terça-feira, 13 de outubro de 2026

A Influência dos Cenários na Gestão de Marketing

De Que Forma os Cenários Econômicos, Sociais e Financeiros Podem Impactar na Gestão de Marketing das Empresas Brasileiras?

 




INTRODUÇÃO

 

A máxima de que o marketing não opera em um vácuo nunca foi tão verdadeira quanto no dinâmico e volátil cenário econômico brasileiro. Historicamente, a literatura de marketing no Brasil tendeu a analisar a disciplina por meio de matrizes conceituais importadas, sobretudo norte-americanas, que muitas vezes desconsideravam as severas flutuações macroeconômicas locais. Contudo, nas últimas décadas, consolidou-se a compreensão de que as estratégias de mercado mais bem-sucedidas no país são aquelas que funcionam como um espelho de seus ciclos econômicos. O marketing brasileiro aprendeu a ser fundamentalmente adaptativo. Se há 15 anos a discussão concentrava-se na consolidação da chamada "nova classe média" (Classe C) e no boom das commodities que impulsionava o consumo de massa, o panorama contemporâneo exige ferramentas analíticas muito mais complexas para decifrar o mercado.

Nas últimas duas décadas, o Brasil enfrentou uma montanha-russa macroeconômica: ciclos de recessão profunda, janelas de recuperação cambial, o impacto disruptivo da pandemia global e a subsequente pressão inflacionária global combinada com juros flutuantes. Esse ambiente hipervolátil moldou um novo perfil de consumidor. O brasileiro pós-crise tornou-se altamente resiliente, pragmático e digitalizado. Ele não apenas transiciona fluidamente entre o físico e o virtual (omnichannel), como também desenvolveu estratégias sofisticadas de substituição de categorias e marcas para proteger seu poder de compra. Diante disso, o marketing puramente aspiracional cedeu espaço para o marketing de utilidade e valor tangível.

Além disso, a evolução tecnológica transformou a própria infraestrutura econômica do marketing. A emergência do Big Data, a consolidação da Inteligência Artificial aplicada ao consumo e a implementação de regulamentações rígidas de privacidade (como a LGPD) mudaram a moeda de troca do mercado. O investimento publicitário migrou massivamente da mídia de massa tradicional para ecossistemas de mídia proprietária e plataformas de performance. Paralelamente, o mercado financeiro e os consumidores passaram a precificar o valor intangível das organizações através das lentes do ESG (Ambiental, Social e Governança), transformando o "propósito de marca" de um conceito acessório em um imperativo econômico de sobrevivência.

Portanto, atualizar a análise da influência econômica sobre o marketing no Brasil exige mapear como esses novos vetores — volatilidade da renda, digitalização extrema, eficiência baseada em dados e demandas por sustentabilidade — reconfiguraram o composto de marketing tradicional. Este trabalho propõe-se a resgatar as fundações teóricas da relação entre macroeconomia e gestão mercadológica, expandindo-as para cobrir as profundas transformações conceituais e empíricas que redefiniram o mercado nacional nos últimos anos.

 

Início da Era das Transformações Nos Cenários Econômicos

 

Estudiosos em Marketing vêm afirmando que as transformações existentes na economia e nos mercados brasileiros podem contribuir bastante para a compreensão de uma melhor gestão de marketing nas organizações. Eles afirmam que o perfeito entendimento desses cenários nos capacita a trabalhar as ferramentas estratégicas e operacionais de mercado. Diante disso, propõem uma análise retrospectiva do cenário social e econômico brasileiro, iniciando pelas décadas de 80 e 90, para entender as bases da nossa cultura de consumo.

No início dos anos 80, o Brasil praticava uma política econômica externa conhecida como “reserva de mercado”. Os produtos importados eram altamente taxados a fim de tentar “proteger” as indústrias nacionais contra o ataque dos concorrentes estrangeiros que eram mais eficientes, avançados e baratos que os brasileiros.

Essas sobretaxas tornavam os produtos estrangeiros proibitivos para o bolso local, impedindo o acesso das classes menos favorecidas. Uma grande parcela da população brasileira era obrigada a consumir produtos nacionais de baixíssima qualidade e que operavam quase sem concorrência. Muitos consumidores tinham poucas opções disponíveis, sendo forçados a comprar o que existia. Naquela época, os consumidores tinham menos acesso à escolaridade e eram desinformados por falta de canais de comunicação integrados — um contraste brutal com o consumidor hiperconectado e empoderado por dados que vemos hoje.

 

O Setor Automobilístico

 

Até o início dos anos 90, o país possuía somente quatro montadoras de automóveis (Volkswagen, Ford, GM e Fiat), a maioria trazida na esteira do desenvolvimento industrial dos anos 50. Os fabricantes não precisavam se preocupar em mapear necessidades ou desejos profundos dos clientes; o mercado era tão escasso que os consumidores pagavam “ágio” (preço acima da tabela) para obter automóveis ou computadores.

Enquanto as indústrias mundiais progrediam, o Brasil estagnava. A mudança começou quando leis menos restritivas liberaram as importações, promovendo um "choque de realidade" nas empresas nacionais, que prosperavam dentro de uma bolha isolada do resto do mundo. A partir do final da década de 90, o Brasil se consolidou como um dos grandes produtores mundiais de automóveis, atraindo marcas como Audi, Mercedes-Benz, Renault, Peugeot, Citroën e Mitsubishi.

A abertura econômica reestruturou o país, privatizou estatais e integrou nossa produção à economia internacional. Segundo o IPEA, a produtividade industrial cresceu fortemente ao longo dos anos 90. Sob a perspectiva do marketing moderno, essa transição representou a mudança do "foco no produto" (Marketing 1.0) para o "foco no cliente" (Marketing 2.0). O setor automotivo, que antes racionava veículos, transformou-se em um mercado hipercompetitivo de marcas digitais, financiamentos complexos, eletrificação e forte apelo à experiência do usuário (Customer Experience).

 

O Setor das Telecomunicações

 

O Programa de Privatizações chegou às telecomunicações e, em 1998, o leilão do sistema Telebrás arrecadou US$ 22 bilhões. A venda dessas ineficientes prestadoras estatais acabou com as filas de espera por linhas fixas — que levavam anos para ser instaladas e custavam fortunas no mercado paralelo. Assim, pode-se dizer que a evolução da tecnologia móvel no Brasil foi veloz:

 

1ª Geração (Final dos anos 80): Aparelhos analógicos que transmitiam apenas voz, em baixa velocidade.

2ª Geração (1991): Tecnologia digital, com maior velocidade, identificador de chamadas e mensagens de texto (SMS).

3ª Geração (Meados dos anos 2000): Alta velocidade de dados, telas coloridas, internet móvel e câmeras integradas. O número de celulares superou o de habitantes.

 

Hoje, essa evolução atingiu o ápice com as redes 5G e os smartphones transformados em hubs econômicos centrais. O celular deixou de ser um canal de transmissão para se tornar o próprio ponto de venda (Mobile Commerce), a carteira digital (via Pix e Open Finance) e a principal tela de consumo de mídia do brasileiro. Para a gestão de marketing, o desafio migrou da distribuição física do chip para a batalha pela atenção nos aplicativos, exigindo estratégias de Omnichannel (integração total entre físico e digital) e personalização em tempo real impulsionada por algoritmos de Inteligência Artificial.

 

A Globalização e a Convergência de Mercados

 

No final dos anos 90, a Sony anunciou sua primeira câmera digital. Confrontada, sua principal concorrente (a Kodak) afirmou não estar preocupada, pois atuava no ramo de “soluções computadorizadas”. Contudo, computadores eram o negócio principal de empresas como HP e Compaq, que posteriormente viram suas margens migrarem para insumos e serviços. A própria Dell Computers desviava o foco dizendo atuar em “soluções empresariais” — território tradicional de consultorias como PwC e KPMG, que por sua vez passaram a monitorar a concorrência de grandes bancos de investimentos que ofereciam assessorias de alto nível.

Esses exemplos pioneiros de globalização econômica anteciparam um fenômeno que hoje define o mercado: a convergência digital e a economia de ecossistemas. Atualmente, as fronteiras entre os setores desapareceram por completo. Empresas de tecnologia atuam como bancos (Fintechs), redes varejistas transformaram-se em gigantes de mídia (Retail Media), e plataformas de streaming competem diretamente com o tempo de lazer e o mercado de publicidade tradicionais.

Sendo assim, não basta mais monitorar o concorrente direto do mesmo setor; a gestão de marketing moderna precisa antecipar disrupções vindas de ecossistemas tecnológicos adjacentes. Portanto, é nesse mundo fluido e hiperconectado que produtos, serviços e marcas precisam gerar resultados. O cenário macroeconômico pode parecer desafiador e igual para todos, mas o fator crítico de sucesso reside na capacidade analítica da gestão em decifrar esses dados, antecipar as flutuações de mercado e transformar a volatilidade em vantagem competitiva.


 

Referências Bibliográficas

 

KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 5.0: Tecnologia para a humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2021.

KOTLER, Philip; KARTAJAYA, Hermawan; SETIAWAN, Iwan. Marketing 6.0: O marketing imersivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2024.

CHURCHILL, Gilbert A.; PETER, J. Paul. Marketing: Criando valor para os clientes. São Paulo: Saraiva, 2012.

MADRUGA, Roberto. Gestão do Relacionamento e Customer Experience. São Paulo: Atlas, 2021.

PORTAL MEIO & MENSAGEM. Relatórios Anuais de Investimento em Mídia (Cenp-Meios).

MINDMINERS / SRETAIL. Relatórios sobre o Comportamento do Consumidor Brasileiro.

 

 

https://www.facebook.com/juliocesar.s.santos

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