segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Fundamentos da Robótica e os Tipos de Robôs

 Quais os Principais Objetivos da Robótica? Quais os Tipos de Robôs Existentes? Aonde Foi Utilizado o Primeiro Robô? Quais São as Principais Classes da Automação Industrial?

 



 

A palavra “Robô” é derivada do tcheco “Robota” que significa trabalhador compulsório, escravo ou servo. Ela foi usada pela primeira vez pelo escritor tcheco Karel Capek em um conto de 1921, para designar os dispositivos mecânicos que, tendo aparência humana, mas sem sentimentos humanos, realizavam tarefas automáticas e repetitivas. Nesse conto, os robôs eventualmente faziam mais do que isso, destruindo seus criadores. Este tipo de robô humanoide é muito explorado na ficção científica e, hoje em dia, são as pesquisas japonesas que buscam desenvolver robôs-androides, cada vez mais parecidos com os seres humanos, tanto do ponto de vista estético, quanto do ponto de vista comportamental. Atualmente, a maioria dos robôs em uso está muito próxima de um dispositivo chamado “manipulador” que consiste em um braço mecânico controlado por uma pessoa ou automaticamente.

Nesse texto abordaremos os robôs de uso industrial, utilizados na automação de tarefas comuns ao chão de fábrica, cujo surgimento e utilização se deveu à integração dos dispositivos eletromecânicos de alta precisão com dispositivos eletrônicos de controle altamente miniaturizados. Talvez, o primeiro robô digno deste nome tenha sido o modelo experimental SHAKEY do Instituto de Pesquisas de Stanford produzido em1960. Ele era capaz de empilhar blocos se valendo de uma câmera que simulava o sentido da visão. Desde então, o desenvolvimento dos Robôs se deveu, em primeiro lugar, a uma demanda de diversos setores industriais por dispositivos que permitissem automatizar processos produtivos e, em segundo lugar, a um desenvolvimento vertiginoso da microeletrônica e da eletromecânica, áreas cujas tecnologias eram e são necessárias para a criação e produção de Robôs cada vez melhores.

  

Objetivos da Robótica

 

 Abaixo estão enunciados apenas alguns dos principais objetivos da robótica:

 

·        Aumento da produtividade através da otimização da velocidade de trabalho do robô e a consequente redução de tempo na produção;

·        Realização de trabalhos não desejados, tediosos (alimentar máquina-ferramenta) ou perigosas e hostis (ambientes com temperaturas elevadas e presença de materiais tóxicos, inflamáveis e radioativos).

·        Otimização do rendimento de outras máquinas e ferramentas alimentadas ou auxiliadas por robôs;

·        Diminuição dos prazos de entrega de produtos;

  

Tipos de Robôs

 

Um Robô Industrial é um dispositivo eletromecânico projetado para realizar diferentes tarefas, repetidamente, movendo peças, ferramentas e dispositivos especiais entre pontos diversos, realizando trajetórias de acordo com uma programação prévia, imitando os movimentos de um ser humano. Esta definição envolve três (3) tipos de Robôs:

 

·        Robô Fixo – Também chamado de Braço Mecânico, é montado sobre uma base a qual lhe serve de sustentação física e de referência de movimentos. É o tipo mais comum de Robô e o mais usado em aplicações industriais;

·        Robô Móvel – Também chamado de Carro ou AGV (Automatically Guided Vehicle = Veículo Guiado Automaticamente), pois pode se locomover com certa autonomia obedecendo a um controle.

·        Robô Humanoide – Também chamado de androide por seu aspecto humano: anda sobre duas pernas (o que permite subir e descer escadas), possui dois braços (o que permite manipular objetos da mesma maneira que o ser humano) e tem dois sistemas de captação de imagem na parte frontal da cabeça (o que lhe dá visão estéreo e o mesmo ponto de vista de um ser humano). Por estas características pode substituir um ser humano sem necessidade de adaptação do ambiente.

 

Classificação dos Robôs

 

 ·        Robô de 1ª Geração: robô que não se comunica com outros robôs;

·        Robô de 2ª Geração: robô que se comunica com outros robôs;

·        Robô de 3ª Geração: utiliza inteligência artificial. Esse software permite a tomada de decisão (sistema especialista / lógica fuzzy).

  

ROBÔ INDUSTRIAL

 

O “braço mecânico” é popularmente identificado como o robô propriamente dito, sendo composto das partes mecânicas e elétricas necessárias para que haja movimento. Mas, para que haja flexibilidade de movimentos e para controlar estes movimentos do braço mecânico é necessário um “controlador” (Computador). Este controlador deve ser ligado aos atuadores e aos sensores do braço mecânico e age como o cérebro do sistema. É importante notar que em um robô industrial, a potência requerida pelos atuadores exige a inclusão de um módulo de “acionamento” entre o controlador e o manipulador.

 

 

Automação Industrial

 

 

A AUTOMAÇÃO e a ROBÓTICA são duas tecnologias que estão intimamente relacionadas, podendo-se definir a automação como uma tecnologia que utiliza sistemas mecânicos, elétricos e computacionais na operação e no controle da produção. Já a robótica foi definida como a tecnologia que utiliza sistemas mecânicos que, controlados por circuitos eletrônicos mediante programação, executam tarefas que imitam movimentos humanos. Um sistema de automação pode ter robôs trabalhando sozinhos ou junto a seres humanos, como também pode ser um processo automático, em que não existem robôs.

 

Classes da Automação Industrial

 

·        Fixa ou Automatização Dura: O volume de produção é muito elevado com pequena variedade, onde as máquinas funcionam sem a intervenção humana. Um bom exemplo é o processo mecânico com broca automatizado.

·        Programável: É similar à fixa; porém, o processo pode ser reprogramável para executar a mesma tarefa de outra maneira. Tem como característica o baixo volume de produção e uma grande variedade de produtos a serem fabricados. Exemplo: Um CNC que movimenta a máquina.

·        Flexível: Semelhante à programável, pois ambas se constituem de máquinas que são automáticas e reprogramáveis. A diferença é que a automação flexível pode executar diferentes tipos de tarefas com diferentes tipos de aplicação.


 

As Aplicações dos Robôs


·        Abastecimento de Prensas (Características da Tarefa): (a) Perigo (peças e partes em movimento contínuo); (b) Manipulação de cargas pesadas; (c) Barulho elevado; (d) Atividade monótona.

·        Manipulação de Moldes (Características da Tarefa): (a) Operação com máquinas injetoras; (b) Perigo (temperaturas elevadas).

·        Abastecimento de Máquinas e Ferramentas (Características da Tarefa): (a) Operação de máquinas operatrizes; (b) Otimização do tempo; (c) Necessidade de sincronismo (máquina e robô).

·        Solda Ponto (Características da Tarefa): (a) Dificuldade de solda (qualidade); (b) Atividade monótona; (c) Alta precisão (o eletrodo deve ficar perpendicular às peças); (d) Perigo (faíscas); (e) Barulho elevado.

·        Solda Elétrica (Características da Tarefa): (a) Dificuldade da solda (qualidade); (b) Atividade monótona; (c) Alta precisão (movimento em velocidade constante ao longo do contorno da peça); (d) Perigo (temperatura e faíscas); (e) Barulho elevado.

·        Pintura Spray (Características da Tarefa): (a) Perigo (ar poluído com tinta); (b) Precisão (qualidade e uniformidade da pintura).

·        Montagem (Características da Tarefa): (a) Aplicação complexa para os robôs, pois exige grande flexibilidade; (b) Troca automática do atuador final, para lidar com peças de tamanhos e formas variadas; (c) Detecção de impacto e controle de força; (d) Utilizado na manipulação de elementos delicados; (e) A integração humana é necessária.

·        Acabamento (Características da Tarefa): (a) Lixar, polir e retificar superfícies; (b) Rebarbar moldes e peças; (c) Necessidade de movimentos constantes para o acabamento ser homogêneo; (d) Atividade monótona; (e) Perigo (poeira).

 

OBSERVAÇÃO: Em determinadas aplicações, a trajetória percorrida pelo robô durante a atividade deve ser analisada e levada em consideração. Nas atividades de montagem, solda ponto e abastecimento de prensas, a trajetória não influencia no resultado final. Já nas atividades de pintura e solda elétrica, a trajetória para a realização da atividade é importante, pois não podemos pintar um carro, por exemplo, em zig-zag ou soldar duas peças de forma aleatória.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AXEL Daneels; WAYNE Salter. What is SCADA? IT/CO. Silva, Sérgio Francisco (2000). Automação Industrial Via Internet: Uma Abordagem de Software Voltada à Pequena Empresa, Centro Universitário do Triângulo - Unit, Uberlândia − MG.

FERREIRA, Ed’Wilson T. (2001). Segurança de Redes de Computadores em Ambiente Industrial, Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Uberlândia – MG.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Geopolítica de Índia, China e os Tigres Asiáticos

 Quais São os Modelos Econômicos da China, Índia e Tigres Asiáticos? Qual a Importância das Zonas Econômicas Especiais no Processo de Abertura Econômica Chinesa? Por Que a Índia Possui Uma Intensa Divisão Étnica? Como as Economias dos Tigres Asiáticos se Assemelham ao Desenvolvimento do Capitalismo Chinês e Japonês?

 



Alguns especialistas em geopolítica afirmam que o modelo econômico da China se baseia em um suposto “Socialismo de Mercado” com forte controle estatal, foco em exportações e investimentos pesados em infraestrutura industrial. Em contraste, outros especialistas afirmam que a Índia adota uma economia “Mista Democrática”, a qual é impulsionada pelo consumo interno, pelos serviços de tecnologia da informação e investimentos em telecomunicações. Já países como Hong Kong, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan formam o grupo clássico dos Tigres Asiáticos, os quais apresentam industrialização voltada para a exportação, investimentos pesados em educação e alta tecnologia. Assim, pode-se dizer que Hong Kong e Singapura atuam como potências financeiras globais, enquanto a Coreia do Sul e Taiwan lideram a produção de eletrônicos e semicondutores.

 

A China em Muitos Lugares

 

A China é um gigantesco país localizado no leste da Ásia, banhado pelo Oceano Pacífico. Tem uma população maior que 1,3 bilhão de habitantes, entre as cidades mais conhecidas estão Hong Kong (que pode ser considerada uma região especial administrativa), sua capital Pequim (também chamada de Beijing) e a cidade de Xangai. Olhando para o contexto geral da população chinesa, eles se fragmentam em diferentes origens étnicas (han, chuans, tibetanos, mongóis, coreanos, machus, entre outros). Pode-se dizer que, aproximadamente, 40% de sua população não seguem nenhuma manifestação religiosa, já os outros 60% se fragmentam em diferentes crenças populares, o budismo, o cristianismo, o islamismo, entre outras manifestações. O país não é urbano, pois a maioria de sua população habita o espaço rural. Seu índice de desenvolvimento humano é médio (0,77) e sua renda per capita está na média dos US$6.000,00, mas é marcado por ampla exploração do trabalho, concentração de renda e problemas sociais. O processo acelerado de industrialização das últimas duas décadas gerou um rápido e desordenado processo de urbanização, promovendo uma periferização perversa de muitos trabalhadores, estes, que acabam por não acessar todos os benefícios do desenvolvimento do país. 

Em 1949, a China se aproximou dos ideais da URSS e se tornou socialista, a figura de maior destaque desse contexto histórico foi Mao Tse Tung. Desde lá, os governos estiveram centralizados nas mãos do Partido Comunista Chinês, que mantém, na atualidade, uma gestão política e administrativa do território nas mãos do Estado (para alguns, uma ditadura). Nos últimos 20 anos houve um processo de abertura econômica, sendo criada as Zonas Econômicas Especiais. As chamadas Zonas Econômicas Especiais foram criadas no litoral chinês, onde hoje estão instaladas inúmeras indústrias (produção diversificada) cuja produção é voltada, sobretudo, para exportação. Nesta área há uma série de regras que facilitam a instalação de indústrias e o desenvolvimento da produção, tais como: isenção de impostos, proximidade com os portos, mão de obra em grande quantidade e muito barata, entre outros. Assim, a China vive o que vem sendo chamado de um Socialismo de Mercado (ou Economia de Mercado Socialista) – considerado por muitos estudiosos uma contradição, uma vez que, na teoria socialista, jamais se estabeleceria uma lógica de mercado aos moldes capitalista.

Você já consumiu produtos Made in China? Às vezes compramos determinados eletrodomésticos, ou ainda, produtos eletrônicos (televisões, celulares, brinquedos, entre outros), achando que foram feitos no Brasil. Procurem bem nas etiquetas e nos selos o país de origem destes produtos, muitos podem ter sido produzidos na China e acabam chegando ao Brasil com seus preços razoavelmente baixos. Pode-se dizer que nas últimas duas décadas a China é o país que mais cresce economicamente no mundo, com uma média de crescimento de 10% ao ano, mantendo um PIB maior que US$7,5 trilhões (nos últimos dois anos), no mesmo momento em que vários países da Europa e os EUA estão vivendo períodos tensos de crise econômica. No entanto, embora haja um considerável crescimento, a costa leste chinesa vem sendo marcada por situações de exploração do trabalho e de ampliação das desigualdades sociais. Há sérias denúncias de que jovens chineses, entre 18 a 25 anos (a maioria mulheres), chegam a trabalhar 15 horas por dia, ganhando o equivalente a R$0,65 por hora.

 

Aspectos Sociais e Culturais da Realidade Indiana

 


A Índia também foi colônia europeia (da Inglaterra) e a sua luta pela independência (conquistada em 1947) ficou muito conhecida no mundo por meio da divulgação da filosofia da principal liderança da época, Mahatma Gandhi. O referido líder, basicamente, pregava a desobediência civil contra os ingleses, combatendo toda a ação neocolonial no país. Atualmente, o país é extremamente populoso, contando com uma população de pouco mais de 1,1 bilhão de habitantes, e possui internamente uma intensa divisão étnica, permeada por especificidades religiosas relacionadas, principalmente, com o Hinduísmo e o Islamismo. Hindus e muçulmanos, historicamente, sempre estiveram em conflitos religiosos na região, marcando a história do país. Os hindus indianos ainda se organizam em um sistema de castas, o que determina a posição social de cada pessoa no contexto da sociedade indiana. O que isso quer dizer? Que, uma vez nascido em uma determinada casta, nunca mais sairá dela. Para muitos estudiosos, uma das explicações para a ampliada desigualdade social no país, está na manutenção das castas.

Conflitos entre hindus e muçulmanos marcaram e continuam marcando a história da região. Conjuntamente ao movimento de independência do país na segunda metade do século XX, houve a criação do Paquistão, para que todos os muçulmanos que estivessem na Índia pudessem se deslocar para esse país. Grande parte dos muçulmanos, realmente, foi morar no Paquistão.

O fato é que a criação do Paquistão não resolveu as situações de conflito entre representantes das duas manifestações religiosas, que ainda hoje é fortalecida pela disputa da região da Caxemira (área de fronteira entre Índia e Paquistão).

 

Conflitos na Região da Caxemira

 

A região da Caxemira sempre foi estratégica, uma vez que faz fronteira com o Afeganistão, o Tibete e a China. Durante a Guerra Fria, esteve em disputa, considerando que a Índia havia se declarado uma importante aliada aos princípios da União Soviética (socialista) e o Paquistão, um aliado dos EUA (e dos capitalistas). Na atualidade, esse espaço territorial possui, em média, um pouco mais de 12 milhões de habitantes, sendo a maioria muçulmana. A questão gira em torno do poder político-administrativo sobre o território, onde 40% da área ficou sob responsabilidade do Paquistão e maior parte do território está sob domínio indiano. Cabe mencionar um detalhe, ambos os países são pobres, marcados por uma má distribuição de renda e problemas sociais gravíssimos, no entanto, possuem um forte arsenal nuclear (legado da Guerra Fria). Também cabe dizer também que a Caxemira é uma importante fonte de matéria-prima mineral. Em 2005 ocorreu um forte terremoto neste território, quando muitos indianos hindus acabaram compondo as equipes de apoio mútuo em parceria com os paquistaneses muçulmanos, essa ação tem sido considerada por especialistas como um sinal de que há possibilidade de se estabelecer a paz na região. Mas, por que a Índia vem sendo considerada uma das mais novas potências do século XXI?

Como vimos, a Índia é um país populoso, juntamente com isso, desde as últimas duas décadas do século XX, vem passando por um rápido processo de urbanização, possui altas taxas de analfabetismo (cerca de 37% da população, principalmente entre as mulheres), um IDH médio (0,519). Mas, atualmente, a Índia enfrenta sérios desafios na gestão de políticas públicas sociais (saúde, educação, habitação, entre outros), mesmo assim vem se tornando uma importante representação econômica na Nova Ordem Mundial. Em 2010, o referido país chegou a ser considerado a 11ª potência econômica do mundo (o Brasil a 8ª potência), fazendo parte dos G-20, o Grupo dos 20 países de melhor desempenho econômico do mundo. Em 1947, no contexto da independência do país, o Estado indiano adotou um regime político centralizador, comum em países socialistas da época. Mas, no final dos anos de 1990, dado o fim da Guerra Fria e a inserção dos países no processo de Globalização, novas medidas foram sendo adotadas, tais como:

 

·        Diminuição de barreiras protecionistas e redução de impostos para importações;

·        Maior abertura econômica para os capitais internacionais (em particular, para entrada de multinacionais);

·        Modernização do setor financeiro;

·        Flexibilização de leis trabalhistas e ambientais, entre outros fatores.

 

Você percebeu alguma semelhança com medidas políticas e econômicas adotadas pelo Brasil nesse mesmo período? Seria essa uma semelhança entre os países que hoje estão em desenvolvimento (Brasil, México, África do Sul, China, entre outros)? Medidas como essas, adotadas pelos governos indianos, podem provocar que tipo de impacto aos cidadãos? Atualmente, pode-se dizer que a Índia apresenta um importante polo industrial, com destaque para a produção de tecnologia, sobretudo, por ter o maior complexo de informática do mundo e investimentos em biotecnologia, tecnologia espacial e nuclear. Cabe somar também o mercado cinematográfico, que é muito conhecido como Bollywood. No entanto, há mais de 300 milhões de pessoas, consideradas pelos parâmetros estabelecidos internacionalmente, em situação de extrema pobreza.

 

Os Tigres Asiáticos

 

Você já ouviu falar em lugares como Hong Kong, Coreia do Sul, Singapura e Taiwan? Será que você já não andou consumindo algum produto oriundo desses países? Pois saiba que estes são os chamados Tigres Asiáticos, e podem ser consideradas economias desenvolvidas, embora estejam localizadas junto aos países do Sul (pobres). Hong Kong, por exemplo, até os anos de 1990, era administrada pela Inglaterra – que sempre foi considerada uma ilha capitalista, embora estivesse geograficamente anexada à China Socialista – só depois voltou a se anexar politicamente junto à China, momento em que a abertura econômica da China vinha se constituindo. Estudos dizem que mesmo os mercados de exportações tenham se mantido sempre fortes para os Tigres Asiáticos, o crescimento das exportações foi maior para os chineses. As economias desses países se assemelham ao desenvolvimento do capitalismo chinês e japonês.

Com o tempo eles foram desenvolvendo políticas de educação, distribuição de renda, assim como, investimento na qualificação profissional e na construção de uma boa infraestrutura de transporte e comunicação, facilitando o escoamento da produção que é, praticamente, quase toda voltada para exportação. No entanto, por ter uma economia exportadora, em situações de crise econômica mundial, que acaba mexendo com o potencial de consumo das pessoas em diferentes partes do globo, os países podem ser considerados como tendo uma economia frágil. Recentemente, mais países passaram a ser conhecidos com Tigres Asiáticos, ou ainda, os Novíssimos Tigres Asiáticos, a exemplo da Indonésia, da Tailândia, das Filipinas e da Malásia.

 

REFERÊNCIAS

 

 

CONRAD, Geoffrey W. (1984). «Los incas». Historia de las Civilizaciones antiguas (II): Europa, América, China, India. Arthur Cotterell, ed. Barcelona: Editorial Crítica. ISBN 84-7423-252-X

SIMÕES, Willian. Geografia II. Curitiba: Instituto Federal do Paraná/Rede e-Tec, 2011.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

COMO GERENCIAR EMOÇÕES E SENTIMENTOS

Quais as Práticas Mais Eficazes Para Obter o Autoconhecimento? Por Que Acreditamos em Crenças? Que Perguntas o Profissional Deve Fazer Sobre Si Mesmo Para Alcançar o Autoconhecimento? O Que São Crenças Limitantes?

 


 

Gerenciar emoções e sentimentos exige do gerente bom autoconhecimento, grande aceitação e regulação. E, o mais importante, é a não supressão dos sentimentos. Dessa forma, o profissional deve procurar identificar e nomear o que sente, respirando fundo para criar um espaço entre o estímulo e a resposta e, principalmente, aceitar as emoções sem julgamentos. Então, aprender a lidar com as próprias emoções é um processo que envolve várias etapas de autoconhecimento. Assim, veja abaixo as práticas mais eficazes para o dia a dia:

 

1) Aceite o Que Você Está Sentindo: Qualquer pessoa em algum momento da vida já sentiu raiva de pai, mãe, irmã, irmão, filho ou filha, mas o que todos devem ter em mente é que sentir raiva numa determinada ocasião é normal. Mas então, o que fazer com essa emoção/sentimento é o “X” da questão. Você pode até achar errado sentir raiva de seus familiares, pensar que isso não é correto, mas a verdade é que você sentiu raiva e pronto. Então, o primeiro passo é aceitar o que se sente e respeitar isso.

 

2) Faça Uma Análise do Que Você Está Sentindo: Vamos supor que você esteja triste com sua namorada por achar que ela nunca está com você, na maioria das vezes que você precisa. Será que nesse caso você não está criando expectativas demais em relação a ela? Querendo ou não, muitas vezes você estará com raiva de si mesmo, por não aceitar sua namorada do jeito que ela é, mas o ideal é que você faça uma reflexão com relação ao seu relacionamento. Será que você não está fazendo cobranças desnecessárias? Será que ela faz isso porque quer? Você já conversou com ela sobre o que sente? Dessa forma, assuma a sua tristeza, lembrando-se de que você é 100% responsável por sua tristeza e tenha em mente que ela e outras emoções nos trazem mensagens do que estamos fazendo com nós mesmos.

 

3) O que Fazer Com Essa Emoção: Agora que você já sabe o que está sentindo, o que fazer? Tome uma atitude e fale o que pensa, mas, claro, tome cuidado para não machucar ninguém com suas palavras. Demonstre sua emoção e sinta-a, pois, somente canalizá-la fará mal a você mesmo. Caso não faça isso, não estará finalizando o ciclo e não estará encaminhando corretamente, apenas estará internalizando sua TRISTEZA e isso não vai resolver o problema, muito pelo contrário, só vai aumentá-lo. No caso em questão, você poderá seguir alguns passos:

 

·        Converse com a pessoa a respeito do que você está sentindo;

·        Fale com ele (a) dos seus medos;

·        Mostre o quanto ele (a) é importante em sua vida;

·        Converse com alguém de sua confiança sobre o que está sentindo: mãe, pai, irmã, irmão, amigos etc.

 

Caso você não consiga resolver a situação com os passos citados acima e você perceber que a TRISTEZA está fora de controle, o melhor a se fazer é procurar um profissional: terapeuta ou psicólogo.

 

 

AUTOCONHECIMENTO

 

Autoconhecimento é a nossa capacidade de compreender a si mesmo, reconhecendo as emoções, os pensamentos, valores, forças e fraquezas. É uma jornada contínua de investigação interior que permite fazer escolhas alinhadas com sua essência, lidar melhor com os desafios e desenvolver relações mais saudáveis. A ideia é identificar suas características principais, seus gostos, comportamentos, habilidades, qualidades, limitações, defeitos, pensamentos e emoções vivenciadas, sejam elas positivas ou negativas. Esse autoconhecimento ajuda na tomada de decisão, autoconfiança, motivação, planos, definição de objetivos e metas com mais eficiência. Mesmo para quem nunca buscou se conhecer profundamente, é possível buscar o autoconhecimento fazendo-se algumas perguntas. E, se fizer as perguntas certas, você terá um bom conhecimento de si mesmo (a) e passará a refletir mais e mais sobre você. Abaixo, alguns exemplos práticos de perguntas:

 

·        Quais são as minhas forças e as minhas fraquezas?

·        Quais são as minhas habilidades?

·        Quais são os meus objetivos pessoais e profissionais?

·        Qual a minha visão de futuro?

·        O que me faz feliz ou triste?

·        Como eu me sinto com relação à vida que tenho?

·        Como eu me sinto emocionalmente?

·        Tomo decisões usando o meu lado emocional ou racional?

·        Sou uma pessoa calma ou explosiva?

·        Sou uma pessoa ansiosa?

·        Como eu enxergo a mim mesmo (a)?

 

 

O QUE SÃO CRENÇAS?

 

As crenças são percepções e verdades internas que moldam como interpretamos a realidade, nós mesmos e o mundo. Elas guiam nossos comportamentos, sentimentos e tomadas de decisão. Podem ser fortalecedoras ou limitantes, baseando-se em experiências de vida, cultura ou aprendizados. Assim, compreender o papel das crenças é fundamental para o desenvolvimento pessoal e emocional, e elas são divididas em três (3) categorias principais:

 

·        Identidade: Quem você acredita ser (ex.: "Sou inteligente", "Não tenho capacidade de liderança").

·        Capacidade: O que você acha que consegue (ou não) fazer.

·        Merecimento: A percepção do que você julga merecer alcançar ou receber na vida

 

As crenças são instaladas através da repetição do que vimos, ouvimos e sentimos ou, outras vezes, elas se instalam nas nossas mentes através do que vimos, ouvimos e sentimos por forte impacto emocional. Existem alguns tipos de crenças que se instalam em uma pessoa durante a sua trajetória de vida:

 

·        Crenças Hereditárias: São representadas por tudo aquilo que uma pessoa ouve, observa e sente com relação aos pais e em seu núcleo familiar. Exemplos de frases que ouvimos durante nossa infância que podem se transformar em crença hereditária: “Você não faz nada direito; “Você deixa tudo pela metade”; “Você nunca vai conseguir ser ninguém na vida”; “ Seu irmão é muito melhor do que você”; “Você é burro”. Então, você deve ter muito cuidado com que fala com as crianças, pois até os 7 anos elas não sabem filtrar as informações e as crenças instaladas nesta idade podem acarretar em feridas emocionais e prejudicá-la na vida adulta.  

·        Crenças Sociais: São aquelas crenças populares impostas pela mídia ou pela própria sociedade, as quais estão normalmente contidas em frases como: “O mundo é perigoso”; “Os ricos são mais felizes”; “Você só será aceito (a) se for magro (a)”. Essas crenças são reforçadas pelas instituições e círculos de amizades, mas a pergunta é: De fato o mundo é um lugar perigoso? Todos os lugares do mundo são perigosos? - Generalização. Os ricos são mais felizes? Quantos ricos você já ouviu falar que sofrem de depressão? – Generalização. Você só será aceito se for magro (a). Por que isso é uma verdade? Quantas pessoas não são magras e são aceitas?

·        Crenças Pessoais: São criadas com base nas experiências individuais de cada um e, apesar de a maioria ter origem hereditária, essas crenças só se tornam verdade porque são validadas pelas experiências pessoais. Exemplo: Você foi demitido (a) do trabalho ou não passou na prova do vestibular; você pode se culpar dizendo que é incapaz, burro (a) ou que não faz nada direito e por isso foi demitido (a).

·        Crenças Limitantes (Negativas): Muitas vezes, cultivamos crenças limitantes (verdades restritivas e inconscientes) que atrapalham o alcance das metas e bem-estar. Exemplos: “Eu não sou bom o suficiente para alcançar os meus sonhos”; “Não consigo aprender ou não sou capaz de fazer isto, não tem jeito”; “Eu não sou inteligente”; “Não sei fazer nada direito”; “Nunca vou chegar a esse nível”.

- Como Ressignificar as Crenças Limitantes? (A) Identifique sua (s) crença (s) limitante (s); (B) Investigue e reflita sobre as causas; (C) Faça questionamentos e busque informações; (D) Adote crenças fortalecedoras.

·        Crenças Fortalecedoras (Positivas): Essas nos impulsionam e nos ajudam, funcionando como uma alavanca para conseguirmos alcançar nossas metas e objetivos. Exemplos: “Se eu quero, então eu consigo fazer”; “Sou bom e vou fazer meus sonhos virarem realidade”; “Sou uma pessoa inteligente”; “Sou uma pessoa bonita”; “Tenho capacidade de aprender coisas novas”.

  

 

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Dobrando o Mundo Com Ptolomeu Revivido e Revisto




O bloqueio das rotas terrestres redundou numa dádiva do Céu, pois impelidos por novos caminhos marítimos, os europeus descobriram rotas para toda a parte ([1]). A ciência cartográfica começou a florescer no mar e, essa necessidade, desviou o interesse dos geógrafos do atacado para o varejo. Sendo assim, a geografia cristã se tornou um empreendimento cósmico, muito mais interessado em todos os lugares do que em qualquer lugar, mais preocupado com a Fé do que os fatos. O marinheiro que não encontrava muita ajuda na “caixinha perfeita” do Universo precisava conhecer a exata localização de rochedos, bancos de areia pertos dos portos de Atenas ou Roma e saber encontrar o caminho livre entre as pequenas ilhas do Mar Adriático. Durante o interregno do conhecimento geográfico europeu, marinheiros e viajantes foram acumulando informações a respeito do Mediterrâneo as quais lhes facilitariam o caminho e tornariam a passagem mais segura e rápida. No século V a. C. marinheiros do Mediterrâneo anotavam as suas experiências de marcos terrestres, características costeiras e outros fatos úteis.

Essas anotações se chamavam “périplo” (“navegar à volta”) e nós chamamos de “guia da costa”. O mais antigo desses périplos foi feito por Scylax, onde as suas instruções de navegação descrevem os perigos do Mediterrâneo; isto é, a melhor maneira de ir da ponta oriental até a boca do Nilo, no Egito ou às Colunas de Hércules em Gibraltar. Decorreriam muitos séculos antes de os marinheiros serem letrados e, até lá, não houve mercado para um texto escrito. No entanto, era difícil fornecer uma imagem útil da costa marítima, porque a cartografia continuava primitiva. A passagem mais curta e segura de um ponto para outro, além de ser um segredo profissional do marinheiro também era um segredo de Estado, pois constituía a oportunidade capaz de enriquecer uma cidade ou um império.

Portanto, não surpreende que os guias da costa manuscritos fossem poucos. Não chegou até nós nenhuma carta marítima de todo o período do século IV ao XIV. Nessa época de analfabetismo disseminado, os marinheiros transmitiam seu saber por via oral e, a partir de 1300, encontramos cartas marítimas do Mediterrâneo que proporcionaram pormenores úteis nos antigos périplos. Enquanto os guias antigos eram textos escritos que descreviam as condições de navegação, os guias posteriores passaram a ser as cartas. Estas cartas costeiras do Mediterrâneo são os primeiros e verdadeiros mapas, porque foram os primeiros a reproduzir uma parte considerável da superfície da Terra a partir de observações próximas que podemos chamar de “científicas”. Se tornaram conhecidas pelo seu nome italiano “portolanos” ou “guias de porto”. Apesar da sua origem humilde os portolanos foram fonte das informações mais merecedoras de crédito que viria a encontrar-se nos atlas impressos, até meados do século XVI. Os pioneiros da cartografia moderna encontraram pouco que lhes fosse útil em todas as especulações de teólogos cristãos, mas aproveitaram muitas das verificações de marinheiros práticos.

Em 1595, os portugueses – principais navegadores do Mundo – ainda se guiavam pelos contornos costeiros, pelas sugestões e pelos acautelamentos de marítimos que tinham compilado cartas marítimas dois séculos antes. Esses profissionais posteriores – dotados de grande poder de observação – perdiam suas faculdades críticas quando se aventuravam em terra. Os guias costeiros ou deixavam o interior em branco ou salpicavam-no de boatos. Foi na orla marítima – onde os contornos da terra eram postos à prova pela experiência de todos os dias – que nasceram as verdades vivas da cartografia moderna. Mas existiam ainda outras razões para que o mar fosse o viveiro das cartas científicas e precisas da Terra, pois os teólogos cristãos colocavam o Jardim do Éden no alto dos seus mapas. As Escrituras declaravam que existiam seis partes e, para esses teólogos, a Terra deveria ser composta de seis sétimos cobertos de terra e apenas um sétimo de água.

Sendo assim, os mares seriam apenas um elemento menor no seu esquema e na Idade Média – e durante todos os séculos antes da imprensa – essas fontes se acumularam. Chegar à Ásia por mar – partindo dos países mediterrâneos – significava trocar o mar fechado pelo mar aberto. As viagens mediterrâneas eram constituídas por navegação costeira, o que significava depender da experiência pessoal desses lugares específicos como ventos, correntes, pontos de referência terrestres e silhuetas de montanhas. Para além das Colunas de Hércules encontravam-se problemas novos. Quando os navegadores portugueses avançaram para sul pela costa da África abaixo, eles deixaram para trás suas referências terrestres familiares e, quanto mais desciam, mais eles se afastavam dos pormenores tranquilizadores. Não havia experiência acumulada nem guias práticos.

Quando uma costa marítima era pouco conhecida, os habitantes eram hostis e os perigos pouco assinalados nas cartas, a latitude era a melhor – e algumas vezes – a forma de definir a posição de um navio e, por isso mesmo, os navegantes tinham de aprender a determiná-la. Ao princípio, sabiam calculá-la pela altitude da Estrela Polar, mas à medida que avançavam para o sul, ela descia e eles tinham de utilizar tabelas de declinação com um astrolábio marítimo ou um quadrante, a fim de observarem a altitude do Sol ao meio-dia. Mas, no início do século XVI as cartas marítimas começaram a apresentar escalas de latitude e, gradualmente, inúmeros pontos da costa africana ficaram com a sua latitude definida. Esses auxiliares de navegação fomentaram a navegação para sul e norte, mas como vimos anteriormente, a definição da longitude para medir distâncias Leste-Oeste seria muito mais complicada.

Os marinheiros continuavam dependendo daquilo que poderíamos chamar de “cálculo de olho”; ou seja, calculavam a posição sem observação astronômica, avaliavam a distância viajada a partir de uma posição previamente determinada. O mapa cristão T-O de pouco servia aos europeus que procuravam uma passagem para o Oriente (Índias). Os soberanos europeus e os patrocinadores tiveram de trocar o ponto de vista teológico pelo dos navegadores marítimos e, dessa forma, Jerusalém não ficaria mais situada no centro, o Jardim do Éden foi relegado a outro mundo e, no lugar de ambos, apareceu a Geometria da latitude e da longitude.

Aqui entrou o grande Ptolomeu e foi precisamente nessa altura, quando a cortina da terra caiu através das rotas terrestres europeias para o Oriente, que a Geografia de Ptolomeu foi reavivada para reformar o pensamento dos cristãos europeus. Se existe uma relação entre esses acontecimentos, não sabemos; mas, a coincidência foi fecundada para o futuro do Mundo. Quando recomeçaram as perseguições aos Judeus em Aragão, o filho de Abraham Jehuda foi obrigado a emigrar e, aceitando o convite do Infante Dom Henrique (o Navegador), refugiou-se em Portugal, onde ajudou os Portugueses a elaborar os mapas e as cartas para suas jornadas ultramarinas.

Não foi por acaso que os Judeus desempenharam papel importante na libertação dos europeus da escravatura da geografia cristã. Empurrados de lugar para lugar ajudaram a transformar a Cartografia, oferecendo fatos válidos em terras de todas as fés. Marginais para os cristãos e muçulmanos, os Judeus se tornaram professores e emissários e trouxeram o saber árabe para o Mundo cristão. O atlas catalão tinha o objetivo proporcionar um mapa-múndi; isto é, uma imagem do mundo, das regiões da Terra e das várias espécies que a habitam. Ele expressava os interesses dos navegantes europeus da idade da terra que se aproximava do fim.

A extensão Leste-Oeste – que era o centro do seu mundo – era representada em 12 folhas montadas em tábuas que se fechavam como um biombo. Esses mapas não mostravam a Europa setentrional, a Ásia setentrional e a África meridional, mas mostrava o Oriente e o pouco que se conhecia do Oceano ocidental. Em contraste com os mapas cristãos eram um triunfo do empirismo. Por mais primitivo que possa parecer aos olhos modernos, o atlas catalão foi uma obra-prima do espírito empírico, pois muitos dados que constavam nos mapas durante todos os séculos cristãos estavam omitidos. O maior gesto de domínio do cartógrafo era deixar partes da Terra em branco e, fiel ao espírito portulano, o atlas catalão deixa de escrever vastas regiões do Norte e do Sul. Contudo, a descoberta e a delineação da Terra não podiam ser feitas somente com o espírito empírico, sem qualquer suporte para ajudar. Nesse aspecto, foram essenciais os conceitos estéticos de Ptolomeu. Como os autores de portulanos, ultrapassara a ideia homérica de um oceano totalmente circulante envolvendo terra e mar. A grande contribuição de Ptolomeu foi o espírito científico quantitativo. O seu esquema de latitude e longitude era uniforme e universal e, qualquer dos mapas feitos conforme as suas recomendações, seriam precisamente iguais.

As coordenadas que ele fornecia não dependiam do tamanho da folha ou da área específica mapeada. No primeiro livro da sua “Geografia”, em que ele fornece instruções quanto é confecção de mapas, explora o problema da transposição de uma superfície esférica – a Terra – para uma superfície plana de pergaminho. Aí ele explica a necessidade de indicar paralelos de latitude e meridianos de longitude. E, portanto, a revivescência de Ptolomeu significaria o despertar do espírito empírico. Agora os homens passariam a utilizar a sua experiência para medir toda a Terra, para distinguir o conhecido do desconhecido e para designar lugares acabados de descobrir. Daí a redescoberta de Ptolomeu foi um acontecimento da revivescência de saber que assinalou a Renascença um prólogo do mundo moderno. No início do século XIII chegaram os manuscritos da Geografia de Ptolomeu em língua grega, mas como a faculdade de ler grego era rara, o conhecimento da sua obra só pode se difundir após a sua tradução para o latim. A 1ª versão impressa dessa tradução em latim apresentava apenas textos.

Os estudiosos modernos se sentiram intrigados quanto ao que terá acontecido à obra de Ptolomeu durante grande interregno. Parece agora provável que só o 1º livro teórico da Geografia subsiste na forma como Ptolomeu escreveu, pois os livros restantes – incluindo as listas das cidades localizadas pelo sistema e os mapas – parecem ter sido compilados ao longo dos séculos por estudiosos bizantinos e árabes. Embora a teoria de mapear de Ptolomeu estivesse correta, os mapas que tinham aparecido anexos à sua Geografia continham alguns erros capitais que moldariam o futuro da exploração do Mundo. Por exemplo, a grosseira subestimação de Ptolomeu da circunferência da Terra e a grosseira superestimação da extensão da Ásia para leste se combinaram para dar a ideia de que a Ásia se encontrava muito mais perto da Europa – via oceano ocidental – do que na realidade estava.

Antes de os navegadores europeus poderem aceitar o desafio que lhes era feito pelo encerramento das passagens terrestres para a Ásia, esta parte sul-africana do mapa do Mundo de Ptolomeu tinha que ser revista. Na realidade, o próprio significado de “oceano” teria de ser modificado, pois àquele tempo, os Europeus estabeleciam uma distinção profunda entre o oceano e um mar (Mare). Havia de fato apena um oceano que, na mitologia grega, era “Oceanus”, a grande corrente de água circular que supostamente envolvia o disco da Terra. Daí que, em inglês, até o ano de 1650, o grande mar exterior – de extensão ilimitada – fosse chamado de “Ocean Sea” (Mar Oceano) e o oposto ao mar interior de Mediterrâneo, ou a outros mares interiores. Em meados do século XV alguns mapas do Mundo feitos na Europa mostravam a África como uma península solta e o oceano Índico como um mar aberto, onde se podia entrar por água à volta do continente africano, a caminho da Índia e da China.

Essas aberturas nas mentes – e nos mapas – ocorreram décadas antes de termos conhecimento de que alguns europeus dobravam realmente o cabo para o recém-descoberto Oceano Índico. Por exemplo, no famoso “Planisfério” de Frei Mauro (1459) a projeção de toda a esfera da Terra num círculo plano foi o último dos grandes mapas medievais. Em certo sentido, esse mapa é também um dos primeiros mapas modernos, pois já não mostra o oceano como um caminho proibido para lado nenhum, mas sim como uma estrada real marítima para as Índias. Ele apresenta os seus respeitos a Ptolomeu, mas explica que para obedecer ao esquema de latitude e longitude do mestre tem de lhe modificar alguns dos mapas e acrescentar-lhes lugares desconhecidos no seu tempo. Desse modo, justifica o preenchimento de algumas áreas que Ptolomeu rotulara de “Terra Incógnita”.

Esta abertura do oceano ainda não tinha sido comprovada pela experiência dos navegadores e, na verdade, ela continuava a ser especulativa, baseada em boatos e narrativas trazidas por viajantes terrestres. Mesmo depois do colapso do Império Mongol, quando a rota direta que partia da Síria e atravessava a Ásia, já não estava protegida para os Europeus, os mercadores de Veneza não quiseram desistir do seu comércio com o Oriente. Tentaram manter um tráfego próspero de mercadorias da Ásia pelo controle dos caminhos que seguiam para sudeste, por terra, atravessando o Egito, depois do Mar Vermelho e o Golfo de Adem e atravessando em seguida o Mar Arábico. Mesmo depois de alguns dos mais famosos mapas do Mundo mostrarem um caminho marítimo para as Índias, contornando a África, as antigas imagens ptolomaicas da África continuaram a circular. Até iniciar a era das descobertas marítimas, os velhos mapas de Ptolomeu continuariam a ser o padrão. Os atlas mais recentes reclamavam nas páginas de título de terem sido elaborados segundo os mapas originais de Ptolomeu.

O advento da imprensa modificaria não só o conteúdo, mas também a circulação e os usos do conhecimento geográfico. Porém, os efeitos não foram inteiramente progressistas. Com o advento da imagem impressa, da gravação em madeira e metal, não foi por acaso que foram os metalúrgicos, os ourives e os pintores alemães que optaram pela calco gravação. Os pesados investimentos dos editores de atlas nas suas chapas ajudaram a manter os mapas mais antigos em circulação e, nem sempre, como meros fac-símiles históricos.

Mesmo depois de as recentes descobertas geográficas terem tornado essas chapas obsoletas, elas eram usadas alguma vezes juntamente com mapas mais modernos, que as contradizem. As pessoas que tinham dificuldade em se acostumar à ideia de que era possível navegar à volta da África e desembocar num Oceano Índico aberto podiam continuar a tranquilizar-se com a imagem familiar dada por Ptolomeu, pois a representação de uma África peninsular e um oceano aberto feita por Frei Mauro continuava a ser tosca e parecia fantasiosa. A abertura do Oceano Índico foi a 1ª revisão europeia de Ptolomeu capaz de abalar o Mundo e, nos séculos seguintes ao encerramento das rotas comerciais terrestres para o Oriente, Ptolomeu seria revisto de outras maneiras. O mundo de Ptolomeu teria de ser prolongado na direção norte e noroeste, acrescentando-se todo um novo mundo entre a Europa e a Ásia. Assim, o espírito científico de Ptolomeu, a sua admissão de ignorância e a sua defesa da latitude (e longitude) encorajaram cartógrafos e navegadores.

 

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([1])  O tempo de ativo tráfego terrestre entre as extremidades da Terra não durou muito, pois o último arcebispo de Pequim (nomeado pelo Papa em 1333) parece nunca ter chegado ao seu destino, uma vez que os caminhos por terra para o Oriente foram abruptamente encerrados pelos chineses, decorridos apenas um século (N.A.)



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