quinta-feira, 30 de julho de 2026

A Descoberta da Ásia e Sua Importância Para a Geografia

Quanto Tempo Durou a Viagem de Marco Polo à China? Que Tipo de Comércio Florescia Entre a Europa e a Ásia Nessa Época? Por Que os Caminhos Por Terra Para o Oriente Foram Encerrados Após Marco Polo?

 



 

Marco Polo ultrapassou todos os outros viajantes cristãos conhecidos com as suas experiências, com os resultados obtidos e a influência exercida. Os franciscanos efetuaram a viagem à Mongólia em menos de três anos e permaneceram nos seus papéis de missionários. Mas, a viagem de Marco Polo durou 24 anos, indo da Mongólia até o coração de Catai. Marco Polo atravessou a China inteira, caminhou até o oceano, desempenhando vários papéis, chegando a ser confidente de Khan e até governador de uma cidade chinesa. Ele estava à vontade na língua local e acabou mergulhando na vida e na cultura de Catai. Para muitas gerações da Europa, a sua narrativa dos costumes orientais foi a verdadeira “descoberta da Ásia”. Veneza era um grande centro de comércio no Mediterrâneo. Marco Polo tinha apenas 15 anos quando seu pai e seu tio regressaram à Veneza de uma viagem de 9 anos ao Oriente e, seu outro tio, também chamado Marco Polo, tinha comércios em Constantinopla e na Criméia. Daí, Marco Polo inicia seu livro com um relato destas viagens de seus parentes. Seus tios (Nicolo e Matteo) juntaram – em Constantinopla – uma grande quantidade de pedras preciosas que levaram à corte do filho de Gengis Khan (Barba), o qual não apenas tratou-os muito bem como lhes comprou as pedras pelo dobro do seu valor. Eles resolveram levar seus empreendimentos mais para oriente (em Bucara), onde conheceram alguns tártaros que iam a caminho da corte do Grande Khan (Qubilai). Esses enviados persuadiram os Polos de que Qubilai – que jamais vira qualquer latino – desejava vê-los e os trataria com grande honra e liberalidade. Os enviados prometeram protegê-los na viagem. Dessa forma, os irmãos Polo aceitaram o convite e após um ano de viagem chegaram à corte de Qubilai Khan, o qual se revelou um homem de vasta curiosidade, inteligência e desejoso de aprender tudo sobre o Ocidente. Khan pediu aos dois irmãos que fossem seus enviados ao Papa e lhes pedissem 100 missionários instruídos nas 7 artes, para ensinarem a seu povo sobre cristianismo e a ciência ocidental. Ele queria também um pouco de azeite da candeia do Santo Sepulcro de Jerusalém.

Quando partiram, os irmãos trouxeram consigo uma placa de ouro do Imperador que lhes permitia livre passagem e, ao chegarem em Acre, tomaram conhecimento que o Papa havia morrido e o sucessor (Gregório X) não ofereceu os 100 missionários pedidos, designando apenas dois (2) frades dominicanos para acompanharem os irmãos Polo.  Ao regressarem à corte de Qubilai Khan (em 1271) levaram consigo seu sobrinho Marco que estava destinado a tornar histórica sua viagem. Mas, no Mediterrâneo oriental os dois dominicanos fugiram em pânico e, sozinhos, os três Polos seguiram para Ormuz, na foz do Golfo Pérsico. Atravessaram o deserto pérsico de Kerman para as montanhas de Badakchan e subiram cada vez mais, através das terras glaciares a 6000 metros de altura. Essa elevação era chamada corretamente pelos nativos de “Teto do Mundo”. “Abunda caça selvagem de toda espécie, existem grandes quantidades de carneiros selvagens enormes, que os seus cornos chegavam a atingir 6 palmos de comprimento e nunca menos de 3 ou 4. Desses cornos, os pastores fazem grandes taças – das quais comem – e também cercas para comerem os seus rebanhos”. O grupo descansou em Lop, uma cidade à margem do deserto onde os viajantes geralmente se aprovisionavam para se fortalecerem contra o terror inspirado pela travessia: _ “Animais selvagens e pássaros não há nenhum, pois não encontram nada o que comer. Mas, asseguro-vos uma coisa aqui encontramos coisas estranhas, as quais vos relato”: - “Quando um homem, por qualquer motivo é obrigado a pernoitar nessas montanhas e depois voltar aos seus companheiros, ouve espíritos falando de tal maneira que parecem ser os seus próprios companheiros que, algumas vezes, até o chamam pelo nome”. Qubilai Khan recebeu os venezianos com grande honra e, pressentindo os talentos de Marco (já com 21 anos), Khan admitiu-o imediatamente ao seu serviço e mandou-o numa embaixada a um país a 6 meses de distância. Não se sabe como Nicolo e Matteo passavam seu tempo na corte de Khan, mas ao fim dos 17 anos tinham adquirido grande riqueza em pedras preciosas e ouro e, cada ano que passava, Qubilai Khan sentia maior relutância em perder os serviços de Marco Polo. Em 1292 foi necessária uma escolta para uma princesa tártara que deveria casar-se com II-Khan da Pérsia e, Marco Polo, acabara de retornar de uma viagem à Índia. Os enviados persas que conheciam a fama de mareantes dos venezianos convenceram Qubilai Khan a autorizar os Polos a acompanhar e à noiva por mar, equipando-os com 14 barcos, 600 tripulantes e provisões para dois anos.

Após uma traiçoeira viagem, com apenas 18 tripulantes vivos, a princesa foi entregue sã e salva à corte persa e afeiçoou-se tanto aos venezianos que chorou ao separar-se deles. Regressando à Veneza em 1295 – após uma ausência de 24 anos – os Polos já eram considerados mortos e, conta a tradição, que quando os três maltrapilhos desconhecidos apareceram, parecendo mais tártaros do que venezianos, seus nobres parentes nem quiseram recebe-los. Mas, a memória dos familiares avivou-se quando os miseráveis rasgaram as costuras de suas vestes e revelaram seu tesouro: _ uma chuva de rubis, diamantes e esmeraldas. Diante disso, eles foram recebidos afetuosamente, abraçados e festejados com luxuoso banquete, onde a música e a jovialidade se misturaram com exóticas reminiscências.

Mas, naquele tempo existia enorme rivalidade entre Gênova e Veneza por causa do tráfego marítimo no Mediterrâneo e, em setembro de 1298, uma batalha entre ambos os genoveses saíram vencedores, fazendo 7 mil prisioneiros e entre eles Marco Polo. Levado acorrentado à uma prisão, ele travou amizade com outro detento (Rustichello) que era escritor e já gozava de certa fama. Embora não fosse um gênio literário era um mestre no seu gênero. Viu nas reminiscências de Marco Polo matéria prima suficiente para uma nova espécie de romance e convenceu o veneziano a cooperar. Aproveitando a inatividade forçada e o fato de estarem presos juntos, o veneziano ditou um relato copioso das suas viagens a Rustichello, que escreveu tudo. Não fosse isso, talvez não tivéssemos hoje qualquer registro das viagens de Marco Polo e sequer teríamos ouvido falar do seu nome. E, felizmente, Rustichello era um escritor simpático ao grande viajante e soube fazer um romance capaz de encantar o Mundo durante 700 anos. Claro que ele não resistiu à tentação de adornar os fatos de Marco Polo com as suas próprias fantasias pessoais. Alguns dos episódios mais pitorescos são adaptações de escritos anteriores do próprio Rustichello, como por exemplo os extravagantes elogios que Qubilai Khan fez ao jovem Marco quando ele chegou pela primeira vez à corte ou o que o Rei Artur disse quando recebeu o jovem Tristão em Camelot.

Mas, não foi a primeira nem a última vez que um escritor tornou um aventureiro famoso. Então, por que motivo Marco Polo – que era letrado em várias línguas e devia ter escrito muito para agradar a Qubilai Khan – não escreveu ele mesmo as suas aventuras pessoais? Se, imediatamente após seu regresso à Veneza em 1295, tivesse tentado pelo contato de um editor, talvez houvesse escrito o seu próprio livro. Mas, ainda decorreriam dois séculos antes de a atividade editorial florescer. Rustichello escreveu o livro em francês, o que na Europa daquela época era corrente entre os laicos, assim como o latim o era entre o clero. Dessa forma, não tardou a ser traduzido em outras línguas e dele existem ainda numerosos manuscritos. Nunca antes – ou depois – um único livro forneceu tanta informação nova e autêntica ou alargou tanto os horizontes de um continente.

 

A Força do Império Mongol Desce a Cortina de Terra

 

Nas décadas dos pioneiros das viagens por terra houve entre a Europa e a Ásia um comércio florescente, embora especializado e em pequena escala. Dezenas de mercadores europeus devem ter chegado a essas remotas paragens, mas poucos deixaram relatos em primeira mão das suas viagens, além da família de Marco Polo. Uma sucessão de frades franciscanos deixou-nos um registro de comunidades de europeus em cidades chinesas. Um dos mais empreendedores foi o franciscano João de Montecorvino que, enviado pelo Papa Nicolau IV em 1289, chegou a Pequim em 1295. Na Catedral de Pequim ele batizou cerca de 6000 citadinos, organizou e ensaiou um coro de 150 rapazes. Frei João foi nomeado arcebispo de Cambaluque (em Pequim) e passados poucos anos recebeu três bispos para o ajudarem. Outro frade franciscano (Odorico Pordenone) narrou fatos pitorescos da sua vida na China, os quais não foram narrados por Marco Polo como o hábito de deixarem crescer as unhas das mãos e a tradição de enfaixar os pés das mulheres.

Quando o frade João Matignolli chegou a Pequim em 1342, verificou que o arcebispo da cidade tinha uma residência apropriada à sai elevada hierarquia e todo o clero cristão “recebia a sua subsistência da mesa do Imperador da maneira mais honrosa”. A maior parte da narrativa de João Matignolli é dedicada a uma descrição minuciosa do Paraíso e do Jardim do Éden – em Ceilão – com as suas encantadoras montanhas, fontes e rios. Em 1340, Francesco Pegolotti – agente de uma família de banqueiros – elaborou um manual para viajantes e mercadores que nos dá pistas de um florescente comércio. Ele informa as distâncias entre lugares e os perigos locais, pesos, medidas, preços, taxas de câmbio, regulamentos alfandegários, sugestões práticas sobre regulamentos alfandegários, o que comer, o que não comer e onde dormir.

Mas, esse tempo de ativo tráfego terrestre entre as extremidades da Terra não durou muito, pois João de Montecorvino seria o primeiro e o último arcebispo de Pequim. Seu sucessor (nomeado pelo Papa em 1333) parece nunca ter chegado ao seu destino. Os caminhos por terra para o Oriente foram abruptamente encerrados decorridos apenas um século. A força do imenso Império Mongol abriu a passagem terrestre europeia para a Índia e para a China e, durante esses anos, se alguns europeus foram para o Oriente, alguns chineses também vieram para o Ocidente. Eles trouxeram cartas de jogar, porcelanas, têxteis, temas de arte e estilos mobiliários que moldaram a vida das classes superiores europeias. E, algumas coisas como papel moeda, impressão e pólvora abalaram a Mundo. Essas novidades chegaram ao Oriente Médio diretamente e, depois, à Europa indiretamente, através dos árabes e de outros. Ideias tão importantes foram postas em prática por muito poucos.

Os Mongóis descobriram que o império que tinham conquistado a cavalo não podia ser governado a cavalo e, por isso mesmo, precisavam de uma complexa administração para o seu vasto império. No interior da China, eles eram invasores estrangeiros, sendo sempre difícil controlar o povo e, por isso mesmo, eles colocavam a si mesmos – ou a outros estrangeiros como Marco Polo, por exemplo – em postos governamentais importantes. Mas, os Chineses com sua antiga tradição, tecnologia desenvolvida e requintado cerimonial, descobriram muitas razões para condenar seus conquistadores bárbaros. Os Mongóis não tinham o hábito de tomar banho e por isso cheiravam tão mal que os chineses não se aproximavam deles. “Lavam-se com urina” – disse um historiador chinês. Marco Polo se sentia intimidado com a implacabilidade e o vigor dos soldados mongóis, que bebiam leite de égua, quase não transportavam bagagem e eram os mais aptos para suportar esforço e dificuldades e os mais baratos de manter – e por isso os melhores adaptados para conquistar territórios e derrubar reinos. Esses soldados mongóis tinham se tornado degenerados e ele observou o incômodo dos chineses ao viajar pelo país. Todos os costumes dos senhores mongóis irritavam os confucionistas tradicionais.

Em meados do século XIV, a fome no norte da China e as cheias do rio Amarelo aumentaram os problemas mongóis, pois houve rebeliões em todo o país. Toghon Khan – o último dos imperadores mongóis – subiu ao trono em 1333, levando consigo dez amigos íntimos para o palácio em Pequim, onde adaptaram os exercícios secretos da tantra budista tibetana e os transformou em orgias sexuais. Foram mandadas mulheres de todo o Império a fim de participarem de funções que prolongavam a vida, “fortalecendo os homens com os poderes das mulheres”. As famílias de gente comum ficavam satisfeitas por receberem ouro e prata e os nobres também ficavam satisfeitos e diziam: “como podemos resistir, se o senhor deseja escolhê-las? ” Mas, o povo resistia às extravagâncias e o clímax chegou em 1368, quando Hong Wu – um autodidata de talento – emergiu como líder da rebelião chinesa para fundar a dinastia Ming.

Os nativos tinham organizado a rebelião mesmo debaixo dos olhos dos Mongóis. Nos últimos anos de domínio, os mongóis colocavam informantes em quase todas as famílias e proibiram as pessoas de se reunir em grupos. Os Chineses não estavam autorizados a usar armas, o que significava que só uma família em dez tinha permissão para possuir uma simples faca. Mas, os Mongóis tinham se esquecido de suprimir o costume chinês de trocar bolos domésticos decorados com imagens da Lua – e que tinham dentro um papel. Na verdade, os Chineses utilizavam esses inocentes bolos como mensageiros, onde continha instruções para uma rebelião, na qual os Mongóis foram chacinados na Lua Cheia de agosto de 1368.

Em vez proteger seu patrimônio Toghon Khan fugiu com a imperatriz e suas concubinas para seu palácio em Xanadu, onde encontrou a morte. Entretanto, príncipes e generais mongóis lutavam uns contra os outros e o Império Mongol se desmoronava. No ano do levante em Pequim, o Tamerlão consumava o 1º estágio do seu plano para a conquista do Mundo. O Império Tamerlão, que seria imenso por qualquer outro padrão, era apenas uma região do reino de Gengis Khan, embora dominasse as rotas terrestres para o Oriente. O desmembramento do Império Mongol interrompeu as rotas de passagens seguras, mas o Tamerlão manteve aberta a passagem no seu reino por onde os europeus podiam chegar até a Pérsia. A passagem de europeus para Catai estava fechada e até as notícias de catai se tornaram raras na Europa. O próprio Papa não conseguia saber o que se passava em Pequim, embora ele continuasse a nomear bispos de Pequim muito depois de não haver nenhuma esperança de eles conseguirem chegar a sua sé. E, mesmo que um europeu chegasse ás fronteiras de Catai, não o deixavam entrar, pois os novos soberanos chineses – com suas recordações da tirania estrangeiras ainda frescas – voltaram ao seu antigo isolamento.

 

 

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