A mesma fé que fanatizava a paisagem e aprisionava os cristãos na Geografia dogmática haveria de atrair peregrinos e cruzados da Europa para caminhos de descoberta do Oriente. A Estrela de Belém que atraiu os Três Magos, guiou em séculos posteriores incontáveis fiéis para sua Terra Santa. A peregrinação se tornou uma instituição cristã e caminhos de fé se tornaram caminhos de descoberta. Um século após a morte de Jesus um punhado de crentes viajava para Jerusalém a fim de pisar a terra que o seu Salvador pisara. Após o imperador Constantino se tornar cristão, sua mãe que se tornara arqueóloga, foi a Jerusalém, encontrou o Monte Calvário onde reuniu fragmentos da Verdadeira Cruz e até descobriu o Santo Sepulcro, onde Jesus fora alegadamente sepultado. Aí mandou o próprio Constantino construir a primeira Igreja do Santo Sepulcro. O sábio São Jerônimo se instalou (386 d.C.) em um mosteiro de Belém oferecido pela nobre dama romana Santa Paula, onde instruía peregrinos após visitarem os lugares santos. No início do século V havia 200 mosteiros e albergues para peregrinos nas imediações de Jerusalém. Santo Agostinho advertiu de que o turista cristão à Terra Santa poderia ser desviado da sua viagem, embora o fluxo de peregrinos tenha aumentado ajudado por incontáveis guias e uma cadeia de alojamentos hospitaleiros ao longo de todo o caminho. Abençoado pelo seu padre antes de partir, transportando o bordão e a vieira, usando o seu chapéu de aba larga e a insígnia do seu destino, o peregrino se tornou uma figura pitoresca no panorama medieval. O termo “peregrinatio” passou a designar qualquer perambulação e, “peregrinus” – que deu peregrino – se tornou sinônimo de estrangeiro. Mas o peregrino propriamente dito era alguém que ia a caminho de um destino sagrado. O declínio do Império Romano do Ocidente e o aparecimento de piratas tornaram difícil e perigosa a vida dos peregrinos. As extensas conquistas árabes à volta do Mediterrâneo, o advento do Islã e o aumento dos peregrinos muçulmanos congestionaram os caminhos da peregrinação cristã e originaram uma implacável disputa por Jerusalém. Algumas tradições muçulmanas consideravam Jerusalém – e não Meca – o “umbigo” da Terra e, quando o Califa Omar entrou numa Jerusalém rendida 6 anos após a morte de Maomé, iniciou uma batalha milenar pela posse dos lugares santos. A grande época da peregrinação cristã começou no século X e, de modo geral, os Muçulmanos toleravam – ainda que desprezassem – esses “descrentes” apaixonados.
Mas, à medida que a distante
Terra Santa ia se tornando menos acessível, os cristãos piedosos foram
encontrando o bálsamo da peregrinação mais perto de casa. Criaram uma
literatura híbrida de história, sociologia, mito e tradição. Santiago de
Compostela (Espanha) tornou-se “lugar santo” por causa da descoberta ali feita
no ano de 810 do corpo de São Tiago, que se pensava ter sido executado em
Jerusalém e presumivelmente lá enterrado. Considerava-se que Carlos Magno se
contava entre os primeiros peregrinos que tinham partido de toda Europa e,
quando os Mouros conquistaram a Espanha para o Islã, surgiu o culto de S. Tiago,
o “matador de mouros”. O grande imã para os peregrinos na Europa era Roma, onde
Beda (em 735) narrou a viagem de homens e mulheres bretões que ansiavam por
passar algumas horas da sua peregrinação terrena na vizinhança de lugares
santos. Daí, talvez tenha derivado o verbo inglês “to roam” ([1]). O fluxo de
peregrinos da Inglaterra (e de outros lugares) viria a se alargar depois do
malogro da tentativa dos Cruzados em reconquistarem Jerusalém. Entretanto, os
monges se organizavam para prestarem assistência aos peregrinos que iam para o
Oriente e, jovens escandinavos que viam da Islândia, Noruega e Dinamarca,
passavam anos servindo à Guarda do Imperador em Constantinopla e depois seguiam
para Jerusalém antes de regressarem com seus ganhos militares. Em meados do
século XI um príncipe dinamarquês pôs-se a caminho, mas nunca chegou à Terra
Santa – morreu de frio nas montanhas do percurso. Depois, um sultão da Pérsia
(cujo povo de língua turca se estendera através da Ásia até a Sibéria)
lançou-se para o Ocidente, derrotou as forças dos cristãos bizantinos em 1071 e
ocupou a maior parte da Ásia Menor. Sendo assim, os peregrinos cristãos e toda
a cristandade oriental passaram a enfrentar novos desafios. Ao mesmo tempo uma
nova vida comercial e uma população crescente, engrossavam a maré dos
peregrinos. Os Normandos – descendentes dos escandinavos que no século X tinham
invadido a Normandia, na costa da França – se converteram ao Cristianismo e
enviaram sua força em todas as direções. Guilherme, o Conquistador, guiou-os
para o Norte (Inglaterra) em 1066, percorrendo o Mediterrâneo, assolando a
Itália Meridional e, em 1130, acabaram fundando o Reino da Sicília, onde
cristão, judeus e árabes trocavam conhecimentos, arte e ideias.
Quando Urbano II se tornou Papa em 1808 a Igreja sentia muita necessidade de reforma, pois havia corrupção pela compra e venda de indulgências e cargos eclesiásticos. Reformador que não se compadecia com a corrupção, Urbano utilizou seus talentos de organizador e a sua eloquência para purificar e sarar a Igreja. Aleixo – imperador oriental – vendo a capital da sua Bizâncio ameaçada pelo Islã, mandou enviados a Urbano solicitando auxílio militar e, o energético Papa viu nisso uma oportunidade para unir as Igrejas do Oriente e do Ocidente. Assim, para libertarem os lugares santos, os cristãos partiram para o Oriente em agosto de 1096. Deus seria o seu guia, a cruz branca o seu símbolo e os seus bens ficariam sob a proteção da Igreja. Com esta chamada ás armas, o Papa Urbano congregou as forças da Europa cristã para transformar peregrinos em Cruzados e, enquanto a peregrinação era apenas uma pequena viagem de um indivíduo, a Cruzada seria uma peregrinação maciça. Sendo assim, as pessoas em marcha não puderam deixar de ser consideradas descobridoras. Mas, na sua maior parte, não encontraram o que iam procurar e encontraram muito mais o que não tinham imaginado.
Os Cruzados constituíram um dos movimentos mais variados e indisciplinados da história. Pedro, o Eremita, foi um presságio de coisas que iriam acontecer. Ele ganhou esse apelido por usar uma capa de eremita, embora fosse uma pessoa que adorava multidões e sabia influenciá-las. Criou um corpo de agentes recrutadores e formou um exército heterogêneo de peregrinos na França. Quando chegou à Colônia (Alemanha) em abril de 1096 cerca de 15 mil peregrinos de todas as idades, tamanhos e sexos tinham aderido ao seu grupo.
A chegada da horda de Pedro a
Constantinopla gerou complicações, pois o grupo de Walter (o Pobre) se uniu a
ele e avançaram até a Cidade Santa, pilhando por onde passavam. Saquearam
aldeias, torturaram seus habitantes e assassinaram bebês em espetados na
fogueira. O imperador bizantino Aleixo I tentou persuadir aventureiros a
submeterem-se ao seu comendo, mas os mais ambiciosos pilharam para fundar novos
reinos. Estas forças cristãs derrotaram os Turcos e entraram triunfalmente em
Jerusalém em julho de 1099, terminando assim a 1ª Cruzada. Jerusalém foi
transformada rapidamente em um novo reino romano que, de início, tratou-se de
um movimento desordenado que durou dois séculos para tornar-se o caminho dos
peregrinos. Mas, em um aspecto tratou-se também do fim das Cruzadas, pois foi a
última expedição coroada de êxito para redimir os lugares santos.
Posteriormente, as Cruzadas apenas ajudavam os cristãos já estabelecidos no Oriente
e, após a queda de Jerusalém nas mãos de Saladino em 1187, os lugares santos
mais acessíveis do Ocidente passaram a atrair cada vez mais os peregrinos. Depois
que as Cruzadas terminaram as peregrinações continuaram sendo uma força viva da
cristandade europeia e, para muitos, Roma acabou substituindo Jerusalém. Em
1300, o Papa Bonifácio VII proclamou o 1º Ano Jubilar, quando ofereceu
indulgências especiais aos fiéis que visitassem Roma e atraiu assim mais de 20
mil peregrinos. No Islã, a peregrinação sempre foi um dever sagrado, pois todo
muçulmano era obrigado a visitar Meca pelo menos uma vez.
Meca foi um centro de
peregrinação de idólatras árabes bem antes de Maomé e, para lá, iam aqueles que
queriam fazer seu festival anual, além de dar boas-vindas ao ano que se
renovava. Meca jamais deixou de ser a meta dos peregrinos muçulmanos e se
transformou num sinônimo de qualquer meta de peregrinação. Também na Ásia, multidões
de fiéis descobriram o seu próprio mundo. Ninguém sabe exatamente como, por que
ou quando a cidade de Benares – a mais antiga do Mundo, segundo alguns – se
tornou sagrada, mas no século VII já possuía cerca de 100 templos. Os budistas
também ensinavam que o Parque dos Veados – em Sarnath, onde Buda pregara seu 1º
sermão – era um degrau para o Céu. O imperador indiano Asoka conduziu
peregrinações a todos os lugares sagrados budistas e, enquanto os visitava,
reparava antigos santuários (as stupas)
e construía novos. A Índia se tornou uma terra de lugares sagrados e, segundo
Buda, “todas as montanhas, rios, lagos e templos dos deuses são lugares que
destroem o pecado”. Dessa forma, multiplicaram-se os cultos de espíritos locais
e incontáveis sacerdócios. O malogro das Cruzadas foi uma bênção para a
cristandade e um catalisador da descoberta europeia do mundo oriental. A grande
instituição internacional organizadora do Islã continuava a ser a peregrinação,
que continuou a reunir-se em Meca, familiar bastião árabe-muçulmano.
Mas não havia nenhum lugar que
correspondesse ao retorno dos peregrinos; ou seja, nenhum local acessível de
regresso indispensável para todos os cristãos. Daí, sem nenhuma perspectiva de
reconquistarem Jerusalém e os caminhos que lá levavam, a cristandade ocidental
voltou-se para as missões. A peregrinação reunia os fiéis, mas as missões
estendiam os braços para o desconhecido, mesmo nas terras desconhecidas. Assim,
a história da expansão do Cristianismo foi uma história de missões. Claro que o
Islã – começando pelo próprio Profeta – era uma religião com grande vigor
proselitista e cada muçulmano era declarado um missionário. Mas, as missões
nunca foram tão bem organizadas nem largamente difundidas como as do
cristianismo. No Islã, o peregrino permaneceu um devoto da fé, cumprindo a
viagem ritual prescrita a um destino sagrado conhecido. Na moderna linguagem da
cristandade um peregrino ia a caminho de um estado misterioso de futura
felicidade.




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