segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Temor às Montanhas na Idade Média

Por Que as Montanhas Eram Uma Afronta à Conquista da Natureza Pelo Homem? Qual Foi o Grande Obstáculo à Descoberta da Forma da Terra, dos Continentes e dos Oceanos? Por Que Onde Não Havia Montanhas Naturais os Povos Construíam Artificiais?


 


 

Muito antes de os homens pensarem em conquistar as montanhas, elas já tinham conquistado os homens e, nas palavras do primeiro conquistador do monte Matterhom, eram uma afronta à conquista da Natureza pelo homem. Toda montanha relativamente alta era idolatrada pelas pessoas que viviam à sua sombra e, inspirados pelo Himalaia, o povo da Índia Setentrional imaginava uma montanha ainda mais alta para o Norte – que chamavam de Meru. Os Hindus – e depois os budistas – tornaram isso uma mística e consideravam montanhas de mais de 135 mil km de altitude como a “residência dos deuses”. Para eles, a montanha Meru era a central do universo e o eixo vertical do cosmo, “onde estava rodeada por 7 anéis concêntricos de montanhas à volta dos quais giravam o Sol, a Lua e os planetas”. E, entre o sétimo e um oitavo anel exterior ficavam os continentes da Terra. Segundo as escrituras hindus, na montanha de Meru há rios de água doce correndo nela e belas casas douradas habitadas pelos seres espirituais. A tradição budista afirmava que “Meru ficava entre quatro mundos, nas quatro direções cardeais, que é quadrada na base e redonda no cume, que tem a altura de 80 mil “yojanas”, metade da qual sobe para o céu, enquanto a outra metade mergulha na terra. Este lado que está próximo do nosso mundo é constituído por safiras azuis, razão pela qual o céu nos parece azul e os outros lados são de rubis e gemas amarelas e brancas. Assim, a montanha Meru é o centro da Terra”. Os Japoneses tinham no monte Fuji (vulcão sagrado e montanha mais alta do Japão) um deus que lhes dominava a paisagem e jamais deixou de ser celebrado na sua arte.

No Ocidente, os Gregos diziam que o seu Olimpo – erguendo-se a 2700 metros acima do Egeu e envolto em nuvens – proporcionava privacidade aos deuses. “Nunca é varrido pelos ventos nem tocado pela nuvem e cerca-o um ar mais puro, envolvendo-o uma claridade branca”, escreveu Homero. Eles estavam convencidos de que o Olimpo era a montanha mais alta do mundo, tanto que o poeta completou afirmando: “No princípio, depois de Cronos ter completado a sua criação do Mundo, os seus filhos tiraram a sorte para repartir o seu império, e Zeus ganhou as etéreas alturas, Poseidon recebeu o mar e Hades calharam as negras profundezas da Terra. Enquanto Hades ficava sozinho embaixo, Zeus permitia que outros deuses compartilhassem a sua morada no Olimpo”. Onde não havia montanhas naturais, os povos construíam montanhas artificiais e os mais antigos exemplos são as pirâmides em escala (os Zigurates) da antiga Mesopotâmia. Zigurate significava tanto o cume de uma montanha como uma torre em escada feita pelo homem. O enorme monte piramidal da Babilônia (90 metros de lado e outros tantos de altura) tornou-se famoso como a Torre de Babel. Embora de longe o efeito fosse o de uma pirâmide de escada, o Zigurate foi descrito por Heródoto (em 460 a. C) como um amontoado de torres sólidas, cada uma ligeiramente menor do que aquela sobre a qual assentava. “Ninguém lá passa a noite, a não ser uma mulher daquele país, designada pelo próprio deus, segundo me disseram os Caldeus, que são os sacerdotes dessa divindade”.

A Torre de Babel se tornou um símbolo do esforço humano para chegar ao céu e invadir o território dos deuses. Dizia-se que o Zigurate era o feitio terreno da escada que o patriarca Jacob (neto do Abraão mesopotâmico) viu: “Vejo uma escada apoiando-se na terra e o seu topo chegou ao céu, e olhai os anjos de Deus subindo –a e descendo-a”.

O fato é que em toda Mesopotâmia o povo sentia a necessidade de uma montanha artificial para subir até os deuses e permitir que os deuses descessem até aos homens. No vale do Rio Nilo ainda se pode ver algumas das montanhas artificiais mais duráveis. O monte primevo – o lugar da criação da vida – se revestia de uma força especial para os Egípcios, pois todos os anos quando a cheia do Nilo recuava, apareciam montes de lodo recém-sedimentados, férteis de vida nova e, por isso mesmo, todos os anos os Egípcios reviviam a história da criação. No Tibete, os lamas todos os dias ofereciam aos budas o seu próprio modelo da Terra _ o seu montinho de arroz era a montanha de Meru. O Buda deu instruções para que os seus ossos, após a cremação, fossem colocados num monte no cruzamento de quatro caminhos, a fim de simbolizar o reino universal dos seus ensinamentos. A maior e mais imponente dessas montanhas budistas artificiais é a grande stupa de Borobudur (Século VIII d. C.) em Java. Acima de 5 terraços murados erguem-se 3 plataformas redondas com 72 stupas menores, contendo cada qual seu Buda e uma stupa maior se sobrepõe a todas elas. Do outro lado do mundo, ergueram-se pirâmides mais simples, símbolos do temor universal das montanhas. No Vale do México, os Toltecas ergueram a sua Pirâmide do Sol com 2/3 da altura da Torre de Babel, em Teotihuacán. Na Península plana de Yucatán, os Maias ergueram as suas pirâmides templos em Chichén Itza.

   

Cartografando o Céu e o Inferno

 

O grande obstáculo à descoberta da forma da Terra, dos continentes e oceanos não foi a ignorância, mas a ilusão do saber. A imaginação representa em traços ousados, servindo esperanças e medos, enquanto avançavam lentamente o saber e o conhecimento. Aldeões que temiam subir as montanhas localizavam seus entes falecidos nas impenetráveis alturas celestes. Os corpos celestes eram exemplos de desaparecimento e renascimento. O Sol morria todas as noites e renascia todas as manhãs, enquanto a Lua era recém-nascida todos os meses. Era essa Lua o mesmo corpo celeste que reaparecia a cada “renascimento”? Eram as estrelas realmente as mesmas que se apagavam todas as alvoradas? Talvez cada um de nós pudesse extinguir-se e, apesar disso, renascer. Sendo assim, não surpreende que os corpos celestes (especialmente a Lua) fossem associados com a ressurreição dos mortos. Tentaremos ilustrar esses conceitos da Grécia e da Roma antigas com algumas advertências de que eles não se confinaram no Mediterrâneo, nem no mundo europeu: na mais remota antiguidade grega, Hécate (deusa da Lua) era invocadora de fantasmas e rainha das regiões infernais.

Os frios raios da Lua corrompiam a carne dos mortos e ajudavam a desalojar a alma, que era liberta da sua prisão terrena e podia ascender ao Céu. Os antigos sírios tentavam acelerar esse processo com sacrifícios nos seus túmulos na noite em que os raios da Lua eram mais potentes. Na Igreja do Oriente, as datas dos rituais dos mortos eram fixadas de modo a explorar essas esperanças. O crescente lunar – símbolo da imortalidade – adornava monumentos fúnebres dos antigos babilônicos e em países célticos, assim como em toda a África. Em Roma, por exemplo, os sapatos dos senadores eram adornados com crescentes de marfim, os quais eram interpretados como um símbolo do seu espírito puro, visto que as almas nobres serem transportadas para o Céu depois da sua morte, a fim de caminharem na Lua. Assim, o voo de almas para a Lua não era uma simples metáfora, pois segundo os estoicos a Lua estava rodeada por uma zona de qualidades físicas especiais. Daí a alma subia naturalmente através do ar na direção dos fogos do Céu. Talvez cada pessoa tivesse a sua própria estrela que se acendia no seu nascimento e se extinguia na sua morte. Então, uma estrela cadente podia significar a morte de alguma pessoa. Se – como muita gente pensa – a alma liberta do corpo se transforma numa ave voando desta terra, não seria natural que as almas pousassem nos corpos celestes?

Assim, a multidão de estrelas poderia ser explicada pelas incontáveis gerações de mortos. A Via Láctea – considerada por muitos a “estrada das almas que partiam” – era um desses aglomerados de inúmeros espíritos que tinham abandonados os corpos. Pessoas que estavam de acordo em poucos fatos a respeito de regiões remotas da Terra concordavam – sabe-se lá por que – com relação à geografia do outro mundo. Mesmo quando a maior parte da superfície da Terra ainda era desconhecida, o Mundo Subterrâneo era descrito minuciosamente. A prática de sepultar os mortos na terra tornava natural que as pessoas pensassem que os que morriam iam habitar o Mundo Subterrâneo. Portanto, uma topografia subterrânea parecia tornar essa vida além da morte possível e até plausível. A vida no Mundo Subterrâneo era uma extensão da vida cá em cima, o que explica por que os guerreiros eram sepultados com suas armas e suas mulheres, por que as ferramentas acompanhavam os artesãos na sepultura e por que as donas de casa iam para a cova com seus utensílios de cozinhar. Assim, a vida na terra podia continuar debaixo da terra.

No século VI a. C. os Gregos criaram a mitologia de um “dia do juízo final”, uma escatologia [[1]] atraente que ainda pode ser vista nos seus vasos com figuras pretas. Muitos livros de povos antigos sobre a descida do homem para Hades (Inferno) concordam na topografia das regiões infernais, como se descrevessem uma paisagem bem próxima. No Mundo Subterrâneo dos Gregos, os juízes – de cuja sentença não havia recurso – enviavam os maus para a esquerda, através de um rio de fogo para as torturas de Tártaro, e os virtuosos pela estrada do lado direito, na direção dos Campos Elísios. Seria a Terra suficientemente grande para conter um Tártaro, onde coubessem todos aqueles que tinham merecido sofrer seus castigos? Talvez as regiões infernais se devessem encontrar não debaixo da terra, mas sim na metade inferior do globo terrestre, no hemisfério sul. Parece que na Grécia a topografia do Mundo Subterrâneo era aceita pela população ou, pelo menos, não era ativamente rejeitada. Não podemos ter certeza de quantas inscrições em túmulos eram meras metáforas.

O maior geógrafo cristão do Céu e do Inferno foi o maior poeta italiano (Dante Alighieri), cuja viagem ao outro mundo foi uma peregrinação a cenas familiares antigas. A força da sua obre (“A Grande Comédia”) foi multiplicada porque não foi escrita em latim, mas em italiano, uma modesta língua falada até por donas de casa. A experiência emocional dominante da sua vida foi a morte da sua Beatriz, quando ele tinha apenas 25 anos, o que o instigou a passar a maior parte da sua vida escrevendo um poema épico sobre o outro mundo para onde ela fora. A obra de Dante é uma epopeia que conta a viagem do autor através dos reinos dos mortos. Cem cantos abrangem o “estado das almas depois da morte” na viagem guiada de Dante através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. Dante traduziu a erudição medieval num panorama da vida após a morte.

 

 

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([1])  Ramo da teologia que estuda as "últimas coisas" ou o fim dos tempos

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Seria o Relógio a “Mãe” das Máquinas?

Por Que os Primeiros Fabricantes de Relógios Acabaram se Tornando os Primeiros Fabricantes de Instrumentos Científicos? Onde Funciona o Relógio Mais Antigo do Mundo? Por Que Se Diz Que o Universo de Newton Promoveu Deus de Relojoeiro a Mestre Mecânico e Matemático?




 

Precisamente porque o relógio não começou por ser um instrumento prático e feito para corresponder a um único objetivo, é que ele estava destinado a ser “a mãe das máquinas”. O relógio derrubou as muralhas entre os tipos de conhecimento, engenho e perícia e os fabricantes de relógios foram os primeiros a aplicar – de forma consciente – as teorias da mecânica e da física no fabrico de máquinas ([1]). O progresso veio da colaboração de cientistas – Galileu, Huygens, Hook e outros – com artesãos e mecânicos. Como os relógios foram as primeiras máquinas de medição de tempo modernas, os fabricantes acabaram se tornando fabricantes de instrumentos científicos. O duradouro legado dos relojoeiros pioneiro foi a tecnologia básica das máquinas-ferramentas e os dois principais exemplos são a engrenagem (ou roda dentada) e o parafuso. 

A introdução do pêndulo – primeiro por Galileu e depois por Huygens – tornou possível que os relógios fossem dez vezes mais exatos do que anteriormente, mas tal só se pode conseguir graças a rodas dentadas divididas e precisamente cortadas. Assim os relojoeiros aperfeiçoaram técnicas simples e precisas para dividir a circunferência de uma placa de metal circular em unidades iguais como para cortar os dentes da engrenagem com um perfil eficiente. E, além disso, os relógios também exigiam parafusos de precisão – o que por sua vez exigiu o aperfeiçoamento do torno de metal. Assim, eles se tornaram os pioneiros na produção de instrumentos científicos e os seus legados foram as tecnologias básicas das máquinas-ferramentas. As engrenagens eram o tecido essencial de um relógio mecânico e não era de se esperar que os dentes das rodas do interior do relógio fossem exatamente espaçados ou perfeitamente cortados, se esse trabalho fosse feito à mão.

A primeira máquina de cortar engrenagens é obra de um artífice italiano – Torriano de Cremona – que foi à Espanha em 1540 para fazer um grande relógio planetário para o Imperador Carlos V. Torriano passou 20 anos planejando um instrumento medidor de tempo com 1800 rodas dentadas e depois mais 3 anos construindo-o. Assim, todos os dias ele tinha de fazer mais de 3 rodas, todas elas diferentes em tamanho, número e formato de dentes e no modo como estão colocados e engrenam. Mas, apesar de este ritmo de trabalho ser meticuloso, mais surpreendente ainda é um torno muito engenhoso que ele inventou para desbastar com uma lima rodas de ferro com a dimensão exigida e o necessário grau de uniformidade dos dentes, nenhuma roda foi feita duas vezes, porque saiu sempre bem à primeira” – disse seu amigo.  Durante a vida de Torriano, o seu “torno” já estava sendo utilizado por outros relojoeiros. Parece ter-se tornado o modelo para as “máquinas de cortar rodas” utilizadas pelos relojoeiros ingleses e franceses no século XVII, quando os mecanismos de relógio já alcançavam um mercado mais vasto. 

Sendo assim, sem um dispositivo semelhante teria sido impossível fazer relógios em grande número para o mercado e, com ele, foi possível fazer inúmeras máquinas e instrumentos científicos. Como a engrenagem, o parafuso foi essencial para um novo mundo de máquinas. Os seus protótipos – como os da engrenagem – remontaram ao tempo de Arquimedes. Um cientista grego (Hero) concebeu ferramentas para cortar parafusos, embora durante muito tempo fosse considerado uma operação difícil. E, até meados do século XIX – altura em que os parafusos foram feitos com bicos – era sempre necessário preparar um orifício com todo o comprimento do parafuso. Na Idade Média os parafusos de metal foram raros e, durante muitos séculos, eles foram usados na prensa para fazer vinho ou na irrigação.

O relógio mais antigo do mundo (1380) – que ainda funciona na Inglaterra – foi feito sem uma única rosca de parafuso, sua estrutura de ferro é unida por rebites e grande parte da sua construção foi obra de um ferreiro. Mas, a difusão dos relógios só veio com o fabrico de relógios menores e portáteis.

Para serem fornecidos a mosteiros, edifícios municipais, palácios e cidadãos os relógios tinham de ser feitos em tamanhos adequados, tanto para casas modestas quanto para as lojas de artesãos. Claro que pequenos relógios não podiam ser feitos à marteladas ou forjados por um ferreiro e, para montá-los sem quebrá-los, eram necessários parafusos, os quais tornaram possíveis uma infinidade de outras máquinas portáteis. Óbvio que relógios menores atraíam um vasto mercado, cujas exigências foram os motivos para fabricar relógios baratos que as pessoas pudessem comprar. Na verdade, o relógio instigou os homens a transpor as fronteiras da religião, da língua e até da política. Antes da colonização do Novo Mundo, os movimentos dos artífices exerciam uma influência muito desproporcional ao seu número, pois antes do transporte movido a energia e da produção em massa eram os próprios artífices e não os produtos quem viajava. 

Quando os relógios ainda eram máquinas gigantescas no cimo de torres, tinham de ser erguidos onde fossem usados. No início não havia demanda por mais do que um relógio por cada comunidade, o que significava que o fabricante de relógios tinha de ser um viajante. O 1º relógio mecânico público de Gênova foi construído em Milão em 1353 e o relógio que ainda pode ser visto na Praça San Marco (Veneza) foi – na verdade – levado para lá da cidade de Reggio. E, depois de os relógios terem sido reduzidos a pequenas máquinas houve novas razões para serem feitos próximos dos seus clientes.

Antes do fim do século XV não havia grandes centros de relojoaria na Europa e, dessa forma, o futuro dessas máquinas encontrava-se isolado por montanhas na Suíça e, por mar, na Inglaterra. Em ambos os países existiam pontos de encontro entre artífices de toda Europa a fim de intercambiar seus talentos. Assim como quatro séculos depois as perseguições nazistas e fascistas transformaram os EUA num centro mundial de ciência e tecnologia, Genebra tirou proveito da ciência e da tecnologia do seu tempo e tornou-se um centro mundial de relojoaria. No ano de 1600, a cidade suíça de Genebra contava com 25 mestres relojoeiros e um número considerável de aprendizes e artífices. E, antes de terminar o século XVII, mais de 100 mestres e uns 400 artífices produziam cerca de 5 mil relógios por ano. A Inglaterra protestante se tornou lugar de refúgio progresso da relojoaria, pois embora não fosse uma terra de pioneiros, para ela convergiu grande número de empreendedores estrangeiros. Um desses estrangeiros (Lewis Cuper) saiu da Alemanha para se tornar um eminente relojoeiro na Inglaterra, utilizando a técnica da especialização e da divisão do trabalho entre os aprendizes.

Consta que em 1786 foram exportados 80 mil relógios de vários tipos para a Holanda, Alemanha, Suécia, Dinamarca, Rússia, Espanha, Itália, China e Turquia. Na história da humanidade os filósofos sempre procuraram modos de controlar o universo e, apesar do seu desdém pelos que projetavam o Criador do universo na imagem do homem, os teólogos não se cansavam de perscrutar o próprio homem tentando encontrar pistas que os conduzissem a Deus. Mas, agora o homem era um construtor de relógios, um construtor de máquinas que funcionavam sozinhas. Uma vez posto para funcionar o relógio parecia funcionar com “vida própria” e, por isso mesmo, alguns se perguntavam se o universo não poderia ser um imenso relógio posto em movimento pelo próprio Criador? 

Essa possibilidade inconcebível antes de o relógio mecânico entrar em cena tornar-se-ia a principal estação no caminho da Física moderna. Esta fértil “mãe” das máquinas era o elo que faltava entre os esforços do homem para dominar seu universo físico e a sua reverência perante seu Criador. No século XVII, o físico Robert Boyle viu o universo como uma grande peça de mecanismo de relógio. O universo de Newton não tardou a promover Deus de relojoeiro a mestre mecânico e matemático. Agora, as leis universais que regiam os relógios portáteis regiam também os movimentos da Terra, do Sol e de todos os planetas.

 

 

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([1])  BOORSTIN, Daniel J. “Os Descobridores”. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989, p. 231


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segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Drama do Relógio no Oriente

 Como as Pessoas Se Orientavam no Planeta Para Poderem Voltar aos Lugares Que Descobriam? Qual Foi o Papel Representado Pelo Padre Matteo Ricci na Evolução dos Relógios? Por Que Para os Chineses os Relógios Eram Apenas Brinquedos Encantadores? 



 

 

Durante a Idade Média, chegou um tempo em que já era possível às pessoas de toda parte do mundo se orientarem no planeta e voltarem aos novos lugares que descobrissem e, certamente, esse foi um tempo de alta relevância para os navegadores. Porém, o que era tecnicamente possível nem sempre o era socialmente: pois, a tradição, os costumes, as instituições e os hábitos se tornaram barreiras e o drama do relógio no Ocidente não foi representado no Oriente. Em 1577 o padre Matteo Ricci conheceu um sacerdote que regressou do posto avançado jesuíta na Índia, quando resolveu juntar-se às missões desse lado do Mundo e. por isso mesmo, ele acabou trocando a cidade de Roma por Gênova a fim de navegar a Portugal e pegar um navio anual para a Índia. Chegou a Goa no ano seguinte, durante 4 anos estudou teologia e, depois disso, ele foi enviado a Macau onde tratou de aprender chinês. Ricci e o seu companheiro de viagens – o sacerdote Michele Ruggieri - permaneceram sete (7) anos em Cantão, construíram uma casa para a missão e foram aceitos pela população como “homens do saber”, apesar da suspeição popular e das ocasionais saraivadas de pedras.

A sabedoria e o tato de Ricci não aquietou os receios da gente da cidade, que uma noite apedrejaram a missão e o acusaram de conspirar por deixar os Portugueses entrarem na cidade a fim de saquearem-na. Além disso, acusaram-no de praticar, recusar-se a dizer ao povo seus segredos e depois destruíram sua casa. Assim, o padre Ricci partiu para Pequim, a fim de ser recebido pelo Imperador. Mas, os imperadores chineses se mantinham ocultos de seus súditos e, além disso, o Imperador Wan-li aprisionara-se a si mesmo na Cidade Proibida com suas esposas, dezenas de concubinas e servido por incontáveis eunucos. Até mesmo os seus funcionários da mais elevada hierarquia raramente o viam e, para se comunicarem com ele, tinham de enviar mensagens pelos eunucos do palácio.

Quando Ricci e seus companheiros jesuítas se aproximavam de Pequim foram presos, seus bens foram apreendidos e aquela figura sangrenta crucificada acabou provocando horror aos funcionários chineses, os quais receavam como se fosse um instrumento de magia negra. Durante seis meses, os padres jesuítas aprisionados, não vendo outra esperança, voltaram seus pensamentos par Deus e se prepararam resolutamente para enfrentar qualquer dificuldade, mesmo a própria morte, pela causa a que se tinham devotados. Vinte anos depois Ricci ainda tentava se comunicar com o Imperador – pois somente ele poderia autorizar a entrada do Evangelho no território chinês – e começou a recear que a sua missão terminasse numa cela de prisão em Pequim. Depois, como caída do céu, chegou uma ordem do Imperador para se aproximar do palácio, não se esquecendo de levar os presentes que trazia da Europa. Segundo Ricci, a surpreendente explicação para tal residia no fato de que um dia, o rei, por inspiração própria, lembrou-se de súbito de uma certa petição que lhe fora enviada e perguntou: “Onde está aquele relógio, dizei-me, onde está aquele relógio que tocava sozinho, aquele que os estrangeiros que vinham aqui trazer, como diziam na sua petição? ”

Ricci foi libertado da prisão e seus presentes foram entregues no palácio, disparando um canhão que anunciava o recebimento de tributos ao Imperador. Os presentes de Ricci incluíam dois elegantes relógios (um grande, acionado por pesos e um pequeno acionado por mola. E quando Ricci foi convocado ao palácio, o menor ainda funcionava e o grande parara, pois, seus pesos tinham chegado ao fundo. Como uma criança com um brinquedo partido, o Imperador deu a Ricci – através de seu principal eunuco – três dias para que o relógio voltasse a funcionar. Felizmente, quando ainda se preparava para deixar Roma em direção a sua exótica viagem, Ricci teve o cuidado de se informar a respeito do ofício de relojoeiro e, por isso, estava em condições de dar um pequeno curso sobre a reparação de relógios. Ele mandou construir uma torre de madeira para o relógio grande em um dos pátios interiores, onde somente Sua Majestade e alguns privilegiados eram admitidos.

O Imperador queria ver os estrangeiros que tinham trazido aquelas máquinas com sinos que tocavam sozinhos. No entanto, não ousava quebrar o seu costume de nunca aparecer na companhia de ninguém – salvo sua família, esposas, concubinas e eunucos – e, muito menos, podia privilegiar estrangeiros em detrimento dos seus próprios magistrados. Assim, em vez de chamar os padres à sua presença, mandou dois de seus melhores artistas pintar-lhes os retratos de corpo inteiro. Durante os nove anos seguintes, o padre Ricci se tornou um tipo de emissário completamente diferente do que tencionara ser. O relógio do Imperador “deixou todos os chineses tolos de espanto – explicou Ricci – simplesmente porque era um objeto como o qual nunca fora visto nem ouvido, nem sequer imaginado, outro semelhante na história chinesa”. Mas, embora os padres não soubessem o relógio mecânico já tinha uma longa e notável história na China, pois 500 anos antes cortesãos chineses privilegiados estavam admirados com um relógio astronômico. E, quando os padres jesuítas chegaram à China, esse mecanismo sobrevivia apenas como uma lenda conhecida por uns poucos estudiosos.

Em 1077, um instruído funcionário público (Su Sung) foi enviado ao interior do país a fim de apresentar felicitações de aniversário a um imperador bárbaro do norte da China. Chegando ao seu destino ele verificou que chegara com um dia de antecedência, pois o calendário bárbaro era mais exato que o chinês. Como não ousava admitir a inferioridade do calendário do seu Imperador, persuadiu seus anfitriões a deixaram que ele desempenhasse sua missão no dia que originalmente pretendera. Quando o Imperador perguntou ao seu emissário se o calendário chinês ou o bárbaro estavam certos, Su Sung lhe disse a verdade. Reza a lenda que todos os funcionários do Centro Astronômico foram punidos. Diante disso, Su Sung recebeu ordem do Imperador para conceber um relógio astronômico “mais útil e mais belo do que qualquer outro já visto”.

O objetivo de Su Sung não era fazer um instrumento medidor de tempo para comodidade pública, mas sim criar uma máquina-calendário; ou seja, um “relógio celeste” privado para o Filho de Céu. Em 1090 esta máquina estava pronta para distrair o Imperador e alguns poucos funcionários e, quando o novo imperador ascendeu ao poder em 1094, conforme o costume seus assessores declararam deficiente o calendário do imperador anterior. Já sem a proteção imperial, o mecanismo de relógio celeste de Su Sung se tornou uma fonte de bronze para vândalos. Quando Ricci chegou a Pequim, os sábios chineses da corte ficaram ofuscados com a maravilhosa invenção europeia que consideraram uma “coisa nova” debaixo do Sol. Durante o século 18, relógios, relógios portáteis e brinquedos com mecanismos de relógio tornaram-se uma valiosa moeda nas transações europeias com a corte imperial chinesa.

Os imperadores chineses criaram suas próprias fábricas para esses encantadores “brinquedos” e, em meados desse mesmo século, elas já empregavam cerca de 100 trabalhadores embora seu produto não estivesse à altura dos padrões europeus. Na China, o homem que se desse ao luxo de satisfazer seu gosto por essas curiosas “bugigangas” não se contentava apenas com uma e, se ele possuísse um relógio sequer, ele era considerado um colecionador. É improvável que o utilizasse como medidor de tempo. Quando havia tão poucos relógios públicos e tão pouca gente usando relógios portáteis, um relógio não tinha muita utilidade nas relações cotidianas.

 

 

 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Tornando o Tempo Portátil

Qual Foi a Percepção de Galileu ao Observar o Balanço de Um Candeeiro? Por Que a Astronomia Foi Considerada a Criada dos Marinheiros na Idade Média? Qual a Importância de Robert Hooke no Desenvolvimento do Relógio?


 


 

Em 1583, ao assistir à missa na Catedral de Pisa, Galileu Galilei ficou distraído pela oscilação do candeeiro suspenso do altar. Ele observou que, por mais largo que fosse o balanço desse candeeiro, parecia que o tempo que levava para oscilar de um lado para outro era sempre o mesmo. Claro que Galileu não tinha relógio, mas ele controlava os intervalos do balança pelo seu próprio pulso. Esse enigma instigou-o a abandonar a Medicina para se dedicar à Matemática e à Física, descobrindo no batistério aquilo que os físicos viriam a chamar de “isocronismo” – tempo igual do pêndulo -; ou seja, que a duração da oscilação de um pêndulo não varia com a largura do espaço percorrido, mas sim com o comprimento do próprio pêndulo. Essa descoberta simbolizou uma nova era, pois na Universidade de Pisa – onde Galileu estava matriculado – as matérias de Astronomia e Física eram constituídas de lições baseadas nos textos de Aristóteles.

Mas, a maneira própria de como Galileu aprendia, observando e medindo o que via, exprimia a ciência do futuro. Essa descoberta abriu uma nova era no registro do tempo, uma vez que 30 anos após a morte de Galileu o erro médio dos melhores mecanismos de medição do tempo fora reduzido de 15 minutos para apenas 10 segundos. Um relógio que mantivesse o passo certo com outros relógios em qualquer lado transformava o tempo numa medida que transcendia o espaço. Moradores de Pisa poderiam saber que horas eram em Florença ou Roma no mesmo instante. Uma vez sincronizados eles permaneciam sincronizados e, daí em diante, o relógio se tornou um metro universal. Assim como a hora igual padronizara as unidades de dia e noite, de Verão e Inverno em qualquer cidade, agora o relógio padronizava as unidades de tempo em todo o planeta.

Algumas peculiaridades do nosso planeta tornavam essa magia possível. Em virtude de a Terra girar sobre seu eixo, todos os lugares do mundo têm um dia de 24 horas por cada volta completa de 360º. Os meridianos de longitude assinalam esses graus e, à medida que a Terra gira, leva meio-dia a diferentes lugares. Quando é meio-dia em Istambul ainda são 10 horas a ocidente (Londres) e, em uma hora, a Terra gira 15º. Consequentemente, podemos dizer que Londres está a 30º de longitude, ou 2 horas a ocidente de Istambul, o que torna esses graus de longitude uma medida de espaço e tempo. Se você for um viajante e quiser saber exatamente onde se encontra, certamente você achará isso muito mais difícil no mar do que na terra. Na terra você poderá orientar-se pelas montanhas, rios, edifícios e cidades. Mas, as referências marítimas são disponíveis apenas aos observadores especializados. O vazio e a imensa mesmice dos oceanos levaram os marinheiros a procurar coordenadas no céu, no Sol, na Lua, estrelas e constelações. Dessa forma, não nos admira que a Astronomia se tornasse a “criada dos marinheiros” e, com a ajuda do recém-inventado telescópio e com as novas visões da Lua por Galileu, os homens descobriram os mares, fizeram cartas dos oceanos e definiram novos continentes.

Dessa forma, quando o homem decidiu explorar os oceanos, achou necessário conhecer o céu. Tinha de se localizar em latitude a norte ou ao sul do equador e em longitude (a leste ou oeste) de algum ponto. Mas, era muito mais difícil determinar a longitude (as relações Leste-Oeste) do que a latitude, o que nos ajuda compreender por que o Novo Mundo esteve tanto tempo por ser descoberto e por que o Oriente e o Ocidente estiveram tanto tempo separados. Definir a latitude é mais simples porque a altitude do Sol acima do horizonte é um fator preponderante. No equador (em todas as estações do ano), ao meio-dia o Sol estará diretamente acima ou à altitude de 90º, enquanto no Polo Norte o Sol é totalmente invisível no Inverno e sempre visível no Verão. Navegadores perceberam como sabiam pouco sobre o planeta, pois eles tinham de resolver o problema da longitude. Galileu tomou conhecimento dessa necessidade dos marinheiros e em 1610 sugeriu que a longitude poderia ser determinada no mar através da observação dos quatro satélites de Júpiter.

Mas, isso exigia observações por longos períodos em um telescópio apoiado no convés de um navio em alto mar – o que obviamente tornava-se impossível. Imaginou então um telescópio fixado no capacete e, embora esse método tenha tido sucesso entre os agrimensores em terra, nunca funcionou no mar. Daí, antes de haver um relógio de navegação exato, os marinheiros que quisessem saber suas coordenadas tinham de ser um matemático experiente. A forma de calcular a longitude no mar passava por observações precisas da Lua, o que exigia sofisticados instrumentos e cálculos sutis. Um simples erro de 5º na observação da Lua equivaleria a um erro de 2,5º de longitude, o que poderia representar cerca de 150 milhas no oceano. Isso tornava a longitude um problema educacional e tecnológico, quando as grandes nações navegadoras acabaram organizando cursos de matemática para simples marinheiros. Quando Carlos II instituiu um desses cursos para 40 alunos, os professores tiveram dificuldades em contentar marinheiros e matemáticos.

Os administradores da escola, observando que os muitos navegadores tinham passado bem sem matemática, perguntavam se os futuros marinheiros precisariam realmente dela. Do lado dos matemáticos, Sir Isaac Newton argumentava que a antiga norma do pouco mais ou menos já não chegava.

Porém, os cálculos para determinar a longitude baseado na Lua eram bem complicados e era preciso descobrir um método – de preferência, uma máquina – a fim de permitir às tripulações semialfabetizadas saber as coordenadas. Em 1604, o rei Felipe III (da Espanha) ofereceu um prêmio a quem apresentasse uma solução e, mais tarde, Luís XIV (França) ofereceu 100 mil florins. Na Inglaterra, o impulso de resolver o problema da longitude não veio da necessidade dos marinheiros, mas de uma catástrofe evitável ocorrida na costa sudoeste.

Em 1707, uma esquadra inglesa naufragou nas rochas das Ilhas Scilly e no apogeu da navegação britânica, a perda de tantos marinheiros tão perto da pátria foi humilhante. A opinião pública ficou abalada. Dois matemáticos declararam que o naufrágio poderia ter sido evitado se os marinheiros não ignorassem sua longitude. Portanto, era necessário descobrir uma maneira de calculá-la que fosse fácil de compreender por marinheiros comuns, sem a necessidade quaisquer cálculos astronômicos. Em 1736, no manicômio Hogarth (Inglaterra) um internado tentou resolver esse quebra-cabeças e uma das propostas consistia em localizar navios afundados em posições conhecidas do mundo e depois enviar sinais deles. Outra proposta era a de publicar uma tabela à escala mundial das marés e utilizar um barômetro para que o marinheiro pudesse situar sua posição pela esperada subida e descida nesse lugar particular. Outra ainda sugeria que se utilizassem faróis para projetar para as nuvens os necessários sinais luminosos de tempo.

Era evidente que o prêmio não poderia ser ganho por um relógio de pêndulo e escape acionado por pesos. Para manter o ritmo medido em um barco que subia, descia e oscilava era necessário resolver o problema de outra forma; isto é, o relógio deveria ser livre de pesos e de pêndulos. Um relógio para navegar teria de ser independente da gravidade não só quanto à força motriz, mas quanto ao seu regulador. Se a força de uma mola podia ser utilizada para acionar o relógio, não poderia o ressalto e a elasticidade de uma mola ser também usada em lugar de um pêndulo, a fim de regular o mecanismo? Essa foi a ideia de Robert Hooke. Antes de completar 10 anos, Hooke viu um relógio desmontado e construiu um – de madeira – para si próprio. No colégio aderiu ao grupo de debates científicos de que fazia parte o economista William Petty e o físico Robert Boyle. Hooke construía as máquinas para experimentar as teorias desenvolvidas pelos cientistas e, quando a Royal Society o escolheu para curador de experiências, ele pôs em prática as experiências sugeridas pelos membros da sociedade.

Em 1658 Hooke conjecturava que o regulador de um relógio marítimo poderia ser feito pelo emprego de molas em vez de gravidade, para um corpo vibrar em qualquer postura. Uma mola ligada a uma corda de balanço podia fazer a roda oscilar de um lado para outro à volta do seu próprio centro de gravidade, gerando assim o movimento necessário para parar e pôr a trabalhar os mecanismos do relógio e, desse modo, marcar as unidades de tempo. Esta percepção tornaria possível o relógio marítimo. Uma das utilizações mais eficazes dos fundos públicos para o progresso da ciência foi o prêmio que o Parlamento Britânico anunciou em 1714, como recompensa da descoberta de uma maneira de calcular a longitude no mar. O vencedor foi John Harrison, filho de um carpinteiro que, após repetidos esforços, obteve êxito. Em 1761 o seu modelo correspondeu ao que se exigia, pois em uma viagem de 9 semanas à Jamaica seu relógio perdeu apenas 5 segundos – cerca de 1,24 minutos de longitude – o que estava perfeitamente dentro da margem de longitude exigida pela Junta da Longitude. Assim, até serem construídos relógios marítimos mais baratos, os comandantes dos navios continuavam a utilizar o método lunar, embora em longo prazo fosse mais fácil fornecer relógios baratos do que formar marinheiros matematicamente instruídos. Não seriam apenas os marinheiros que teriam acesso ao tempo, pois o relógio marítimo de Harrison era na realidade um relógio portátil grande. Portanto, o novo conceito de tempo trazido por esse modelo preencheria todos os interstícios da vida das modernas sociedades.

 

 

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segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Papel do Auxiliar de Logística na Cadeia de Suprimentos

 O Que é Cadeia de Suprimentos? Quais as Principais Características da Supply Chain Moderna? Quais as Etapas do Supply Chain? O Que é Just-in-Time? Qual é o Papel do Auxiliar na Cadeia Logística?




 

Cadeia de Suprimentos (ou Supply Chain) é o conjunto de atividades, organizações, pessoas, informações, tecnologias e recursos envolvidos em todas as etapas do processo de produção e distribuição de um produto (ou de um serviço) – desde a matéria-prima até o consumidor final. A Cadeia de Suprimentos abrange o fluxo físico, informacional e financeiro entre todos os elos participantes, tais como os fornecedores de matérias-primas, os fabricantes, as montadoras, os distribuidores e operadores logísticos, os atacadistas, varejistas e clientes finais (consumidores ou empresas). O principal objetivo da cadeia de suprimentos é criar valor agregado para o cliente final, promovendo a eficiência, a redução de custos, o aumento da produtividade e a satisfação do consumidor.

 

Características da Supply Chain Moderna

 

·        Altamente interligada e colaborativa;

·        Dependente de tecnologia para rastreamento e gestão;

·        Exigente em relação à agilidade, qualidade e visibilidade;

·        Globalizada — fornecedores e clientes podem estar em diferentes países;

·        Flexível — precisa se adaptar rapidamente às mudanças do mercado.

 

 

Etapas da Cadeia de Suprimentos

 

A Cadeia de Suprimentos (ou Supply Chain) pode ser dividida em várias etapas interdependentes, as quais formam um ciclo contínuo:

 

1) Suprimento (Abastecimento):

·        Seleção e negociação com fornecedores;

·        Aquisição de matéria-prima, componentes e insumos;

·        Transporte até a planta produtiva;

·        Controle de qualidade na entrada de materiais.

 

2) Produção (Fabricação):

·        Transformação da matéria-prima em produto acabado;

·        Planejamento e controle da produção (PCP);

·        Gestão de estoques de materiais e insumos internos;

·        Gerenciamento de custos produtivos.

 

3) Distribuição (Logística de saída):

·        Armazenamento de produtos acabados;

·        Gestão de pedidos e preparação de cargas;

·        Transporte e entrega aos canais de venda;

·        Logística de última milha até o consumidor final.

 

Pós-Venda e Logística Reversa

 

·        Suporte ao cliente após a venda (garantias, trocas, assistência técnica);

·        Recolhimento de produtos com defeito ou fora de uso;

·        Reciclagem, descarte ou reprocessamento.

 

Cada uma dessas etapas deve funcionar de forma sincronizada e alinhada aos objetivos estratégicos da empresa, com comunicação eficaz e integração tecnológica entre todos os envolvidos.

 

A Integração Entre Fornecedores e Clientes

 

A integração é um dos pilares da cadeia de suprimentos moderna. Não basta que cada elo da cadeia funcione bem de forma isolada – é necessário que todos estejam interligados, compartilhem informações e que colaborem mutuamente. As principais formas de integração são:

 

·        Sistemas de gestão integrados (ERP, SCM, WMS): permitem visibilidade em tempo real dos estoques, pedidos, prazos e produção.

·        Parcerias estratégicas: fornecedores e clientes trabalham em conjunto no desenvolvimento de produtos, redução de custos e inovação.

·        Compartilhamento de dados: informações sobre vendas, previsão de demanda, níveis de estoque e transporte são trocadas para melhorar a tomada de decisão.

·        Just in Time (JIT): entrega de materiais no momento exato da produção, evitando estoques desnecessários.

 

Os principais benefícios dessa integração são a redução de desperdícios e retrabalhos, a otimização de estoques e, consequentemente, menor capital parado, o atendimento mais rápido e preciso ao cliente e a melhoria da competitividade de toda a cadeia. Um exemplo prático é o que ocorre no setor automotivo, onde as montadoras e os fornecedores trabalham em sincronia para que as peças cheguem no momento certo da montagem, sem gerar estoques excessivos.

 

Papel do Auxiliar na Cadeia Logística

 

O auxiliar de logística desempenha um papel essencial dentro da cadeia de suprimentos, principalmente nas atividades operacionais que garantem o funcionamento diário dos processos logísticos e, as principais contribuições do auxiliar de logística para a cadeia de suprimentos são:

 

A) Apoio na Movimentação e no Armazenamento de Materiais:

·        Carregamento e descarregamento de cargas;

·        Organização física do armazém;

·        Posicionamento adequado dos produtos para facilitar o picking (separação de pedidos).

 

B) Controle de Estoques:

·        Conferência de entradas e saídas;

·        Lançamento de dados no sistema;

·        Apoio em inventários e contagens cíclicas.

 

C) Processamento de Pedidos:

·        Separação e embalagem correta dos produtos;

·        Emissão de etiquetas e documentos de transporte;

·        Verificação de produtos para evitar erros de envio.

 

D) Apoio na Distribuição e Transporte:

·        Acompanhamento de rotas de entrega;

·        Controle de documentos (nota fiscal, romaneio, canhoto);

·        Comunicação com motoristas e transportadoras.

 

E) Interface Com Setores e Clientes:

·        Suporte à área de compras, produção ou comercial;

·        Atendimento a fornecedores e transportadores;

·        Coleta de feedback sobre entregas e processos.

 

Sendo assim, pode-se afirmar que o auxiliar da área de logística nas organizações é, muitas vezes, a linha de frente da logística, garantindo que tudo ocorra conforme o planejado e sinalizando falhas para correção imediata. Para isso, esse profissional deverá possuir as seguintes habilidades:

 

·        Organização e atenção aos detalhes;

·        Agilidade e proatividade;

·        Conhecimento básico de sistemas e planilhas;

·        Boa comunicação e trabalho em equipe.

 


quinta-feira, 14 de maio de 2026

O Advento da Hora Igual

O Que o Homem Devia Fazer Para Não Ser Escravo do Sol e Se Tornar Senhor do Seu Tempo? Por Que os Primeiros Relógios Mecânicos Foram Concebidos Não Para Mostrar o Tempo e Sim Para Soar? Quem Foi o Primeiro Relojoeiro? Quando a Hora se Tornou Uma Das 24 Partes Iguais do Dia?

 



Enquanto o homem consentiu que o seu tempo fosse repartido pelos ciclos variáveis da luz do dia ele permaneceu escravo do Sol e, para se tornar senhor do seu tempo e dividir sua vida em parcelas certas, o homem tinha que descobrir uma forma de assinalar porções pequenas – e exatas –, não apenas horas iguais, mas até minutos e segundos. Isto é, o Homem precisava fazer uma máquina. É surpreendente que as máquinas para medir o tempo tivessem tardado tanto a aparecer, pois somente no século XIV os europeus conceberam instrumentos mecânicos medidores de tempo. Até então, a medição do tempo esteve entregue ao relógio de sombra, ao relógio de água, à ampulheta e à miscelânea de relógios de velas e relógios de aroma. Embora tivesse havido um processo extraordinário na medição do ano há 5000 anos e estivessem desde há muito em uso úteis aglomerados semanais de dias, a subdivisão do dia era outra coisa, pois somente nos tempos modernos começamos a viver pela hora e, mais recentemente, pelo minuto. Os primeiros passos no sentido da medição mecânica do tempo não se originaram com os agricultores, pastores e tampouco artesãos, mas sim de pessoas religiosas que estavam ansiosas em desempenhar regularmente seus deveres com Deus. Os monges precisavam saber as horas das orações que lhes cumpria rezar. Na Europa, os primeiros relógios mecânicos foram concebidos não para mostrar o tempo, mas sim para soar.

Os primeiros relógios eram do tipo hoje chamados despertadores. Eram máquinas impulsionadas por pesos que tocavam um sino após o decorrer de determinado intervalo de tempo. Provavelmente os mais antigos foram os pequenos despertadores monásticos, os quais faziam soar um pequeno sino para avisar ao monge que, por sua vez, chamava os outros para a oração. Ele se levantava para tocar o sino grande que ficava no alto da torre, a fim de que todos pudessem ouvir. Mais ou menos nessa época começaram a ser feitos relógios de torres maiores e a serem colocados onde fariam tocar o sino grande automaticamente. O número de badaladas do sino variava de 4 (ao nascer do Sol) para uma ao meio-dia e novamente 4 ao anoitecer. A hora exata de cada oração, pelo cálculo moderno, dependia em cada lugar devido à latitude e da estação do ano e, apesar da complexidade do problema, os relógios monásticos estavam adaptados para modificar o tempo entre toques de sino de acordo com a estação.  

Uma nova espécie de medidor de tempo mecânico que fosse um verdadeiro relógio iria se adaptar melhor às novas necessidades mecânicas. A palavra inglesa “Glocke” ([1]) tem a marca da sua origem monástica. Esse vocábulo derivou do holandês e do alemão que significava “Sino”. Os medidores de tempo não eram considerados relógios a não ser que tocassem um sino e, só muito mais tarde, ele passou a significar qualquer instrumento que medisse a passagem do tempo. Mas, fazer uma máquina soar as horas canônicas exigiu novidades mecânicas que seriam a base da fabricação de relógios, ao longo dos séculos vindouros. A força que movia o braço – que fazia tocar o sino – era fornecida pela queda dos pesos. O que tornava a máquina verdadeiramente nova era o dispositivo que impedia a queda livre dos pesos e lhes interrompia a descida a intervalos regulares. O que conferia a essa máquina uma nova duração mais longa e media as unidades, era um simples dispositivo que tem permanecido quase ignorado na história.

Ele chamava-se “escape”, porque era uma maneira de regular o escape da força motriz dentro do relógio, e revestiu-se de um significado revolucionário para a experiência humana. O escape não era mais do que um dispositivo que interrompia – alternadamente – e soltava a força do peso da máquina do relógio em movimento. Graças a ele, um peso caindo apenas a uma curta distância podia manter um relógio trabalhando durante horas, enquanto a atração descendente dos pesos em queda era traduzida no movimento de escape interrompido do mecanismo do relógio. Daí o tempo mecanizado não mais fluiria e o tique-taque do escape do relógio se tornaria a voz do tempo. Foi em 1330 que a hora se tornou na nossa hora moderna; ou seja, uma das 24 partes iguais do dia. Este “dia” novo incluía a noite. Media-se pelo tempo entre um meio-dia e o seguinte, ou mais precisamente pelo que os astrônomos modernos chamam de “tempo solar médio”. Pela 1ª vez na história, uma “hora” adquiria em toda parte – e ao longo de todo o ano – um significado preciso. Os primeiros relógios não tinham mostradores ou ponteiros. Nem precisavam, pois, sua missão era soar a hora. Uma população iletrada tinha dificuldade em ler um mostrador, mas não se enganava com o som dos sinos. Na Europa do século XIV grandes relógios de torre nos campanários das Igrejas e nas repartições municipais batiam as horas iguais, anunciando uma nova percepção do tempo. As torres das Igrejas – construídas para saudar Deus – tornaram-se “Torres de Relógios” e a torre passou a ser o “Campanário”.

Naquela época, de forma inconsciente, as pessoas reconheceram a nova era quando, ao se referirem às horas do dia – ou da noite – elas diziam que eram nove (9) “horas soadas” (ou seja, as horas do sino). Mas, quando as personagens de William Shakespeare mencionavam o tempo “of the clock” eles o relacionavam com a última hora que tinham ouvido soar. Durante todo o século XIV era raro encontrarem-se mostradores nos relógios, pois a função destes continuava a ser soar as horas. Não foi difícil aperfeiçoar relógios que já batiam a hora de modo que batessem o quarto de hora. Um mostrador marcado de 1 a 4 era algumas vezes acrescentado para indicar os quartos de hora. Sendo assim, não foi muito difícil aperfeiçoar relógios que já batiam a hora de modo que batessem o quarto de hora. Mais tarde, essas marcas foram substituídas pelos números 15, 30, 45 e 60 a fim de indicar os minutos, embora ainda não houvesse ponteiros de minutos. No ano de 1500, o relógio da Catedral de Wells na Inglaterra batia os quartos de hora, mas não havia nenhuma forma de assinalar os minutos e para medi-los continuava sendo necessário recorrer à Ampulheta. O ponteiro de minutos só começou a ser usado depois de o pêndulo ter sido aplicado com êxito aos relógios. Por volta de 1670 não era invulgar os relógios terem um ponteiro dos segundos, cujos movimentos eram controlados por um pêndulo de 97,5 cm com um período de um segundo apenas.

Perguntar como chagamos ao nosso dia, hora, minuto e segundo nos leva à arqueologia na vida de todos os dias. A palavra inglesa “Day”, que não tem relação com o latim “Dies” (Dia), vem do saxão “queimar” que significava a estação quente. Já a palavra “Hour” deriva do latim que significa tempo do dia; ou seja, uma duodécima parte do período de claridade ou de escuridão, variando conforme a estação e a latitude. Mas, por que 24 horas? Os Egípcios escolheram esse número porque utilizavam o sistema numérico sexagesimal, baseado em múltiplos de 60. Mas, o uso do número 60 parece não ter tido nada a ver com a astronomia, pois já vimos que os Egípcios fixavam em 360 os dias o seu ano e 12 meses de 30 dias cada um, suplementados por 5 dias ao fim de cada ano. Também dividiram um círculo em 360º por analogia com o circuito anual do Sol. Sendo 60 um sexto dos 360º e, portanto, uma subdivisão do seu sistema sexagesimal, tornou-se uma subdivisão do círculo e também de cada “grau”; isto é, cada hora. O circulozinho que usamos para designar um grau é provavelmente um hieróglifo que representa o Sol. Se esse sinal de grau (º) era uma imagem do Sol, então 360º (um círculo completo) também poderia significar um ciclo de 360 dias, ou um ano completo. A Arqueologia do nosso cotidiano nos conduz a todo o Mundo, pois os 365 dias do nosso ano reconhecem a nossa dívida com os Egípcios, enquanto os nomes dos meses (janeiro, fevereiro e março) e os dias da nossa semana de 7 dias (Sábado, Domingo e Segunda-Feira) são os laços que nos unem aos astrólogos romanos e gregos.

Quando assinalamos cada hora do nosso dia de 24 horas e designamos os minutos depois da hora, estamos agindo conforme os resultados de uma modificação de uma prática egípcia, combinada com práticas numéricas babilônicas. O analfabetismo nos ajuda a compreender por que motivo os mostradores demoraram tanto a aparecer nos relógios públicos, pois nem todos sabiam ler sequer os algarismos. Os mesmos fatores que atrasaram a produção desses mostradores instigaram a experiência, no que se refere ao funcionamento dos mecanismos do relógio. Os grandes relógios públicos da Idade Média não fizeram progredir muito a precisão dos mecanismos do relógio, que antes do pêndulo chegavam a adiantar-se (ou atrasar-se) uma hora por dia. Pois era difícil aperfeiçoar o escape do interior do maquinário, e era isso que regulava a exatidão do movimento. Os dramas populares da Idade Média não foram representados em teatros ou feiras livres, mas transmitidos das torres dos relógios. Quando os relógios de torre estavam em voga representavam todas as horas e todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados. O relógio da Catedral de Wells (construído em 1392) oferecia um espetáculo de grande interesse. Mostradores indicavam a hora, o século e as fases da Lua e outro mostrador apresentava um ponteiro de minutos que transportava a imagem do Sol, descrevendo um círculo completo em cada 24 horas.

Acima desse mostrador ficavam dois pares de cavaleiros combatentes e, quando o sino batia as horas, um deles desmontava do seu cavalo e depois retomava à sela ao ficar oculto da vista. Ou seja, os fabricantes de relógios não perdiam a oportunidade de teatralizar. Portanto, vale lembrar que os mostradores de relógios – uma comodidade para os letrados da época e o 1º engenho mecânico a registrar o tempo – parece ter sido inventado em 1334, por Jacopo de Dondi (Itália) que, por esse fato, foi honrado com o título de “Relojoeiro” o qual se tornou o seu nome de família.

 



([1])  Relógio. Mas, diferente de “Relógio de Pulso” ou de “Relógio de Bolso” que é “Watch”. O 1º é de ouvir e o 2º é de ver.


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