Quanto Tempo Durou a Viagem de Marco Polo à China? Que Tipo de Comércio Florescia Entre a Europa e a Ásia Nessa Época? Por Que os Caminhos Por Terra Para o Oriente Foram Encerrados Após Marco Polo?
Marco Polo ultrapassou todos os
outros viajantes cristãos conhecidos com as suas experiências, com os
resultados obtidos e a influência exercida. Os franciscanos efetuaram a viagem
à Mongólia em menos de três anos e permaneceram nos seus papéis de
missionários. Mas, a viagem de Marco Polo durou 24 anos, indo da Mongólia até o
coração de Catai. Marco Polo atravessou a China inteira, caminhou até o oceano,
desempenhando vários papéis, chegando a ser confidente de Khan e até governador
de uma cidade chinesa. Ele estava à vontade na língua local e acabou
mergulhando na vida e na cultura de Catai. Para muitas gerações da Europa, a
sua narrativa dos costumes orientais foi a verdadeira “descoberta da Ásia”. Veneza
era um grande centro de comércio no Mediterrâneo. Marco Polo tinha apenas 15
anos quando seu pai e seu tio regressaram à Veneza de uma viagem de 9 anos ao
Oriente e, seu outro tio, também chamado Marco Polo, tinha comércios em
Constantinopla e na Criméia. Daí, Marco Polo inicia seu livro com um relato
destas viagens de seus parentes. Seus tios (Nicolo e Matteo) juntaram – em
Constantinopla – uma grande quantidade de pedras preciosas que levaram à corte
do filho de Gengis Khan (Barba), o qual não apenas tratou-os muito bem como
lhes comprou as pedras pelo dobro do seu valor. Eles resolveram levar seus
empreendimentos mais para oriente (em Bucara), onde conheceram alguns tártaros
que iam a caminho da corte do Grande Khan (Qubilai). Esses enviados persuadiram
os Polos de que Qubilai – que jamais vira qualquer latino – desejava vê-los e
os trataria com grande honra e liberalidade. Os enviados prometeram protegê-los
na viagem. Dessa forma, os irmãos Polo aceitaram o convite e após um ano de
viagem chegaram à corte de Qubilai Khan, o qual se revelou um homem de vasta
curiosidade, inteligência e desejoso de aprender tudo sobre o Ocidente. Khan
pediu aos dois irmãos que fossem seus enviados ao Papa e lhes pedissem 100
missionários instruídos nas 7 artes, para ensinarem a seu povo sobre
cristianismo e a ciência ocidental. Ele queria também um pouco de azeite da
candeia do Santo Sepulcro de Jerusalém.
Quando partiram, os irmãos
trouxeram consigo uma placa de ouro do Imperador que lhes permitia livre
passagem e, ao chegarem em Acre, tomaram conhecimento que o Papa havia morrido
e o sucessor (Gregório X) não ofereceu os 100 missionários pedidos, designando
apenas dois (2) frades dominicanos para acompanharem os irmãos Polo. Ao
regressarem à corte de Qubilai Khan (em 1271) levaram consigo seu sobrinho
Marco que estava destinado a tornar histórica sua viagem. Mas, no Mediterrâneo
oriental os dois dominicanos fugiram em pânico e, sozinhos, os três Polos
seguiram para Ormuz, na foz do Golfo Pérsico. Atravessaram o deserto pérsico de
Kerman para as montanhas de Badakchan e subiram cada vez mais, através das
terras glaciares a 6000 metros de altura. Essa elevação era chamada
corretamente pelos nativos de “Teto do Mundo”. “Abunda caça selvagem de toda espécie, existem grandes quantidades de
carneiros selvagens enormes, que os seus cornos chegavam a atingir 6 palmos de
comprimento e nunca menos de 3 ou 4. Desses cornos, os pastores fazem grandes
taças – das quais comem – e também cercas para comerem os seus rebanhos”. O
grupo descansou em Lop, uma cidade à margem do deserto onde os viajantes
geralmente se aprovisionavam para se fortalecerem contra o terror inspirado
pela travessia: _ “Animais selvagens e
pássaros não há nenhum, pois não encontram nada o que comer. Mas, asseguro-vos
uma coisa aqui encontramos coisas estranhas, as quais vos relato”: - “Quando
um homem, por qualquer motivo é obrigado a pernoitar nessas montanhas e depois
voltar aos seus companheiros, ouve espíritos falando de tal maneira que parecem
ser os seus próprios companheiros que, algumas vezes, até o chamam pelo nome”. Qubilai
Khan recebeu os venezianos com grande honra e, pressentindo os talentos de
Marco (já com 21 anos), Khan admitiu-o imediatamente ao seu serviço e mandou-o
numa embaixada a um país a 6 meses de distância. Não se sabe como Nicolo e
Matteo passavam seu tempo na corte de Khan, mas ao fim dos 17 anos tinham
adquirido grande riqueza em pedras preciosas e ouro e, cada ano que passava,
Qubilai Khan sentia maior relutância em perder os serviços de Marco Polo. Em
1292 foi necessária uma escolta para uma princesa tártara que deveria casar-se
com II-Khan da Pérsia e, Marco Polo, acabara de retornar de uma viagem à Índia.
Os enviados persas que conheciam a fama de mareantes dos venezianos convenceram
Qubilai Khan a autorizar os Polos a acompanhar e à noiva por mar, equipando-os
com 14 barcos, 600 tripulantes e provisões para dois anos.
Após uma traiçoeira viagem, com
apenas 18 tripulantes vivos, a princesa foi entregue sã e salva à corte persa e
afeiçoou-se tanto aos venezianos que chorou ao separar-se deles. Regressando à Veneza
em 1295 – após uma ausência de 24 anos – os Polos já eram considerados mortos
e, conta a tradição, que quando os três maltrapilhos desconhecidos apareceram,
parecendo mais tártaros do que venezianos, seus nobres parentes nem quiseram recebe-los.
Mas, a memória dos familiares avivou-se quando os miseráveis rasgaram as
costuras de suas vestes e revelaram seu tesouro: _ uma chuva de rubis,
diamantes e esmeraldas. Diante disso, eles foram recebidos afetuosamente,
abraçados e festejados com luxuoso banquete, onde a música e a jovialidade se
misturaram com exóticas reminiscências.
Mas, naquele tempo existia enorme
rivalidade entre Gênova e Veneza por causa do tráfego marítimo no Mediterrâneo
e, em setembro de 1298, uma batalha entre ambos os genoveses saíram vencedores,
fazendo 7 mil prisioneiros e entre eles Marco Polo. Levado acorrentado à uma
prisão, ele travou amizade com outro detento (Rustichello) que era escritor e
já gozava de certa fama. Embora não fosse um gênio literário era um mestre no
seu gênero. Viu nas reminiscências de Marco Polo matéria prima suficiente para
uma nova espécie de romance e convenceu o veneziano a cooperar. Aproveitando a
inatividade forçada e o fato de estarem presos juntos, o veneziano ditou um
relato copioso das suas viagens a Rustichello, que escreveu tudo. Não fosse
isso, talvez não tivéssemos hoje qualquer registro das viagens de Marco Polo e
sequer teríamos ouvido falar do seu nome. E, felizmente, Rustichello era um
escritor simpático ao grande viajante e soube fazer um romance capaz de
encantar o Mundo durante 700 anos. Claro que ele não resistiu à tentação de
adornar os fatos de Marco Polo com as suas próprias fantasias pessoais. Alguns
dos episódios mais pitorescos são adaptações de escritos anteriores do próprio Rustichello,
como por exemplo os extravagantes elogios que Qubilai Khan fez ao jovem Marco
quando ele chegou pela primeira vez à corte ou o que o Rei Artur disse quando
recebeu o jovem Tristão em Camelot.
Mas, não foi a primeira nem a
última vez que um escritor tornou um aventureiro famoso. Então, por que motivo
Marco Polo – que era letrado em várias línguas e devia ter escrito muito para
agradar a Qubilai Khan – não escreveu ele mesmo as suas aventuras pessoais? Se,
imediatamente após seu regresso à Veneza em 1295, tivesse tentado pelo contato
de um editor, talvez houvesse escrito o seu próprio livro. Mas, ainda
decorreriam dois séculos antes de a atividade editorial florescer. Rustichello
escreveu o livro em francês, o que na Europa daquela época era corrente entre
os laicos, assim como o latim o era entre o clero. Dessa forma, não tardou a
ser traduzido em outras línguas e dele existem ainda numerosos manuscritos.
Nunca antes – ou depois – um único livro forneceu tanta informação nova e
autêntica ou alargou tanto os horizontes de um continente.
A
Força do Império Mongol Desce a Cortina de Terra
Nas décadas dos pioneiros das viagens por terra houve entre a Europa e a Ásia um comércio florescente, embora especializado e em pequena escala. Dezenas de mercadores europeus devem ter chegado a essas remotas paragens, mas poucos deixaram relatos em primeira mão das suas viagens, além da família de Marco Polo. Uma sucessão de frades franciscanos deixou-nos um registro de comunidades de europeus em cidades chinesas. Um dos mais empreendedores foi o franciscano João de Montecorvino que, enviado pelo Papa Nicolau IV em 1289, chegou a Pequim em 1295. Na Catedral de Pequim ele batizou cerca de 6000 citadinos, organizou e ensaiou um coro de 150 rapazes. Frei João foi nomeado arcebispo de Cambaluque (em Pequim) e passados poucos anos recebeu três bispos para o ajudarem. Outro frade franciscano (Odorico Pordenone) narrou fatos pitorescos da sua vida na China, os quais não foram narrados por Marco Polo como o hábito de deixarem crescer as unhas das mãos e a tradição de enfaixar os pés das mulheres.
Quando o frade João Matignolli
chegou a Pequim em 1342, verificou que o arcebispo da cidade tinha uma
residência apropriada à sai elevada hierarquia e todo o clero cristão “recebia
a sua subsistência da mesa do Imperador da maneira mais honrosa”. A maior parte
da narrativa de João Matignolli é dedicada a uma descrição minuciosa do Paraíso
e do Jardim do Éden – em Ceilão – com as suas encantadoras montanhas, fontes e
rios. Em 1340, Francesco Pegolotti – agente de uma família de banqueiros –
elaborou um manual para viajantes e mercadores que nos dá pistas de um
florescente comércio. Ele informa as distâncias entre lugares e os perigos
locais, pesos, medidas, preços, taxas de câmbio, regulamentos alfandegários,
sugestões práticas sobre regulamentos alfandegários, o que comer, o que não
comer e onde dormir.
Mas, esse tempo de ativo tráfego
terrestre entre as extremidades da Terra não durou muito, pois João de
Montecorvino seria o primeiro e o último arcebispo de Pequim. Seu sucessor
(nomeado pelo Papa em 1333) parece nunca ter chegado ao seu destino. Os
caminhos por terra para o Oriente foram abruptamente encerrados decorridos
apenas um século. A força do imenso Império Mongol abriu a passagem terrestre
europeia para a Índia e para a China e, durante esses anos, se alguns europeus
foram para o Oriente, alguns chineses também vieram para o Ocidente. Eles
trouxeram cartas de jogar, porcelanas, têxteis, temas de arte e estilos
mobiliários que moldaram a vida das classes superiores europeias. E, algumas
coisas como papel moeda, impressão e pólvora abalaram a Mundo. Essas novidades
chegaram ao Oriente Médio diretamente e, depois, à Europa indiretamente,
através dos árabes e de outros. Ideias tão importantes foram postas em prática
por muito poucos.
Os Mongóis descobriram que o
império que tinham conquistado a cavalo não podia ser governado a cavalo e, por
isso mesmo, precisavam de uma complexa administração para o seu vasto império.
No interior da China, eles eram invasores estrangeiros, sendo sempre difícil
controlar o povo e, por isso mesmo, eles colocavam a si mesmos – ou a outros
estrangeiros como Marco Polo, por exemplo – em postos governamentais
importantes. Mas, os Chineses com sua antiga tradição, tecnologia desenvolvida
e requintado cerimonial, descobriram muitas razões para condenar seus
conquistadores bárbaros. Os Mongóis não tinham o hábito de tomar banho e por
isso cheiravam tão mal que os chineses não se aproximavam deles. “Lavam-se com
urina” – disse um historiador chinês. Marco Polo se sentia intimidado com a
implacabilidade e o vigor dos soldados mongóis, que bebiam leite de égua, quase
não transportavam bagagem e eram os mais aptos para suportar esforço e
dificuldades e os mais baratos de manter – e por isso os melhores adaptados
para conquistar territórios e derrubar reinos. Esses soldados mongóis tinham se
tornado degenerados e ele observou o incômodo dos chineses ao viajar pelo país.
Todos os costumes dos senhores mongóis irritavam os confucionistas
tradicionais.
Em meados do século XIV, a fome
no norte da China e as cheias do rio Amarelo aumentaram os problemas mongóis,
pois houve rebeliões em todo o país. Toghon Khan – o último dos imperadores
mongóis – subiu ao trono em 1333, levando consigo dez amigos íntimos para o
palácio em Pequim, onde adaptaram os exercícios secretos da tantra budista
tibetana e os transformou em orgias sexuais. Foram mandadas mulheres de todo o
Império a fim de participarem de funções que prolongavam a vida, “fortalecendo
os homens com os poderes das mulheres”. As famílias de gente comum ficavam
satisfeitas por receberem ouro e prata e os nobres também ficavam satisfeitos e
diziam: “como podemos resistir, se o senhor deseja escolhê-las? ” Mas, o povo
resistia às extravagâncias e o clímax chegou em 1368, quando Hong Wu – um
autodidata de talento – emergiu como líder da rebelião chinesa para fundar a
dinastia Ming.
Os nativos tinham organizado a
rebelião mesmo debaixo dos olhos dos Mongóis. Nos últimos anos de domínio, os
mongóis colocavam informantes em quase todas as famílias e proibiram as pessoas
de se reunir em grupos. Os Chineses não estavam autorizados a usar armas, o que
significava que só uma família em dez tinha permissão para possuir uma simples
faca. Mas, os Mongóis tinham se esquecido de suprimir o costume chinês de
trocar bolos domésticos decorados com imagens da Lua – e que tinham dentro um
papel. Na verdade, os Chineses utilizavam esses inocentes bolos como
mensageiros, onde continha instruções para uma rebelião, na qual os Mongóis
foram chacinados na Lua Cheia de agosto de 1368.
Em vez proteger seu patrimônio
Toghon Khan fugiu com a imperatriz e suas concubinas para seu palácio em
Xanadu, onde encontrou a morte. Entretanto, príncipes e generais mongóis
lutavam uns contra os outros e o Império Mongol se desmoronava. No ano do
levante em Pequim, o Tamerlão consumava o 1º estágio do seu plano para a
conquista do Mundo. O Império Tamerlão, que seria imenso por qualquer outro
padrão, era apenas uma região do reino de Gengis Khan, embora dominasse as
rotas terrestres para o Oriente. O desmembramento do Império Mongol interrompeu
as rotas de passagens seguras, mas o Tamerlão manteve aberta a passagem no seu
reino por onde os europeus podiam chegar até a Pérsia. A passagem de europeus
para Catai estava fechada e até as notícias de catai se tornaram raras na
Europa. O próprio Papa não conseguia saber o que se passava em Pequim, embora
ele continuasse a nomear bispos de Pequim muito depois de não haver nenhuma
esperança de eles conseguirem chegar a sua sé. E, mesmo que um europeu chegasse
ás fronteiras de Catai, não o deixavam entrar, pois os novos soberanos chineses
– com suas recordações da tirania estrangeiras ainda frescas – voltaram ao seu
antigo isolamento.
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