Por Que as Montanhas Eram Uma Afronta à Conquista da Natureza Pelo Homem? Qual Foi o Grande Obstáculo à Descoberta da Forma da Terra, dos Continentes e dos Oceanos? Por Que Onde Não Havia Montanhas Naturais os Povos Construíam Artificiais?
Muito antes de os homens pensarem
em conquistar as montanhas, elas já tinham conquistado os homens e, nas
palavras do primeiro conquistador do monte Matterhom, eram uma afronta à
conquista da Natureza pelo homem. Toda montanha relativamente alta era
idolatrada pelas pessoas que viviam à sua sombra e, inspirados pelo Himalaia, o
povo da Índia Setentrional imaginava uma montanha ainda mais alta para o Norte
– que chamavam de Meru. Os Hindus – e depois os budistas – tornaram isso uma mística
e consideravam montanhas de mais de 135 mil km de altitude como a “residência
dos deuses”. Para eles, a montanha Meru era a central do universo e o eixo
vertical do cosmo, “onde estava rodeada por 7 anéis concêntricos de montanhas à
volta dos quais giravam o Sol, a Lua e os planetas”. E, entre o sétimo e um
oitavo anel exterior ficavam os continentes da Terra. Segundo as escrituras
hindus, na montanha de Meru há rios de água doce correndo nela e belas casas
douradas habitadas pelos seres espirituais. A tradição budista afirmava que “Meru
ficava entre quatro mundos, nas quatro direções cardeais, que é quadrada na
base e redonda no cume, que tem a altura de 80 mil “yojanas”, metade da qual
sobe para o céu, enquanto a outra metade mergulha na terra. Este lado que está
próximo do nosso mundo é constituído por safiras azuis, razão pela qual o céu
nos parece azul e os outros lados são de rubis e gemas amarelas e brancas.
Assim, a montanha Meru é o centro da Terra”. Os Japoneses tinham no monte Fuji
(vulcão sagrado e montanha mais alta do Japão) um deus que lhes dominava a
paisagem e jamais deixou de ser celebrado na sua arte.
No Ocidente, os Gregos diziam que
o seu Olimpo – erguendo-se a 2700 metros acima do Egeu e envolto em nuvens – proporcionava
privacidade aos deuses. “Nunca é varrido pelos ventos nem tocado pela nuvem e
cerca-o um ar mais puro, envolvendo-o uma claridade branca”, escreveu Homero. Eles
estavam convencidos de que o Olimpo era a montanha mais alta do mundo, tanto
que o poeta completou afirmando: “No princípio, depois de Cronos ter completado
a sua criação do Mundo, os seus filhos tiraram a sorte para repartir o seu
império, e Zeus ganhou as etéreas alturas, Poseidon recebeu o mar e Hades
calharam as negras profundezas da Terra. Enquanto Hades ficava sozinho embaixo,
Zeus permitia que outros deuses compartilhassem a sua morada no Olimpo”. Onde
não havia montanhas naturais, os povos construíam montanhas artificiais e os
mais antigos exemplos são as pirâmides em escala (os Zigurates) da antiga
Mesopotâmia. Zigurate significava tanto o cume de uma montanha como uma torre
em escada feita pelo homem. O enorme monte piramidal da Babilônia (90 metros de
lado e outros tantos de altura) tornou-se famoso como a Torre de Babel. Embora
de longe o efeito fosse o de uma pirâmide de escada, o Zigurate foi descrito
por Heródoto (em 460 a. C) como um amontoado de torres sólidas, cada uma
ligeiramente menor do que aquela sobre a qual assentava. “Ninguém lá passa a
noite, a não ser uma mulher daquele país, designada pelo próprio deus, segundo
me disseram os Caldeus, que são os sacerdotes dessa divindade”.
A Torre de Babel se tornou um
símbolo do esforço humano para chegar ao céu e invadir o território dos deuses.
Dizia-se que o Zigurate era o feitio terreno da escada que o patriarca Jacob
(neto do Abraão mesopotâmico) viu: “Vejo uma escada apoiando-se na terra e o
seu topo chegou ao céu, e olhai os anjos de Deus subindo –a e descendo-a”.
O fato é que em toda Mesopotâmia
o povo sentia a necessidade de uma montanha artificial para subir até os deuses
e permitir que os deuses descessem até aos homens. No vale do Rio Nilo ainda se
pode ver algumas das montanhas artificiais mais duráveis. O monte primevo – o lugar da criação da vida –
se revestia de uma força especial para os Egípcios, pois todos os anos quando a
cheia do Nilo recuava, apareciam montes de lodo recém-sedimentados, férteis de
vida nova e, por isso mesmo, todos os anos os Egípcios reviviam a história da
criação. No Tibete, os lamas todos os dias ofereciam aos budas o seu próprio
modelo da Terra _ o seu montinho de arroz era a montanha de Meru. O Buda deu
instruções para que os seus ossos, após a cremação, fossem colocados num monte
no cruzamento de quatro caminhos, a fim de simbolizar o reino universal dos
seus ensinamentos. A maior e mais imponente dessas montanhas budistas
artificiais é a grande stupa de
Borobudur (Século VIII d. C.) em Java. Acima de 5 terraços murados erguem-se 3
plataformas redondas com 72 stupas
menores, contendo cada qual seu Buda e uma stupa maior se sobrepõe a todas
elas. Do outro lado do mundo, ergueram-se pirâmides mais simples, símbolos do
temor universal das montanhas. No Vale do México, os Toltecas ergueram a sua
Pirâmide do Sol com 2/3 da altura da Torre de Babel, em Teotihuacán. Na
Península plana de Yucatán, os Maias ergueram as suas pirâmides templos em
Chichén Itza.
Cartografando o Céu e o Inferno
O grande obstáculo à descoberta da forma da Terra, dos continentes e oceanos não foi a ignorância, mas a ilusão do saber. A imaginação representa em traços ousados, servindo esperanças e medos, enquanto avançavam lentamente o saber e o conhecimento. Aldeões que temiam subir as montanhas localizavam seus entes falecidos nas impenetráveis alturas celestes. Os corpos celestes eram exemplos de desaparecimento e renascimento. O Sol morria todas as noites e renascia todas as manhãs, enquanto a Lua era recém-nascida todos os meses. Era essa Lua o mesmo corpo celeste que reaparecia a cada “renascimento”? Eram as estrelas realmente as mesmas que se apagavam todas as alvoradas? Talvez cada um de nós pudesse extinguir-se e, apesar disso, renascer. Sendo assim, não surpreende que os corpos celestes (especialmente a Lua) fossem associados com a ressurreição dos mortos. Tentaremos ilustrar esses conceitos da Grécia e da Roma antigas com algumas advertências de que eles não se confinaram no Mediterrâneo, nem no mundo europeu: na mais remota antiguidade grega, Hécate (deusa da Lua) era invocadora de fantasmas e rainha das regiões infernais.
Os frios raios da Lua corrompiam a
carne dos mortos e ajudavam a desalojar a alma, que era liberta da sua prisão
terrena e podia ascender ao Céu. Os antigos sírios tentavam acelerar esse
processo com sacrifícios nos seus túmulos na noite em que os raios da Lua eram
mais potentes. Na Igreja do Oriente, as datas dos rituais dos mortos eram
fixadas de modo a explorar essas esperanças. O crescente lunar – símbolo da
imortalidade – adornava monumentos fúnebres dos antigos babilônicos e em países
célticos, assim como em toda a África. Em Roma, por exemplo, os sapatos dos
senadores eram adornados com crescentes de marfim, os quais eram interpretados
como um símbolo do seu espírito puro, visto que as almas nobres serem
transportadas para o Céu depois da sua morte, a fim de caminharem na Lua. Assim,
o voo de almas para a Lua não era uma simples metáfora, pois segundo os
estoicos a Lua estava rodeada por uma zona de qualidades físicas especiais. Daí
a alma subia naturalmente através do ar na direção dos fogos do Céu. Talvez
cada pessoa tivesse a sua própria estrela que se acendia no seu nascimento e se
extinguia na sua morte. Então, uma estrela cadente podia significar a morte de
alguma pessoa. Se – como muita gente pensa – a alma liberta do corpo se
transforma numa ave voando desta terra, não seria natural que as almas
pousassem nos corpos celestes?
Assim, a multidão de estrelas
poderia ser explicada pelas incontáveis gerações de mortos. A Via Láctea –
considerada por muitos a “estrada das almas que partiam” – era um desses
aglomerados de inúmeros espíritos que tinham abandonados os corpos. Pessoas que
estavam de acordo em poucos fatos a respeito de regiões remotas da Terra
concordavam – sabe-se lá por que – com relação à geografia do outro mundo.
Mesmo quando a maior parte da superfície da Terra ainda era desconhecida, o
Mundo Subterrâneo era descrito minuciosamente. A prática de sepultar os mortos
na terra tornava natural que as pessoas pensassem que os que morriam iam
habitar o Mundo Subterrâneo. Portanto, uma topografia subterrânea parecia
tornar essa vida além da morte possível e até plausível. A vida no Mundo
Subterrâneo era uma extensão da vida cá em cima, o que explica por que os
guerreiros eram sepultados com suas armas e suas mulheres, por que as
ferramentas acompanhavam os artesãos na sepultura e por que as donas de casa
iam para a cova com seus utensílios de cozinhar. Assim, a vida na terra podia
continuar debaixo da terra.
No século VI a. C. os Gregos
criaram a mitologia de um “dia do juízo final”, uma
escatologia [[1]]
atraente que ainda pode ser vista nos seus vasos com figuras pretas. Muitos
livros de povos antigos sobre a descida do homem para Hades (Inferno) concordam
na topografia das regiões infernais, como se descrevessem uma paisagem bem
próxima. No Mundo Subterrâneo dos Gregos, os juízes – de cuja sentença não
havia recurso – enviavam os maus para a esquerda, através de um rio de fogo
para as torturas de Tártaro, e os virtuosos pela estrada do lado direito, na
direção dos Campos Elísios. Seria a Terra suficientemente grande para conter um
Tártaro, onde coubessem todos aqueles que tinham merecido sofrer seus castigos?
Talvez as regiões infernais se devessem encontrar não debaixo da terra, mas sim
na metade inferior do globo terrestre, no hemisfério sul. Parece que na Grécia
a topografia do Mundo Subterrâneo era aceita pela população ou, pelo menos, não
era ativamente rejeitada. Não podemos ter certeza de quantas inscrições
em túmulos eram meras metáforas.
O maior geógrafo cristão do Céu e
do Inferno foi o maior poeta italiano (Dante Alighieri), cuja viagem ao outro
mundo foi uma peregrinação a cenas familiares antigas. A força da sua obre (“A
Grande Comédia”) foi multiplicada porque não foi escrita em latim, mas em
italiano, uma modesta língua falada até por donas de casa. A experiência
emocional dominante da sua vida foi a morte da sua Beatriz, quando ele tinha
apenas 25 anos, o que o instigou a passar a maior parte da sua vida escrevendo
um poema épico sobre o outro mundo para onde ela fora. A obra de Dante é uma
epopeia que conta a viagem do autor através dos reinos dos mortos. Cem cantos
abrangem o “estado das almas depois da morte” na viagem guiada de Dante através
do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. Dante traduziu a erudição medieval num
panorama da vida após a morte.
https://www.facebook.com/juliocesar.s.santos
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