segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Temor às Montanhas na Idade Média

Por Que as Montanhas Eram Uma Afronta à Conquista da Natureza Pelo Homem? Qual Foi o Grande Obstáculo à Descoberta da Forma da Terra, dos Continentes e dos Oceanos? Por Que Onde Não Havia Montanhas Naturais os Povos Construíam Artificiais?


 


 

Muito antes de os homens pensarem em conquistar as montanhas, elas já tinham conquistado os homens e, nas palavras do primeiro conquistador do monte Matterhom, eram uma afronta à conquista da Natureza pelo homem. Toda montanha relativamente alta era idolatrada pelas pessoas que viviam à sua sombra e, inspirados pelo Himalaia, o povo da Índia Setentrional imaginava uma montanha ainda mais alta para o Norte – que chamavam de Meru. Os Hindus – e depois os budistas – tornaram isso uma mística e consideravam montanhas de mais de 135 mil km de altitude como a “residência dos deuses”. Para eles, a montanha Meru era a central do universo e o eixo vertical do cosmo, “onde estava rodeada por 7 anéis concêntricos de montanhas à volta dos quais giravam o Sol, a Lua e os planetas”. E, entre o sétimo e um oitavo anel exterior ficavam os continentes da Terra. Segundo as escrituras hindus, na montanha de Meru há rios de água doce correndo nela e belas casas douradas habitadas pelos seres espirituais. A tradição budista afirmava que “Meru ficava entre quatro mundos, nas quatro direções cardeais, que é quadrada na base e redonda no cume, que tem a altura de 80 mil “yojanas”, metade da qual sobe para o céu, enquanto a outra metade mergulha na terra. Este lado que está próximo do nosso mundo é constituído por safiras azuis, razão pela qual o céu nos parece azul e os outros lados são de rubis e gemas amarelas e brancas. Assim, a montanha Meru é o centro da Terra”. Os Japoneses tinham no monte Fuji (vulcão sagrado e montanha mais alta do Japão) um deus que lhes dominava a paisagem e jamais deixou de ser celebrado na sua arte.

No Ocidente, os Gregos diziam que o seu Olimpo – erguendo-se a 2700 metros acima do Egeu e envolto em nuvens – proporcionava privacidade aos deuses. “Nunca é varrido pelos ventos nem tocado pela nuvem e cerca-o um ar mais puro, envolvendo-o uma claridade branca”, escreveu Homero. Eles estavam convencidos de que o Olimpo era a montanha mais alta do mundo, tanto que o poeta completou afirmando: “No princípio, depois de Cronos ter completado a sua criação do Mundo, os seus filhos tiraram a sorte para repartir o seu império, e Zeus ganhou as etéreas alturas, Poseidon recebeu o mar e Hades calharam as negras profundezas da Terra. Enquanto Hades ficava sozinho embaixo, Zeus permitia que outros deuses compartilhassem a sua morada no Olimpo”. Onde não havia montanhas naturais, os povos construíam montanhas artificiais e os mais antigos exemplos são as pirâmides em escala (os Zigurates) da antiga Mesopotâmia. Zigurate significava tanto o cume de uma montanha como uma torre em escada feita pelo homem. O enorme monte piramidal da Babilônia (90 metros de lado e outros tantos de altura) tornou-se famoso como a Torre de Babel. Embora de longe o efeito fosse o de uma pirâmide de escada, o Zigurate foi descrito por Heródoto (em 460 a. C) como um amontoado de torres sólidas, cada uma ligeiramente menor do que aquela sobre a qual assentava. “Ninguém lá passa a noite, a não ser uma mulher daquele país, designada pelo próprio deus, segundo me disseram os Caldeus, que são os sacerdotes dessa divindade”.

A Torre de Babel se tornou um símbolo do esforço humano para chegar ao céu e invadir o território dos deuses. Dizia-se que o Zigurate era o feitio terreno da escada que o patriarca Jacob (neto do Abraão mesopotâmico) viu: “Vejo uma escada apoiando-se na terra e o seu topo chegou ao céu, e olhai os anjos de Deus subindo –a e descendo-a”.

O fato é que em toda Mesopotâmia o povo sentia a necessidade de uma montanha artificial para subir até os deuses e permitir que os deuses descessem até aos homens. No vale do Rio Nilo ainda se pode ver algumas das montanhas artificiais mais duráveis. O monte primevo – o lugar da criação da vida – se revestia de uma força especial para os Egípcios, pois todos os anos quando a cheia do Nilo recuava, apareciam montes de lodo recém-sedimentados, férteis de vida nova e, por isso mesmo, todos os anos os Egípcios reviviam a história da criação. No Tibete, os lamas todos os dias ofereciam aos budas o seu próprio modelo da Terra _ o seu montinho de arroz era a montanha de Meru. O Buda deu instruções para que os seus ossos, após a cremação, fossem colocados num monte no cruzamento de quatro caminhos, a fim de simbolizar o reino universal dos seus ensinamentos. A maior e mais imponente dessas montanhas budistas artificiais é a grande stupa de Borobudur (Século VIII d. C.) em Java. Acima de 5 terraços murados erguem-se 3 plataformas redondas com 72 stupas menores, contendo cada qual seu Buda e uma stupa maior se sobrepõe a todas elas. Do outro lado do mundo, ergueram-se pirâmides mais simples, símbolos do temor universal das montanhas. No Vale do México, os Toltecas ergueram a sua Pirâmide do Sol com 2/3 da altura da Torre de Babel, em Teotihuacán. Na Península plana de Yucatán, os Maias ergueram as suas pirâmides templos em Chichén Itza.

   

Cartografando o Céu e o Inferno

 

O grande obstáculo à descoberta da forma da Terra, dos continentes e oceanos não foi a ignorância, mas a ilusão do saber. A imaginação representa em traços ousados, servindo esperanças e medos, enquanto avançavam lentamente o saber e o conhecimento. Aldeões que temiam subir as montanhas localizavam seus entes falecidos nas impenetráveis alturas celestes. Os corpos celestes eram exemplos de desaparecimento e renascimento. O Sol morria todas as noites e renascia todas as manhãs, enquanto a Lua era recém-nascida todos os meses. Era essa Lua o mesmo corpo celeste que reaparecia a cada “renascimento”? Eram as estrelas realmente as mesmas que se apagavam todas as alvoradas? Talvez cada um de nós pudesse extinguir-se e, apesar disso, renascer. Sendo assim, não surpreende que os corpos celestes (especialmente a Lua) fossem associados com a ressurreição dos mortos. Tentaremos ilustrar esses conceitos da Grécia e da Roma antigas com algumas advertências de que eles não se confinaram no Mediterrâneo, nem no mundo europeu: na mais remota antiguidade grega, Hécate (deusa da Lua) era invocadora de fantasmas e rainha das regiões infernais.

Os frios raios da Lua corrompiam a carne dos mortos e ajudavam a desalojar a alma, que era liberta da sua prisão terrena e podia ascender ao Céu. Os antigos sírios tentavam acelerar esse processo com sacrifícios nos seus túmulos na noite em que os raios da Lua eram mais potentes. Na Igreja do Oriente, as datas dos rituais dos mortos eram fixadas de modo a explorar essas esperanças. O crescente lunar – símbolo da imortalidade – adornava monumentos fúnebres dos antigos babilônicos e em países célticos, assim como em toda a África. Em Roma, por exemplo, os sapatos dos senadores eram adornados com crescentes de marfim, os quais eram interpretados como um símbolo do seu espírito puro, visto que as almas nobres serem transportadas para o Céu depois da sua morte, a fim de caminharem na Lua. Assim, o voo de almas para a Lua não era uma simples metáfora, pois segundo os estoicos a Lua estava rodeada por uma zona de qualidades físicas especiais. Daí a alma subia naturalmente através do ar na direção dos fogos do Céu. Talvez cada pessoa tivesse a sua própria estrela que se acendia no seu nascimento e se extinguia na sua morte. Então, uma estrela cadente podia significar a morte de alguma pessoa. Se – como muita gente pensa – a alma liberta do corpo se transforma numa ave voando desta terra, não seria natural que as almas pousassem nos corpos celestes?

Assim, a multidão de estrelas poderia ser explicada pelas incontáveis gerações de mortos. A Via Láctea – considerada por muitos a “estrada das almas que partiam” – era um desses aglomerados de inúmeros espíritos que tinham abandonados os corpos. Pessoas que estavam de acordo em poucos fatos a respeito de regiões remotas da Terra concordavam – sabe-se lá por que – com relação à geografia do outro mundo. Mesmo quando a maior parte da superfície da Terra ainda era desconhecida, o Mundo Subterrâneo era descrito minuciosamente. A prática de sepultar os mortos na terra tornava natural que as pessoas pensassem que os que morriam iam habitar o Mundo Subterrâneo. Portanto, uma topografia subterrânea parecia tornar essa vida além da morte possível e até plausível. A vida no Mundo Subterrâneo era uma extensão da vida cá em cima, o que explica por que os guerreiros eram sepultados com suas armas e suas mulheres, por que as ferramentas acompanhavam os artesãos na sepultura e por que as donas de casa iam para a cova com seus utensílios de cozinhar. Assim, a vida na terra podia continuar debaixo da terra.

No século VI a. C. os Gregos criaram a mitologia de um “dia do juízo final”, uma escatologia [[1]] atraente que ainda pode ser vista nos seus vasos com figuras pretas. Muitos livros de povos antigos sobre a descida do homem para Hades (Inferno) concordam na topografia das regiões infernais, como se descrevessem uma paisagem bem próxima. No Mundo Subterrâneo dos Gregos, os juízes – de cuja sentença não havia recurso – enviavam os maus para a esquerda, através de um rio de fogo para as torturas de Tártaro, e os virtuosos pela estrada do lado direito, na direção dos Campos Elísios. Seria a Terra suficientemente grande para conter um Tártaro, onde coubessem todos aqueles que tinham merecido sofrer seus castigos? Talvez as regiões infernais se devessem encontrar não debaixo da terra, mas sim na metade inferior do globo terrestre, no hemisfério sul. Parece que na Grécia a topografia do Mundo Subterrâneo era aceita pela população ou, pelo menos, não era ativamente rejeitada. Não podemos ter certeza de quantas inscrições em túmulos eram meras metáforas.

O maior geógrafo cristão do Céu e do Inferno foi o maior poeta italiano (Dante Alighieri), cuja viagem ao outro mundo foi uma peregrinação a cenas familiares antigas. A força da sua obre (“A Grande Comédia”) foi multiplicada porque não foi escrita em latim, mas em italiano, uma modesta língua falada até por donas de casa. A experiência emocional dominante da sua vida foi a morte da sua Beatriz, quando ele tinha apenas 25 anos, o que o instigou a passar a maior parte da sua vida escrevendo um poema épico sobre o outro mundo para onde ela fora. A obra de Dante é uma epopeia que conta a viagem do autor através dos reinos dos mortos. Cem cantos abrangem o “estado das almas depois da morte” na viagem guiada de Dante através do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. Dante traduziu a erudição medieval num panorama da vida após a morte.

 

 

https://www.facebook.com/juliocesar.s.santos

 



([1])  Ramo da teologia que estuda as "últimas coisas" ou o fim dos tempos

Nenhum comentário :

Postar um comentário