Como Evoluiu a Exata Compreensão da Economia? O Que David Ricardo Entendia Ser o Objeto de Estudo da Economia? Por Que a Posição Mais Recente Sobre a Economia é Uma Síntese das Posições dos Séculos Anteriores?
Introdução
A Ciência Econômica não possui um objeto de estudo
estático; sua definição e seu foco central foram moldados pelas transformações
históricas, sociais e políticas ao longo dos séculos. Compreender essa evolução
é fundamental para analisar como a sociedade organiza a produção, a circulação
e a distribuição de seus recursos. Este trabalho tem como objetivo apresentar a
trajetória do pensamento econômico desde as suas origens modernas no século
XVIII até as dinâmicas contemporâneas, evidenciando como as diferentes escolas
teóricas responderam aos desafios de suas respectivas épocas.
A análise parte da transição entre a visão clássica de Adam Smith — focada na criação e natureza da riqueza das nações — e a abordagem de David Ricardo, que deslocou o eixo central da disciplina para as leis que regem a repartição dessa riqueza entre as classes sociais. Na sequência, examina-se a ruptura e síntese promovidas por John Maynard Keynes no século XX, que redirecionou o olhar econômico para o emprego, a renda nacional e as flutuações da atividade produtiva. Por fim, demonstra-se como a Economia moderna consolidou um objeto duplo que unifica o desenvolvimento e a distribuição, preparando o terreno para a compreensão dos desafios que se impõem nos tempos atuais.
Histórico da Evolução
Historicamente, a exata compreensão da Economia
evoluiu desde as primeiras escolas econômicas do século XVIII até os dias
atuais e, para Adam Smith, o objeto da Economia era empreender pesquisas sobre
a natureza e as origens da riqueza das nações. Essa percepção prevaleceu até
David Ricardo, que procurou desviar o objeto da Economia para o terreno das
investigações sobre a repartição da riqueza. Em 1820, David Ricardo escreveu
que não se podia submeter a nenhuma lei a quantidade das riquezas produzidas,
mas poderia enunciar uma lei que se referisse satisfatoriamente à sua
repartição. E, cada vez mais, ele se convencia de que o 1º estudo era uma vã
ilusão e de que o 2º era o verdadeiro objeto da Ciência Econômica. Ele entendia
que esse objeto deveria centralizar-se no estudo da repartição da riqueza,
divergindo de Smith, para o qual a Economia tinha por objeto o estudo da formação
da riqueza.
Essas duas posições – particularmente a de
Ricardo – foram melhor definidas pelos discípulos da Escola Clássica inglesa e
delas não se afastaram os economistas das demais escolas do pensamento
econômico, que se desenvolveram no período entre o aparecimento da obra de
Smith e a publicação de John Maynard Keynes, em 1936. Porém, Keynes adotou um
3º caminho, procurando mostrar que o objeto da Economia deveria centralizar-se
na pesquisa das forças que governam o volume da produção e do emprego em seu
conjunto. Keynes retomou um dos caminhos clássicos ao se colocar no plano da
produção, mas ele superou o plano de Smith ao tratar dos fatores determinantes
das flutuações da Renda Nacional e do volume do emprego. A partir disso, ele
deslocou o objeto central da Economia para a análise das flutuações da
atividade econômica. A correção dos ajustamentos e desequilíbrios parecia ser a
preocupação fundamental das Ciências Econômicas, naquela época.
Após a 2ª Guerra, o objeto da Economia
sofreu nova revisão e a análise das flutuações cedeu lugar ao exame das
condições necessárias à promoção do desenvolvimento econômico das nações. Ao
mesmo tempo, os economistas se voltaram para o exame da extensão dos benefícios
do progresso à coletividade empenhada na sua promoção. Em resumo, pode-se dizer que, enquanto os
teóricos do século XVII cuidavam da formação das riquezas e os do século
seguinte da sua repartição, os economistas modernos preferiram se dedicar a um
objeto duplo, resultante, de um lado, do estudo das flutuações da atividade
econômica e da promoção do desenvolvimento e, de outro lado, das investigações
sobre a repartição da riqueza.
Assim, a posição mais recente parece ser
uma síntese das posições dos séculos anteriores, pois os economistas
contemporâneos cuidam da formação da riqueza e do desenvolvimento, com o mesmo
empenho com que se dedicam às questões ligadas à repartição. A promoção simultânea do progresso e da
repartição de seus frutos da atividade econômica (através da busca do
equilíbrio dos níveis do emprego e dos preços), embora não tenham a importância
que da década de 30, não foram inteiramente afastadas das preocupações da
Ciência Econômica. Todavia, o enfoque principal da análise contemporânea está
voltado para o binômio desenvolvimento / repartição.
O tratamento desse binômio se mantém ligado à dicotomia “escassos recursos” e “necessidades ilimitadas”, em que se baseiam as definições contemporâneas da Economia. A preocupação com o desenvolvimento está ligada ao aproveitamento ótimo dos escassos recursos disponíveis. E a maior eficiência nos domínios da “repartição” mostra-se relacionada com a extensão dos frutos do desenvolvimento às diversas camadas sociais mobilizadas em sua promoção. Isto equivale a uma inter-relação formal entre a repartição e as necessidades ilimitadas, no sentido de que as estruturas de repartição da riqueza puderam ser mais igualitárias. Assim, pode-se dizer que existem ligações formais entre as bases das definições contemporâneas e os fundamentos do binômio que parece consubstanciar o objeto da moderna Economia.
O Objeto da Economia nos Tempos Atuais
Para compreender o objeto da Economia nos tempos
atuais, é indispensável resgatar a trajetória teórica que consolidou a
disciplina. Como observado nos capítulos anteriores, a Ciência Econômica
moveu-se em um pêndulo epistemológico. Iniciou-se com a preocupação de Adam
Smith acerca da formação e das origens da riqueza; migrou para a insistência de
David Ricardo em colocar as leis de repartição no centro da análise; e foi
profundamente reconfigurada por John Maynard Keynes, que introduziu o exame
macroeconômico das flutuações da atividade, do nível de emprego e da renda
global. A síntese pós-Segunda Guerra Mundial unificou essas vertentes no
binômio desenvolvimento/repartição. Hoje, nos tempos atuais, o objeto da
Economia expande e aprofunda esse binômio diante de uma realidade globalizada,
tecnológica e crescentemente pressionada por limites físicos e sociais.
O objeto da Economia contemporânea permanece
formalmente amarrado à clássica dicotomia entre as necessidades humanas
ilimitadas e os recursos escassos. No entanto, a definição de
"recursos" e "eficiência" ganhou novas camadas. Se no
período pós-guerra o desenvolvimento estava atrelado quase exclusivamente ao
crescimento quantitativo do Produto Interno Bruto (PIB) e ao aproveitamento
ótimo dos fatores tradicionais de produção (capital e trabalho), a Economia
atual reconhece que os recursos naturais não são apenas escassos, mas finitos e
degradáveis. Desse modo, o estudo das forças que governam a produção precisa,
obrigatoriamente, internalizar as externalidades ambientais. O objeto atual da
Economia engloba, portanto, a busca por um desenvolvimento que seja
sustentável, onde a alocação de recursos escassos deve garantir a sobrevivência
e o bem-estar das gerações presentes e futuras.
Paralelamente, a dinâmica da "repartição"
— defendida historicamente por Ricardo e refinada pelos economistas modernos —
adquiriu contornos de extrema urgência na atualidade. A promessa de que o
crescimento econômico, por si só, distribuiria seus frutos de forma orgânica e
automática para a coletividade foi amplamente questionada pela evidência
empírica. Nos tempos atuais, o objeto da Economia dedica-se intensamente a
investigar as causas e as consequências da profunda desigualdade de renda e de
riqueza, exacerbada pela financeirização global e pela automação tecnológica. A
análise contemporânea estuda como a assimetria na distribuição de frutos do
progresso econômico afeta a estabilidade social e a própria sustentabilidade do
crescimento a longo prazo.
A tecnologia e a digitalização da atividade
econômica também redefiniram o escopo da disciplina. O advento da economia da
informação, dos algoritmos e da inteligência artificial transformou a maneira
como o trabalho é empregado e como a renda é gerada. O desemprego estrutural e
as novas formas de relações trabalhistas exigem que as teorias de flutuação de
emprego e preços, herdadas do pensamento keynesiano, sejam constantemente
atualizadas. A regulação de mercados digitais e o papel do Estado na governança
de dados tornaram-se tópicos centrais da agenda econômica contemporânea.
Em suma, o objeto da Economia nos tempos atuais reflete a inter-relação formal e indissociável entre o crescimento, a preservação e a justiça social. A Economia contemporânea não escolhe entre Smith, Ricardo ou Keynes; ela atua na interseção deles, operando sob o entendimento de que a eficiência macroeconômica na produção perde seu sentido se não for acompanhada por uma estrutura de repartição igualitária e inclusiva, capaz de atender às necessidades ilimitadas da sociedade de forma justa e equilibrada.
Conclusão
A evolução histórica do pensamento econômico
demonstra que o objeto da Economia não é uma fórmula fixa, mas uma resposta
intelectual às crises e demandas de cada época. A trajetória percorrida desde
as investigações de Adam Smith sobre a natureza da riqueza até as formulações
contemporâneas revela um processo de acumulação e síntese teórica. A transição
do foco na produção para a repartição com Ricardo, e posteriormente para as flutuações
macroeconômicas com Keynes, culminou no binômio moderno de desenvolvimento e
distribuição que rege as bases atuais da ciência. Conclui-se que, nos tempos
atuais, a Economia se consolidou como uma ciência integrada, onde a dicotomia
fundamental entre escassez e necessidades ilimitadas precisa ser gerida com
responsabilidade social e socioambiental. O grande desafio da Economia
contemporânea reside em operacionalizar o aproveitamento ótimo dos recursos
produtivos em um cenário de rápidas transformações tecnológicas e climáticas,
assegurando que o progresso técnico e o crescimento econômico resultem em uma
divisão equitativa dos benefícios para toda a coletividade.
Referências
Bibliográficas
KEYNES, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego,
do Juro e da Moeda. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Original publicado em
1936).
RICARDO, David. Princípios de Economia Política
e Tributação. São Paulo: Nova Cultural, 1996. (Original publicado em 1817).
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: Investigação
sobre a sua Natureza e suas Causas. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
(Original publicado em 1776).
SOUZA, Nali de Jesus de. Introdução à Economia.
3. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
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