Que Reflexões a Empresa Deve Realizar a Fim de Definir Sua Visão? Na Formulação da Missão Que Perguntas Devem Ser Respondidas? Como Devem Ser Entendidos os Valores, Princípios ou Credos de Uma Organização?
Introdução
O delineamento da identidade organizacional constitui o alicerce fundamental do planejamento estratégico de qualquer empresa. Historicamente, a tríade composta por Missão, Visão e Valores (MVV) foi consolidada na literatura administrativa clássica como um conjunto de diretrizes estáticas, frequentemente registradas em quadros nas recepções corporativas, cuja principal função era formalizar o propósito e as aspirações de longo prazo da firma. No entanto, o ambiente de negócios contemporâneo, caracterizado pela volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (o chamado cenário Vuca/Bani), bem como pela aceleração da transformação digital e pela urgência climática, impôs uma severa ressignificação a esses conceitos.
O que há uma década operava sob uma perspectiva
puramente linear e estritamente voltada para os acionistas, hoje exige uma
abordagem dinâmica, adaptável e orientada a múltiplos stakeholders. A
missão de uma empresa já não pode se limitar a descrever seu escopo comercial;
ela precisa espelhar seu impacto social e ético. Da mesma forma, a visão de
futuro encurtou seus horizontes temporais devido às disrupções tecnológicas,
enquanto os valores organizacionais migraram de uma lista de desejos platônicos
para se transformarem no DNA comportamental e cultural prático, testado
diariamente pelo crivo das redes sociais, da governança corporativa e das
exigências de ESG (Environmental, Social, and Governance).
Este artigo se propõe analisar a formulação e a relevância prática da
Missão, da Visão e dos Valores nas organizações modernas. O objetivo é
responder a questionamentos cruciais: de que forma o conceito de visão expressa
o destino de uma empresa e quais reflexões são necessárias para construí-lo?
Quais perguntas fundamentais balizam uma missão de alto impacto? E como os
valores e credos devem ser operacionalizados para guiar as decisões gerenciais
em um mercado hiperconectado? Ao revisar as teorias tradicionais sob a ótica
das demandas contemporâneas, busca-se demonstrar que a diretriz identitária não
é um mero exercício burocrático, mas sim o principal vetor de engajamento,
inovação e sustentabilidade das organizações que pretendem prosperar no século
XXI.
O Que Expressa o Conceito de Visão Organizacional?
Estudiosos em Administração vêm afirmando que a VISÃO
é uma explicação do que se idealiza para uma empresa; ou seja, o conceito de
visão expressa a maneira pela qual a organização deseja ser reconhecida futuramente.
Seria uma espécie de sonho que deve ser viável na implementação e ter conteúdo
inspirador e positivo, o qual motive toda a empresa em torno da construção do
futuro almejado.
A visão funciona como uma perspectiva de longo
prazo superior aos objetivos tradicionais, exigindo reflexões estratégicas
sobre reconhecimento futuro, desafios internos, expectativas de stakeholders,
atuação junto aos clientes e novas oportunidades de mercado.
Assim,
pode-se dizer que a VISÃO não precisa estar registrada em cada sala. O mais
importante é que ela tenha sido discutida por todos, pois a percepção do futuro
da empresa não é igual para todos e cada integrante tem o seu sonho e
objetivos. O desafio é fazer com que todos tenham oportunidade de participar da
elaboração da VISÃO da organização e, após a definição, deve-se compartilhá-la
com todos os membros e implementá-la. As características fundamentais para essa
implementação são:
·
A
visão deve deixar claro se já conseguimos atingi-la ou não, estabelecendo
direção e foco.
·
A
visão é idealizada pelo líder, mas deve ser compartilhada, reconhecida e
apoiada pela empresa.
·
A
visão deve ser definida de forma positiva e alentadora.
Missão: o Propósito da Existência da Organização
A MISSÃO é a razão da existência de uma organização, tornando-se a função que ela desempenha no mercado de forma a tornar útil sua ação e justificar seus lucros – do ponto de vista dos acionistas e da sociedade em que atua. Ela é uma declaração de propósitos ampla e duradoura que distingue a empresa em relação a outras que atuem no mesmo ramo de negócios. Assim como na declaração de visão, a missão deve ser de fácil compreensão e precisa conter as principais referências que nortearão as definições estratégicas da empresa. Na formulação da missão, deve-se responder às seguintes perguntas:
·
Qual
é o negócio da organização?
·
Que
é o seu cliente?
·
Qual
é o escopo da empresa?
·
Qual
a sua vantagem competitiva?
·
Qual
a sua contribuição social?
Segundo
Peter Drucker, elaborar a missão de uma empresa é difícil e arriscado, mas só
assim se consegue estabelecer políticas, desenvolver estratégias, concentrar
recursos e começar a trabalhar. Para ele, só assim uma organização pode ser
administrada visando um ótimo desempenho.
Mas,
a definição de missão envolve aspectos mais amplos que o lucro de uma
organização. Na sua elaboração, trabalha-se com a diretriz de que o lucro não é
a explicação, a causa ou único fundamento das decisões e comportamentos da
empresa e, sim, o seu teste de validade.
Os Valores da Organização
São as crenças básicas utilizadas para a tomada de decisões que, segundo Serra, Torres e Torres, os valores organizacionais são os princípios de orientação perenes e essenciais que são intrínsecos somente para os membros da organização. A empresa decide por si seus valores, como honestidade e eles não devem mudar para reagir a efeitos externos. Dessa forma, os valores ou princípios ou credos podem ser entendidos como ideais a serem seguidos e, por isso mesmo, muitas vezes incluem frases e conceitos que nem sempre são passíveis de serem cumpridos.
No
entanto, essa circunstância não faz com que os valores fiquem sem validade,
pois é muito melhor ter uma lista dos ideais a serem seguidos do que não
nortear a empresa com crenças básicas. Sendo assim, os líderes são os
patrocinadores pela prática cotidiana dos valores da organização, pois os
valores precisam ser transformados em comportamentos e atitudes. Outro fator
importante é que os valores precisam ser consistentes com a história e a
cultura da empresa.
REFERÊNCIAS
1.
Estratégia e Inovação:
CHRISTENSEN, Clayton M. O Dilema da Inovação (Edições recentes/Legado sobre
disrupção).
COLLINS, J; PORRAS, J. “Feitas Para Durar”. Rio de Janeiro: Rocco, 1995
KIM, W. Chan; MAUBORGNE, Renée.
A Transição para o Oceano Azul (2017).
SERRA, F. TORRES, M.S.C., TORRES, A. P. “Administração
Estratégica”. Rio de Janeiro: Reichmann & Affonso, 2002.
2. Cultura Organizacional e Gestão Ágil:
DOERR, John. Avalie o que importa: Como o Google, a Bono Vox e a Fundação
Gates mudaram o mundo com os OKRs (2018).
SINEK,
Simon. Comece pelo Porquê e O Jogo Infinito (2019).
3.
Liderança e Futuro do Trabalho:
BROWN, Brené. A Coragem para Liderar (2018).
REED, Hastings; MEYER, Erin. A
Regra é Não Ter Regras: A Netflix e a Cultura da Reinvenção (2020).

