundário e terciário, de acordo com os produtos produzidos, modos de produção e recursos utilizados. Pode-se dizer que estes setores mostram o grau de desenvolvimento econômico de um país ou de uma região. Se analisarmos os setores econômicos, podemos definir:

 

·        Setor Primário: como sendo relacionado à exploração de recursos da natureza, por exemplo, a mineração, o cultivo da agricultura, a pecuária, o extrativismo em geral (como látex) e a própria produção e caça de animais. É este setor que fornece toda a matéria-prima que será utilizada nas indústrias de transformação. Você pode perceber também que este setor econômico é muito vulnerável por depender dos fenômenos relacionados à natureza como as condições meteorológicas por exemplo. Outro ponto relevante em relação ao setor primário é que sua produção e exportação normalmente não geram muita riqueza, justamente por não possuírem valor agregado, ou seja, os produtos não sofreram transformação.

·        Setor Primário ou Agropecuário: é aquele formado por atividades econômicas diretamente relacionadas com o processo de transformação dos produtos naturais em produtos primários.

·        Setor Econômico Secundário: é o que encontramos maior grau de industrialização, pois transforma as matérias-primas extraídas e produzidas pelo setor primário em produtos beneficiados (automóveis, vestuário, máquinas, alimentos industrializados, eletroeletrônicos e etc.). Neste ponto, a logística possui muitos fatores importantes, pois aqui deve haver alto grau de tecnologia e conhecimento empregado, que gera maiores lucros obtidos na comercialização dos bens. Como podemos verificar em estudos econômicos, países com alto grau de desenvolvimento estão baseados neste setor econômico. Por consequência, a exportação destes itens gera grandes dividendos para estes países, por terem embutidos em si valor agregado e recursos de transformação.

·        Setor Terciário: possui relação direta com os serviços prestados. Por serem serviços, constituem produtos que chamamos de não tangíveis. Estes são fornecidos ou prestados por empresas, visando o atendimento de determinadas necessidades de outras empresas ou pessoas físicas. Temos como exemplos de atividades econômicas deste setor:

- O comércio;

- A área de ensino;

- Transportes;

- Telecomunicações;

- Gestão de saúde;

- Serviços de informática, de limpeza, turismo, bancários privados e públicos etc.

 

Neste setor, a logística possui um papel extremamente estratégico, uma vez que para a prestação de serviços há toda uma gestão de recursos que deve ser contemplada. Com o processo de globalização, o terceiro setor está sendo a área econômica que mais se desenvolve no mundo. Exemplificando este setor com o aspecto logístico, podemos dizer que as operações de transporte, armazenagem, controle de materiais e embalagem entre outras, são as atividades de serviços não tangíveis e que competem ao aspecto do terceiro setor.

 

O Crescimento de Serviços

 

Vivemos numa economia baseada em serviços que ocupam cada vez mais papel de extrema importância para a geração de empregos e por consequência, renda. O crescimento dos serviços pode ser explicado em função da estabilização da economia, isto é, inflação sob controle, aumento da renda que gera maior demanda, bem como, por novas tecnologias que permitem fácil acesso aos serviços. Ao analisarmos a participação dos serviços em economias mais desenvolvidas, podemos entender a sua importância. Em alguns países, os serviços chegam a ter percentual de aproximadamente 70% no PIB. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse índice é de 79%, enquanto no Japão é de 74%, e na Grã-Bretanha 73%. No Brasil a participação dos serviços avançou muito nesta última década. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o setor de serviços já responde por aproximadamente 67,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e a tendência para os próximos anos é que a participação cresça ainda mais.

O Brasil segue uma tendência mundial, isto é, o crescimento da participação da importância dos serviços na economia. Esta tendência já é uma realidade nas economias desenvolvidas, tais como Estados Unidos, Canadá, Japão, entre outros países. Nesta perspectiva, verificamos a importância e o crescimento da economia baseado nos serviços no mundo inteiro. Assim, somente empresas que empregarem as melhores práticas em serviços, isto é, inovarem, poderão sobreviver à competição no âmbito nacional e internacional. Os serviços já dominam a base de emprego (força de trabalho) e tendem a crescer ainda mais, em detrimento da área industrial. Nesta, a automação, a informatização e o uso de robôs reduziu a necessidade de uso de mão de obra humana. O fator tempo torna-se cada vez mais escasso e, na logística, esse fator representa um dos principais diferenciais competitivos.

 

Missão da Logística

 

Podemos entender que a principal missão da logística é o seu encargo, sua incumbência, seu desempenho e o dever para executar tarefas. Essas atividades estão relacionadas a:

 

·        Dispor o produto (bem ou serviço) no lugar certo;

·        No tempo certo;

·        Na quantidade certa;

·        Na qualidade certa;

·        No custo certo.

 

Assim, podemos avaliar que a missão da logística tem uma relação direta com o atendimento ao cliente, por meio de um alto nível de serviço. Este pode se tornar a base flexível para orientação da qualidade dos serviços prestados em determinado setor, sendo a exigência mínima pedida pelo cliente para atender sua demanda. E, agora que já sabemos qual é a missão da logística, podemos saber que seus objetivos operacionais estão voltados a algumas atividades, tais como:

 

A) Atividades Primárias: São consideradas primárias porque contribuem com a maior parcela do custo total da logística, sendo também essenciais para o cumprimento da tarefa logística em termos de nível de serviço. São elas:

 

·        Transporte: é a atividade logística mais importante, além de ser também a mais cara, pois absorve em média 60% dos custos logísticos. É essencial na cadeia de suprimentos, pois nenhuma empresa pode operar sem providenciar a movimentação de suas matérias-primas e os insumos, bem como de seus produtos acabados. Nesta atividade são compreendidos os seguintes processos:

- Seleção do modal de serviço de transportes;

- Consolidação de fretes;

- Roteiro do transporte;

- Programação de veículo;

- Seleção de equipamentos;

- Processamento de reclamações;

- Auditoria de tarifas.

A gestão correta do estoque torna-se estratégica ao minimizar o tempo entre pedido e entrega, visto que confere credibilidade à empresa vendedora perante os clientes. Assim, a gestão do estoque é uma atividade-chave na logística.

 

·        Manutenção de Estoque: na maioria dos casos, não é viável ou possível efetuar a produção e entrega instantânea dos produtos aos clientes. Para se atingir um grau razoável de disponibilidade é necessário manter estoques, que agem como “amortecedores”, entre a oferta e a demanda. Contudo, os estoques também são responsáveis por uma alta parcela nos custos logísticos (entre 20 a 25%). Nesta atividade são compreendidos os seguintes processos:

- Políticas de estocagem de matérias-primas e produtos acabados;

- Previsão de vendas no curto prazo;

- Combinação de produtos em pontos de estocagem

- Número, tamanho e local dos pontos de estocagem;

- Estratégias de just-in-time (Gestão no tempo certo, desenvolvida pela Toyota, na qual nada deve ser produzido, transportado ou comprado antes da hora exata), de empurrar e de puxar.

 

·        Fluxo de Informações e Processamento de Pedidos: os custos desta atividade são pequenos, quando comparados aos da atividade de transportes ou da gestão de estoques. Contudo, o processamento de pedidos é considerado uma atividade logística primária, pois é através dela que se inicia todo o ciclo crítico de atividades logísticas. Nesta atividade, são compreendidos os seguintes processos:

- Procedimentos de interface dos estoques com pedido de venda;

- Métodos de transmissão de informações de pedido;

- Regras de pedidos.

 

B) Atividades de Suporte: Para que as atividades primárias possam ser realizadas conforme as necessidades e expectativas dos clientes, é necessário que uma série de atividades sejam incorporadas, e sirvam de apoio às atividades primárias. São elas:

 

·        Armazenagem: Apoio por meio de:

- Determinação do espaço;

- Disposição do estoque e desenho das docas;

- Configuração do armazém;

- Localização do estoque;

 

·        Manuseio de Materiais - apoio por meio de:

- Seleção de equipamentos;

- Políticas de reposição de equipamentos;

- Procedimento de coleta de pedidos;

- Alocação e recuperação de materiais.

 

·        Compras: Apoio por meio de:

- Seleção de fontes de suprimentos;

- O momento da compra;

- Quantidade de compra.

 

·        Embalagem de Proteção: Apoio por meio de projeto para:

- Manuseio;

- Estocagem;

- Proteção contra perdas e danos.

 

·        Cooperar Com a Produção: Apoio por meio de:

- Especificar quantidade agregadas;

- Sequência e tempo do volume de produção.

- Manutenção de informação - apoio por meio de:

- Coleta, arquivamento e manipulação de informação;

- Análise de dados;

- Procedimento de controle.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

BALLOU, Ronald. Entrevista. Revista Mundo Logística, Rio de janeiro, nº. 22, ano. IV, p.22-26. Maio Junho 2011.

PIRES, Luciano J; BRITO, Fernando G. Logística em Serviços. Instituto Federal do Paraná/Rede e-Tec. Curitiba: 2014.

TÉBOUL, J. A. Era dos Serviços: Uma Nova Abordagem de Gerenciamento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999.

 


([1])  TÉBOUL, J. A. Era dos Serviços: Uma Nova Abordagem de Gerenciamento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999. P. 19


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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Deus e os Astrólogos, Segundo Santo Agostinho

Qual a Importância de Ptolomeu Para o Desenvolvimento da Astrologia na Idade Média? De Que Forma Ptolomeu Enxergava a Influência Astral na Vida das Pessoas? Por Que as Afirmações Populares de Astrólogos Pagãos Perturbaram os Primeiros Profetas do Cotidiano?

 


A Astrologia fez com as necessidades humanas um casamento que, séculos depois, terminaria num divórcio dividido entre ciência e religião. Por outro lado, a Astrologia teria sido na Roma Antiga apenas um fatalismo supersticioso ou um trinfo do irracional? Não se pode negar que o temor das estrelas inspirava certo temor dos astrólogos, embora a religião astral não estivesse separada da ciência astral. Os principais cientistas tinham como certa a influência das estrelas sobre os acontecimentos humanos, discordando apenas quanto ao como as estrelas exerciam os seus poderes. A grande enciclopédia científica da época – História Natural, de Plínio – propagava os rudimentos da astrologia mostrando em tudo a influência das estrelas. O mais influente de todos os cientistas romanos antigos – Cláudio Ptolomeu, de Alexandria – mostrou ser a autoridade mais duradoura em Astrologia, ao apresentar um estudo que dava substância e respeitabilidade a essa ciência nos mil anos seguintes. Mas, a sua reputação se ressentiu do destino excessivamente divulgado de duas de suas teorias errôneas. A Teoria Geocêntrica (ou Ptolomaica) se tornaria um sinônimo moderno de erro astronômico e, de igual modo, a sua opinião de que a maior parte da superfície da Terra era constituída de terra seca, tornou-se um sinônimo de erro geográfico.

Mas, nunca depois dele alguém forneceu uma visão tão abrangente de todo o conhecimento científico de uma época. Em verdade, Ptolomeu dominou a visão popular e literária do universo durante a Idade Média e o mundo descrito na Divina Comédia de Dante veio diretamente do “Almagesto” de Ptolomeu. Em muitos aspectos ele falou como um profeta, alargando o emprego da Matemática ao serviço da ciência e, ao mesmo tempo, que ia beber às melhores observações feitas antes de si, sublinhando a necessidade da observação repetida. Efetivamente, Ptolomeu foi um precursor do espírito científico e um pioneiro do método experimental, pois na trigonometria esférica ele proporcionou uma solução elegante para os problemas dos Relógios de Sol que tinham especial importância naquele tempo anterior aos relógios mecânicos. Não houve ramo da ciência física que ele não tenha estudado e organizado em novas e úteis formas. Na Geografia, na Astronomia, na Ótica e na Harmonia ele expôs em um sistema e o mais conhecido de todos foi o seu tratado em Geografia em Almagesto. A sua Geografia – que pretendia cartografar todo o mundo conhecido – foi pioneira na listagem de lugares por latitude e longitude. Os Árabes apreciaram a grandeza da obra de Ptolomeu e trouxeram para o Ocidente.

A sua Astronomia estava destinada a ter um nome árabe (Almagesto) e sua Geografia foi traduzida para arábico no início do século. Ptolomeu via a influência astral como puramente física; ou seja, apenas uma entre muitas outras forças. Ele admitia que a Astrologia não era mais exata do que qualquer outra ciência, embora isso não constituísse razão para que de uma cuidadosa observação da correspondência de acontecimentos terrestres com celestes, não resultassem algumas previsões úteis, mas não matematicamente certas. Com esse espírito prático, Ptolomeu construiu os alicerces da mais duradoura das ciências ocultas. Seus dois primeiros livros sobre geografia astrológica e previsão do tempo abrangem as influências dos corpos celestes sobre acontecimentos físicos terrestres e, os outros dois, cobrem a sua influência sobre acontecimentos humanos. Ele expôs a ciência dos horóscopos e a predição dos destinos humanos baseada na posição das estrelas no nascimento da pessoa e, embora sua obre tenha se tornado o principal manual de Astrologia durante mil anos em virtude de ignorar a técnica de responder a perguntas sobre o futuro através da posição dos corpos celestes, o seu trabalho não satisfez inteiramente as necessidades dos praticantes de Astrologia. A aventura ptolomaica no mundo oculto da Astrologia sobreviveu às suas obras nos campos mais familiares da ciência moderna. O “De Revolutionibus” de Copérnico (1543) – que foi o início de uma nova época e mudou o centro de sistema solar – ainda confirmou a influência dominante do Almagesto de Ptolomeu e, somente meio século depois, quando a “Mecânica da Astronomia Instaurada” de Tycho (1598) substituiu o catálogo de estrelas de Ptolomeu por um novo baseado em observações independentes, os dados deste (assim como as suas teorias) se tornaram finalmente obsoletas.

As afirmações populares de astrólogos pagãos perturbaram os primeiros profetas do cotidiano e, os padres da Igreja que declararam o seu próprio poder de prever o destino dos homens no outro mundo, invejavam os poderes daqueles que pretendiam saber o destino dos homens na Terra. Se os horóscopos dos astrólogos significavam o que diziam, onde então estaria o espaço para o livre arbítrio? Ou para a liberdade de preferir o bem ao mal? Ou de renegar Maomé e até mesmo trocar César por Jesus Cristo? A própria luta para se tornar cristão – para abandonar a superstição pagã em favor do livre arbítrio cristão – parecia ser luta contra a Astrologia. Na sua obra “Confissões”, Santo Agostinho (354-430) recorda que “aqueles impostores, a quem chamam de matemáticos, consultei então sem escrúpulo, pois pareciam não usar nenhum sacrifício, nem rezar a nenhum espírito para as suas adivinhações”. E sentiu-se tentado pelas opiniões dos astrólogos: “a causa do teu pecado é inevitavelmente determinada no céu; isto fez Vênus, ou Saturno, ou Marte: aquele homem, certamente, carne e sangue e altiva corrupção, fica inocente; enquanto o criador e ordenador do céu e das estrelas tem de arcar com a culpa”. Santo Agostinho lutou para rejeitar as adivinhações mentirosas e os desvarios dos astrólogos. Dois conhecidos recordaram-lhe que não existia tal arte para prever coisas futuras, mas que as conjecturas dos homens eram uma espécie de loteria e que, das muitas coisas que eles diziam que aconteceriam, algumas certamente ocorreriam, sem nada terem a ver com os que as tinham dito, e que por força e acaso nelas tropeçavam, de tanto falarem. “Nesse momento crucial em que germinavam dúvidas em seus pensamentos, Deus enviou-lhe um amigo. Não um consultante descuidado de astrólogos e sequer bem versado em tais artes, mas delas consultante curioso, e sabendo ademais algo que dizia ter ouvido ao Pai, apesar de desconhecer até que isso chegaria para derrubar o apreço dessa arte” ([1]).

Uma história contada por esse amigo – Firmino – abalou o jovem Agostinho e libertou-o da sua fé pagã. O pai de Firmino – interessado em Astrologia – “sempre observava a posição das estrelas e até tomava o cuidado de saber o nascimento dos seus próprios cachorros”. Não apenas na sua obra autobiográfica – “Confissões”, mas também na sua obra teórica “A Cidade de Deus”, Santo Agostinho discorre demoradamente contra os astrólogos. “O Império Romano – e todos os outros reinos – tem o seu destino traçado não pelas estrelas, mas sim pela vontade de Deus”. O seu argumento bíblico é o exemplo de Jacob e Esaú, “dois gêmeos nascidos tão a seguir um ao outro que o segundo segurava o calcanhar do primeiro e, no entanto, as suas vidas, modos de ser e ações foram tão diversos que essa mesma diferença fez deles inimigos um do outro”. E, logo depois, ele apresenta casos de outros gêmeos com minúcias. Teólogos cristãos da Idade Média conseguiram encontrar usos sagrados para a crença nos poderes astrais e, tanto Alberto Magno como São Tomás de Aquino admitiram a influência governadora das estrelas, mas insistiram em que a liberdade do homem era a sua própria força para resistir a essa influência. E, mesmo que os astrólogos fizessem predições verdadeiras, essas respeitavam acontecimentos em que estavam envolvidos grande número de homens. Em tais casos as paixões da maioria prevaleciam contra a racionalidade da minoria, mas o livre-arbítrio do indivíduo cristão não fora exercido. Assim, alguns teólogos medievais aproveitaram a crença prevalecente da Astrologia para reforçar as verdades do Cristianismo, gostando de lembrar a perdição astrológica do nascimento de Cristo, dado à luz por uma virgem. Se Jesus Cristo não estava Ele próprio sujeito ao domínio estrelar, estas tinham dado sinais da Sua vinda. Afinal, que outra coisa era a estrela de Belém? Não era provável que aqueles suficientemente sábios para seguir a estrela – os Magos – fossem realmente entendidos astrólogos?

 

 

 

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([1])  BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989. P. 55

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A Semana: Uma Porta Para a Ciência

De Onde Deriva a Palavra “Week”? Por Que os Romanos Fixaram Uma Semana de Oito Dias? Qual a Relação do Sabat Judeu Com a Semana de Sete Dias?

 


 

Enquanto o homem regeu sua vida apenas pelos ciclos da Natureza como a mudança das estações e as fases da Lua ele permaneceu prisioneiro dela. Se ele queria encher seu mundo de novidades humanas, teria de criar suas próprias medidas do tempo. E estes ciclos feitos pelo homem viriam a ser variados. A semana – ou algo bem parecido – foi o primeiro destes agrupamentos artificiais de tempo. A palavra inglesa “week” (semana) parece derivar de uma palavra do alemão que significa “mudar” ou “suceder”. Mas, a semana não é uma invenção ocidental nem foi em todos os lados um agrupamento de 7 dias e, na verdade, as pessoas descobriram pelo menos 15 maneiras – em aglomerados de 5 a 10 dias – para agrupar os seus dias. O que existe à escala planetária não é um determinado conjunto de dias, mas a necessidade de fazer qualquer tipo de conjunto. Daí a humanidade revelou um forte desejo de jogar com o tempo e de fazê-lo mais importante do que a Natureza o fez. A nossa semana de 7 dias surgiu da necessidade popular e da concordância espontânea, e não de uma lei ou da ordem de qualquer governo. Como aconteceu? Por quê? Quando? Por que uma semana de 7 dias? Os antigos Gregos não tinham semana e os Romanos viviam uma semana de 8 dias, onde os agricultores que trabalhavam sete dias nos campos iam passar na cidade o oitavo dia, sendo considerado um dia de repouso, festividades e sem escola. Mas, quando e porque os Romanos se fixaram nos oito dias e por que motivos mudaram para uma semana de 7 dias, não se sabe ao certo.

O número 7 tem um significado mágico quase em toda parte do mundo, pois os Japoneses – por exemplo – descobriram 7 deuses da felicidade, Roma erguia-se sobre 7 colinas, os antigos enumeravam as 7 Maravilhas do Mundo e os cristãos medievais enumeravam os 7 Pecados Mortais. A mudança romana de 8 para 7 dias parece não ter vindo de qualquer ato oficial, pois no princípio do século III os Romanos já viviam a semana de 7 dias. Devem ter andado no ar algumas novas ideias populares e uma delas era a do “sabat”, que chegou a Roma por meio dos Judeus. A ideia de um 7º dia de descanso parece ter sobrevivido dos anos em que os Judeus estiveram no cativeiro na Babilônia, onde os babilônicos observavam certos dias em que eram proibidas atividades específicas ao seu rei. Encontramos outra pista com os Romanos, os quais designavam o dia de Saturno (Sábado) como um dia de descanso; ou seja, um dia em que não deveriam travar batalhas ou iniciar qualquer viagem. Nenhuma pessoa poderia correr o risco de se expor aos infortúnios que Saturno poderia trazer e, segundo Tácito, o sabat era observado em honra de Saturno porque “das sete estrelas que regem os assuntos humanos, Saturno tem a mais alta esfera e o poder principal”. No século III a semana de sete dias tornara-se comum na vida de todo o Império Romano e cada dia era dedicado a um dos 7 planetas que, de acordo com a astronomia da época era Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Essa ordem não era a da sua então suposta distância da Terra; ou seja, a ordem “normal” pela qual Dante – por exemplo – descreveria mais tarde as zonas dos céus, pela qual também os nomes dos planetas foram recitados nas escolas até o tempo de Copérnico. A nossa ordem conhecida dos dias da semana veio dessa ordem dos planetas que os Romanos pensavam que “governavam” a primeira hora de cada dia. Os astrólogos da época utilizavam a “ordem” dos planetas de acordo com a sua suposta distância da Terra para calcularem a influência de cada planeta nos assuntos mundanos. Os dias da semana ingleses continuam a ser um testemunho vivo dos poderes da astrologia, pois os nossos dias da semana têm nomes derivados dos planetas tal como eram conhecidos em Roma há 2000 anos. Os dias da semana nas línguas europeias continuam a derivar dos nomes do planeta e a sobrevivência é ainda mais óbvia em línguas que não a inglesa, conforme abaixo:

 

INGLÊS / ESPANHOL:

 

·        Sunday (Sol) / Domingo

·        Monday (Lua) / Lunes

·        Tuesday (Marte) / Martes

·        Wednesdey (Mercúrio) / Miércoles

·        Thursday (Júpiter) / Jueves

·        Friday (Vênus) / Viemes

·        Saturday (Saturno) / Sábado

 

Quando as pessoas tentaram extinguir a idolatria antiga, substituíram os nomes planetários por números simples e, dessa forma, os “quares” ([1]) chamam aos seus dias de “primeiro dia”, “segundo dia”, etc... até ao “último dia”. Eles não efetuam suas reuniões religiosas no domingo, mas sim no primeiro dia. Na moderna Israel, os dias da semana também têm números ordinais. Um dos exemplos mais imprevistos da ideia planetária é a mudança cristã do “sabat” de sábado, ou “dia de Saturno”, para domingos, ou dia do Sol ([2]). Quando o Cristianismo criou raízes no Império Romano, padres da Igreja se preocuparam com a sobrevivência dos deuses pagãos nos nomes dos planetas que regiam a semana cristã. A Igreja do Oriente obteve algum êxito no extermínio dessa influência pagã, pois os nomes dos dias – tanto em grego moderno como em russo – deixaram de ser planetários. Mas, a cristandade ocidental revelou-se mais disposta a aproveitar em benefício próprio as crenças e os preconceitos romanos. O dia que os judeus achavam sensato abster-se trabalhar – Dia de Saturno – permaneceu como eixo fixo à volta do qual girariam os auspícios semanais. Então, os cristãos fixaram o seu Dia do Senhor, para que a passagem de cada semana revivesse o drama de Jesus Cristo e, tomando a comunhão, cada cristão tornava-se então um dos discípulos da Última Ceia. O guia desse drama místico era a liturgia da missa e, como os outros sacramentos, a eucaristia tornou-se uma representação repetitiva de um acontecimento simbólico fundamental da Igreja. A formação da nossa semana foi mais um passo em frente no domínio do Mundo pelo homem, na busca pela ciência. A semana era um agrupamento feito pelo próprio homem e não ditado pelas forças da Natureza, pois as influências planetárias eram invisíveis. A semana planetária foi um caminho para astrologia e esta foi um passo na direção de novas espécies de profecia. Rituais antigos traziam consigo uma “ciência” complicada quanto ao uso de partes de animais sacrificados, a fim de predizer o futuro das pessoas que ofereciam o sacrifício. Em meados do século XIX Sir Richard Burton apresentou uma complicada técnica para adivinhar o futuro, a partir da omoplata de um carneiro.

Os “osteomantes” – como eram chamados – dividiam o osso em 12 áreas (ou “casas”) e cada uma delas correspondia a uma pergunta diferente a respeito do futuro. Se na 1ª casa o osso fosse liso e claro, o augúrio seria propício e o consulente provaria ser um homem bom. Em contraste com esta espécie de profecia, a astrologia era progressiva, pois as influências dos corpos celestes sobre os acontecimentos na Terra eram por ela descrita como forças repetitivas, invisíveis como as que viriam a reger o espírito científico do homem. Sendo assim, não surpreende o fato de que o homem mais antigo se sentisse atemorizado pelo céu e seduzido pelas estrelas, pois estas primeiras luzes noturnas iluminavam a fantasia popular. Todos os agricultores sabiam que as nuvens do céu, o calor do Sol e a dádiva das chuvas decidiam a sorte das suas culturas e, consequentemente, governavam suas próprias vidas. Claro que os acontecimentos celestes mais sutis exigiam uma interpretação adequada feita por sacerdotes e, esta sedução exercida pelo céu, acabou originando uma fértil “tradição celeste”. Os poderes do Sol, da chuva e a correspondência entre os acontecimentos no céu e acontecimentos na Terra suscitaram a procura de outras correspondências. Os Babilônicos – por exemplo – elaboraram uma estrutura mitológica para essas correspondências universais e o seu imaginário seria perpetuado pelos Gregos, Judeus e Romanos nos séculos seguintes. A teoria da correspondência transformou-se na astrologia, a qual procurou elos entre o espaço e o tempo, entre os movimentos dos corpos físicos e o desenrolar de toda a experiência humana. Dessa forma, o desenvolvimento da ciência dependeria da disposição do homem para acreditar no improvável e passar por cima dos ditames do senso comum. Sendo assim, o céu foi o laboratório da primeira ciência da humanidade assim como o interior do corpo humano, o íntimo e os negros continentes do átomo seriam os cenários das suas ciências mais recentes. O homem procurou utilizar o seu conhecimento crescente dos padrões da experiência repetitiva na interminável luta para quebrar o anel de ferro da repetição ([3]).

A profecia social floresceu na Babilônia, quando se previam os grandes acontecimentos – batalhas, secas, pestes ou colheitas – que afetavam toda a comunidade e, durante séculos, este tipo de astrologia permaneceu mais como uma tradição do que como uma doutrina. Os Gregos transformaram-na numa ciência, quando a astrologia pessoal passou a traçar a sorte de uma pessoa a partir da posição dos corpos celestes no momento do seu nascimento. Os gregos se sentiam igualmente divididos entre a vontade de saber as boas notícias e o receio de saber as más. Na Roma Antiga, a astrologia atingiu uma influência raramente igualada, onde os astrólogos constituíam uma profissão reconhecida cuja reputação variava conforme a turbulência dos tempos. Durante a República Romana tornaram-se tão poderosos e impopulares que no ano 139 a.C. foram expulsos não só de Roma, mas também de toda a Itália. Depois, durante o Império, quando as suas perigosas profecias levaram alguns astrólogos a julgamento por traição, foram completamente banidos, embora o mesmo imperador que bania alguns astrólogos empregava outros para orientar a sua casa imperial.

 

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([1])  Membros de uma seita protestante, fundada no século XVIII (N. do Autor)

([2])  Em inglês, o domingo equivale efetivamente a Dia de Sol, Sunday. Em português e em espanhol, o significado é Dia do Senhor (do latim Dominicus (N. do Autor)  

([3])  BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989. p 30

 

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segunda-feira, 30 de março de 2026

GERENCIAMENTO de PROJETOS de SOFTWARES

Por Que Alguns Projetos de Softwares Fracassaram Nas Décadas de 60 e 70? O Que é Gerenciamento de Projetos? Quais as Principais Atividades de Gerenciamento de Softwares? Quais as Disciplinas Contidas na Metodologia PMI?




 Durante as décadas de 60 e 70 constatou-se alguns fracassos de muitos projetos de softwares em organizações de médio/grande porte, indicando certas dificuldades no gerenciamento de projetos. No entender de alguns especialistas muitos deles fracassaram porque a abordagem gerencial estava equivocada, pois as necessidades de gerenciamento de projetos de softwares são diferentes das empregadas em empresas de manufatura. Para eles, o trabalho do gerente de software é garantir que o projeto cumpra as restrições impostas (orçamentárias, de prazos, de requisitos, etc.) e entregar um produto de software que contribua para o alcance das metas da organização. Esses gestores são os responsáveis por planejar e programar o desenvolvimento do projeto, supervisionando o trabalho a fim de assegurar que ele seja realizado em conformidade com os padrões requeridos e monitorando o progresso para verificar se está dentro do prazo e do orçamento aprovado. Assim, o gerenciamento   não   pode   garantir   o   sucesso   do   projeto, mas   o   mau gerenciamento geralmente resulta no seu fracasso. Dessa forma, a engenharia de software é distinta de outros tipos de engenharia, tornando o gerenciamento de software difícil. As principais diferenças são:

 

·        O produto é intangível;

·        Não há processo de software padrão;

·        Grandes projetos de software são frequentemente únicos.

 

O Que é Gerenciamento de Projetos?

 

Segundo Carneiro (2000), o Gerenciamento de Projetos é a aplicação de Conhecimento, Habilidades, Ferramentas e Técnicas nas atividades de projetos de forma a atender ou superar as expectativas dos stakeholders (interessados, atores, participantes) e que envolve o balanceamento de:

 

·        Escopo, tempo, custo e qualidade;

·        Necessidades (requisitos   definidos) e   expectativas (subjetivos   ou   não definidos);

·        Diferentes expectativas e necessidades de todos aqueles que participam do projeto direta ou indiretamente.

 

Para o autor acima isso indica que, para realizar o gerenciamento de projetos, não é necessário apenas a vontade ou a necessidade da realização dessa tarefa. É preciso reconhecer que a gerente de projetos precisa de   conhecimentos específicos da área para melhor desempenhar as suas funções. Existe uma tendência   das   empresas   em   administrar   as   operações com a abordagem de projeto. Essa abordagem, de forma simplificada, prevê a aplicação das técnicas, habilidades, ferramentas e conhecimento na condução de operações da empresa. O termo usado para essa tendência (ou filosofia) é o gerenciamento por projetos, que visa alinhar os grandes objetivos estratégicos da empresa com inúmeros projetos, coordenados e gerenciados, de forma a garantir a sua execução no menor tempo, na melhor qualidade e no melhor custo.

 

Atividades de Gerenciamento

 

O trabalho de um gerente de software varia muito, dependendo da organização e do produto a ser desenvolvido. Na maioria das vezes, ele assume algumas ou todas as seguintes atividades:

 

·        Elaboração de propostas;

·        Planejamento e programação de projetos;

·        Levantamento dos custos do projeto;

·        Monitoramento e revisões de projetos;

·        Seleção e avaliação de pessoal;

·        Elaboração de relatórios e apresentações.

 

As Áreas de Conhecimento em Gestão de Projetos na visão do PMIO PMI (Project Management Institute) identificam 9 (nove) áreas de conhecimento em gerenciamento de projetos. Mas, apesar desta abordagem de apresentá-las de forma separada por razões didáticas, deve-se estudá-las com a percepção de todas estão intimamente   interligadas. O gerenciamento de um projeto sem a aplicação do conhecimento de uma ou mais destas áreas poderá implicar em uma deficiência do próprio projeto, que, normalmente só é constatada tardiamente. Depois ter despendido muito esforço, custo e tempo para encontrar as razões desta deficiência. Durante algum tempo o principal enfoque do gerenciamento de projetos era a gerência do tempo: fazer com   que as coisas acontecessem dentro do prazo esperado. Em algumas empresas, em especial no governo, o enfoque de gerenciamento de projeto era mais orçamentário, ou seja, quando acabasse o dinheiro, acabaria o projeto. Outros elementos foram se juntando ao gerenciamento do projeto, além do prazo e custos, tais como o escopo do projeto (o que deveria ser feito), foram identificados como importante para a gestão de um projeto tratar a questão de qualidade, ou seja, atender ao especificado e tratado entre as partes ([1]).

Outros aspectos foram sendo agregando ao gerenciamento de projeto, tais como risco e comunicação. Todo projeto tem risco e o planejamento e tratamento desses riscos faz parte das atividades de gerenciamento do projeto.  Comunicação também é fator fundamental em um projeto.  Sem a devida comunicação entre os envolvidos um projeto pode estar fadado ao insucesso. As informações devem fluir no tempo, na profundidade e no conteúdo desejado por cada envolvido, de acordo com a sua necessidade ou grau de envolvimento. Não devemos esquecer que os projetos são executados por pessoas. Então o cuidado com o ser humano, tais como:  a motivação da equipe, o recrutamento de pessoas especializadas para cada tipo de tarefa, o treinamento, a formação de time e outros aspectos são também fundamentais ao sucesso do projeto. Em alguns projetos têm que adquirir bens ou produtos e o gerenciamento dessas aquisições também são importantes para a condução de um projeto. Percebe-se então que o gerenciamento de projetos envolve o tratamento de vários aspectos importantes. Esses aspectos são chamados na “Metodologia PMI de Disciplinas”. As disciplinas são:

 

·        Gerenciamento de Integração entre os elementos do projeto;

·        Gerenciamento de Escopo de Projeto;

·        Gerenciamento de Tempo do projeto;

·        Gerenciamento do Custo;

·        Gerenciamento da Qualidade;

·        Gerenciamento de Recursos Humanos;

·        Gerenciamento de Comunicação;

·        Gerenciamento de Risco;

·        Gerenciamento de Contratos.

 

Assim sendo, todas estas disciplinas – aliadas às técnicas, métodos e ferramentas de cada uma – apoiam a condução do projeto de forma a garantir qualidade, atendimento aos prazos, custos e requisitos desejados. Portanto, caberá ao gerente de projetos integrar todas essas disciplinas, cuidando de todos esses aspectos desde o início do projeto, passando pelo planejamento e outras fases do projeto, até a sua conclusão. A Integração dos processos também deverá ser tratada como uma disciplina pelo PM.

 

Qualidade dos Softwares

 

Hoje em dia, muito se fala em qualidade de software, mas nem sempre as pessoas têm uma noção bem clara desse conceito. Pode-se considerar qualidade sob diferentes pontos de vista e, portanto, pode-se ter diferentes definições, sendo algumas das mais comuns listadas a seguir:

 

·        Software sem defeitos;

·        Software adequado ao uso (conforme a definição de qualidade de Juran) ([2]);

·        Software que atende as especificações (conforme a definição de qualidade de Crosby) ([3]);

·        Software produzido por uma empresa que possui o certificado ISO9000 para seu sistema de qualidade;

·        Software que possui confiabilidade/usabilidade/manutenibilidade.

 

 

Pessoas com diferentes interesses sobre um produto têm visões diferentes sobre o conceito de qualidade. Por exemplo, clientes (mercado) usualmente consideram que o software tem qualidade se ele possui características que atendam suas necessidades. Já os desenvolvedores veem a qualidade através   das medidas de suas propriedades que são comparadas com indicadores de qualidade preestabelecidos. Para o setor de software um produto de qualidade é aquele com custo mínimo associado ao retrabalho durante o desenvolvimento e após a entrega do produto. Não tem sentido produzir um grande sistema de software se ele não funciona, não faz exatamente o que o cliente espera, não fica pronto no prazo ou se não puder merecer confiança, ou ainda, se ele não puder ser modificado ou mantido. O software é desenvolvido a um custo cada vez maior, com menor produtividade e com menos qualidade.  Equipes individuais de projeto tentam ser mais produtivas, asno contexto de uma empresa que não se preocupa com a qualidade, tais esforços no nível de projeto provavelmente não trarão resultados expressivos, visto que na maioria dessas empresas vários projetos de desenvolvimento de sistemas são cancelados antes de serem concluídos.  Isto significa que iniciativas individuais de programadores e analistas de sistemas para melhoria de qualidade dificilmente mudarão a cultura da empresa onde os sistemas são desenvolvidos. Assim sendo, mais importantes serão as iniciativas no nível corporativo.


 

REFERÊNCIAS

 


Aprimorando o conhecimento sobre gestão de qualidade total. Disponível em:<http://www.ucg.br/site_docente/eng/ximena/pdf/aula2.pdf> acesso   em 19/10/2004

BRAZ JÚNIOR., Osmar de Oliveira.  Técnicas de Análise de Sistemas (apostila).  Tubarão:  UNISUL. 1997.

CARNEIRO, Margareth Fabíola dos Santos; Gerenciamento de Projetos (apostila), ENAP, 2000

Conhecendo mais sobre TQC. Disponível em:<http://www.furnas.com.br/portug/institucional/glossario.asp?letra=t> acesso em 19/10/2004

DeMARCO, Tom.  Análise Estruturada e Especificação de Sistema –2ª reimpressão Rio de Janeiro: Editora Campus. 1989.

FOURNIER, Roger.  Guia Prático para Desenvolvimento e Manutenção de Sistemas Estruturados –1ª Edição. São Paulo: Makron Book. 1994.

KELLER, Robert. Análise Estruturada na Prática –1ª edição. São Paulo: McGraw-Hill Editora. 1990.

KIMURA, Marcos. Curso básico de MS Project (apostila). Brasília: ENAP, 2002.

PAULA FILHO, Wilson de Pádua.  Engenharia de Software –Fundamentos, Métodos e Padrões –1ª edição. Rio de Janeiro: LTC Editora. 2001.

PARREIRA JÚNIOR, Walteno Martins & TEODORO NETO, Euclides Martins & GOMES, Gina Marcia dos Santos.  Análise e Programação Orientada ao Objeto –in I Encontro de Iniciação Científica e III Encontro de Pesquisa -ILES/ULBRA –Itumbiara-GO -2002

PRESSMAN, Roger S.  Engenharia de Software –3ª edição.  São Paulo:  Makron Books.  1995.

SOMMERVILLE, Ian. Engenharia de Software –6ª edição. São Paulo: Addison Wesley. 2003.

YOURDON, Edward.  Administrando o ciclo de vida do sistema –2ª edição.  Rio de Janeiro:  Editora Campus. 1989.

 

 

 

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([1])  CARNEIRO, Margareth Fabíola dos Santos; Gerenciamento de Projetos (apostila), ENAP, 2000, p. 24

 

([2])  Joseph Juran desenvolveu várias metodologias para controlar e melhorar a qualidade, incluindo o Princípio de Pareto, a Trilogia Juran e a Qualidade por Design

([3])  Philip Crosby acreditava que, ao fazer certo da primeira vez, as empresas evitam retrabalho, desperdícios e insatisfação dos clientes, tudo isso resultando em menor custo total