segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Aspectos Culturais e Geopolíticos no Oriente Médio

Quais São as Três Matrizes Religiosas de Grande Expressão Que Surgiram no Oriente Médio? Por Que Árabes Muçulmanos Entram em Conflito Com Judeus Israelenses? Quais São os Verdadeiros Motivos Desses Conflitos? Quais os Impactos Mundiais Desses Conflitos?

 

 




Assim como o continente africano, o Oriente Médio é de uma riqueza étnica e religiosa tão grande que seria impossível abranger aqui todas as suas especificidades. Essa região do planeta é composta por países como Arábia Saudita, Bahrein, Chipre, Egito, Emirados Árabes, Israel, Irã, Iraque, Afeganistão, Jordânia, entre outros, em uma área que se estende desde a Turquia até o Afeganistão. Historicamente, essa é uma das regiões mais antigas habitadas pelos seres humanos; ou seja, muitas das passagens da Bíblia cristã se passam neste território. Essa região pode ser considerada o berço do surgimento de três matrizes religiosas de grande expressão no mundo, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. A maior parte da população é formada por árabes, havendo presença de outras etnias, a exemplo dos Judeus no estado de Israel. Ouvimos falar muito em alguns dos países do Oriente Médio por meio dos noticiários, sobretudo quando o assunto é conflito, ora aqueles relacionados à questão religiosa, ora relacionas ao petróleo. A questão gira em torno de como compreendemos esses fenômenos. Mas, por que esta região do globo é tão conflituosa?

Quando o conflito se dá por motivos religiosos entre árabes muçulmanos e judeus israelenses, parece mais fácil de compreendermos, talvez porque sabemos que as duas religiões acreditam em deuses diferentes e se manifestam de formas diferentes. Mas, vimos durante a operação militar estadunidense no Iraque, sobretudo mais recentemente, que árabes muçulmanos acabam entrando em conflito entre eles. Por que isso acontece?

Para os Muçulmanos, Alá é o verdadeiro Deus e Maomé o profeta. Desde a morte deste último, a religião muçulmana se dividiu em duas formas de organização político-religiosa: os xiitas e os sunitas. Os xiitas sempre foram considerados pelos estudiosos como sendo aqueles que fazem uma leitura mais ortodoxa e/ou radical de sua bíblia sagrada (o Corão Sagrado ou Alcorão), enquanto que os sunitas teriam uma leitura mais branda e um segundo livro de leis, a Suna. No mundo Árabe, os xiitas são encontrados na grande maioria apenas no Irã e no Iraque, enquanto que os sunitas são maioria em todos os outros países. Esses últimos são considerados, também, os responsáveis em disseminar a religião muçulmana pelo mundo. Assim, em países como o Iraque, considerando as fortes influências políticas, econômicas e culturais do mundo ocidental (caso do neocolonialismo e da recente operação militar estadunidense na região) essas divergências são intensificadas, gerando conflitos entre as duas representações.

 

Os Verdadeiros Motivos do Conflitos

 

Quando nos baseamos apenas pelos noticiários, podemos ter a impressão de que todos os conflitos existentes nos países árabes e muçulmanos, ou até africanos, ocorrem por causa de suas diferenças étnicas e/ou religiosas. A democracia, de origem ocidental (como conhecemos no Brasil, com eleições diretas para presidentes, entre outras características), parece não se consolidar em um país como o Iraque, justamente porque há tensões entre xiitas e sunitas. Mas seriam estes os reais motivos? Que outros fatores contribuem para gerar determinadas tensões no Oriente Médio? Para muitos estudiosos há dois grandes fatores territoriais que geram tensão em países do Oriente Médio: a água (o ouro azul) e o petróleo (o ouro negro). Sabemos que a água é um recurso renovável, porém mal distribuído, no Planeta. Para citar duas importantes fontes de recursos hídricos no Oriente Médio, que servem para consumo humano (consumo doméstico, irrigação, entre outros), podemos trazer as Bacias Hidrográficas do Rio Jordão (situada entre os territórios de Israel, Síria, Líbano e a Jordânia), e do Rio Tigres e Eufrates (tendo maior área de abrangência no Iraque, mas cuja disputa se dá entre países como Turquia e Síria).

O mundo assiste aos conflitos entre árabes muçulmanos e judeus desde os anos de 1950, para além de questões religiosas e pela independência política de ambas as representações, a posse da água pode ser considerada um motivo estratégico para conflitos, uma vez que assentamentos e vilarejos judeus e muçulmanos disputam espaços às margens do Jordão. O território reivindicado pelos Curdos, na fronteira com a Turquia, Síria e Iraque nunca foi concedido, pior do que isso, por muito tempo o povo Curdo vem passando por inúmeros atentados contra seus Direitos Humanos. Um dos detalhes a serem considerados é o fato de esse território reivindicado estar nas áreas das nascentes do Rio Tigres e Eufrates; não estaria aí um fator relevante para tensões geopolíticas na região? O petróleo, sem dúvida nenhuma, pode ser considerado um dos principais motivos para intervenções internacionais na região. Os conflitos no Oriente Médio geram mudanças nos preços dos produtos derivados do petróleo, o que é ruim para a economia dos países ocidentais. Veremos abaixo o percentual referente às reservas de petróleo por regiões:

 

·        Ásia / Pacífico: 4,2%

·        América do Norte: 5,5%

·        África: 8,9%

·        América Central e do Sul: 8,9%

·        Europa e Eurásia: 9,2%

·        Oriente Médio: 63,3%

 

Fonte: https://sosdoaquecimento.blogspot.com/2012/11/paises-emergentes-grafico.html?m=1

 

Considerando os dados apresentados na projeção acima, podemos considerar – ou não – o petróleo como um dos mais importantes motivos de intervenção internacional no Oriente Médio? Tal fato poderia nos ajudar a entender conflitos como a Guerra do Golfo (ocorrida em 1991), a operação militar no Iraque desde 2003, entre outras.

 

Os Conflitos Territoriais e os Impactos Mundiais

 

Certamente, as pessoas devem se perguntar se algum dia haverá paz no Oriente Médio. Talvez essa seja a pergunta que nos deixa ainda mais curiosos em compreender melhor a região. Você acredita que a verdadeira paz – ou seja, a inexistência de conflitos econômicos, políticos, culturais, entre outros – possa existir na Nova Ordem Mundial? Quando se tratam de dois grandes antagonistas como os judeus e os árabes muçulmanos, talvez essa resposta ainda esteja um pouco distante. Os judeus (antigos hebreus), assim como os árabes, sempre habitaram a região, que já possuíam seus conflitos, porém, não como conhecemos hoje. Os primeiros, sempre foram perseguidos, acabaram se espalhando pelo mundo e muitos foram parar na Europa. Como se sabe, os judeus que se estabeleceram no continente europeu, em sua maioria, foram perseguidos, torturados e/ou mortos durante a II Guerra Mundial, com destaque ao contexto alemão. Nesse período, o território onde hoje é o Estado de Israel (antiga Palestina) pertencia à Inglaterra.

Com o fim da II Guerra Mundial, depois de algumas negociações, se fortaleceu um movimento de retorno dos judeus a Israel, movimento que ficou conhecido como sionismo. Como árabes e judeus passaram a habitar novamente de forma considerável o território, não houve muitos acordos sobre quem assumiria o poder político e como deveriam ser divididas as terras. Em 1947 houve uma proposta da ONU em repartir o terreno em dois estados, um muçulmano (42,9% do espaço) e um judeu (56,5%). A questão ocorreu que, em 1948, a ONU aprovou a proposta, os Judeus criaram o Estado de Israel e os Árabes-Muçulmanos (palestinos) não aceitaram a imposição, criando uma situação de conflito na região que persiste até os dias de hoje.

Essa tensão existente na região é também conhecida como Questão Palestina, tendo como um dos principais personagens o Yasser Arafat. Cabe destacar também a participação da organização guerrilheira denominada de Hamas, que, na atualidade, já pode ser considerada uma importante representação política no mundo árabe-muçulmano. Nessa primeira década de nosso século foi construído um muro que divide os Israelenses dos Árabes Muçulmanos que habitam a Cisjordânia, muro este, também conhecido como “Muro da Vergonha”. Cabe considerar as iniciativas do antigo governo estadunidense de Bill Clinton em tentar mediar processos de paz entre árabes e judeus nos anos de 1990, os chamados Acordos de Oslo ([1]). Mas, a despeito da tentativa americana, alguns conflitos territoriais, étnicos e religiosos causaram profundos impactos no mundo, tais como:  

 

·        A Guerra dos Seis Dias: Em 1967, Egito, Jordânia e Síria entraram em conflito com Israel, que com apoio internacional, derrotou o mundo Árabe. Esse conflito ficou conhecido como a Guerra dos Seis Dias, quando Israel anexou a seu território a península do Sinai (que pertencia ao Egito), as Colinas de Golã (nascentes do Rio Jordão e pertencentes à Síria) e a Cisjordânia (da Jordânia). Após alguns acordos diplomáticos, Israel devolveu a Península do Sinai ao Egito, mas continuou com o restante dos territórios tomados.

·        A Guerra do Yom Kippur: Como retaliação aos judeus, em 1973 os árabes realizaram um ataque surpresa durante o feriado judaico, conhecido como Yom Kippur (Dia do Perdão). O conflito durou 19 dias e terminou com uma nova vitória de Israel. Foi durante esse conflito que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), em oposição ao que estava ocorrendo na região, ocasionou a crise de petróleo que culminou em uma crise energética mundial.

·        A Revolução Xiita no Irã: O Irã sempre foi um país estratégico no Oriente Médio, banhado pelas águas do Golfo Pérsico, faz fronteiras com o Iraque, a URSS, o Afeganistão e o Paquistão, e contém uma importante reserva de petróleo. Após a II Guerra Mundial, foi governado por um líder Sunita, o Xá Reza Phalevi, que permaneceu no poder até o final dos anos de 1970. Mas vocês lembram que no Irã e no Iraque a maioria da população é Xiita? Por isso seu mandato não durou muito tempo, um importante líder popular, o Aiatolá Khomeini, de representação Xiita, organizou politicamente o povo e em 1979 o poder de Xá foi derrubado por meio de uma revolução, assumindo o Aiatolá. Para os países ocidentais essa não foi uma boa notícia, uma vez que os Xiitas não negociavam com os ocidentais capitalistas, ou pouco negociavam, em tempos de Guerra Fria, isso era perder aliados na luta contra os países socialistas. Você já imaginou que tensão essa revolução provocou na época para o mundo capitalista? Muitos estudiosos afirmam que, para evitar que essa mesma revolução fosse realizada no Iraque, os EUA apoiaram Saddam Hussein (um Sunita) no comando político do Iraque, por meio de ditadura militar.

·        Os Conflitos no Iraque: O Iraque é um país vizinho do Irã, faz fronteira com a Síria, com a Turquia e com a Arábia Saudita e também é um país estratégico, por ter uma considerável reserva de petróleo em seu território. Na história mais atual, um dos primeiros conflitos em que o Iraque esteve envolvido foi com o Irã, como vimos anteriormente, a Revolução Xiita acabou mexendo um pouco as estruturas políticas na região. O conflito entre o Irã e o Iraque teve seu início em 1980 e durou quase uma década, tudo por causa de uma área de fronteira estratégica, o Chatt al Arab, a única saída iraquiana para o mar. Em oito anos de guerra morreram em combate mais de 1 milhão de pessoa. O conflito só acabou com a intervenção da ONU e outras organizações internacionais. No início dos anos de 1990, o Iraque entrou em um novo cenário de guerra, onde as tropas iraquianas invadiram as áreas de fronteira com o Kuwait. Saddam Hussein acusou o governo do Kuwait de prejudicar o comércio de petróleo, assim como reivindicou um pedaço do território do Kuwait que, para ele, era historicamente do Iraque.

 

A ONU chegou a solicitar a retirada das tropas iraquianas do Kuwait, mas nada foi resolvido, por isso, a guerra explodiu – conhecida como Guerra do Golfo. A Guerra durou mais de um mês e trouxe sérios problemas ao Iraque, pois esse país acabou um embargo econômico imposto pela ONU. Em 2003, uma nova guerra explodiu e os EUA acusaram Saddam Hussein de fabricar e armazenar armas de destruição em massa (bombas atômicas). Naquele momento, inspetores da ONU foram enviados para analisar o caso, nada foi encontrado, no entanto o governo estadunidense de George W. Bush resolver instalar uma operação militar no país, sustentado pelo argumento da luta contra o terror – relacionando a figura de Saddam ao de Osama Bin Laden (acusado de ter promovido os atentados às Torres Gêmeas). O ditador Saddam Hussein foi deposto, preso, julgado e por fim, condenado à morte e a sua execução ocorreu em novembro de 2006.

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

BLASCO, Maria de lá Concepcional (1 de setembro de 1993). El Bonce final (1ª adicione). Madrid: Editorial Sínteses. p. 176. ISBN 84-7738-195-X. CLAIRBORNE, Robert (1977). Los primeros americanos. Ciudad de México: Lito Offset Latina. Libros TIMELIFE. Clark, John E., ed. (1994). Los olmecas en Mesoamérica. Ciudad de México: Ediciones del Equilibrista. ISBN 968-7318-22-8.

CONRAD, Geoffrey W. (1984). «Los incas». Historia de las Civilizaciones antiguas (II): Europa, América, China, India. Arthur Cotterell, ed. Barcelona: Editorial Crítica. ISBN 84-7423-252-X

SIMÕES, Willian. Geografia II. Curitiba: Instituto Federal do Paraná/Rede e-Tec, 2011.



([1]) Trata-se de uma série de pactos históricos firmados na década de 1990 entre o governo de Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Eles estabeleceram o reconhecimento mútuo entre as partes e criaram a Autoridade Palestina, projetada para ser um governo autônomo temporário de transição


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