Por Que, na Visão de Cosmas, a Descrição da Terra Retangular Era Atraente? O Que Descreviam as Teorias dos Antípodas? Por Que os Cristãos Não Podiam Encarar a Possibilidade de Existirem Homens Que Não Descendessem de Adão?
As clássicas teorias dos
antípodas ([1]) descreviam uma
intransponível zona que rodeava o equador e que nos separava de uma região
habitada do outro lado do globo e, consequentemente, isso suscitou sérias
dúvidas na mente cristã quanto à esfericidade da Terra. Os que viviam na parte
de baixo dessa zona não podiam ser da raça de Adão ou incluídos como redimidos
pela morte de Cristo. Se uma pessoa acreditava que a Arca de Noé fora parar no
Monte Ararat a norte do equador, então não havia maneira de criaturas vivas
terem chegado a um antípoda. Para evitar possibilidades heréticas, os cristãos
preferiam acreditar que não podia haver antípodas, ou mesmo, se necessário,
acreditarem que a Terra não era esférica. Santo Agostinho foi igualmente
explícito e dogmático e a sua autoridade reforçada pela de Isidro – pela de
Beda e de São Bonifácio – acautelou os espíritos irrefletidos. Os geógrafos da
antiguidade não tinham se preocupado com tais problemas.
Mas nenhum cristão podia encarar
a possibilidade de existirem homens que não descendessem de Adão ou se
encontrassem tão separados deles pelos fogos tropicais que fossem inalcançáveis
pelo Evangelho de Cristo. A crença em antípodas tornou-se mais uma das
acusações comuns contra os candidatos à fogueira. Alguns conciliadores tentaram
aceitar uma Terra esférica por razões geográficas, embora negassem, por razões
teológicas, a existência de habitantes antípodas. Mas, o seu número não se
multiplicou.
Cosmas de Alexandria – um
convertido recente e fanático – foi o autor de “Topographia Christiana”, a qual sobreviveu séculos até hoje para
espanto dos cristãos modernos. Não se sabe seu verdadeiro nome, mas chamavam-lhe
de Cosmas, dada a fama da sua obra geográfica e teve por alcunha “Viajante
Indiano” por ter sido mercador e viajado à volta do Mar Vermelho, do Oceano
Índico e indo até o Ceilão. E, depois da sua conversão ao Cristianismo, fez-se
monge e retirou-se para um mosteiro no Monte Sinai, onde escreveu suas memórias
e sua defesa da visão cristã da Terra.
Esse tratado ilustrado em 12
tomos nos forneceu os mais antigos mapas de origem cristão que chegaram até o
nosso tempo. Cosmas recompensou os fiéis com uma medida bem atestada de
vitríolo ([2]) contra o erro
pagão e um diagrama simples do Universo cristão. Logo no primeiro livro
destruiu a heresia da esfericidade da Terra e, a seguir, expôs o seu sistema
apoiando-se, claro, nas Escrituras e depois nos doutores da Igreja, e
finalmente em algumas fontes não cristãs. O que ele ofereceu foi menos uma
teoria do que um simples, claro e atraente modelo visual e, quando o Apóstolo
Paulo declarou na Epístola aos Hebreus que o primeiro tabernáculo de Moisés era
o modelo deste mundo inteiro, forneceu a Cosmas, de bandeja, o seu plano com
todos os pormenores necessários.
Ele não teve qualquer dificuldade
em traduzir as palavras de São Paulo para a realidade física, tanto que o
primeiro tabernáculo tem regulamentos de culto divino e um santuário terrestre.
Com um “santuário terrestre” São Paulo queria significar que “era por assim
dizer, um modelo do Mundo, onde estava também o candelabro, significando com
isso os luminares do Céu e a mesa; ou seja, a Terra, e o pão da proposição,
significando com isso os frutos que ela produz. Quando as escrituras diziam que
a mesa do tabernáculo deveria ter 2 cúbitos de comprimento e um de largura,
significava que a Terra plana tinha de comprimento, de Leste para Oeste, o
dobro da largura. No atraente plano de Cosmas a terra era uma imensa caixa
retangular, muito semelhante a uma arca com uma tampa arqueada – a abóboda do
Céu – por cima da qual o Criador observava sua obra.
No Norte havia uma grande
montanha, à volta da qual o Sol se movia e cujas obstruções à luz solar
explicavam as durações variáveis dos dias e das estações. As terras do Mundo
eram simétricas no Oriente, os Indianos, no Sul, os Etíopes no Ocidente, os
Celtas e no Norte, os Citas. E do Paraíso fluíam os 4 grandes rios: o Ganges,
para a Índia; o Nilo através da Etiópia, para o Egito e o Tigres e Eufrates que
banhavam a Mesopotâmia. Havia apenas uma face da Terra – aquela que Deus nos
dava, os descendentes de Adão – o que tornava qualquer sugestão da existência
de antípodas, além de absurda, também uma sugestão herética.
Geógrafos cristãos encontraram um
tesouro de recursos nas antigas fantasias e, desdenhando a ciência pagã que era
considerada ameaça à fé cristã, os seus preconceitos não incluíam os mitos
pagãos. Estes eram tão numerosos e tão contraditórios que satisfaziam aos mais
dogmáticos objetivos cristãos. Apesar de temerem os cálculos muito aproximados
da realidade de Erastóstenes, Hiparco e Ptolomeu, adornavam alegremente seus
piedosos mapas que tinham Jerusalém como centro, com as mais extravagantes
especulações da imaginação pagã. Júlio Solino (cognominado “Contador de
Variadas Histórias”) forneceu a fonte do mito geográfico durante todos os anos
do grande interregno, do século IV até o século XIV. Provavelmente ele não era
cristão e, nove décimos da sua “Coletânea de Coisas Maravilhosas”, publicada
entre 230-240 d.C., provinha diretamente da “História Natural” de Plínio,
embora Solino sequer mencione o seu nome. E o resto foi forjado com base em
outros autores clássicos, pois o talento peculiar de Solino era “extrair a
escória e deixar o outro”. Porém, é duvidoso que alguém tenha, durante um
período tão longo, influenciado a Geografia tão profunda e nocivamente. No
entanto, a escória de Salino exercia grande atração, pois o próprio Santo
Agostinho bebeu na sua fonte, assim como outros pensadores da Idade Média. As
histórias e as fabulosas imagens de Salino deram vida aos mapas cristãos até a
Era dos Descobrimentos e se tornaram uma rede abrangente de fantasia,
substituindo a esquecida grelha racional de Latitude e Longitude que tinha sido
o legado de Ptolomeu.
Enquanto uma Terra esférica era a
base da cartografia grega, uma Terra plana era a dos Chineses. Na altura em que
Ptolomeu fizera seu o trabalho no Ocidente, cartógrafos chineses criaram
técnicas de grelhas de mapas e uma rica tradição de cartografia do Mundo, a
qual cresceu sem o amnésico interregno que atormentou o Ocidente. Os Gregos
também tinham elaborado seu sistema de grelha por meio de linhas de latitude e
longitude tão facilmente traçadas à volta de uma esfera. Mas, como era muito
difícil projetar uma superfície esférica numa folha plana, na prática o sistema
de grelha helênico (de latitude e longitude) não era diferente do que teria
sido se eles tivessem concebido a superfície da Terra como sendo plana.
Visto o sistema de grelha
helênico ter nascido dos requisitos de uma forma esférica, a grelha retangular
chinesa – que tornou possível toda a sua cartografia – deve ter tido outras
origens completamente diferentes. Quais? Na consulta aos antigos registros
encontramos referências a mapas e a seus usos. A China era simultaneamente a
criatura e o criador de uma imensa burocracia que tinha de conhecer as
características de suas extensas regiões. E, quando o imperador Zhou viajava
pelo seu reino, o geógrafo real ia a seu lado, explicando-lhe a topografia e os
produtos característicos de cada parte do país. No apogeu da cartografia
religiosa na Europa, os Chineses avançaram firme no sentido da cartografia
quantitativa. Antes mesmo de Ptolomeu ter feito o seu trabalho em Alexandria,
um pioneiro chinês já tinha projetado uma rede de coordenadas acerca do céu e
da Terra e calculado na base dela.
Passados dois séculos, o Ptolomeu
chinês – Pei Xiu – aplicou essas técnicas para fazer um mapa da China. No
prefácio de seu atlas, Pei Xiu deu instruções para se fazer um mapa na escala
devida, com grelhas retangulares: _ “Se traçarmos um mapa sem as divisões
graduadas, não existiria maneiras de distinguir entre o que é perto ou longe.
Assim, mesmo que existam grandes obstáculos como altas montanhas ou grandes
lagos, tudo pode ser tomado em consideração e determinado. Quando o princípio
da grelha retangular é devidamente aplicado, então o reto e o curvo, o próximo
e o distante não podem ocultar-nos nada da sua forma”.
([1]) Quem, em relação a outra pessoa, vive do outro lado da
Terra. Habitante de um lugar, no mundo, diametralmente oposto a outro: o
japonês é antípoda do brasileiro.
([2]) Termo antigo para sulfatos metálicos (cristais
com aparência de vidro) e, mais comumente, o ácido sulfúrico. Trata-se de um
líquido extremamente corrosivo, nocivo que, na alquimia, representa a
purificação, enquanto no sentido figurado refere-se a palavras ou críticas
"vitriólicas"; ou seja, amargas, cáusticas e severamente
condenatórias
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