Como os Mongóis Abriram o Caminho Para o Conhecimento Sobre o Oriente? Quais as Dificuldades Europeias Para Navegar ao Oriente? Como os Mercadores Venezianos Prosperavam Vendendo Mercadorias Já Que Nunca Tinham Visto a Índia ou a China?
Os pioneiros das viagens terrestres da descoberta da Europa que seguiram para Oriente precisavam de recursos bem diferentes dos das viagens marítimas. Colombo teve de reunir uma grande quantia em dinheiro, arranjar navios, engajar uma tripulação, obter provisões, manter tripulantes satisfeitos, sem se amotinarem e navegar em oceanos desconhecidos. Outros talentos totalmente diversos foram exigidos aos primeiros viajantes por terra, os quais podiam seguir – com um ou dois companheiros – por estradas já conhecidas e, além disso, eles podiam viver da terra e encontrar o que comer e beber no caminho. Não precisavam recolher fundos ou serem mestres em organização, mas tinham de ser adaptáveis e afáveis. Os homens de Colombo quiseram amotinar-se quando a viagem se prolongou algumas semanas mais do que o esperado, mas os pioneiros das viagens por terra podiam prolongar a viagem o tempo que fosse necessário, mais um mês, um ano ou uma década.
Enquanto os viajantes marítimos
percorriam longas distâncias de vazio cultural – e no mar, as notícias
geralmente significavam complicações – os viajantes por terra (mercadores ou
missionários) podiam praticar sua vocação pelo caminho e ir aprendendo à medida
que avançavam. E, se um solitário viajante terrestre embarcasse em um barco
para algumas fases da sua viagem, ele se tornava um passageiro. O barco era
comandado e aprovisionado por alguém da região. O pioneiro da viagem foi mais e
menos solitário do que o seu correspondente por mar, pois se por um lado lhe
faltava a camaradagem e o apoio dos compatriotas – como os que foram com
Colombo no Santa Maria – por outro lado tinha oportunidade de travar novas
relações, calorosas e casuais nos dias e nas noites em que percorria seu
caminho.
Os perigos do mar eram exatamente
os mesmos em toda parte – ventos, ondas, tempestades – mas os perigos da terra
eram variados como a paisagem e ajudavam a tornar a viagem interessante e cheia
de suspense. Haveria ladrões na estrada? O viajante conseguiria digerir a
comida local? Ele deveria usar seu próprio traje ou um nativo? Ele seria
autorizado a transpor a porta da cidade? Em verdade, a viagem por terra jamais
foi um passeio comum, mas sim uma laboriosa jornada individual. Data dessa
época a palavra inglesa “travel” –
com o significado de “labor” de natureza penosa – descrição bem adequada do que
significava percorrer longas distâncias por terra. Embora os Europeus ainda
estivessem mergulhados nas trevas da geografia dogmática, a muito tempo ouviam
contar lendas do misterioso Oriente. Alguns homens desfrutavam até dos exóticos
luxos do outro lado da Terra como banquetes – em salas forradas com tapetes
persas – com pratos condimentados com as especiarias do Ceilão, além de
passarem longos períodos jogando xadrez com peças de ébano do Sião.
No entanto, os mercadores de
Veneza (ou Gênova) que prosperavam vendendo essas mercadorias orientais nunca
tinham visto a Índia ou a China. O seu contato com o Oriente fazia-se nos
portos do Mediterrâneo oriental e os seus estoques tinham sido trazidos por um
de dois caminhos: (A) A famosa rota
da seda era um caminho feito por terra que partia da China, atravessava a Ásia
central e chegava às cidades costeiras do Mar Negro no Mediterrâneo oriental. (B) O outro caminho vinha pelo mar da
China, Oceano Índico e pelo Mar Arábico e, para chegarem ao mercado europeu,
essas mercadorias ainda teriam de viajar por terra através da Pérsia e da
Síria. Em qualquer dessas rotas, os mercadores encontravam o caminho bloqueado
assim que tentavam avançar dos portos mediterrâneos para o Oriente. Os
Muçulmanos negociavam com eles em Alexandria e em Damasco, mas os turcos
muçulmanos não permitiriam que os Europeus avançassem nem mais um passo. Era a
“cortina de ferro” do fim da Idade Média.
Entre 1260 e 1350, essa cortina
foi levantada e houve contato direto entre a Europa e a China e, durante esse
intervalo, os mercadores italianos deixaram de ter de esperar que as
mercadorias exóticas chegassem a Damasco ou Alexandria. Agora eles próprios
conduziam caravanas pela rota da seda para as cidades da Índia e da China, onde
podiam ouvir frades cristãos rezarem missas. Mas, o que poderia ter sido o
início de um enriquecimento mútuo e um estímulo da visão do Oriente e do
Ocidente, na verdade revelou-se apenas um levantar de cortinas, um episódio
aventuroso após o qual a cortina caiu de novo. Seria outra espécie de
interregno, um intervalo de luz na escuridão que durante a maior parte da
história moderna obscureceu a visão do Oriente e do Ocidente. Na verdade,
passariam décadas antes de a descoberta do oceano tornar possível de novo aos
europeus entrar na Índia e, decorreriam séculos, antes de ser permitido que
eles visitassem novamente a China.
Não foi a marcha de soldados
cristãos, ou sequer as manobras dos estadistas europeus que levantou essa
“cortina” e, se há de dar crédito a alguém, devemos dá-lo a um povo que durante
tanto tempo bloquearam o caminho aos Europeus, a um povo mongol da Ásia
Central: _ os Tártaros. Por constituírem uma ameaça para a Europa eles foram
muito difamados e, muitas vezes, representados como destruidores e
sanguinários. O nome Tártaro se tornou sinônimo de “bárbaro” e a palavra
“horda”, que significava apenas “acampamento” acabou se confundindo com as
tropas tártaras. A sua reputação foi estabelecida por escritores europeus que
tinham ouvido falar dos horrores das investidas tártaras contra o Ocidente, mas
poucos tinham visto um tártaro e não sabiam nada das notáveis realizações desse
povo.
Os impérios mongóis tinham o
dobro do tamanho do Império Romano e Gengis Khan desceu da Mongólia com suas
hordas para Pequim, em 1214. No meio século que se seguiu ocupou toda a Ásia e
depois se voltou para a Rússia, entrando pela Polônia e Hungria. Quando seu
descendente subiu ao trono (1259), seu império ia do rio Amarelo na China às
margens do Danúbio (na Europa) e da Sibéria até o Golfo Pérsico. Os mongóis de
Khan formaram uma dinastia tão competente como qualquer outra que alguma vez
tenha governado um grande império. Os mongóis possuíam uma combinação de
talento militar, coragem pessoal, versatilidade administrativa e uma tolerância
cultural inigualada por qualquer linhagem europeia de soberanos e, por esse
motivo, merecem um lugar mais alto e diferente do que lhes tem sido atribuído
pelos historiadores. Em 1241, um bando de tártaros devastou a Polônia e a
Hungria, derrotando um exército de polacos e alemães enquanto outro exército
seu derrotava os húngaros. O terror se abateu sobre a Europa e, no Mar do
Norte, os corajosos pescadores da Frísia tiveram tanto medo que se mantiveram
afastados das zonas de pesca. E, até o imperador do Império Romano Frederico
II, que acabara de conquistar Jerusalém e fizera uma trégua de 10 anos com o
sultão do Egito, temeu que a enxurrada tártara submergisse a cristandade.
O Papa Gregório IX conclamou nova
cruzada, desta vez contra os Tártaros. Mas, em virtude do antagonismo entre o
Papa e Frederico II, que já fora excomungado duas vezes, o pedido de socorro do
rei da Hungria não foi atendido. No fim, a Europa foi salva por uma mercê de Deus,
quando no apogeu dos seus êxitos, os tártaros receberam a notícia da morte de
seu líder e, por isso, eles deveriam retornar imediatamente. Apesar do susto
dos cristãos e das chacinas tártaras a polacos e húngaros, os Tártaros se
revelaram aliados poderosos contra os muçulmanos e os turcos que bloqueavam o
caminho para o Oriente. Pois, após terem tido sucesso na sua campanha contra os
“assassinos” nas praias do Mar Cáspio, eles prosseguiram para derrubar o califa
da Síria.
Os Tártaros que não se importavam
com nenhum dogma para perseguirem em seu nome, abriram caminho a partir do
Ocidente cristão. A conquista tártara da Pérsia pôs a funcionar a política
mongol de direitos alfandegários baixos, estradas bem policiadas e passagem
livre para todos, abrindo assim o caminho para a Índia. A conquista Tártara da
Rússia abriu caminho para Catai e, a rota da seda, só foi frequentada pelos
europeus nos anos da conquista tártara. As estradas egípcias, ainda nas mãos
dos muçulmanos, continuaram interditadas aos europeus e as mercadorias que por
lá passavam eram sujeitas a tarifas tão pesadas – impostas pelos mamelucos –
que os preços dos produtos indianos tinham triplicado quando chegavam às mãos
dos mercadores italianos.



