O QUE É TURBULÊNCIA ECONÔMICA? COMO GERENCIAR EM TEMPOS TURBULENTOS?
Introdução
O cenário corporativo e macroeconômico global passou por transformações profundas nas últimas décadas, criando novo significado para o entendimento sobre como se conceitua a turbulência econômica de mercado. Se em períodos anteriores as crises eram vistas como anomalias ou eventos sazonais disruptivos — a exemplo do colapso do subprime em 2008 e das tensões na Zona do Euro em 2012 —, a dinâmica contemporânea consolidou a volatilidade como uma condição estrutural e permanente.
Termos que ganharam força na literatura de
negócios, como o ambiente BANI
(Frágil, Ansioso, Não-linear e Incompreensível) e o conceito de Resiliência Organizacional, substituíram
as abordagens puramente reativas e, no contexto brasileiro, essa volatilidade foi amplificada por complexidades
regulatórias, reformas fiscais ainda em andamento, vulnerabilidades cibernéticas e a
dependência crítica de rotas comerciais globais.
Assim, administrar a turbulência econômica no Brasil de
hoje exige mais do que um planejamento rígido de contenção. Isso hoje demanda o desenvolvimento de
capacidades dinâmicas de governança, blindagem financeira e agilidade
estratégica para transformar riscos em vantagens competitivas.
O Cenário
Para muitos analistas econômicos o mundo está
vivenciando uma nova realidade, onde as economias nacionais se tornaram
entrelaçadas e dependentes. Atualmente, o comércio internacional se baseia em
fluxos de informações que se movimentam a uma velocidade espantosa – através da
Internet e dos celulares.
Porém, essa nova fase apresenta seu lado negativo,
pois aumenta os níveis de risco e de incerteza de empresas, governos e
consumidores. Mudanças na conjuntura de um país como falências bancárias,
colapso do mercado de ações ou desvalorizações cambiais podem contaminar outros
países e, consequentemente, provocar turbulências, impulsionando todo o sistema
para resultados imprevisíveis.
Para entender o que é turbulência de mercado – e seus
efeitos sobre as organizações e governos – primeiro devemos nos lembrar dos
conceitos de turbulência na natureza, os quais são caracterizados por
comportamentos violentos ou agitados – tempestades, furacões, tornados,
tsunamis, etc.
Já, a turbulência em negócios se caracteriza pelas
mudanças imprevisíveis e rápidas ocorridas no ambiente externo (e internos) das
empresas, os quais afetam sensivelmente seu desempenho.
Para podermos entender melhor o impacto da turbulência
econômica basta observar os últimos quatro meses do ano de 2008, quando vários
trilhões de dólares evaporaram rapidamente dos cofres americanos e deixaram
para o presidente recém-eleito – e vários outros líderes mundiais – os
escombros da devastação econômica.
Desde então, continuamos a enfrentar turbulências mais
imprevisíveis e intensas, em um mundo cada vez mais globalizado. Essas
turbulências compõem o atual cenário da nova realidade econômica e empresarial.
Nesse momento vivenciamos as incertezas que cercam a
possível saída da Grécia da zona do Euro e não faltam palpites sobre os rumos
da economia mundial – em futuro bem próximo.
Apesar dos sutis sinais de recuperação da economia
americana no início desse ano (2012), o Economic Cycle Research Institute
concluiu que o crescimento econômico dos EUA está piorando, e não se
revitalizando. Por outro lado, importante estrategista da Societe Generale
acredita que a bolha de crédito na China vai estourar e, a zona do euro,
desmoronar.
Em entrevista à rádio CBN o mega investidor Marc
Farber afirma que haverá recessão global no 4° trimestre deste ano ou, no
máximo, no início do próximo. Ele destacou que, enquanto o mundo se preocupa
apenas com a Grécia e com a Europa, há sinais preocupantes de que a atividade
econômica na China e na Índia está diminuindo.
Hoje em dia as organizações e seus respectivos
governos devem ser capazes de praticar a gestão e de comercializar seus
produtos – e serviços – em ambientes expostos a algum grau de turbulência. E,
certamente, isso impõe aos líderes empresariais e seus respectivos governos
compreenderem profundamente esse contexto, para que – em seguida – possam
desenvolver um novo referencial estratégico, a fim de operarem sob a ameaça de
possível aumento da turbulência econômica.
Conclusão
Para responder a como os novos líderes empresariais e os responsáveis pela política
econômica devem compreender o contexto da turbulência, a conclusão
divide-se sob as duas óticas de responsabilidade que moldam o mercado nacional:
1. A Visão dos Novos Líderes Empresariais
Os novos líderes corporativos devem abandonar a
perspectiva de que a turbulência é um hiato entre períodos de estabilidade.
Eles precisam compreender a volatilidade como uma variável fixa da matriz de
negócios brasileira. A exposição de produtos e serviços à oscilação cambial,
gargalos na cadeia de suprimentos (supply chain) e mudanças abruptas nos
hábitos de consumo exige uma gestão baseada em capacidades dinâmicas e flexibilidade
financeira.
Os produtos e serviços não podem mais ser
desenhados para cenários estáticos. A liderança deve focar em estruturas de
custos ágeis, diversificação de fornecedores, investimentos em transformação
digital e o uso de derivativos para proteção de fluxo de caixa. Em suma, a
turbulência deve ser lida não como um indicador de paralisia, mas como um
ambiente que premia organizações dotadas de governança forte e resiliência
sistêmica.
2. A Visão dos Responsáveis pela Política Econômica
Por sua vez, os formuladores da estratégia
governamental devem compreender que as ferramentas tradicionais de política
fiscal, monetária e cambial geram impactos diretos na microeconomia e na
previsibilidade das empresas. O gestor público precisa enxergar a turbulência
econômica sob uma perspectiva sistêmica e de longo prazo. Em vez de focar
apenas em intervenções emergenciais de curto prazo, o papel do Estado deve se
concentrar na ancoragem de expectativas,
na simplificação regulatória e na mitigação do chamado "risco
político".
Portanto, a condução da política econômica deve visar a
construção de amortecedores macroeconômicos, o fortalecimento de
infraestruturas logísticas e a garantia de segurança jurídica. Assim, ao invés
de atuar como um agente gerador de ruídos ou incertezas fiscais, a estratégia
governamental deve buscar blindar a competitividade do produto nacional frente
aos choques externos globais.
Bibliografia
BRASILIANO, Antonio Celso Ribeiro. Gestão de Riscos Corporativos e Resiliência Organizacional: Ferramentas Práticas para Ambientes de Alta Turbulência. São Paulo: Infracom, 2022.
FONTENELLE, Rodrigo. Gestão de Riscos: Teoria e Prática. 2ª ed. Belo Horizonte: Fórum, 2024.
ROSA, Marcelo Decourt;
VANCIN, Daniel. Resiliência
organizacional em crises econômicas e eventos extremos. Revista de
Administração de Empresas (RAE), v. 63, n. 4, 2023.
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