O bloqueio das rotas terrestres redundou numa dádiva do Céu, pois impelidos por novos caminhos marítimos, os europeus descobriram rotas para toda a parte ([1]). A ciência cartográfica começou a florescer no mar e, essa necessidade, desviou o interesse dos geógrafos do atacado para o varejo. Sendo assim, a geografia cristã se tornou um empreendimento cósmico, muito mais interessado em todos os lugares do que em qualquer lugar, mais preocupado com a Fé do que os fatos. O marinheiro que não encontrava muita ajuda na “caixinha perfeita” do Universo precisava conhecer a exata localização de rochedos, bancos de areia pertos dos portos de Atenas ou Roma e saber encontrar o caminho livre entre as pequenas ilhas do Mar Adriático. Durante o interregno do conhecimento geográfico europeu, marinheiros e viajantes foram acumulando informações a respeito do Mediterrâneo as quais lhes facilitariam o caminho e tornariam a passagem mais segura e rápida. No século V a. C. marinheiros do Mediterrâneo anotavam as suas experiências de marcos terrestres, características costeiras e outros fatos úteis.
Essas anotações se chamavam
“périplo” (“navegar à volta”) e nós chamamos de “guia da costa”. O mais antigo
desses périplos foi feito por Scylax, onde as suas instruções de navegação
descrevem os perigos do Mediterrâneo; isto é, a melhor maneira de ir da ponta
oriental até a boca do Nilo, no Egito ou às Colunas de Hércules em Gibraltar. Decorreriam
muitos séculos antes de os marinheiros serem letrados e, até lá, não houve
mercado para um texto escrito. No entanto, era difícil fornecer uma imagem útil
da costa marítima, porque a cartografia continuava primitiva. A passagem mais
curta e segura de um ponto para outro, além de ser um segredo profissional do
marinheiro também era um segredo de Estado, pois constituía a oportunidade
capaz de enriquecer uma cidade ou um império.
Portanto, não surpreende que os
guias da costa manuscritos fossem poucos. Não chegou até nós nenhuma carta
marítima de todo o período do século IV ao XIV. Nessa época de analfabetismo
disseminado, os marinheiros transmitiam seu saber por via oral e, a partir de
1300, encontramos cartas marítimas do Mediterrâneo que proporcionaram
pormenores úteis nos antigos périplos. Enquanto os guias antigos eram textos
escritos que descreviam as condições de navegação, os guias posteriores
passaram a ser as cartas. Estas cartas costeiras do Mediterrâneo são os
primeiros e verdadeiros mapas, porque foram os primeiros a reproduzir uma parte
considerável da superfície da Terra a partir de observações próximas que
podemos chamar de “científicas”. Se tornaram conhecidas pelo seu nome italiano
“portolanos” ou “guias de porto”. Apesar da sua origem humilde os portolanos
foram fonte das informações mais merecedoras de crédito que viria a
encontrar-se nos atlas impressos, até meados do século XVI. Os pioneiros da
cartografia moderna encontraram pouco que lhes fosse útil em todas as
especulações de teólogos cristãos, mas aproveitaram muitas das verificações de
marinheiros práticos.
Em 1595, os portugueses –
principais navegadores do Mundo – ainda se guiavam pelos contornos costeiros,
pelas sugestões e pelos acautelamentos de marítimos que tinham compilado cartas
marítimas dois séculos antes. Esses profissionais posteriores – dotados de
grande poder de observação – perdiam suas faculdades críticas quando se
aventuravam em terra. Os guias costeiros ou deixavam o interior em branco ou
salpicavam-no de boatos. Foi na orla marítima – onde os contornos da terra eram
postos à prova pela experiência de todos os dias – que nasceram as verdades
vivas da cartografia moderna. Mas existiam ainda outras razões para que o mar
fosse o viveiro das cartas científicas e precisas da Terra, pois os teólogos
cristãos colocavam o Jardim do Éden no alto dos seus mapas. As Escrituras
declaravam que existiam seis partes e, para esses teólogos, a Terra deveria ser
composta de seis sétimos cobertos de terra e apenas um sétimo de água.
Sendo assim, os mares seriam
apenas um elemento menor no seu esquema e na Idade Média – e durante todos os
séculos antes da imprensa – essas fontes se acumularam. Chegar à Ásia por mar –
partindo dos países mediterrâneos – significava trocar o mar fechado pelo mar
aberto. As viagens mediterrâneas eram constituídas por navegação costeira, o
que significava depender da experiência pessoal desses lugares específicos como
ventos, correntes, pontos de referência terrestres e silhuetas de montanhas. Para
além das Colunas de Hércules encontravam-se problemas novos. Quando os
navegadores portugueses avançaram para sul pela costa da África abaixo, eles
deixaram para trás suas referências terrestres familiares e, quanto mais
desciam, mais eles se afastavam dos pormenores tranquilizadores. Não havia
experiência acumulada nem guias práticos.
Quando uma costa marítima era
pouco conhecida, os habitantes eram hostis e os perigos pouco assinalados nas
cartas, a latitude era a melhor – e algumas vezes – a forma de definir a
posição de um navio e, por isso mesmo, os navegantes tinham de aprender a
determiná-la. Ao princípio, sabiam calculá-la pela altitude da Estrela Polar,
mas à medida que avançavam para o sul, ela descia e eles tinham de utilizar
tabelas de declinação com um astrolábio marítimo ou um quadrante, a fim de
observarem a altitude do Sol ao meio-dia. Mas, no início do século XVI as
cartas marítimas começaram a apresentar escalas de latitude e, gradualmente,
inúmeros pontos da costa africana ficaram com a sua latitude definida. Esses
auxiliares de navegação fomentaram a navegação para sul e norte, mas como vimos
anteriormente, a definição da longitude para medir distâncias Leste-Oeste seria
muito mais complicada.
Os marinheiros continuavam
dependendo daquilo que poderíamos chamar de “cálculo de olho”; ou seja,
calculavam a posição sem observação astronômica, avaliavam a distância viajada
a partir de uma posição previamente determinada. O mapa cristão T-O de pouco
servia aos europeus que procuravam uma passagem para o Oriente (Índias). Os
soberanos europeus e os patrocinadores tiveram de trocar o ponto de vista
teológico pelo dos navegadores marítimos e, dessa forma, Jerusalém não ficaria
mais situada no centro, o Jardim do Éden foi relegado a outro mundo e, no lugar
de ambos, apareceu a Geometria da latitude e da longitude.
Aqui entrou o grande Ptolomeu e
foi precisamente nessa altura, quando a cortina da terra caiu através das rotas
terrestres europeias para o Oriente, que a Geografia de Ptolomeu foi reavivada
para reformar o pensamento dos cristãos europeus. Se existe uma relação entre
esses acontecimentos, não sabemos; mas, a coincidência foi fecundada para o
futuro do Mundo. Quando recomeçaram as perseguições aos Judeus em Aragão, o
filho de Abraham Jehuda foi obrigado a emigrar e, aceitando o convite do
Infante Dom Henrique (o Navegador), refugiou-se em Portugal, onde ajudou os
Portugueses a elaborar os mapas e as cartas para suas jornadas ultramarinas.
Não foi por acaso que os Judeus
desempenharam papel importante na libertação dos europeus da escravatura da
geografia cristã. Empurrados de lugar para lugar ajudaram a transformar a
Cartografia, oferecendo fatos válidos em terras de todas as fés. Marginais para
os cristãos e muçulmanos, os Judeus se tornaram professores e emissários e
trouxeram o saber árabe para o Mundo cristão. O atlas catalão tinha o objetivo
proporcionar um mapa-múndi; isto é, uma imagem do mundo, das regiões da Terra e
das várias espécies que a habitam. Ele expressava os interesses dos navegantes
europeus da idade da terra que se aproximava do fim.
A extensão Leste-Oeste – que era
o centro do seu mundo – era representada em 12 folhas montadas em tábuas que se
fechavam como um biombo. Esses mapas não mostravam a Europa setentrional, a
Ásia setentrional e a África meridional, mas mostrava o Oriente e o pouco que
se conhecia do Oceano ocidental. Em contraste com os mapas cristãos eram um
triunfo do empirismo. Por mais primitivo que possa parecer aos olhos modernos,
o atlas catalão foi uma obra-prima do espírito empírico, pois muitos dados que
constavam nos mapas durante todos os séculos cristãos estavam omitidos. O maior
gesto de domínio do cartógrafo era deixar partes da Terra em branco e, fiel ao
espírito portulano, o atlas catalão deixa de escrever vastas regiões do Norte e
do Sul. Contudo, a descoberta e a delineação da Terra não podiam ser feitas
somente com o espírito empírico, sem qualquer suporte para ajudar. Nesse
aspecto, foram essenciais os conceitos estéticos de Ptolomeu. Como os autores
de portulanos, ultrapassara a ideia homérica de um oceano totalmente circulante
envolvendo terra e mar. A grande contribuição de Ptolomeu foi o espírito
científico quantitativo. O seu esquema de latitude e longitude era uniforme e
universal e, qualquer dos mapas feitos conforme as suas recomendações, seriam
precisamente iguais.
As coordenadas que ele fornecia
não dependiam do tamanho da folha ou da área específica mapeada. No primeiro
livro da sua “Geografia”, em que ele fornece instruções quanto é confecção de
mapas, explora o problema da transposição de uma superfície esférica – a Terra
– para uma superfície plana de pergaminho. Aí ele explica a necessidade de
indicar paralelos de latitude e meridianos de longitude. E, portanto, a
revivescência de Ptolomeu significaria o despertar do espírito empírico. Agora
os homens passariam a utilizar a sua experiência para medir toda a Terra, para
distinguir o conhecido do desconhecido e para designar lugares acabados de
descobrir. Daí a redescoberta de Ptolomeu foi um acontecimento da revivescência
de saber que assinalou a Renascença um prólogo do mundo moderno. No início do
século XIII chegaram os manuscritos da Geografia de Ptolomeu em língua grega,
mas como a faculdade de ler grego era rara, o conhecimento da sua obra só pode se
difundir após a sua tradução para o latim. A 1ª versão impressa dessa tradução
em latim apresentava apenas textos.
Os estudiosos modernos se
sentiram intrigados quanto ao que terá acontecido à obra de Ptolomeu durante
grande interregno. Parece agora provável que só o 1º livro teórico da Geografia
subsiste na forma como Ptolomeu escreveu, pois os livros restantes – incluindo
as listas das cidades localizadas pelo sistema e os mapas – parecem ter sido
compilados ao longo dos séculos por estudiosos bizantinos e árabes. Embora a
teoria de mapear de Ptolomeu estivesse correta, os mapas que tinham aparecido
anexos à sua Geografia continham alguns erros capitais que moldariam o futuro
da exploração do Mundo. Por exemplo, a grosseira subestimação de Ptolomeu da circunferência
da Terra e a grosseira superestimação da extensão da Ásia para leste se
combinaram para dar a ideia de que a Ásia se encontrava muito mais perto da
Europa – via oceano ocidental – do que na realidade estava.
Antes de os navegadores europeus
poderem aceitar o desafio que lhes era feito pelo encerramento das passagens
terrestres para a Ásia, esta parte sul-africana do mapa do Mundo de Ptolomeu
tinha que ser revista. Na realidade, o próprio significado de “oceano” teria de
ser modificado, pois àquele tempo, os Europeus estabeleciam uma distinção
profunda entre o oceano e um mar (Mare). Havia de fato apena um oceano que, na
mitologia grega, era “Oceanus”, a grande corrente de água circular que
supostamente envolvia o disco da Terra. Daí que, em inglês, até o ano de 1650,
o grande mar exterior – de extensão ilimitada – fosse chamado de “Ocean
Sea” (Mar Oceano) e o oposto ao mar interior de Mediterrâneo, ou a
outros mares interiores. Em meados do século XV alguns mapas do Mundo feitos na
Europa mostravam a África como uma península solta e o oceano Índico como um
mar aberto, onde se podia entrar por água à volta do continente africano, a
caminho da Índia e da China.
Essas aberturas nas mentes – e
nos mapas – ocorreram décadas antes de termos conhecimento de que alguns
europeus dobravam realmente o cabo para o recém-descoberto Oceano Índico. Por
exemplo, no famoso “Planisfério” de Frei Mauro (1459) a projeção de toda a
esfera da Terra num círculo plano foi o último dos grandes mapas medievais. Em
certo sentido, esse mapa é também um dos primeiros mapas modernos, pois já não
mostra o oceano como um caminho proibido para lado nenhum, mas sim como uma estrada
real marítima para as Índias. Ele apresenta os seus respeitos a Ptolomeu, mas
explica que para obedecer ao esquema de latitude e longitude do mestre tem de
lhe modificar alguns dos mapas e acrescentar-lhes lugares desconhecidos no seu
tempo. Desse modo, justifica o preenchimento de algumas áreas que Ptolomeu
rotulara de “Terra Incógnita”.
Esta abertura do oceano ainda não
tinha sido comprovada pela experiência dos navegadores e, na verdade, ela
continuava a ser especulativa, baseada em boatos e narrativas trazidas por
viajantes terrestres. Mesmo depois do colapso do Império Mongol, quando a rota
direta que partia da Síria e atravessava a Ásia, já não estava protegida para
os Europeus, os mercadores de Veneza não quiseram desistir do seu comércio com
o Oriente. Tentaram manter um tráfego próspero de mercadorias da Ásia pelo
controle dos caminhos que seguiam para sudeste, por terra, atravessando o
Egito, depois do Mar Vermelho e o Golfo de Adem e atravessando em seguida o Mar
Arábico. Mesmo depois de alguns dos mais famosos mapas do Mundo mostrarem um
caminho marítimo para as Índias, contornando a África, as antigas imagens
ptolomaicas da África continuaram a circular. Até iniciar a era das descobertas
marítimas, os velhos mapas de Ptolomeu continuariam a ser o padrão. Os atlas
mais recentes reclamavam nas páginas de título de terem sido elaborados segundo
os mapas originais de Ptolomeu.
O advento da imprensa modificaria
não só o conteúdo, mas também a circulação e os usos do conhecimento
geográfico. Porém, os efeitos não foram inteiramente progressistas. Com o
advento da imagem impressa, da gravação em madeira e metal, não foi por acaso
que foram os metalúrgicos, os ourives e os pintores alemães que optaram pela
calco gravação. Os pesados investimentos dos editores de atlas nas suas chapas
ajudaram a manter os mapas mais antigos em circulação e, nem sempre, como meros
fac-símiles históricos.
Mesmo depois de as recentes
descobertas geográficas terem tornado essas chapas obsoletas, elas eram usadas
alguma vezes juntamente com mapas mais modernos, que as contradizem. As pessoas
que tinham dificuldade em se acostumar à ideia de que era possível navegar à
volta da África e desembocar num Oceano Índico aberto podiam continuar a
tranquilizar-se com a imagem familiar dada por Ptolomeu, pois a representação
de uma África peninsular e um oceano aberto feita por Frei Mauro continuava a
ser tosca e parecia fantasiosa. A abertura do Oceano Índico foi a 1ª revisão
europeia de Ptolomeu capaz de abalar o Mundo e, nos séculos seguintes ao
encerramento das rotas comerciais terrestres para o Oriente, Ptolomeu seria
revisto de outras maneiras. O mundo de Ptolomeu teria de ser prolongado na
direção norte e noroeste, acrescentando-se todo um novo mundo entre a Europa e
a Ásia. Assim, o espírito científico de Ptolomeu, a sua admissão de ignorância
e a sua defesa da latitude (e longitude) encorajaram cartógrafos e navegadores.
([1]) O tempo de ativo
tráfego terrestre entre as extremidades da Terra não durou muito, pois o último
arcebispo de Pequim (nomeado pelo Papa em 1333) parece nunca ter chegado ao seu
destino, uma vez que os caminhos por terra para o Oriente foram abruptamente
encerrados pelos chineses, decorridos apenas um século (N.A.)
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