sexta-feira, 19 de junho de 2026

Inteligência Emocional: o Que é e Como Desenvolvê-la

Como Surgiu o Conceito da Inteligência Emocional? Qual a Importância de Daniel Goleman Nesse Tema? O Que é Ser Uma Pessoa Com Inteligência Emocional? Quais os Principais Benefícios Proporcionados Pela Inteligência Emocional?

 


 

Para alguns estudiosos em Psicologia, a Inteligência Emocional seria a capacidade do ser humano em reconhecer, compreender e gerenciar as suas próprias emoções, além de saber lidar com os sentimentos dos outros de forma empática. Envolve tanto o autoconhecimento quanto a empatia, permitindo respostas mais equilibradas diante de situações desafiadoras. É uma competência essencial para quem deseja lidar melhor com desafios pessoais, profissionais e sociais no dia a dia e, mais do que uma habilidade comportamental, a Inteligência Emocional é um fator determinante para a forma como as pessoas compreendem suas emoções, tomam decisões e constroem relações saudáveis. Em um mundo cada vez mais dinâmico e exigente, entender o que é Inteligência Emocional e como desenvolvê-la pode fazer a diferença no bem-estar e no desempenho de profissionais em todas as áreas. Popularizado pelo psicólogo Daniel Goleman, esse conjunto de habilidades é frequentemente mais determinante para o sucesso pessoal e profissional do que o próprio Quoeficiente de Inteligência (QI). Segundo o relatório divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, a Inteligência Emocional segue entre as habilidades essenciais para o futuro do trabalho, especialmente quando combinada com empatia, escuta ativa e influência social. Essa habilidade é essencial em contextos que exigem tomadas de decisão, gestão de conflitos, trabalho em equipe, liderança e negociação. Ela não elimina sentimentos como raiva, tristeza ou frustração, mas contribui para que eles sejam compreendidos e canalizados de forma produtiva. Assim, em um cenário marcado por transformações constantes, saber gerenciar emoções continua sendo um diferencial competitivo em todas as áreas de atuação.

 

Como Surgiu o Conceito da Inteligência Emocional?

 

 A primeira referência a esse tema vem do século XIX de autoria do naturalista Charles Darwin, embora à época, esse conceito fosse mais próximo do conceito de “Expressão Emocional” ([1]). Tinha muito mais a ver com o instinto de sobrevivência – e com a teoria evolucionista de adaptabilidade – do que com o sentido que conhecemos hoje. Depois, já no século XX, vieram outras ideias como as de Inteligência Social (que tratava sobre a capacidade humana de compreender e motivar uns aos outros) e a de Inteligências Múltiplas (que abordava os aspectos intra e interpessoais). Um dos primeiros estudiosos que procurou entender os próprios sentimentos, motivações e medos foi Howard Gardner, embora o termo em si tenha sido usado pela primeira vez em 1990 pelos pesquisadores Peter Salovey e John D. Mayer, na Revista Imagination, Cognition and Personality. Muitos teóricos, cientistas, pesquisadores e psicólogos tiveram a sua participação no desenvolvimento do conceito e dos estudos envolvendo a Inteligência Emocional, embora nenhum deles tenha tido um papel tão fundamental quanto Daniel Goleman – autor do best seller “Emotional Intelligence”.

Goleman foi o responsável por popularizar o tema, levando o assunto a diversas camadas da sociedade, para além da academia e, ao contrário de seus colegas e antecessores, a linguagem usada por ele é muito mais acessível ao público em geral, facilitando a compreensão. O tom persuasivo também é uma marca de Goleman, que foi colunista do The New York Times por vários anos., escrevendo no caderno de Ciências e focando seus textos no comportamento humano e no funcionamento do cérebro. Em termos mais conceituais, o autor foi o primeiro a se aprofundar de fato na complexidade da inteligência emocional. Goleman apresentou resultados de novos estudos sobre a mente humana, associando diversos aspectos da nossa personalidade às habilidades cognitivas. Entre as suas principais contribuições técnicas está a criação do conceito de Quociente Emocional (QE), um complemento ao Quociente de Inteligência (o famoso QI). Para ele, a Inteligência Emocional seria a capacidade de identificar nossas próprias emoções e as das outras pessoas, de se auto motivar e de saber lidar com as próprias emoções internas e nos relacionamentos. Ela se manifesta, por exemplo, na capacidade de não reagir impulsivamente, de manter o foco em momentos de pressão e de reconhecer os limites do outro. Goleman conceituou a Inteligência Emocional de duas (2) maneiras:

 

·        Inteligência Intrapessoal: refere-se à habilidade de reconhecer suas próprias emoções e sentimentos e dar direcionamento de forma eficiente.

·        Inteligências Interpessoal: refere-se à habilidade de compreender as pessoas de forma harmoniosa, com empatia e aceitação com elas são.

 

Diferentemente do que muitos pensam, a Inteligência Emocional pode ser aprendida e desenvolvida ao longo da vida, por meio de práticas intencionais e autoconhecimento. Em ambientes profissionais, sua presença tem impacto direto na produtividade, no clima organizacional e na capacidade de liderança e, na vida pessoal, melhora os relacionamentos, fortalece o bem-estar e ajuda na resolução de conflitos cotidianos. Então, compreender o que é Inteligência Emocional é o primeiro passo para aplicar esse conhecimento em benefício próprio e coletivo.


O Que é Ser Uma Pessoa Com Inteligência Emocional?

 

Ser inteligente emocionalmente significa conseguir lidar com emoções de forma equilibrada e construtiva, mesmo diante de pressões ou situações adversas e, no dia a dia, isso se traduz em comportamentos mais conscientes, como escutar antes de reagir, manter a calma em discussões e adaptar-se com mais facilidade a mudanças. Pessoas com inteligência emocional costumam refletir antes de tomar decisões importantes e não permitem que sentimentos passageiros comprometam seus objetivos ou relações. Quando elas enfrentam frustrações, sabem identificar o que sentem e buscar soluções com foco no problema, e não apenas na emoção do momento. Em um ambiente profissional, são aquelas que conseguem manter a produtividade mesmo sob pressão, resolvem conflitos com empatia e lidam bem com o trabalho em equipe. Já na vida pessoal, demonstram escuta ativa, capacidade de perdoar, resiliência emocional e facilidade para estabelecer conexões afetivas saudáveis. Por exemplo, ao receber uma crítica, uma pessoa com inteligência emocional avalia o conteúdo da mensagem antes de reagir com irritação. Ela entende que nem toda opinião negativa é um ataque pessoal, e isso a torna mais madura nas relações interpessoais. Portanto, ter Inteligência Emocional é uma forma de viver com mais autonomia, consciência e capacidade de evoluir diante das situações.

  

Principais Benefícios Proporcionados Pela Inteligência Emocional

 

 ·        Aumento da qualidade de vida, mais disposição, vitalidade e bem-estar;

·        Clareza nos objetivos, ações e melhora na capacidade de tomada de decisão;

·        Compreensão da visão de mundo e dos sentimentos das outras pessoas;

·        Aumento do nível de comprometimento com metas de vida;

·        Redução de conflitos em relacionamentos interpessoais;

·        Melhora na comunicação e em seu poder de influência;

·        Enriquecimento dos relacionamentos interpessoais;

·        Senso de responsabilidade e melhor visão de futuro;

·        Aumento da autoestima e autoconfiança;

·        Direcionamento adequado das emoções;

·        Diminuição dos níveis de estresse;

·        Boa administração do tempo;

·        Equilíbrio emocional;

·        Alegria de viver.

 

 

 

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([1])  KOELLE, Isis. “Inteligência Emocional: o que é, pilares e como desenvolver”. FIA Business School. Outubro, 2025  

 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A Atração Pela Simetria da Terra na Idade Média

Por Que os Egípcios Viam a Terra Sob a Forma de Um Ovo? Como os Gregos Enxergavam o Formato da Terra? Por Que Heródoto Ridicularizou o Conceito de a Terra Ser um Disco Circular Rodeado Por Um Rio?

 


 

Mais atraente do que o conhecimento humano é a impressão de conhecer e, por isso mesmo, não surpreende que a imaginação dos homens tenha dado à Terra as formas simétricas mais simples. Uma das formas mais atraentes foi a do ovo, pois os Egípcios viam a Terra como um ovo guardado à noite pela Lua e os cristãos gnósticos também viam o Céu e a Terra como um ovo e, envolvendo esse ovo, encontrava-se uma serpente gigantesca. Já a literatura grega descreve uma procura pela simetria, pois antes de os Gregos acreditarem que a Terra era uma esfera, discutiam que outra forma simples ela poderia ter. Heródoto ridicularizou o conceito de a Terra ser um disco circular rodeado pelo rio. Parecia-lhe óbvio que a Terra devia ser rodeada por um grande deserto. A crença na existência de uma espécie qualquer de “equador” surgiu antes da convicção de que o planeta era uma esfera. O Nilo e o Danúbio, segundo Heródoto, encontravam-se simetricamente à volta de uma linha mediana que atravessava os mapas gregos.

Uma Terra quadrada também atraía muita gente e, os Peruanos, por exemplo, imaginavam um mundo no feitio de uma caixa, com um telhado onde vivia o grande Deus. Já os Astecas projetavam seu universo em cinco quadrados, onde cada um continha um dos quatro pontos cardeais, que se projetava do Lugar Médio – a morada do deus do Fogo. Outros povos viam o universo como uma roda ou até como um tetraedro e, uma figura hindu, mostrava a Terra hemisférica sustentada pelas costas de quatro elefantes de pé na carapaça hemisférica de uma tartaruga gigantesca, a qual flutuava nas águas do Mundo. Por volta do século V a. C. alguns sábios gregos compreenderam que a Terra era um globo e o primeiro testemunho é encontrado em Platão. Nessa altura, pensadores gregos deixaram de imaginar a Terra como um disco plano flutuando nas águas. Platão e os pitagóricos basearam-se em fundamentos estéticos. Como uma esfera é a forma matemática perfeita, claro que a Terra tinha que ter essa forma e, discordar disso, seria negar a ordem da Criação.

Enquanto Aristóteles viveu a Geografia matemática fez grande progresso entre os Gregos que, embora ainda não tivessem pormenores sobre a superfície da Terra para desenhar um Mapa do Mundo, mas usando matemática e astronomia, chegaram a cálculos extraordinariamente exatos. Escritores clássicos (Plínio e Ptolomeu) e enciclopedistas populares aceitaram a esfericidade da Terra e sobre ela escreveram. Esta descoberta viria a ser um dos mais importantes legados do saber clássico ao mundo moderno.

Uma Terra esférica oferecia uma grande oportunidade na imaginação, pois ela poderia ser simetricamente dividida de várias formas. A primeira tentação foi vê-la cercada por linhas paralelas. Mas, e se elas fossem separadas – de algum modo –, os espaços entre elas poderiam ter algum significado especial? Os Gregos achavam que sim, pois eles desenharam essas linhas ao redor da Terra, dividindo-a em subdivisões paralelas que eles chamaram de “Climata”. A duração do dia mais longo era mais ou menos a mesma para todos os lugares no interior de uma zona. Na zona próxima ao Polo, o dia mais longo do ano durava mais de 20 horas, enquanto perto do equador a luz do dia jamais durava além de 12 horas. No meio havia zonas onde o dia mais longo durava todos os vários diferenciais.

Em longo prazo essas linhas tinham um grande significado para compreensão da superfície do planeta. Estrabão, por exemplo, insistia que as “Climatas” de ambos os lados do equador tinham uma flora e fauna características. Ele disse que os solos arenosos só produziam alguns frutos acres, pois essas regiões não tinham montanhas capazes de quebrar as nuvens a fim de produzir chuvas, e por isso mesmo, “as pessoas tinham pelo lanoso, beiços protuberantes e narizes achatados”. Daí a tez escura dos Etíopes era atribuída ao sol escaldante das “Climatas” tropicais e, o tipo louro dos habitantes do extremo norte, era atribuído a frigidez das “Climatas” árticas.

Júlio Cesar confiou na Geografia do maior dos geógrafos (Erastóstenes), o qual criou uma técnica para medir a circunferência da Terra que ainda se utiliza. Ele soube por viajantes que ao meio-dia de 21 de junho o Sol não projetava nenhuma sombra em um poço da cidade de Siene, o que significava que se encontrava diretamente acima.

Ele sabia que o Sol sempre projetava uma sombra em Alexandria e, mediante seus conhecimentos, considerou que Siene deveria ficar ao sul de Alexandria. Teve a ideia de que, se conseguisse medir o comprimento da sombra do Sol em Alexandria na hora em que não havia nenhuma sombra em Siene, ele poderia calcular a circunferência da Terra. A distância de Siene a Alexandria foi calculada em 50 “Estádios” (50 X 100) e, depois, Erastóstenes calculou que a circunferência da terra era de 250 mil “Estádios” (50 X 5000). Não existe certeza quanto à conversão dos “Estádios” (primitivamente 600 pés gregos) em medidas modernas, mas alguns cálculos situam um “Estádio” grego em cerca de 607 pés ingleses. Através desses cálculos para a circunferência da Terra, Erastóstenes chegou ao número aproximado de 46.200 km – o que erra por excesso em cerca de 15%. A exatidão do número de Erastóstenes para a circunferência da Terra só seria igualada nos tempos modernos, pois a sua combinação da teoria astronômica e da geometria forneceu-lhe um modelo que ficou esquecido durante demasiado tempo depois dele. Mais importante ainda do que seus cálculos finais foi a sua técnica para cartografar a superfície terrestre. Sabemos disso através dos ataques feitos por Hiparco (da Niceia), o qual descobriu a precessão [[1]] dos equinócios, catalogou cerca de mil estrelas e inventou a Trigonometria.

Mas, ele nutria uma antipatia pessoal por Erastóstenes, o qual morrera 30 anos antes de ele nascer. Na verdade, Erastóstenes subdividira a Terra por linhas paralelas Leste-Oeste e norte-sul (meridianos). Ele separou o mundo numa divisão setentrional e meridional por uma linha Leste-Oeste paralela ao equador e, depois disso, acrescentou uma linha norte-sul em ângulo reto, passando por Alexandria. Já Hiparco deu o seguinte passo: _ Por que não assinalar todas as linhas de “Climata” à volta da esfera, todas paralelas à linha equinocial e a intervalos iguais do equador para os polos? E, por que não assinalar também outras linhas em ângulo reto com as igualmente espaçadas no equador? Assim, as linhas de Climatas poderiam servir para mais do que descrever regiões da Terra que recebiam a luz solar em ângulos similares. Pois, se elas fossem numeradas proporcionariam um conjunto de coordenadas para situar todos os lugares da Terra.

Então, como seria fácil dizer a alguém onde poderia encontrar qualquer cidade, rio ou montanha do planeta. Hiparco repartiu a superfície da Terra em 360 partes (os “graus”, dos modernos geógrafos) e situou as suas linhas meridianas no equador (longitude), com intervalos de cerca de 112 km (mais ou menos a dimensão de um grau). Daí, combinando as Climatas tradicionais com elas, concebeu um mapa do Mundo baseado em observações astronômicas de latitude e de longitude. Dessa forma, a Latitude e a Longitude foram para a medição do espaço o que o Relógio mecânico foi para a medição do tempo.

É uma pena que Ptolomeu ficasse identificado com uma Astronomia obsoleta e, uma das razões para ele ocupar espaço tão apagado na história, deve-se ao fato de sabermos tão pouco sobre sua vida. Egípcio grego ele usava um nome comum no Egito alexandrino e, por acaso, o de um dos companheiros mais íntimos de Alexandre, o Grande. Outro Ptolomeu se tornou governador do Egito após a morte de Alexandre e depois se proclamou rei. Mas esse Ptolomeu foi apenas rei, enquanto nosso Ptolomeu foi um homem da ciência.

Ptolomeu teve um grande talento para aperfeiçoar os trabalhos dos outros. Seu Almagesto sobre Astronomia, sua Geografia e seus trabalhos sobre Astrologia constituíram uma síntese do melhor pensamento do seu tempo e, para “Geografia” – por exemplo – ele usou os conhecimentos de Erastóstenes e de Hiparco e indicou as Latitudes e as Longitudes de 800 lugares na Terra.

Ptolomeu teve a coragem de enfrentar as consequências cartográficas da forma esférica da Terra. Elaborou uma tabela de cordas baseada na Trigonometria de Hiparco a fim de definir a distância entre lugares e, além disso, concebeu uma maneira de projetar a Terra esférica numa superfície plana.

A sua fraqueza foi a sua desesperada carência de dados, pois em longo prazo, as matérias primas para um Atlas satisfatório do Mundo teriam de vir de observadores qualificados do todo o mundo. Sendo assim, não é de admirar que, com os seus dados limitados, Ptolomeu tivesse cometido alguns erros cruciais. Um deles foi o que mais influenciou a História, pois ao calcular a circunferência da Terra ele rejeitou o cálculo exato de Erastóstenes. Assim, Ptolomeu calculou que cada grau da Terra mediria apenas 90 e não 112 km e, depois disso, ele declarou que a Terra tinha 28.960 km de circunferência. Além disso, ele cometeu o erro de prolongar a Ásia para leste – muito além de suas verdadeiras dimensões – numa extensão de 180º em vez dos reais 130º. Para os Árabes – e outros que nele também depositaram sua fé – Ptolomeu continuou a ser a fonte e o soberano da Geografia do Mundo. Se, no milênio pós-Ptolomeu, os navegadores tivessem prosseguido livremente de onde ele parou, certamente a história do Velho e do Novo Mundo teria sido diferente.

 



([1])  Movimento lento e gradual na orientação do eixo de rotação de um objeto giratório


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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Reuniões Como Instrumento de Comunicação Empresarial

Quais São os Elementos Básicos Que Constituem Uma Reunião? Por Que Muitas Reuniões Falham? Quais as Principais Vantagens de Uma Reunião Produtiva? Quais os Tipos de Reuniões Mais Frequentes?

 


 

As reuniões constituem um dos instrumentos mais importantes para a gestão de qualquer empresa. No entanto – e por uma série de fatores – as reuniões são atualmente vistas essencialmente como um desperdiçador de tempo e, sob o ponto de vista de alguns gestores, "elas só servem para nos desviar do que realmente interessa e do que temos que fazer”. Deste modo, torna-se urgente conseguirmos otimizar um recurso tão importante, de forma a facilitarmos o nosso desempenho e a concretização dos objetivos, pois, muitas vezes, não possuímos a noção dos elementos básicos que constituem uma reunião. Por definição – e de uma forma simplista – uma reunião é uma associação de pessoas que se juntam com um determinado objetivo. Segundo estudos realizados no Reino Unido cerca de quatro (4) milhões de horas são gastas diariamente em reuniões, realizam-se cerca de 50 milhões de reuniões diariamente e cerca de 30% do tempo dos diretores é gasto em reuniões. O estudo concluiu que a grande maioria das reuniões são improdutivas e uma perda de tempo. Além disso, são mal aceitas pelos seus participantes, caras para as empresas e demasiado longas e rotineiras. No entanto, as reuniões são fundamentais à sobrevivência de qualquer organização, dependendo a sua produtividade da capacidade de quem as conduz. Assim, pode-se dizer que uma reunião falha porque:

 

·        Era desnecessária

·        Foi marcada com um motivo oculto

·        Os objetivos não foram transmitidos anteriormente, foram demasiadamente ambiciosos ou estavam mal definidos.

·        Os convocados não têm autoridade para implementar a decisão tomada.

·        O número de participantes era excessivo.

·        O controle foi inadequado

·        O local era inadequado

·        O tempo foi mal gerido

·        Decorre numa altura do dia, da semana ou do mês pouco apropriada.

·        Foi desvalorizada.

·        Alguns participantes saem da reunião sem perceber o que se espera deles.

·        A discussão é interminável ou tomada de forma precipitada.

·        Não existe agenda ou não foi divulgada.

 

 

Vantagens de Uma Reunião Produtiva

 

·        A troca de opiniões pode otimizar uma decisão.

·        Permite uma visão geral da organização.

·        Circunstancializa o desempenho.

·        Permite melhor conhecimento dos diferentes objetivos da empresa.

·        Pode melhorar a comunicação do grupo.

·        Facilita a tomada de decisões impopulares.

·        Promove a motivação e a coesão do grupo.

·        Possibilita maior envolvimento na execução das decisões.

 

Desvantagens

 

·        Podem ocupar tempo vital para desenvolvimento de outras tarefas.

·        Pode surgir um pensamento grupal.

·        Pode desmotivar pessoas, quando sentem que seus argumentos foram ignorados.

·        Podem transmitir sensação de manipulação, quando são mal geridas.

·        Estimulam alguma diluição da responsabilidade.

 

Frequentemente muitos gerentes são confrontados com reuniões que parecem perfeitamente inúteis só porque o seu objetivo não está definido e, para que um objetivo esteja bem estruturado, ele terá que ser claro, preciso e realista; ou seja, o gestor deverá estar adaptado às possibilidades do seu próprio grupo. Além disso, o gerente deve ser relativamente ambicioso de forma a ser motivador e, se possível, mensurável a fim de estipular o resultado pretendido e o respectivo prazo.

 

Tipos de Reuniões Mais Frequentes

 

1)    Reunião Para Tomada de Decisão: O primeiro passo será decidir que tipo de decisão têm que tomar, pois existe um determinado número de opções, pelo que o grupo terá como objetivo avaliar os prós e contras de cada uma delas. À priori não existe qualquer tipo de opções definidas em termos de criatividade e, dessa forma, o primeiro passo será criar estas opções (por exemplo através da técnica do brainstorming) para que depois os participantes possam avaliar os prós e os contras de cada uma delas.

2)    Reunião de Equipe: Normalmente existe uma periodicidade regular e podem se transformar numa rotina, deixando assim de despertar qualquer interesse. Esse tipo de reunião deve ser extremamente breve, informal e cada ponto da agenda deve ter um tempo definido. Cada ponto deve ser orientado por quem o propôs e as decisões devem ser resumidas pela chefia.

3)    Reuniões Para Resolver Problemas: Essas reuniões procuram identificar as causas de algo que está fora do planeado e, no fundo, procura-se responder a um conjunto de seis perguntas: O quê?, Porquê?, Quando?, Como?, Onde? e Quem?

4)    Reuniões Para Delegar Tarefas ou Responsabilidades: Depois de tomar uma decisão muitas vezes será necessário distribuir tarefas e/ou responsabilidades pelas pessoas que irão implementá-las. Embora a delegação não tenha que ser feita necessariamente em uma reunião, existem algumas vantagens para que ela se desenvolva nesse contexto, tais como; (A) Perceber a decisão coo um todo; ou seja, contextualizar a tarefa; (B) Clarificar pormenores que de outra forma passariam despercebidos.

5)    Reuniões de Análise de Projetos em Curso: Para analisar um projeto o gestor deve (A) determinar o que já deveria ter sido feito; (B) verificar o que já foi efetivamente realizado; (C) determinar as razões dos eventuais atrasos; (D) avaliar eventuais alterações no projeto; (E) esclarecer o que tem que ser feito; (F) referir-se a possíveis dificuldades que poderão surgir; (G) propor medidas para essas mesmas dificuldades.

6)    Reuniões de Planejamento: Têm como objetivo o planeamento de uma determinada atividade e, para elaborar um plano, o gerente deve: (A) clarificar o objetivo do plano; (B) elaborar um calendário para o plano; (C) identificar as tarefas principais; (D) listar os recursos necessários; (E) atribuir responsabilidades; (F) decidir prazos de conclusão.

7)    Reuniões Eletrônicas: O contato entre os convocados é feito através de telefone ou vídeo. São reuniões que têm regras muito específicas, tais como: (A) o gestor deve referir-se frequentemente o nome da pessoa com quem fala; (B) o gestor deve manter a ordem da agenda; (C) sempre que possível, o gerente deve usar apoios visuais (Exemplo: gráficos); (D) certificar-se que todos os participantes estão visíveis e que não haja elementos de distração; (F) quem estiver falando deve manter contato visual com os ouvintes, olhando para a câmera; (G) para que não haja sobreposição de diálogos, deve existir um breve intervalo entre os oradores; (H) evitar roupas completamente brancas, pretas, riscas, muito finas ou cores berrantes; (I) se for necessário movimentar-se, o gestor deve evitar movimentos rápidos ou bruscos.

8)    Reuniões Consultivas (ou de Vendas): (A) comunique-se eficazmente com o cliente, mostrando que conhece bem o seu problema; (B) identifique as necessidades do cliente, definindo o problema; (C) apresente a solução de forma genérica; (D) pormenorize sua solução, explicando-a passo a passo e realçando os resultados esperados; (E) procure antecipar-se às objeções; (F) apresente novamente a proposta de forma resumida e estimule discussões.

9)    Reuniões de Passagem de Informações: São naturalmente as reuniões mais eficazes se os participantes tiverem antecipadamente em seu poder um documento com a informação do que será discutido e transmitido. Assim, o gestor deverá (A) explicar o objetivo, ressaltando a importância da informação; (B) referir-se resumidamente a informação; (C) esclarecer o tempo de vai demorar. Assim o gestor deve usar frases curtas, simples e recorrendo aos maios audiovisuais. Além disso, o gestor deve estimular os participantes a tirarem suas dúvidas, evitar qualquer desvio ao tema, resumir os pontos chaves e disponibilizar-se para quaisquer esclarecimentos.

10)                       Reuniões de Motivação: Essas reuniões têm como objetivo incrementar a motivação dos seus participantes relativamente a um projeto, a um produto, a um serviço ou mesmo relativamente à empresa. Muito frequentemente, são reuniões onde se divulgam os sucessos pessoais ou grupais.   

   

 

 

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Temor às Montanhas na Idade Média

Por Que as Montanhas Eram Uma Afronta à Conquista da Natureza Pelo Homem? Qual Foi o Grande Obstáculo à Descoberta da Forma da Terra, dos Continentes e dos Oceanos? Por Que Onde Não Havia Montanhas Naturais os Povos Construíam Artificiais?


 


 

Muito antes de os homens pensarem em conquistar as montanhas, elas já tinham conquistado os homens e, nas palavras do primeiro conquistador do monte Matterhom, eram uma afronta à conquista da Natureza pelo homem. Toda montanha relativamente alta era idolatrada pelas pessoas que viviam à sua sombra e, inspirados pelo Himalaia, o povo da Índia Setentrional imaginava uma montanha ainda mais alta para o Norte – que chamavam de Meru. Os Hindus – e depois os budistas – tornaram isso uma mística e consideravam montanhas de mais de 135 mil km de altitude como a “residência dos deuses”. Para eles, a montanha Meru era a central do universo e o eixo vertical do cosmo, “onde estava rodeada por 7 anéis concêntricos de montanhas à volta dos quais giravam o Sol, a Lua e os planetas”. E, entre o sétimo e um oitavo anel exterior ficavam os continentes da Terra. Segundo as escrituras hindus, na montanha de Meru há rios de água doce correndo nela e belas casas douradas habitadas pelos seres espirituais. A tradição budista afirmava que “Meru ficava entre quatro mundos, nas quatro direções cardeais, que é quadrada na base e redonda no cume, que tem a altura de 80 mil “yojanas”, metade da qual sobe para o céu, enquanto a outra metade mergulha na terra. Este lado que está próximo do nosso mundo é constituído por safiras azuis, razão pela qual o céu nos parece azul e os outros lados são de rubis e gemas amarelas e brancas. Assim, a montanha Meru é o centro da Terra”. Os Japoneses tinham no monte Fuji (vulcão sagrado e montanha mais alta do Japão) um deus que lhes dominava a paisagem e jamais deixou de ser celebrado na sua arte.

No Ocidente, os Gregos diziam que o seu Olimpo – erguendo-se a 2700 metros acima do Egeu e envolto em nuvens – proporcionava privacidade aos deuses. “Nunca é varrido pelos ventos nem tocado pela nuvem e cerca-o um ar mais puro, envolvendo-o uma claridade branca”, escreveu Homero. Eles estavam convencidos de que o Olimpo era a montanha mais alta do mundo, tanto que o poeta completou afirmando: “No princípio, depois de Cronos ter completado a sua criação do Mundo, os seus filhos tiraram a sorte para repartir o seu império, e Zeus ganhou as etéreas alturas, Poseidon recebeu o mar e Hades calharam as negras profundezas da Terra. Enquanto Hades ficava sozinho embaixo, Zeus permitia que outros deuses compartilhassem a sua morada no Olimpo”. Onde não havia montanhas naturais, os povos construíam montanhas artificiais e os mais antigos exemplos são as pirâmides em escala (os Zigurates) da antiga Mesopotâmia. Zigurate significava tanto o cume de uma montanha como uma torre em escada feita pelo homem. O enorme monte piramidal da Babilônia (90 metros de lado e outros tantos de altura) tornou-se famoso como a Torre de Babel. Embora de longe o efeito fosse o de uma pirâmide de escada, o Zigurate foi descrito por Heródoto (em 460 a. C) como um amontoado de torres sólidas, cada uma ligeiramente menor do que aquela sobre a qual assentava. “Ninguém lá passa a noite, a não ser uma mulher daquele país, designada pelo próprio deus, segundo me disseram os Caldeus, que são os sacerdotes dessa divindade”.

A Torre de Babel se tornou um símbolo do esforço humano para chegar ao céu e invadir o território dos deuses. Dizia-se que o Zigurate era o feitio terreno da escada que o patriarca Jacob (neto do Abraão mesopotâmico) viu: “Vejo uma escada apoiando-se na terra e o seu topo chegou ao céu, e olhai os anjos de Deus subindo –a e descendo-a”.

O fato é que em toda Mesopotâmia o povo sentia a necessidade de uma montanha artificial para subir até os deuses e permitir que os deuses descessem até aos homens. No vale do Rio Nilo ainda se pode ver algumas das montanhas artificiais mais duráveis. O monte primevo – o lugar da criação da vida – se revestia de uma força especial para os Egípcios, pois todos os anos quando a cheia do Nilo recuava, apareciam montes de lodo recém-sedimentados, férteis de vida nova e, por isso mesmo, todos os anos os Egípcios reviviam a história da criação. No Tibete, os lamas todos os dias ofereciam aos budas o seu próprio modelo da Terra _ o seu montinho de arroz era a montanha de Meru. O Buda deu instruções para que os seus ossos, após a cremação, fossem colocados num monte no cruzamento de quatro caminhos, a fim de simbolizar o reino universal dos seus ensinamentos. A maior e mais imponente dessas montanhas budistas artificiais é a grande stupa de Borobudur (Século VIII d. C.) em Java. Acima de 5 terraços murados erguem-se 3 plataformas redondas com 72 stupas menores, contendo cada qual seu Buda e uma stupa maior se sobrepõe a todas elas. Do outro lado do mundo, ergueram-se pirâmides mais simples, símbolos do temor universal das montanhas. No Vale do México, os Toltecas ergueram a sua Pirâmide do Sol com 2/3 da altura da Torre de Babel, em Teotihuacán. Na Península plana de Yucatán, os Maias ergueram as suas pirâmides templos em Chichén Itza.

   

Cartografando o Céu e o Inferno

 

O grande obstáculo à descoberta da forma da Terra, dos continentes e oceanos não foi a ignorância, mas a ilusão do saber. A imaginação representa em traços ousados, servindo esperanças e medos, enquanto avançavam lentamente o saber e o conhecimento. Aldeões que temiam subir as montanhas localizavam seus entes falecidos nas impenetráveis alturas celestes. Os corpos celestes eram exemplos de desaparecimento e renascimento. O Sol morria todas as noites e renascia todas as manhãs, enquanto a Lua era recém-nascida todos os meses. Era essa Lua o mesmo corpo celeste que reaparecia a cada “renascimento”? Eram as estrelas realmente as mesmas que se apagavam todas as alvoradas? Talvez cada um de nós pudesse extinguir-se e, apesar disso, renascer. Sendo assim, não surpreende que os corpos celestes (especialmente a Lua) fossem associados com a ressurreição dos mortos. Tentaremos ilustrar esses conceitos da Grécia e da Roma antigas com algumas advertências de que eles não se confinaram no Mediterrâneo, nem no mundo europeu: na mais remota antiguidade grega, Hécate (deusa da Lua) era invocadora de fantasmas e rainha das regiões infernais.

Os frios raios da Lua corrompiam a carne dos mortos e ajudavam a desalojar a alma, que era liberta da sua prisão terrena e podia ascender ao Céu. Os antigos sírios tentavam acelerar esse processo com sacrifícios nos seus túmulos na noite em que os raios da Lua eram mais potentes. Na Igreja do Oriente, as datas dos rituais dos mortos eram fixadas de modo a explorar essas esperanças. O crescente lunar – símbolo da imortalidade – adornava monumentos fúnebres dos antigos babilônicos e em países célticos, assim como em toda a África. Em Roma, por exemplo, os sapatos dos senadores eram adornados com crescentes de marfim, os quais eram interpretados como um símbolo do seu espírito puro, visto que as almas nobres serem transportadas para o Céu depois da sua morte, a fim de caminharem na Lua. Assim, o voo de almas para a Lua não era uma simples metáfora, pois segundo os estoicos a Lua estava rodeada por uma zona de qualidades físicas especiais. Daí a alma subia naturalmente através do ar na direção dos fogos do Céu. Talvez cada pessoa tivesse a sua própria estrela que se acendia no seu nascimento e se extinguia na sua morte. Então, uma estrela cadente podia significar a morte de alguma pessoa. Se – como muita gente pensa – a alma liberta do corpo se transforma numa ave voando desta terra, não seria natural que as almas pousassem nos corpos celestes?

Assim, a multidão de estrelas poderia ser explicada pelas incontáveis gerações de mortos. A Via Láctea – considerada por muitos a “estrada das almas que partiam” – era um desses aglomerados de inúmeros espíritos que tinham abandonados os corpos. Pessoas que estavam de acordo em poucos fatos a respeito de regiões remotas da Terra concordavam – sabe-se lá por que – com relação à geografia do outro mundo. Mesmo quando a maior parte da superfície da Terra ainda era desconhecida, o Mundo Subterrâneo era descrito minuciosamente. A prática de sepultar os mortos na terra tornava natural que as pessoas pensassem que os que morriam iam habitar o Mundo Subterrâneo. Portanto, uma topografia subterrânea parecia tornar essa vida além da morte possível e até plausível. A vida no Mundo Subterrâneo era uma extensão da vida cá em cima, o que explica por que os guerreiros eram sepultados com suas armas e suas mulheres, por que as ferramentas acompanhavam os artesãos na sepultura e por que as donas de casa iam para a cova com seus utensílios de cozinhar. Assim, a vida na terra podia continuar debaixo da terra.

No século VI a. C. os Gregos criaram a mitologia de um “dia do juízo final”, uma escatologia [[1]] atraente que ainda pode ser vista nos seus vasos com figuras pretas. Muitos livros de povos antigos sobre a descida do homem para Hades (Inferno) concordam na topografia das regiões infernais, como se descrevessem uma paisagem bem próxima. No Mundo Subterrâneo dos Gregos, os juízes – de cuja sentença não havia recurso – enviavam os maus para a esquerda, através de um rio de fogo para as torturas de Tártaro, e os virtuosos pela estrada do lado direito, na direção dos Campos Elísios. Seria a Terra suficientemente grande para conter um Tártaro, onde coubessem todos aqueles que tinham merecido sofrer seus castigos? Talvez as regiões infernais se devessem encontrar não debaixo da terra, mas sim na metade inferior do globo terrestre, no hemisfério sul. Parece que na Grécia a topografia do Mundo Subterrâneo era aceita pela população ou, pelo menos, não era ativamente rejeitada. Não podemos ter certeza de quantas inscrições em túmulos eram meras metáforas.

O maior geógrafo cristão do Céu e do Inferno foi o maior poeta italiano (Dante Alighieri), cuja viagem ao outro mundo foi uma peregrinação a cenas familiares antigas. A força da sua obre (“A Grande Comédia”) foi multiplicada porque não foi escrita em latim, mas em italiano, uma modesta língua falada até por donas de casa. A experiência emocional dominante da sua vida foi a morte da sua Beatriz, quando ele tinha apenas 25 anos, o que o instigou a passar a maior parte da sua vida escrevendo um poema épico sobre o outro mundo para onde ela fora. A obra de Dante é uma epopeia que conta a viagem do autor através dos reinos dos mortos. Cem cantos abrangem o “estado das almas depois da morte” na viagem guiada de Dante através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. Dante traduziu a erudição medieval num panorama da vida após a morte.

 

 

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([1])  Ramo da teologia que estuda as "últimas coisas" ou o fim dos tempos

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Seria o Relógio a “Mãe” das Máquinas?

Por Que os Primeiros Fabricantes de Relógios Acabaram se Tornando os Primeiros Fabricantes de Instrumentos Científicos? Onde Funciona o Relógio Mais Antigo do Mundo? Por Que Se Diz Que o Universo de Newton Promoveu Deus de Relojoeiro a Mestre Mecânico e Matemático?




 

Precisamente porque o relógio não começou por ser um instrumento prático e feito para corresponder a um único objetivo, é que ele estava destinado a ser “a mãe das máquinas”. O relógio derrubou as muralhas entre os tipos de conhecimento, engenho e perícia e os fabricantes de relógios foram os primeiros a aplicar – de forma consciente – as teorias da mecânica e da física no fabrico de máquinas ([1]). O progresso veio da colaboração de cientistas – Galileu, Huygens, Hook e outros – com artesãos e mecânicos. Como os relógios foram as primeiras máquinas de medição de tempo modernas, os fabricantes acabaram se tornando fabricantes de instrumentos científicos. O duradouro legado dos relojoeiros pioneiro foi a tecnologia básica das máquinas-ferramentas e os dois principais exemplos são a engrenagem (ou roda dentada) e o parafuso. 

A introdução do pêndulo – primeiro por Galileu e depois por Huygens – tornou possível que os relógios fossem dez vezes mais exatos do que anteriormente, mas tal só se pode conseguir graças a rodas dentadas divididas e precisamente cortadas. Assim os relojoeiros aperfeiçoaram técnicas simples e precisas para dividir a circunferência de uma placa de metal circular em unidades iguais como para cortar os dentes da engrenagem com um perfil eficiente. E, além disso, os relógios também exigiam parafusos de precisão – o que por sua vez exigiu o aperfeiçoamento do torno de metal. Assim, eles se tornaram os pioneiros na produção de instrumentos científicos e os seus legados foram as tecnologias básicas das máquinas-ferramentas. As engrenagens eram o tecido essencial de um relógio mecânico e não era de se esperar que os dentes das rodas do interior do relógio fossem exatamente espaçados ou perfeitamente cortados, se esse trabalho fosse feito à mão.

A primeira máquina de cortar engrenagens é obra de um artífice italiano – Torriano de Cremona – que foi à Espanha em 1540 para fazer um grande relógio planetário para o Imperador Carlos V. Torriano passou 20 anos planejando um instrumento medidor de tempo com 1800 rodas dentadas e depois mais 3 anos construindo-o. Assim, todos os dias ele tinha de fazer mais de 3 rodas, todas elas diferentes em tamanho, número e formato de dentes e no modo como estão colocados e engrenam. Mas, apesar de este ritmo de trabalho ser meticuloso, mais surpreendente ainda é um torno muito engenhoso que ele inventou para desbastar com uma lima rodas de ferro com a dimensão exigida e o necessário grau de uniformidade dos dentes, nenhuma roda foi feita duas vezes, porque saiu sempre bem à primeira” – disse seu amigo.  Durante a vida de Torriano, o seu “torno” já estava sendo utilizado por outros relojoeiros. Parece ter-se tornado o modelo para as “máquinas de cortar rodas” utilizadas pelos relojoeiros ingleses e franceses no século XVII, quando os mecanismos de relógio já alcançavam um mercado mais vasto. 

Sendo assim, sem um dispositivo semelhante teria sido impossível fazer relógios em grande número para o mercado e, com ele, foi possível fazer inúmeras máquinas e instrumentos científicos. Como a engrenagem, o parafuso foi essencial para um novo mundo de máquinas. Os seus protótipos – como os da engrenagem – remontaram ao tempo de Arquimedes. Um cientista grego (Hero) concebeu ferramentas para cortar parafusos, embora durante muito tempo fosse considerado uma operação difícil. E, até meados do século XIX – altura em que os parafusos foram feitos com bicos – era sempre necessário preparar um orifício com todo o comprimento do parafuso. Na Idade Média os parafusos de metal foram raros e, durante muitos séculos, eles foram usados na prensa para fazer vinho ou na irrigação.

O relógio mais antigo do mundo (1380) – que ainda funciona na Inglaterra – foi feito sem uma única rosca de parafuso, sua estrutura de ferro é unida por rebites e grande parte da sua construção foi obra de um ferreiro. Mas, a difusão dos relógios só veio com o fabrico de relógios menores e portáteis.

Para serem fornecidos a mosteiros, edifícios municipais, palácios e cidadãos os relógios tinham de ser feitos em tamanhos adequados, tanto para casas modestas quanto para as lojas de artesãos. Claro que pequenos relógios não podiam ser feitos à marteladas ou forjados por um ferreiro e, para montá-los sem quebrá-los, eram necessários parafusos, os quais tornaram possíveis uma infinidade de outras máquinas portáteis. Óbvio que relógios menores atraíam um vasto mercado, cujas exigências foram os motivos para fabricar relógios baratos que as pessoas pudessem comprar. Na verdade, o relógio instigou os homens a transpor as fronteiras da religião, da língua e até da política. Antes da colonização do Novo Mundo, os movimentos dos artífices exerciam uma influência muito desproporcional ao seu número, pois antes do transporte movido a energia e da produção em massa eram os próprios artífices e não os produtos quem viajava. 

Quando os relógios ainda eram máquinas gigantescas no cimo de torres, tinham de ser erguidos onde fossem usados. No início não havia demanda por mais do que um relógio por cada comunidade, o que significava que o fabricante de relógios tinha de ser um viajante. O 1º relógio mecânico público de Gênova foi construído em Milão em 1353 e o relógio que ainda pode ser visto na Praça San Marco (Veneza) foi – na verdade – levado para lá da cidade de Reggio. E, depois de os relógios terem sido reduzidos a pequenas máquinas houve novas razões para serem feitos próximos dos seus clientes.

Antes do fim do século XV não havia grandes centros de relojoaria na Europa e, dessa forma, o futuro dessas máquinas encontrava-se isolado por montanhas na Suíça e, por mar, na Inglaterra. Em ambos os países existiam pontos de encontro entre artífices de toda Europa a fim de intercambiar seus talentos. Assim como quatro séculos depois as perseguições nazistas e fascistas transformaram os EUA num centro mundial de ciência e tecnologia, Genebra tirou proveito da ciência e da tecnologia do seu tempo e tornou-se um centro mundial de relojoaria. No ano de 1600, a cidade suíça de Genebra contava com 25 mestres relojoeiros e um número considerável de aprendizes e artífices. E, antes de terminar o século XVII, mais de 100 mestres e uns 400 artífices produziam cerca de 5 mil relógios por ano. A Inglaterra protestante se tornou lugar de refúgio progresso da relojoaria, pois embora não fosse uma terra de pioneiros, para ela convergiu grande número de empreendedores estrangeiros. Um desses estrangeiros (Lewis Cuper) saiu da Alemanha para se tornar um eminente relojoeiro na Inglaterra, utilizando a técnica da especialização e da divisão do trabalho entre os aprendizes.

Consta que em 1786 foram exportados 80 mil relógios de vários tipos para a Holanda, Alemanha, Suécia, Dinamarca, Rússia, Espanha, Itália, China e Turquia. Na história da humanidade os filósofos sempre procuraram modos de controlar o universo e, apesar do seu desdém pelos que projetavam o Criador do universo na imagem do homem, os teólogos não se cansavam de perscrutar o próprio homem tentando encontrar pistas que os conduzissem a Deus. Mas, agora o homem era um construtor de relógios, um construtor de máquinas que funcionavam sozinhas. Uma vez posto para funcionar o relógio parecia funcionar com “vida própria” e, por isso mesmo, alguns se perguntavam se o universo não poderia ser um imenso relógio posto em movimento pelo próprio Criador? 

Essa possibilidade inconcebível antes de o relógio mecânico entrar em cena tornar-se-ia a principal estação no caminho da Física moderna. Esta fértil “mãe” das máquinas era o elo que faltava entre os esforços do homem para dominar seu universo físico e a sua reverência perante seu Criador. No século XVII, o físico Robert Boyle viu o universo como uma grande peça de mecanismo de relógio. O universo de Newton não tardou a promover Deus de relojoeiro a mestre mecânico e matemático. Agora, as leis universais que regiam os relógios portáteis regiam também os movimentos da Terra, do Sol e de todos os planetas.

 

 

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([1])  BOORSTIN, Daniel J. “Os Descobridores”. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989, p. 231


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