segunda-feira, 13 de abril de 2026

A Industrialização é o Objetivo Central da Política Econômica Brasileira?

O Que Caracterizou a Economia nos Primeiros Anos do Governo Vargas? Como se Desenvolveu o Pensamento Econômico na América Latina Pós-Segunda Guerra Mundial? Como o Brasil Saiu da Era Vargas em Termos Estruturais? Quais as Três Deficiências do Plano de Metas Dessa Época?

 



 

Os primeiros anos do governo Getúlio Vargas não foram marcados por uma descontinuidade na política econômica e, diante da perspectiva de depressão prolongada nos países centrais na década de 1930, optou-se pela busca do ajuste macroeconômico e proteção ao setor exportador. Porém, como sinaliza Tavares (1983), os recursos destinados à compra de estoques de café serviram de estímulo ao mercado interno. Na impossibilidade de importar com a facilidade de épocas anteriores, acelerou-se o processo de internalização da produção. Segundo TAVARES, a crise prolongada dos anos trinta, no entanto, pode ser encarada como o ponto crítico da ruptura do funcionamento do modelo primário-exportador. A violenta queda na receita de exportação acarretou de imediato uma diminuição de cerca de 50% na capacidade para importar da maior parte dos países da América Latina [...].  A profundidade do desequilíbrio externo fez com que a maior parte dos governos adotasse uma série de medidas tendentes a defender o mercado interno dos efeitos da crise no mercado internacional. [...] O processo de industrialização que se iniciou a partir daí encontrou, sem dúvida alguma, seu apoio na manutenção da renda interna resultante daquela política. Como você pode ver, as políticas econômicas adotadas para reverter as recorrentes crises de superprodução de café terminavam por liberar recursos que estimulavam o nosso mercado interno. Os barões do café aplicavam parte desses recursos na indústria. Um segundo impacto da instabilidade do modelo primário-exportador foi a geração de trabalho excedente, que impulsionou a migração do campo para os grandes centros urbanos, fornecendo mão de obra em quantidade necessária para a expansão industrial que se desenhava no início do século XX.

O rápido crescimento populacional da cidade de São Paulo no período, que atingiu seu primeiro milhão de habitantes em 1930, foi um fator bastante ilustrativo desse fenômeno. Diante desse cenário, o governo Vargas passou por uma clara reviravolta na orientação de sua política econômica a partir do golpe de 1937 em que se instaurou o Estado Novo. A partir de então, a posição do Estado brasileiro passou a ser de apoio explícito ao processo de industrialização, adotando medidas favoráveis à expansão industrial. O entendimento dos governos que se seguiram era de que a modernização industrial representava o caminho mais adequado para superar nossa condição subdesenvolvida. O conjunto de ideias econômicas que davam fundamento à retórica de mudança radical na trajetória de nossa evolução econômica ficou conhecido como pensamento desenvolvimentista. O desenvolvimentismo, que teve em Raul Prebisch, economista da CEPAL, e Furtado como suas figuras centrais, torna-se o pensamento econômico dominante na América Latina no pós-Segunda Guerra Mundial. A construção do consenso em torno dessas ideias é fundamental para que você entenda a mudança qualitativa que sofre o processo de industrialização no Brasil. Destaquemos, em primeiro lugar, a evolução do contexto internacional daquele período. Nos anos de 1930, uma alternativa real se consolidava no questionamento ao modelo liberal decadente de organização econômica:  o comunismo soviético. 

O modelo adotado na URSS dava sinais ao mesmo tempo de capacidade de enfrentar a grande depressão sem a retração social e econômica que marcava a experiência das potências ocidentais e da possibilidade de superar o atraso industrial do País com massivos investimentos estatais e planejamento econômico centralizado. Entretanto, na maioria dos países ocidentais, houve uma versão menos coletivista do planejamento e da regulação econômica que surgiu, o que se deve essencialmente à contribuição de Keynes, considerado um dos economistas mais influentes do século XX, em especial após o papel exercido na configuração do novo sistema financeiro internacional após 1944. Em sua obra principal, Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, publicada nos anos de 1930, Keynes coloca a ênfase na necessidade de atuação anticíclica do Estado em tempos de crise, por meio de políticas econômicas no sentido de estimular a demanda. Essas políticas deveriam ter o objetivo tanto de dar condições aos investimentos se realizarem como de possibilitar ganhos no poder aquisitivo da classe trabalhadora, potenciais   consumidores das mercadorias produzidas em uma economia. No Brasil, a influência da noção de planejamento econômico do Estado se faz sentir já nos anos de 1940.

Durante a era Vargas (1930-1945), período em que se dá a reorientação no papel do Estado em nossa economia, o parque industrial brasileiro triplicou de tamanho. O processo de industrialização, agora induzido por meio de políticas tarifárias e creditícias específicas, bem como por investimentos produtivos do Estado, atingia setores estratégicos como o químico e o siderúrgico. A substituição de importações dá um passo adicional em termos de complexidade produtiva, passando de uma fase inicial em que contemplava apenas o setor de bens de consumo não duráveis (como alimentos   e   vestuários), para   abarcar   o   de   bens   de   consumo   duráveis (eletrodomésticos) e de bens intermediários (insumos industriais). É dessa época que data  a  construção  da  primeira  grande  indústria  nacional  com  capitais  do  Estado,  a Companhia Siderúrgica Nacional, fundada em 1941.Outro  elemento  fundamental  para  se  entender  a  transição  da  economia brasileira   um   modelo   primário-exportador   para   um   modelo   desenvolvimentista industrializante,  centrado  na  dinâmica  interna  de nosso  mercado,  consiste  no surgimento, mesmo que tardio, de mecanismos de proteção social voltados à classe trabalhadora. Deve-se igualmente à iniciativa de Vargas a adoção desses primeiros elementos de um Estado de bem-estar, no Brasil, a partir da instituição do salário mínimo (em 1940), de leis reguladoras das relações de trabalho (1943), e da consolidação de uma estrutura pública de fornecimento de serviços de educação, saúde e previdência. Porém, dada a imensa proporção de trabalhadores informais no País à época, boa parte da população terminaria por não ser contemplada por esses benefícios.

De qualquer forma, apesar dos limites e das contradições presentes na ditadura do Estado Novo, o País saiu da era Vargas com uma estrutura produtiva transformada e um mercado interno em franca expansão. Na Guerra Fria, que então se iniciava e que confrontaria durante as próximas quatro décadas as duas maiores potências do globo, EUA e URSS, o Brasil se apresentava como um território extremamente estratégico.  Essa variável é decisiva para entender os êxitos daquele período, mas também a frustração dos objetivos nacional desenvolvimentista sem nosso país entre os anos de 1945 e 1964. Os diferentes governos que atuaram no interregno democrático do pós-Guerra (1946-1964) tiveram de lidar com elementos novos na   política nacional: a reorganização política da classe trabalhadora e a   resistência   de   setores conservadores da elite nacional. Assim, por um lado, cresce no período a pressão por um progresso mais rápido nas políticas distributivas do governo, em especial a reforma agrária. Por outro lado, o aumento do papel do Estado na economia era visto com  maus  olhos  pelos  defensores  do  livre  mercado  e,  consequentemente,  dos interesses das grandes corporações multinacionais que se consolidam no período.Com o retorno de Vargas ao poder, cresce a insatisfação desses segmentos conservadores,   na   medida   em   que   vai   se   consolidando   um   processo   de industrialização  com  forte  participação  de  capitais  do  Estado,  como  se  dá,  por exemplo, na criação da Petrobras em 1953, além da adoção de políticas econômicas que visavam explicitamente proteger a indústria nacional, como foi o caso da política de taxas múltiplas de câmbio instituída naquele mesmo ano. De acordo com Tavares (1976, p.  71), a reforma cambial empreendida pelo governo Vargas instituiu[...] um sistema de leilão de divisas no qual se classificavam as importações em cinco categorias, de acordo com o seu grau de essencialidade e as possibilidades de produção interna [...]. [Isso] não só permitiu comprimir o quantum de importações ao nível da capacidade para importar existente nesse ano, como tornou relativamente mais atraente a produção interna de uma série de produtos industriais básicos e matérias-primas cujo preço de importação em moeda nacional passou a subir consideravelmente por ficar sujeito ao pagamento de crescentes ágios cambiais.

O suicídio de Vargas em 1954 deve ser entendido como fruto desse contexto econômico e político particular. A atitude desesperada do presidente na iminência de um golpe militar permitiu adiar em dez anos a retomada do poder pelos segmentos mais conservadores. Café Filho, representante da oposição a Vargas que assumiu a presidência após a sua morte, não teve legitimidade para colocar em prática a política econômica de controle inflacionário e redução dos gastos do governo. Conforme Bielshowksky (2000, p. 367), mesmo com a volta de intelectuais representantes do neoliberalismo, tal como Gudin (economista da época), durante o curto governo Café Filho, torna-se claro que “não basta coragem para implementar uma política de estabilização, sendo necessária também força política”. O   governo de Juscelino Kubitschek, pouco depois, foi considerado o ápice do desenvolvimentismo brasileiro. Todos os esforços se concentravam no sentido de promover a aceleração do processo de industrialização, objetivo que é atingido com grande êxito.

O emblema desse período foi o estabelecimento de um Plano de Metas, que consistia em um vasto planejamento de investimentos visando transformar o     deficiente quadro da infraestrutura nacional e trazer, consequentemente, ganhos de eficiência e de produtividade para o setor industrial. Sendo assim, entre 1950 e 60 foi triplicada a potência instalada nas usinas geradoras de energia. As rodovias federais aumentam em 60% a sua extensão. A produção de alumínio cresceu 11 vezes no período. O índice de nacionalização da produção na indústria automobilística se aproxima da marca de 90%.  O que explica a redução praticamente a zero na importação de automóveis, combustíveis, ferro e aço, registrada no início dos anos 1960. Nas palavras de Lessa (1983), a economia brasileira logrou sob o esquema do Plano de Metas a aquisição de um setor secundário com um perfil de economia madura. Durante esse período foi possível observar que a direção do desenvolvimento esteve fortemente apoiada e facilitada pela política econômica. Em certo sentido, a política esteve à frente do processo de transformação da economia. Se o Estado teve participação decisiva nos investimentos em infraestrutura no Plano de Metas, coube ao capital estrangeiro papel de destaque na expansão da capacidade produtiva da indústria em território nacional, com destaque para o setor automobilístico.  Na verdade, ainda no segundo governo Vargas, adotou-se uma política bastante flexível, visando facilitar a entrada de capitais e créditos externos destinados a segmentos-chave da economia nacional. Apesar do sucesso em promover crescimento econômico e diversificação produtiva do parque industrial, o Plano de Metas apresentou, ao menos, três (3) deficiências principais:

 

·        A falta de ênfase nos gastos sociais. Os projetos educacionais representavam apenas 3% do total de gastos previstos pelo Plano;

·        A opção pelo financiamento inflacionário e endividamento externo, ou seja, a inexistência de avaliação rigorosa dos possíveis desequilíbrios de um programa de expansão executado sem lastro monetário sustentável no longo prazo;

·        A ausência de preocupação com o setor agrícola, que se beneficiaria apenas de forma indireta por meio de metas como as de aumento na produção nacional de tratores e fertilizantes.

 

As consequências disso se repercutiram sobre o período seguinte na forma de uma grave instabilidade macroeconômica, desembocando em uma crise no início dos anos de 1960 que interrompeu, por sua vez, um longo ciclo de crescimento econômico acelerado.  De fato, a queda no ritmo de expansão do PIB foi drástica.  A economia saiu da taxa de crescimento anual de 7% em média e fechou em 1963 com apenas 2%.  Ao mesmo tempo, a inflação passou de 25%, em 1960, para 73%, em 1963, deslocando a atenção da política econômica das metas de industrialização para o controle dos preços internos. Diante desse cenário, o governo João Goulart assumiu com um duplo desafio: ao mesmo tempo contornar a instabilidade econômica e evitar os transtornos políticos que se desenvolviam de maneira rápida no País.  O principal fator de instabilidade econômica era a inflação, o que exigia medidas de desaquecimento da economia interna, contrariando os objetivos desenvolvimentistas declarados daquele governo. Na realidade, havia o entendimento por parte dos integrantes da equipe de Goulart segundo o qual a principal ameaça de crise no modelo de desenvolvimento perseguido   até   então provinha de fatores estruturais. Logo, uma política de recuperação do poder de compra dos trabalhadores se fazia necessária, como forma de estimular novamente o mercado interno.

No entanto, apesar das concessões à classe trabalhadora realizadas no período, como a instituição do 13º salário e do salário-família, seguidas greves contribuíam para tornar o ambiente político ainda mais conturbado. Essa posição pró-distribuição de renda do governo Goulart, ainda que insuficiente na ótica dos movimentos sociais, o coloca em atrito com segmentos conservadores que vinham pressionando por uma mudança nos rumos econômicos do País desde a redemocratização, em 1946. A relação com o Fundo Monetário Internacional (FMI) é bastante ilustrativa nesse sentido.  A negociação de novos empréstimos frente à comunidade internacional é dificultada pelo ambiente político interno, o que leva o governo a declarar uma moratória, em 1963.As dificuldades não impediram, contudo, que o governo mantivesse suas metas de substituição de   importações, definidas no Plano Trienal, em 1962. Os investimentos concentraram-se especialmente nos setores de energia e transportes, e   estabeleceu-se   um   organismo   específico   para   tratar   da   acentuação   das desigualdades regionais característica do modelo brasileiro de desenvolvimento, a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE).

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

BIELSCHOWSKY, Ricardo.  Pensamento econômico brasileiro.  4.  ed.  Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.

TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Ensaios sobre economia brasileira. 11. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

TAVARES, Maria da Conceição; FIORI, José Luís.  (Des) ajuste global e modernização conservadora. São Paulo: Paz e Terra, 1996.



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segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Logística na Área de Serviços

De Que Forma a Logística Ajudou Nas Relações Comerciais No Século 15? Qual o Impacto da Revolução Industrial na Logística? Por Que Atualmente Estamos Todos no Ramo de Serviços? Qual o Papel Estratégico da Logística no Setor Terciário?




 

Desde o início dos tempos o comércio é um fator de nivelamento da sociedade e as maiores evoluções sociais ocorreram a partir desta importante atividade. O comércio originou-se do escambo evoluindo até as atuais compras pela internet e, diante disso, é importante apresentar esta evolução e como a logística – por meio dos serviços prestados – ajudou nas relações comerciais. As grandes navegações nos séculos XV e XVI têm origem na necessidade de expansão econômica da Europa. Em meados do século XV, o crescimento econômico ficou ameaçado e a produção agrícola era insuficiente para alimentar toda a população, enquanto nas cidades havia excedentes de produção. Em consequência disso, a nobreza estava em declínio econômico, com os produtos orientais cada vez mais caros e sem muitos metais preciosos para a emissão de moedas. Assim, a descoberta de novos mercados fora dos domínios europeus se apresentou como solução para esses problemas. Desta forma, as grandes navegações promoveram a expansão comercial e marítima da Europa. Surgiu então a burguesia mercantil, a qual estava interessada em ampliar seus lucros e fortalecimento do Estado, com a centralização do poder monárquico. Portugal assumiu a vanguarda do expansionismo europeu, seguido depois pela Espanha, e revolucionou a arte da navegação. A liderança inglesa no século 18, com um enorme poder naval, fez a Inglaterra dominar as expedições marítimas. O mercantilismo foi a política econômica adotada na Europa nos séculos XVI e XVII; assumiu formas diferentes nos diversos países e teve duas etapas principais:

 

·        Metalismo: na qual a riqueza de uma nação era medida pela quantidade de metais preciosos que ela possuía;

·        Balança Comercial Favorável: em que a riqueza era avaliada pela diferença entre exportações e importações, ou seja, quanto mais positivo esse saldo, mais rico o país.

 

Nesse contexto, percebeu-se que a logística desempenharia um papel fundamental na geração de riqueza, pois apenas com a gestão eficiente dos serviços seria possível alcançar competitividade nas transações comerciais internacionais.

 

Revolução Industrial

 

Trata-se do conjunto de transformações técnicas e econômicas que se iniciaram na Inglaterra durante a segunda metade do século XVIII e que, ao longo do século XIX, se espalharam por toda Europa e também para a América do Norte. A invenção da máquina a vapor e a sua posterior aplicação à indústria e aos transportes (implicando na evolução logística) é considerada como a grande causa do surgimento da Revolução Industrial. A primeira fase da Revolução Industrial teve lugar entre 1750-1850 e a segunda fase a partir de 1850. Durante e após o período da 1ª e 2ª Revolução Industrial surgiram muitos meios de comunicação (telégrafo, telefone e atualmente a internet). Em 1850, a Inglaterra se integrou através de redes telefônicas com o restante da Europa, ainda antes do desenvolvimento da telefonia em grande escala. Logo após este período iniciou-se a comunicação através da propagação de ondas de rádio e com a Revolução Industrial constatou-se que os jornais impressos tiveram papel muito importante na divulgação das informações. Já nos Estados Unidos da América, as vendas através de catálogo expandiram a atividade comercial nas grandes cidades, impactando na evolução dos serviços da logística de distribuição. Surgiu, então, a TV que modificou o comércio por meio da publicidade, visto que as propagandas “passaram a entrar” na casa e na vida das pessoas, modificando e moldando hábitos de compra e consumo. A televisão como a conhecemos nos dias atuais, com imagens em movimento, surgiu em 1927. Entretanto, como meio de comunicação em massa, tornou-se popular apenas em 1930 com as primeiras transmissões realizadas pela BBC de Londres, em 1936.

 

Mudança no Foco das Empresas

 

Na década de 1960, as empresas tinham seu foco estratégico voltado para a produção, ficando os clientes à margem da sua atividade e somente no consumo daquilo que era possível fabricar. Nesta época, a demanda era maior que a oferta, isto é, havia mais clientes com vontade e capacidade financeira para a compra do que empresas produtoras. Já na década de 1970, os consumidores não só passaram a participar do desenvolvimento de novos produtos, como também passaram a exigir serviços de pós-venda. Nas décadas de 1980 e 1990, o cliente passou a assumir o papel principal dentro das organizações empresariais, em função das opiniões que geravam. Nessas décadas, apareceram as políticas de marketing e vendas com foco no cliente e consumidor final, tentando satisfazer as suas mais variadas necessidades.

Atualmente, o sucesso das empresas passou a depender da capacidade de administrar, identificar e executar as mudanças que o mercado necessita. Nesse sentido, busca-se exceder as suas expectativas, isto é, oferecendo um “algo a mais”. Desse modo, as organizações procuram agregar valor por meio da logística, como, por exemplo, na redução do volume de estoque, em entregas no prazo, entre outras ações. Este é o cenário atual, onde há um grande desenvolvimento de competências logísticas, principalmente aquelas ligadas à prestação de serviços com valor agregado. No entanto, é necessário entender a importância da área de serviços para a economia de um país e sua interdependência para o desenvolvimento econômico das nações, além da sua perspectiva em relação aos fatores produtivos, a participação no PIB (Produto Interno Bruto) e ainda, o seu potencial de geração de emprego e renda.

 

Administração de Serviços

 

Estamos todos nos serviços hoje em dia e, no futuro, estaremos bem mais ([1]). É possível afirmar que, atualmente, vivemos numa sociedade de serviços, consequência inevitável do grau elevado de personalização e de interação dentro de um meio desregulamentado e competitivo, onde os consumidores tornam-se cada vez mais exigentes, ou seja, os serviços estão presentes na vida das pessoas e estarão cada vez mais. Neste sentido, verificamos que a economia de um país pode ser dividida em três setores: primário, secundário e terciário, de acordo com os produtos produzidos, modos de produção e recursos utilizados. Pode-se dizer que estes setores mostram o grau de desenvolvimento econômico de um país ou de uma região. Se analisarmos os setores econômicos, podemos definir:

 

·        Setor Primário: como sendo relacionado à exploração de recursos da natureza, por exemplo, a mineração, o cultivo da agricultura, a pecuária, o extrativismo em geral (como látex) e a própria produção e caça de animais. É este setor que fornece toda a matéria-prima que será utilizada nas indústrias de transformação. Você pode perceber também que este setor econômico é muito vulnerável por depender dos fenômenos relacionados à natureza como as condições meteorológicas por exemplo. Outro ponto relevante em relação ao setor primário é que sua produção e exportação normalmente não geram muita riqueza, justamente por não possuírem valor agregado, ou seja, os produtos não sofreram transformação.

·        Setor Primário ou Agropecuário: é aquele formado por atividades econômicas diretamente relacionadas com o processo de transformação dos produtos naturais em produtos primários.

·        Setor Econômico Secundário: é o que encontramos maior grau de industrialização, pois transforma as matérias-primas extraídas e produzidas pelo setor primário em produtos beneficiados (automóveis, vestuário, máquinas, alimentos industrializados, eletroeletrônicos e etc.). Neste ponto, a logística possui muitos fatores importantes, pois aqui deve haver alto grau de tecnologia e conhecimento empregado, que gera maiores lucros obtidos na comercialização dos bens. Como podemos verificar em estudos econômicos, países com alto grau de desenvolvimento estão baseados neste setor econômico. Por consequência, a exportação destes itens gera grandes dividendos para estes países, por terem embutidos em si valor agregado e recursos de transformação.

·        Setor Terciário: possui relação direta com os serviços prestados. Por serem serviços, constituem produtos que chamamos de não tangíveis. Estes são fornecidos ou prestados por empresas, visando o atendimento de determinadas necessidades de outras empresas ou pessoas físicas. Temos como exemplos de atividades econômicas deste setor:

- O comércio;

- A área de ensino;

- Transportes;

- Telecomunicações;

- Gestão de saúde;

- Serviços de informática, de limpeza, turismo, bancários privados e públicos etc.

 

Neste setor, a logística possui um papel extremamente estratégico, uma vez que para a prestação de serviços há toda uma gestão de recursos que deve ser contemplada. Com o processo de globalização, o terceiro setor está sendo a área econômica que mais se desenvolve no mundo. Exemplificando este setor com o aspecto logístico, podemos dizer que as operações de transporte, armazenagem, controle de materiais e embalagem entre outras, são as atividades de serviços não tangíveis e que competem ao aspecto do terceiro setor.

 

O Crescimento de Serviços

 

Vivemos numa economia baseada em serviços que ocupam cada vez mais papel de extrema importância para a geração de empregos e por consequência, renda. O crescimento dos serviços pode ser explicado em função da estabilização da economia, isto é, inflação sob controle, aumento da renda que gera maior demanda, bem como, por novas tecnologias que permitem fácil acesso aos serviços. Ao analisarmos a participação dos serviços em economias mais desenvolvidas, podemos entender a sua importância. Em alguns países, os serviços chegam a ter percentual de aproximadamente 70% no PIB. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse índice é de 79%, enquanto no Japão é de 74%, e na Grã-Bretanha 73%. No Brasil a participação dos serviços avançou muito nesta última década. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o setor de serviços já responde por aproximadamente 67,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e a tendência para os próximos anos é que a participação cresça ainda mais.

O Brasil segue uma tendência mundial, isto é, o crescimento da participação da importância dos serviços na economia. Esta tendência já é uma realidade nas economias desenvolvidas, tais como Estados Unidos, Canadá, Japão, entre outros países. Nesta perspectiva, verificamos a importância e o crescimento da economia baseado nos serviços no mundo inteiro. Assim, somente empresas que empregarem as melhores práticas em serviços, isto é, inovarem, poderão sobreviver à competição no âmbito nacional e internacional. Os serviços já dominam a base de emprego (força de trabalho) e tendem a crescer ainda mais, em detrimento da área industrial. Nesta, a automação, a informatização e o uso de robôs reduziu a necessidade de uso de mão de obra humana. O fator tempo torna-se cada vez mais escasso e, na logística, esse fator representa um dos principais diferenciais competitivos.

 

Missão da Logística

 

Podemos entender que a principal missão da logística é o seu encargo, sua incumbência, seu desempenho e o dever para executar tarefas. Essas atividades estão relacionadas a:

 

·        Dispor o produto (bem ou serviço) no lugar certo;

·        No tempo certo;

·        Na quantidade certa;

·        Na qualidade certa;

·        No custo certo.

 

Assim, podemos avaliar que a missão da logística tem uma relação direta com o atendimento ao cliente, por meio de um alto nível de serviço. Este pode se tornar a base flexível para orientação da qualidade dos serviços prestados em determinado setor, sendo a exigência mínima pedida pelo cliente para atender sua demanda. E, agora que já sabemos qual é a missão da logística, podemos saber que seus objetivos operacionais estão voltados a algumas atividades, tais como:

 

A) Atividades Primárias: São consideradas primárias porque contribuem com a maior parcela do custo total da logística, sendo também essenciais para o cumprimento da tarefa logística em termos de nível de serviço. São elas:

 

·        Transporte: é a atividade logística mais importante, além de ser também a mais cara, pois absorve em média 60% dos custos logísticos. É essencial na cadeia de suprimentos, pois nenhuma empresa pode operar sem providenciar a movimentação de suas matérias-primas e os insumos, bem como de seus produtos acabados. Nesta atividade são compreendidos os seguintes processos:

- Seleção do modal de serviço de transportes;

- Consolidação de fretes;

- Roteiro do transporte;

- Programação de veículo;

- Seleção de equipamentos;

- Processamento de reclamações;

- Auditoria de tarifas.

A gestão correta do estoque torna-se estratégica ao minimizar o tempo entre pedido e entrega, visto que confere credibilidade à empresa vendedora perante os clientes. Assim, a gestão do estoque é uma atividade-chave na logística.

 

·        Manutenção de Estoque: na maioria dos casos, não é viável ou possível efetuar a produção e entrega instantânea dos produtos aos clientes. Para se atingir um grau razoável de disponibilidade é necessário manter estoques, que agem como “amortecedores”, entre a oferta e a demanda. Contudo, os estoques também são responsáveis por uma alta parcela nos custos logísticos (entre 20 a 25%). Nesta atividade são compreendidos os seguintes processos:

- Políticas de estocagem de matérias-primas e produtos acabados;

- Previsão de vendas no curto prazo;

- Combinação de produtos em pontos de estocagem

- Número, tamanho e local dos pontos de estocagem;

- Estratégias de just-in-time (Gestão no tempo certo, desenvolvida pela Toyota, na qual nada deve ser produzido, transportado ou comprado antes da hora exata), de empurrar e de puxar.

 

·        Fluxo de Informações e Processamento de Pedidos: os custos desta atividade são pequenos, quando comparados aos da atividade de transportes ou da gestão de estoques. Contudo, o processamento de pedidos é considerado uma atividade logística primária, pois é através dela que se inicia todo o ciclo crítico de atividades logísticas. Nesta atividade, são compreendidos os seguintes processos:

- Procedimentos de interface dos estoques com pedido de venda;

- Métodos de transmissão de informações de pedido;

- Regras de pedidos.

 

B) Atividades de Suporte: Para que as atividades primárias possam ser realizadas conforme as necessidades e expectativas dos clientes, é necessário que uma série de atividades sejam incorporadas, e sirvam de apoio às atividades primárias. São elas:

 

·        Armazenagem: Apoio por meio de:

- Determinação do espaço;

- Disposição do estoque e desenho das docas;

- Configuração do armazém;

- Localização do estoque;

 

·        Manuseio de Materiais - apoio por meio de:

- Seleção de equipamentos;

- Políticas de reposição de equipamentos;

- Procedimento de coleta de pedidos;

- Alocação e recuperação de materiais.

 

·        Compras: Apoio por meio de:

- Seleção de fontes de suprimentos;

- O momento da compra;

- Quantidade de compra.

 

·        Embalagem de Proteção: Apoio por meio de projeto para:

- Manuseio;

- Estocagem;

- Proteção contra perdas e danos.

 

·        Cooperar Com a Produção: Apoio por meio de:

- Especificar quantidade agregadas;

- Sequência e tempo do volume de produção.

- Manutenção de informação - apoio por meio de:

- Coleta, arquivamento e manipulação de informação;

- Análise de dados;

- Procedimento de controle.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

BALLOU, Ronald. Entrevista. Revista Mundo Logística, Rio de janeiro, nº. 22, ano. IV, p.22-26. Maio Junho 2011.

PIRES, Luciano J; BRITO, Fernando G. Logística em Serviços. Instituto Federal do Paraná/Rede e-Tec. Curitiba: 2014.

TÉBOUL, J. A. Era dos Serviços: Uma Nova Abordagem de Gerenciamento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999.

 


([1])  TÉBOUL, J. A. Era dos Serviços: Uma Nova Abordagem de Gerenciamento. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1999. P. 19


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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Deus e os Astrólogos, Segundo Santo Agostinho

Qual a Importância de Ptolomeu Para o Desenvolvimento da Astrologia na Idade Média? De Que Forma Ptolomeu Enxergava a Influência Astral na Vida das Pessoas? Por Que as Afirmações Populares de Astrólogos Pagãos Perturbaram os Primeiros Profetas do Cotidiano?

 


A Astrologia fez com as necessidades humanas um casamento que, séculos depois, terminaria num divórcio dividido entre ciência e religião. Por outro lado, a Astrologia teria sido na Roma Antiga apenas um fatalismo supersticioso ou um trinfo do irracional? Não se pode negar que o temor das estrelas inspirava certo temor dos astrólogos, embora a religião astral não estivesse separada da ciência astral. Os principais cientistas tinham como certa a influência das estrelas sobre os acontecimentos humanos, discordando apenas quanto ao como as estrelas exerciam os seus poderes. A grande enciclopédia científica da época – História Natural, de Plínio – propagava os rudimentos da astrologia mostrando em tudo a influência das estrelas. O mais influente de todos os cientistas romanos antigos – Cláudio Ptolomeu, de Alexandria – mostrou ser a autoridade mais duradoura em Astrologia, ao apresentar um estudo que dava substância e respeitabilidade a essa ciência nos mil anos seguintes. Mas, a sua reputação se ressentiu do destino excessivamente divulgado de duas de suas teorias errôneas. A Teoria Geocêntrica (ou Ptolomaica) se tornaria um sinônimo moderno de erro astronômico e, de igual modo, a sua opinião de que a maior parte da superfície da Terra era constituída de terra seca, tornou-se um sinônimo de erro geográfico.

Mas, nunca depois dele alguém forneceu uma visão tão abrangente de todo o conhecimento científico de uma época. Em verdade, Ptolomeu dominou a visão popular e literária do universo durante a Idade Média e o mundo descrito na Divina Comédia de Dante veio diretamente do “Almagesto” de Ptolomeu. Em muitos aspectos ele falou como um profeta, alargando o emprego da Matemática ao serviço da ciência e, ao mesmo tempo, que ia beber às melhores observações feitas antes de si, sublinhando a necessidade da observação repetida. Efetivamente, Ptolomeu foi um precursor do espírito científico e um pioneiro do método experimental, pois na trigonometria esférica ele proporcionou uma solução elegante para os problemas dos Relógios de Sol que tinham especial importância naquele tempo anterior aos relógios mecânicos. Não houve ramo da ciência física que ele não tenha estudado e organizado em novas e úteis formas. Na Geografia, na Astronomia, na Ótica e na Harmonia ele expôs em um sistema e o mais conhecido de todos foi o seu tratado em Geografia em Almagesto. A sua Geografia – que pretendia cartografar todo o mundo conhecido – foi pioneira na listagem de lugares por latitude e longitude. Os Árabes apreciaram a grandeza da obra de Ptolomeu e trouxeram para o Ocidente.

A sua Astronomia estava destinada a ter um nome árabe (Almagesto) e sua Geografia foi traduzida para arábico no início do século. Ptolomeu via a influência astral como puramente física; ou seja, apenas uma entre muitas outras forças. Ele admitia que a Astrologia não era mais exata do que qualquer outra ciência, embora isso não constituísse razão para que de uma cuidadosa observação da correspondência de acontecimentos terrestres com celestes, não resultassem algumas previsões úteis, mas não matematicamente certas. Com esse espírito prático, Ptolomeu construiu os alicerces da mais duradoura das ciências ocultas. Seus dois primeiros livros sobre geografia astrológica e previsão do tempo abrangem as influências dos corpos celestes sobre acontecimentos físicos terrestres e, os outros dois, cobrem a sua influência sobre acontecimentos humanos. Ele expôs a ciência dos horóscopos e a predição dos destinos humanos baseada na posição das estrelas no nascimento da pessoa e, embora sua obre tenha se tornado o principal manual de Astrologia durante mil anos em virtude de ignorar a técnica de responder a perguntas sobre o futuro através da posição dos corpos celestes, o seu trabalho não satisfez inteiramente as necessidades dos praticantes de Astrologia. A aventura ptolomaica no mundo oculto da Astrologia sobreviveu às suas obras nos campos mais familiares da ciência moderna. O “De Revolutionibus” de Copérnico (1543) – que foi o início de uma nova época e mudou o centro de sistema solar – ainda confirmou a influência dominante do Almagesto de Ptolomeu e, somente meio século depois, quando a “Mecânica da Astronomia Instaurada” de Tycho (1598) substituiu o catálogo de estrelas de Ptolomeu por um novo baseado em observações independentes, os dados deste (assim como as suas teorias) se tornaram finalmente obsoletas.

As afirmações populares de astrólogos pagãos perturbaram os primeiros profetas do cotidiano e, os padres da Igreja que declararam o seu próprio poder de prever o destino dos homens no outro mundo, invejavam os poderes daqueles que pretendiam saber o destino dos homens na Terra. Se os horóscopos dos astrólogos significavam o que diziam, onde então estaria o espaço para o livre arbítrio? Ou para a liberdade de preferir o bem ao mal? Ou de renegar Maomé e até mesmo trocar César por Jesus Cristo? A própria luta para se tornar cristão – para abandonar a superstição pagã em favor do livre arbítrio cristão – parecia ser luta contra a Astrologia. Na sua obra “Confissões”, Santo Agostinho (354-430) recorda que “aqueles impostores, a quem chamam de matemáticos, consultei então sem escrúpulo, pois pareciam não usar nenhum sacrifício, nem rezar a nenhum espírito para as suas adivinhações”. E sentiu-se tentado pelas opiniões dos astrólogos: “a causa do teu pecado é inevitavelmente determinada no céu; isto fez Vênus, ou Saturno, ou Marte: aquele homem, certamente, carne e sangue e altiva corrupção, fica inocente; enquanto o criador e ordenador do céu e das estrelas tem de arcar com a culpa”. Santo Agostinho lutou para rejeitar as adivinhações mentirosas e os desvarios dos astrólogos. Dois conhecidos recordaram-lhe que não existia tal arte para prever coisas futuras, mas que as conjecturas dos homens eram uma espécie de loteria e que, das muitas coisas que eles diziam que aconteceriam, algumas certamente ocorreriam, sem nada terem a ver com os que as tinham dito, e que por força e acaso nelas tropeçavam, de tanto falarem. “Nesse momento crucial em que germinavam dúvidas em seus pensamentos, Deus enviou-lhe um amigo. Não um consultante descuidado de astrólogos e sequer bem versado em tais artes, mas delas consultante curioso, e sabendo ademais algo que dizia ter ouvido ao Pai, apesar de desconhecer até que isso chegaria para derrubar o apreço dessa arte” ([1]).

Uma história contada por esse amigo – Firmino – abalou o jovem Agostinho e libertou-o da sua fé pagã. O pai de Firmino – interessado em Astrologia – “sempre observava a posição das estrelas e até tomava o cuidado de saber o nascimento dos seus próprios cachorros”. Não apenas na sua obra autobiográfica – “Confissões”, mas também na sua obra teórica “A Cidade de Deus”, Santo Agostinho discorre demoradamente contra os astrólogos. “O Império Romano – e todos os outros reinos – tem o seu destino traçado não pelas estrelas, mas sim pela vontade de Deus”. O seu argumento bíblico é o exemplo de Jacob e Esaú, “dois gêmeos nascidos tão a seguir um ao outro que o segundo segurava o calcanhar do primeiro e, no entanto, as suas vidas, modos de ser e ações foram tão diversos que essa mesma diferença fez deles inimigos um do outro”. E, logo depois, ele apresenta casos de outros gêmeos com minúcias. Teólogos cristãos da Idade Média conseguiram encontrar usos sagrados para a crença nos poderes astrais e, tanto Alberto Magno como São Tomás de Aquino admitiram a influência governadora das estrelas, mas insistiram em que a liberdade do homem era a sua própria força para resistir a essa influência. E, mesmo que os astrólogos fizessem predições verdadeiras, essas respeitavam acontecimentos em que estavam envolvidos grande número de homens. Em tais casos as paixões da maioria prevaleciam contra a racionalidade da minoria, mas o livre-arbítrio do indivíduo cristão não fora exercido. Assim, alguns teólogos medievais aproveitaram a crença prevalecente da Astrologia para reforçar as verdades do Cristianismo, gostando de lembrar a perdição astrológica do nascimento de Cristo, dado à luz por uma virgem. Se Jesus Cristo não estava Ele próprio sujeito ao domínio estrelar, estas tinham dado sinais da Sua vinda. Afinal, que outra coisa era a estrela de Belém? Não era provável que aqueles suficientemente sábios para seguir a estrela – os Magos – fossem realmente entendidos astrólogos?

 

 

 

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([1])  BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989. P. 55

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A Semana: Uma Porta Para a Ciência

De Onde Deriva a Palavra “Week”? Por Que os Romanos Fixaram Uma Semana de Oito Dias? Qual a Relação do Sabat Judeu Com a Semana de Sete Dias?

 


 

Enquanto o homem regeu sua vida apenas pelos ciclos da Natureza como a mudança das estações e as fases da Lua ele permaneceu prisioneiro dela. Se ele queria encher seu mundo de novidades humanas, teria de criar suas próprias medidas do tempo. E estes ciclos feitos pelo homem viriam a ser variados. A semana – ou algo bem parecido – foi o primeiro destes agrupamentos artificiais de tempo. A palavra inglesa “week” (semana) parece derivar de uma palavra do alemão que significa “mudar” ou “suceder”. Mas, a semana não é uma invenção ocidental nem foi em todos os lados um agrupamento de 7 dias e, na verdade, as pessoas descobriram pelo menos 15 maneiras – em aglomerados de 5 a 10 dias – para agrupar os seus dias. O que existe à escala planetária não é um determinado conjunto de dias, mas a necessidade de fazer qualquer tipo de conjunto. Daí a humanidade revelou um forte desejo de jogar com o tempo e de fazê-lo mais importante do que a Natureza o fez. A nossa semana de 7 dias surgiu da necessidade popular e da concordância espontânea, e não de uma lei ou da ordem de qualquer governo. Como aconteceu? Por quê? Quando? Por que uma semana de 7 dias? Os antigos Gregos não tinham semana e os Romanos viviam uma semana de 8 dias, onde os agricultores que trabalhavam sete dias nos campos iam passar na cidade o oitavo dia, sendo considerado um dia de repouso, festividades e sem escola. Mas, quando e porque os Romanos se fixaram nos oito dias e por que motivos mudaram para uma semana de 7 dias, não se sabe ao certo.

O número 7 tem um significado mágico quase em toda parte do mundo, pois os Japoneses – por exemplo – descobriram 7 deuses da felicidade, Roma erguia-se sobre 7 colinas, os antigos enumeravam as 7 Maravilhas do Mundo e os cristãos medievais enumeravam os 7 Pecados Mortais. A mudança romana de 8 para 7 dias parece não ter vindo de qualquer ato oficial, pois no princípio do século III os Romanos já viviam a semana de 7 dias. Devem ter andado no ar algumas novas ideias populares e uma delas era a do “sabat”, que chegou a Roma por meio dos Judeus. A ideia de um 7º dia de descanso parece ter sobrevivido dos anos em que os Judeus estiveram no cativeiro na Babilônia, onde os babilônicos observavam certos dias em que eram proibidas atividades específicas ao seu rei. Encontramos outra pista com os Romanos, os quais designavam o dia de Saturno (Sábado) como um dia de descanso; ou seja, um dia em que não deveriam travar batalhas ou iniciar qualquer viagem. Nenhuma pessoa poderia correr o risco de se expor aos infortúnios que Saturno poderia trazer e, segundo Tácito, o sabat era observado em honra de Saturno porque “das sete estrelas que regem os assuntos humanos, Saturno tem a mais alta esfera e o poder principal”. No século III a semana de sete dias tornara-se comum na vida de todo o Império Romano e cada dia era dedicado a um dos 7 planetas que, de acordo com a astronomia da época era Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Essa ordem não era a da sua então suposta distância da Terra; ou seja, a ordem “normal” pela qual Dante – por exemplo – descreveria mais tarde as zonas dos céus, pela qual também os nomes dos planetas foram recitados nas escolas até o tempo de Copérnico. A nossa ordem conhecida dos dias da semana veio dessa ordem dos planetas que os Romanos pensavam que “governavam” a primeira hora de cada dia. Os astrólogos da época utilizavam a “ordem” dos planetas de acordo com a sua suposta distância da Terra para calcularem a influência de cada planeta nos assuntos mundanos. Os dias da semana ingleses continuam a ser um testemunho vivo dos poderes da astrologia, pois os nossos dias da semana têm nomes derivados dos planetas tal como eram conhecidos em Roma há 2000 anos. Os dias da semana nas línguas europeias continuam a derivar dos nomes do planeta e a sobrevivência é ainda mais óbvia em línguas que não a inglesa, conforme abaixo:

 

INGLÊS / ESPANHOL:

 

·        Sunday (Sol) / Domingo

·        Monday (Lua) / Lunes

·        Tuesday (Marte) / Martes

·        Wednesdey (Mercúrio) / Miércoles

·        Thursday (Júpiter) / Jueves

·        Friday (Vênus) / Viemes

·        Saturday (Saturno) / Sábado

 

Quando as pessoas tentaram extinguir a idolatria antiga, substituíram os nomes planetários por números simples e, dessa forma, os “quares” ([1]) chamam aos seus dias de “primeiro dia”, “segundo dia”, etc... até ao “último dia”. Eles não efetuam suas reuniões religiosas no domingo, mas sim no primeiro dia. Na moderna Israel, os dias da semana também têm números ordinais. Um dos exemplos mais imprevistos da ideia planetária é a mudança cristã do “sabat” de sábado, ou “dia de Saturno”, para domingos, ou dia do Sol ([2]). Quando o Cristianismo criou raízes no Império Romano, padres da Igreja se preocuparam com a sobrevivência dos deuses pagãos nos nomes dos planetas que regiam a semana cristã. A Igreja do Oriente obteve algum êxito no extermínio dessa influência pagã, pois os nomes dos dias – tanto em grego moderno como em russo – deixaram de ser planetários. Mas, a cristandade ocidental revelou-se mais disposta a aproveitar em benefício próprio as crenças e os preconceitos romanos. O dia que os judeus achavam sensato abster-se trabalhar – Dia de Saturno – permaneceu como eixo fixo à volta do qual girariam os auspícios semanais. Então, os cristãos fixaram o seu Dia do Senhor, para que a passagem de cada semana revivesse o drama de Jesus Cristo e, tomando a comunhão, cada cristão tornava-se então um dos discípulos da Última Ceia. O guia desse drama místico era a liturgia da missa e, como os outros sacramentos, a eucaristia tornou-se uma representação repetitiva de um acontecimento simbólico fundamental da Igreja. A formação da nossa semana foi mais um passo em frente no domínio do Mundo pelo homem, na busca pela ciência. A semana era um agrupamento feito pelo próprio homem e não ditado pelas forças da Natureza, pois as influências planetárias eram invisíveis. A semana planetária foi um caminho para astrologia e esta foi um passo na direção de novas espécies de profecia. Rituais antigos traziam consigo uma “ciência” complicada quanto ao uso de partes de animais sacrificados, a fim de predizer o futuro das pessoas que ofereciam o sacrifício. Em meados do século XIX Sir Richard Burton apresentou uma complicada técnica para adivinhar o futuro, a partir da omoplata de um carneiro.

Os “osteomantes” – como eram chamados – dividiam o osso em 12 áreas (ou “casas”) e cada uma delas correspondia a uma pergunta diferente a respeito do futuro. Se na 1ª casa o osso fosse liso e claro, o augúrio seria propício e o consulente provaria ser um homem bom. Em contraste com esta espécie de profecia, a astrologia era progressiva, pois as influências dos corpos celestes sobre os acontecimentos na Terra eram por ela descrita como forças repetitivas, invisíveis como as que viriam a reger o espírito científico do homem. Sendo assim, não surpreende o fato de que o homem mais antigo se sentisse atemorizado pelo céu e seduzido pelas estrelas, pois estas primeiras luzes noturnas iluminavam a fantasia popular. Todos os agricultores sabiam que as nuvens do céu, o calor do Sol e a dádiva das chuvas decidiam a sorte das suas culturas e, consequentemente, governavam suas próprias vidas. Claro que os acontecimentos celestes mais sutis exigiam uma interpretação adequada feita por sacerdotes e, esta sedução exercida pelo céu, acabou originando uma fértil “tradição celeste”. Os poderes do Sol, da chuva e a correspondência entre os acontecimentos no céu e acontecimentos na Terra suscitaram a procura de outras correspondências. Os Babilônicos – por exemplo – elaboraram uma estrutura mitológica para essas correspondências universais e o seu imaginário seria perpetuado pelos Gregos, Judeus e Romanos nos séculos seguintes. A teoria da correspondência transformou-se na astrologia, a qual procurou elos entre o espaço e o tempo, entre os movimentos dos corpos físicos e o desenrolar de toda a experiência humana. Dessa forma, o desenvolvimento da ciência dependeria da disposição do homem para acreditar no improvável e passar por cima dos ditames do senso comum. Sendo assim, o céu foi o laboratório da primeira ciência da humanidade assim como o interior do corpo humano, o íntimo e os negros continentes do átomo seriam os cenários das suas ciências mais recentes. O homem procurou utilizar o seu conhecimento crescente dos padrões da experiência repetitiva na interminável luta para quebrar o anel de ferro da repetição ([3]).

A profecia social floresceu na Babilônia, quando se previam os grandes acontecimentos – batalhas, secas, pestes ou colheitas – que afetavam toda a comunidade e, durante séculos, este tipo de astrologia permaneceu mais como uma tradição do que como uma doutrina. Os Gregos transformaram-na numa ciência, quando a astrologia pessoal passou a traçar a sorte de uma pessoa a partir da posição dos corpos celestes no momento do seu nascimento. Os gregos se sentiam igualmente divididos entre a vontade de saber as boas notícias e o receio de saber as más. Na Roma Antiga, a astrologia atingiu uma influência raramente igualada, onde os astrólogos constituíam uma profissão reconhecida cuja reputação variava conforme a turbulência dos tempos. Durante a República Romana tornaram-se tão poderosos e impopulares que no ano 139 a.C. foram expulsos não só de Roma, mas também de toda a Itália. Depois, durante o Império, quando as suas perigosas profecias levaram alguns astrólogos a julgamento por traição, foram completamente banidos, embora o mesmo imperador que bania alguns astrólogos empregava outros para orientar a sua casa imperial.

 

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([1])  Membros de uma seita protestante, fundada no século XVIII (N. do Autor)

([2])  Em inglês, o domingo equivale efetivamente a Dia de Sol, Sunday. Em português e em espanhol, o significado é Dia do Senhor (do latim Dominicus (N. do Autor)  

([3])  BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989. p 30

 

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