quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Os Acidentes de Trabalho e as Funções da Segurança

 O Que Considerar na Análise de Acidentes? Por Quais Motivos Podem Surgir as Falhas? Como Modular o Comportamento Seguro de Uma Organização? O Que São Atos Inseguros? Quais os Principais Modelos de Análises de Acidentes?

 


 

A conceituação legal de “acidente de trabalho” restringe o acidente àquele que provoca lesão corporal ou perturbação funcional, e ao mesmo tempo, estabelece equiparações de casos acidentários e de doenças, para fins trabalhistas e previdenciários. Entretanto, para alguns especialistas, o interesse pela análise de acidentes não deve se restringir somente ao conceito legal de acidentes de trabalho, pois a ausência de vítimas com lesões ou óbitos, não retira a importância de um acidente com danos patrimoniais. Não se trata de visão de empresas seguradoras, que buscam reparar financeiramente os danos materiais, principalmente, mas a necessidade de compreender e apreender com o evento acidentário e seus riscos. Um acidente que não tenha gerado vítimas, que não tenha sido estudado e que não tenha controle sobre os riscos que o motivaram, poderá no futuro repetir-se, produzindo mortes e ferimentos. Daí a importância de considerarmos qualquer acidente para fins de análise, com vítimas ou sem vítimas. Então, a análise de um acidente exige observar os fatores humanos, de infraestrutura, desde aspectos fisiológicos, psicológicos, sociais, tecnológicos e de organização do trabalho que possam explicar a natureza, as causas e consequências dos acidentes. Assim, a análise de acidentes utiliza-se de diversos modelos que tentam explicar determinadas faces do fenômeno acidentário. Levantando hipóteses sobre as relações dos fatores, o analista tenta explicar tecnicamente o desenvolvimento do acidente. É como um jogo de “quebra cabeças”, montado, peça por peça, onde as interações dos fatores são comprovadas pelas hipóteses levantadas pelo analista. Dessa forma, a análise de acidentes requer uma visão holística e sistêmica do conjunto de fatores, baseando-se na teoria da organização e de falhas, ou teoria de controle de falhas, em conceitos básicos e em mecanismo de controle do comportamento. O olhar simultâneo para o detalhe (visão reducionista) e para o conjunto das interações de fatores (visão sistêmica) permitirá ao analista pericial obter uma resposta científica e consistente.

 

Função da Segurança

 

A função de segurança de uma empresa é constituída de ações de controle que visam reduzir a frequência e a intensidade da manifestação dos riscos, bem como eliminar ou mitigar os impactos dos acidentes com medidas de emergência. As falhas podem surgir pelos seguintes motivos:

 

A) Falhas Por Descuidos Internos:

·        Pessoal: cansaço, preocupação e estresse.

·        Externos: falta de infraestrutura, falta de sinalização e mau funcionamento das máquinas.

 

B) Falha Técnica Por Limitação de Algum Recurso, Capacidade ou Habilidade:

·        Exemplo: fadiga de material, arranjo físico inadequado, falta de manutenção, limitação cognitiva, falta de habilitação e falta de conhecimento em emergências.

 

C) Falhas Conscientes:

·        Exemplo: devido a conflito de escolha entre duas alternativas.

 

Comportamento Seguro

 

 

A modulação de um comportamento seguro na empresa, virá a longo prazo, por meio de treinamentos, capacitações, diálogos, dinâmicas práticas que conscientizem os trabalhadores, gestores e diretores de todos os níveis hierárquicos. O papel da CIPA e do SESMT tornam-se muito importantes para o envolvimento de todos em uma cultura para a segurança. É muito comum ouvir na sociedade que “a segurança só é valorizada quando há acidentes com danos e vítimas; porém, se não ocorrem sinistros todos tendem a relaxar seu comportamento e viver de forma inconsequente frente aos riscos”. Ter a verdadeira consciência de nossas “atitudes e suas consequências” torna-se fundamental para evitarmos acidentes. O ditado popular: “a pessoa colhe o que planta” é facilmente estendido para “a organização tem o padrão de segurança que implanta”. O comportamento seguro permite às pessoas identificar com antecipação os riscos e de modo consciente adotar as medidas preventivas que evitem os acidentes. Além do mais, o comportamento seguro representa o conhecimento, a obediência e observação das normas e prescrições para o trabalho, as formas corretas de realizar as operações, de acordo com manuais técnicos. Assim, evitando-se a improvisação nas soluções de trabalho, popularmente conhecida como “gambiarra”, estaremos dentro da faixa operacional de segurança. Se todos na organização tiverem comportamentos seguros por princípio de trabalho, cria-se na organização uma “rede de segurança” cujo olhar coletivo corrigirá as possíveis falhas nos controles.

O ideal é que a função de segurança de uma empresa seja concebida e observada por todos. Para isto, investimentos em treinamentos, capacitações, informações, etc., nunca será muito, pois para que haja comportamento seguro as pessoas necessitam internalizar e vivenciar os conceitos de SST na forma correta de como agir antes dos acidentes, ou seja, na prevenção, como após a ocorrência dos mesmos, nas medidas de emergência e mitigação das consequências. Segurança e saúde no trabalho torna-se cultura da empresa, quando esta a observa e pratica com zelo e perseverança. Falhas ativas ou latentes, que eventualmente existam no processo de produção tendem a ser neutralizadas no decorrer do tempo, a medidas em que todos participam das ações de segurança e saúde no trabalho. Acidente de trabalho é tudo aquilo que ocorre com o empregado no exercício de sua atividade profissional e que causa, de algum modo, lesão corporal, alguma perturbação funcional ou até mesmo a morte. A seguir, assista o vídeo do canal “CHC Advocacia”, para aprimorar seus conhecimentos sobre acidente de trabalho, e suas divisões, exemplificando as diferenças e suas causas. 

 

Ato Inseguro

 

Os acidentes ocorrem por interações complexas entre fatores físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Trata-se de eventos não planejados, com impactos negativos, cuja ocorrência tem a participação direta ou indireta da mão humana, seja por ignorância, omissão ou negligência. Não se trata de “encontrar culpados”; isto seria muito precário e limitado. A análise de acidente bem-feita, naturalmente, evidencia as responsabilidades de cada um: empresários, gerentes, supervisores, fornecedores, trabalhadores, etc. No Brasil, atualmente, muitas análises de acidentes realizadas pelas empresas, por ignorância ou por esperteza, apontam a vítima como a principal responsável pelo acidente. Na verdade, trata-se de dupla penalização para o trabalhador acidentado, que além de se ver prejudicado, morto ou incapacitado, é considerado irresponsável, distraído, desobediente, negligente, etc., resumida na conclusão de ato inseguro. Sem querer menosprezar falhas humanas, que realmente podem existir, o analista pericial de acidentes deve antes, alcançar a raiz da questão, mergulhar a profundeza dos riscos, buscar a realidade sombria dos locais de trabalho onde se escondem os perigos. O Brasil aboliu de sua legislação o “ato inseguro”, como justificativa acidentária, através da Portaria nº 84 de 04/03/2009, da Secretaria de Inspeção do Trabalho – MTE, que alterou a alínea “b” do item 1.7 da NR 01.

 

Iceberg Organizacional

 

Toda organização pode ser comparada a um iceberg, em que partes visíveis da empresa como metas, tecnologia, mercado, estrutura hierárquica, finanças e competência técnicas são aspectos explícitos e de domínio comum de todos os níveis da empresa. Outros aspectos não tão visíveis como valores e atitudes, interações, normas grupais, competência interpessoal, mecanismos de defesa, motivações e desejos para serem observados e compreendidos requerem conhecimento do dia-a-dia da empresa e de seus interlocutores. Assim, o iceberg organizacional pode ser entendido como confronto dos lados visível com o invisível da organização. Parece claro que as questões discutidas sobre temas visíveis, coloca todos os interlocutores (diretores, supervisores, trabalhadores, etc.) em uma área de domínio comum à qual sentem-se bem para discutir e argumentar.

Ao contrário, temas mais subjetivos e invisíveis, ao serem discutidos pelo grupo, podem trazer grande dificuldade e diversidade de interpretações, tornando incerta a tomada de decisões. Assim, debates e soluções de problemas considerando os fatores produtivos como material, equipamento, energia, tempo, espaço tendem a não ser tão polêmicos quanto aspectos mais subjetivos como conhecimento, informação, habilidade, experiência, criatividade que são diversos nos seres humanos. Imagine-se participando de uma análise de acidente, por exemplo: choque elétrico, onde a diretoria insiste em definir a causa do acidente como rebeldia da vítima em acatar as normas de segurança da empresa. Devemos ter cautela na análise e prudência nas conclusões. Conclusões precipitadas podem ter origem no desconhecimento, no preconceito ou má-fé. É natural que as diferentes interpretações das causas do acidente possam gerar conflitos e até divergências. Por isso, um acidente deverá ter suas causas visíveis (aparentes ou explícitas) e invisíveis (latentes, potenciais ou implícitas) plenamente investigadas. Trata-se de um trabalho pericial que requer conhecimento técnico, bom senso e sentido de proporção.

 

Modelos de Análises de Acidentes

 

Com objetivo de explicar os diferentes modelos de análises de acidentes apresentamos formas de análise que parte de uma visão determinística até a visão probabilística. Quando os acidentes ocorrem de modo simples e direto, temos fatos e eventos determinados, que explicam suficientemente o acidente. Porém quando os acidentes ocorrem em plantas industriais complexas, com sistemas produtivos ininterruptos, aí as causas dos acidentes podem não ser tão diretas como imaginamos. Nestes casos, trabalhamos com cenários que possam explicar razoável e estatisticamente o infortúnio. Vamos a eles:

 

·        Jogo de Dominós (Modelo Sequencial): As primeiras análises de acidentes consideram o acidente como resultado determinístico de uma sucessão de fenômenos encadeados em “causas e efeitos”. À semelhança de um jogo de dominós dispostos sequencialmente, em que a primeira pedra derruba a segunda, e assim sucessivamente, todas cairão. Sem sombra de dúvidas, uma vez iniciado o processo (estopim), todas as pedras cairão e derrubaram a próxima, a não ser que uma delas seja removida antes, interrompendo a sequência iniciada. Nesta forma de análise todos os riscos estão em uma ordem definida, conhecida e pré-determinada, sendo natural a ocorrência do acidente se um dos dominós for derrubado. Simples em sua concepção, este modo de análise linear estabelece a “ordem sucessória dos fatos para o surgimento do dano”. Sua aplicação, no entanto, é limitada quanto mais complexa for a natureza dos acidentes e dos fatores desencadeantes.

·        Queijo Suíço (Modelo Epidemiológico): Outra abordagem de análise, um pouco mais sofisticada, é apresentada na representação do “queijo suíço”. Sabemos que os furos (riscos) fazem parte do queijo (organização), contudo, quanto mais furos em sua estrutura, mais frágil é sua consistência. Deste modo, o acidente ocorrerá quando um vetor (flecha) conseguir atravessar uma sequência de furos que estejam alinhados. A probabilidade de ocorrência do acidente dependerá da combinação de fatores de risco, do momento e de variáveis importantes do sistema produtivo. Apesar de ser um avanço em relação à primeira abordagem, o “queijo suíço” apresenta pouca flexibilidade para captar sinergias entre os riscos e para sistemas de produção que trabalham com variáveis que operam dentro do conceito de “faixa de segurança”. Exemplos podem ser as pressões de uma caldeira que variam entre “um máximo e um mínimo” durante sua operação. O mesmo é válido para outras variáveis como temperatura, vazão, dilatação, etc.

 

Podemos deduzir que os acidentes não são fatos inesperados, pois se todos os aspectos organizacionais forem previamente analisados, certamente este “raio X” da empresa destacará restrições e potenciais da organização. Dispomos, hoje, de um arsenal técnico consistente para reconhecer e dimensionar os problemas existentes. Porém, quando falamos de fatores implícitos entramos em uma área de “areia movediça”, mais pelo silêncio das pessoas, sua indisposição para falar ou receio tocam em questões pessoais como valores, sentimentos, sonhos, bem-estar, etc. Compreender as faces visíveis e ocultas da empresa é necessário para a análise de acidentes e principalmente para implantar uma política de SST. O modelo do queijo suíço de causalidade de acidentes é o modelo usado em análise e gerenciamento de riscos, incluindo segurança de aviação, engenharia, saúde e organização de serviços de emergência, e traz o princípio por trás da segurança em camadas, conforme usado em segurança e defesa de computador em profundidade. 

  

 

REFERÊNCIAS

 

 

BARROS, Sérgio Silveira. Análise de Riscos. Rede e-Tec/Instituto Federal Paraná, Curitiba: 2013.

FADEYI, Kunle. AI In Cybersecurity: Revolutionizing Safety. Forbes, [S. l.], p. 1-2, 15 fev. 2024. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/forbestechcouncil/2024/02/15/ai-in-cybersecurity-revolutionizing-safety/. Acesso em: 20 jun. 2024.

MATTIOLI, Guglielmo. What caused the Genoa bridge collapse – and the end of an Italian national myth?. The guardian, [S. l.], p. 1-3, 26 fev. 2019. Disponível em: https://www.theguardian.com/cities/2019/feb/26/what-caused-the-genoa-morandi-bridge-collapse-and-the-end-of-an-italian-national-myth. Acesso em: 20 jun. 2024.

Organização Mundial da Saúde (OMS). Doença do novo coronavírus (COVID-19). [2019]. Disponível em: https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019. Acesso em: 24 abr. 2024. 

Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). [2012?]. Disponível em: https://www.ipcc.ch/. Acesso em: 24 abr. 2024.

PANETTA, Kasey. Top 10 Data and Analytics Trends for 2021. Gartner, [S. l.], p. 1-3, 15 mar. 2021. Disponível em: https://www.gartner.com/smarterwithgartner/gartner-top-10-data-and-analytics-trends-for-2021. Acesso em: 20 jun. 2024.


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