quinta-feira, 2 de abril de 2026

Deus e os Astrólogos, Segundo Santo Agostinho

Qual a Importância de Ptolomeu Para o Desenvolvimento da Astrologia na Idade Média? De Que Forma Ptolomeu Enxergava a Influência Astral na Vida das Pessoas? Por Que as Afirmações Populares de Astrólogos Pagãos Perturbaram os Primeiros Profetas do Cotidiano?

 


A Astrologia fez com as necessidades humanas um casamento que, séculos depois, terminaria num divórcio dividido entre ciência e religião. Por outro lado, a Astrologia teria sido na Roma Antiga apenas um fatalismo supersticioso ou um trinfo do irracional? Não se pode negar que o temor das estrelas inspirava certo temor dos astrólogos, embora a religião astral não estivesse separada da ciência astral. Os principais cientistas tinham como certa a influência das estrelas sobre os acontecimentos humanos, discordando apenas quanto ao como as estrelas exerciam os seus poderes. A grande enciclopédia científica da época – História Natural, de Plínio – propagava os rudimentos da astrologia mostrando em tudo a influência das estrelas. O mais influente de todos os cientistas romanos antigos – Cláudio Ptolomeu, de Alexandria – mostrou ser a autoridade mais duradoura em Astrologia, ao apresentar um estudo que dava substância e respeitabilidade a essa ciência nos mil anos seguintes. Mas, a sua reputação se ressentiu do destino excessivamente divulgado de duas de suas teorias errôneas. A Teoria Geocêntrica (ou Ptolomaica) se tornaria um sinônimo moderno de erro astronômico e, de igual modo, a sua opinião de que a maior parte da superfície da Terra era constituída de terra seca, tornou-se um sinônimo de erro geográfico.

Mas, nunca depois dele alguém forneceu uma visão tão abrangente de todo o conhecimento científico de uma época. Em verdade, Ptolomeu dominou a visão popular e literária do universo durante a Idade Média e o mundo descrito na Divina Comédia de Dante veio diretamente do “Almagesto” de Ptolomeu. Em muitos aspectos ele falou como um profeta, alargando o emprego da Matemática ao serviço da ciência e, ao mesmo tempo, que ia beber às melhores observações feitas antes de si, sublinhando a necessidade da observação repetida. Efetivamente, Ptolomeu foi um precursor do espírito científico e um pioneiro do método experimental, pois na trigonometria esférica ele proporcionou uma solução elegante para os problemas dos Relógios de Sol que tinham especial importância naquele tempo anterior aos relógios mecânicos. Não houve ramo da ciência física que ele não tenha estudado e organizado em novas e úteis formas. Na Geografia, na Astronomia, na Ótica e na Harmonia ele expôs em um sistema e o mais conhecido de todos foi o seu tratado em Geografia em Almagesto. A sua Geografia – que pretendia cartografar todo o mundo conhecido – foi pioneira na listagem de lugares por latitude e longitude. Os Árabes apreciaram a grandeza da obra de Ptolomeu e trouxeram para o Ocidente.

A sua Astronomia estava destinada a ter um nome árabe (Almagesto) e sua Geografia foi traduzida para arábico no início do século. Ptolomeu via a influência astral como puramente física; ou seja, apenas uma entre muitas outras forças. Ele admitia que a Astrologia não era mais exata do que qualquer outra ciência, embora isso não constituísse razão para que de uma cuidadosa observação da correspondência de acontecimentos terrestres com celestes, não resultassem algumas previsões úteis, mas não matematicamente certas. Com esse espírito prático, Ptolomeu construiu os alicerces da mais duradoura das ciências ocultas. Seus dois primeiros livros sobre geografia astrológica e previsão do tempo abrangem as influências dos corpos celestes sobre acontecimentos físicos terrestres e, os outros dois, cobrem a sua influência sobre acontecimentos humanos. Ele expôs a ciência dos horóscopos e a predição dos destinos humanos baseada na posição das estrelas no nascimento da pessoa e, embora sua obre tenha se tornado o principal manual de Astrologia durante mil anos em virtude de ignorar a técnica de responder a perguntas sobre o futuro através da posição dos corpos celestes, o seu trabalho não satisfez inteiramente as necessidades dos praticantes de Astrologia. A aventura ptolomaica no mundo oculto da Astrologia sobreviveu às suas obras nos campos mais familiares da ciência moderna. O “De Revolutionibus” de Copérnico (1543) – que foi o início de uma nova época e mudou o centro de sistema solar – ainda confirmou a influência dominante do Almagesto de Ptolomeu e, somente meio século depois, quando a “Mecânica da Astronomia Instaurada” de Tycho (1598) substituiu o catálogo de estrelas de Ptolomeu por um novo baseado em observações independentes, os dados deste (assim como as suas teorias) se tornaram finalmente obsoletas.

As afirmações populares de astrólogos pagãos perturbaram os primeiros profetas do cotidiano e, os padres da Igreja que declararam o seu próprio poder de prever o destino dos homens no outro mundo, invejavam os poderes daqueles que pretendiam saber o destino dos homens na Terra. Se os horóscopos dos astrólogos significavam o que diziam, onde então estaria o espaço para o livre arbítrio? Ou para a liberdade de preferir o bem ao mal? Ou de renegar Maomé e até mesmo trocar César por Jesus Cristo? A própria luta para se tornar cristão – para abandonar a superstição pagã em favor do livre arbítrio cristão – parecia ser luta contra a Astrologia. Na sua obra “Confissões”, Santo Agostinho (354-430) recorda que “aqueles impostores, a quem chamam de matemáticos, consultei então sem escrúpulo, pois pareciam não usar nenhum sacrifício, nem rezar a nenhum espírito para as suas adivinhações”. E sentiu-se tentado pelas opiniões dos astrólogos: “a causa do teu pecado é inevitavelmente determinada no céu; isto fez Vênus, ou Saturno, ou Marte: aquele homem, certamente, carne e sangue e altiva corrupção, fica inocente; enquanto o criador e ordenador do céu e das estrelas tem de arcar com a culpa”. Santo Agostinho lutou para rejeitar as adivinhações mentirosas e os desvarios dos astrólogos. Dois conhecidos recordaram-lhe que não existia tal arte para prever coisas futuras, mas que as conjecturas dos homens eram uma espécie de loteria e que, das muitas coisas que eles diziam que aconteceriam, algumas certamente ocorreriam, sem nada terem a ver com os que as tinham dito, e que por força e acaso nelas tropeçavam, de tanto falarem. “Nesse momento crucial em que germinavam dúvidas em seus pensamentos, Deus enviou-lhe um amigo. Não um consultante descuidado de astrólogos e sequer bem versado em tais artes, mas delas consultante curioso, e sabendo ademais algo que dizia ter ouvido ao Pai, apesar de desconhecer até que isso chegaria para derrubar o apreço dessa arte” ([1]).

Uma história contada por esse amigo – Firmino – abalou o jovem Agostinho e libertou-o da sua fé pagã. O pai de Firmino – interessado em Astrologia – “sempre observava a posição das estrelas e até tomava o cuidado de saber o nascimento dos seus próprios cachorros”. Não apenas na sua obra autobiográfica – “Confissões”, mas também na sua obra teórica “A Cidade de Deus”, Santo Agostinho discorre demoradamente contra os astrólogos. “O Império Romano – e todos os outros reinos – tem o seu destino traçado não pelas estrelas, mas sim pela vontade de Deus”. O seu argumento bíblico é o exemplo de Jacob e Esaú, “dois gêmeos nascidos tão a seguir um ao outro que o segundo segurava o calcanhar do primeiro e, no entanto, as suas vidas, modos de ser e ações foram tão diversos que essa mesma diferença fez deles inimigos um do outro”. E, logo depois, ele apresenta casos de outros gêmeos com minúcias. Teólogos cristãos da Idade Média conseguiram encontrar usos sagrados para a crença nos poderes astrais e, tanto Alberto Magno como São Tomás de Aquino admitiram a influência governadora das estrelas, mas insistiram em que a liberdade do homem era a sua própria força para resistir a essa influência. E, mesmo que os astrólogos fizessem predições verdadeiras, essas respeitavam acontecimentos em que estavam envolvidos grande número de homens. Em tais casos as paixões da maioria prevaleciam contra a racionalidade da minoria, mas o livre-arbítrio do indivíduo cristão não fora exercido. Assim, alguns teólogos medievais aproveitaram a crença prevalecente da Astrologia para reforçar as verdades do Cristianismo, gostando de lembrar a perdição astrológica do nascimento de Cristo, dado à luz por uma virgem. Se Jesus Cristo não estava Ele próprio sujeito ao domínio estrelar, estas tinham dado sinais da Sua vinda. Afinal, que outra coisa era a estrela de Belém? Não era provável que aqueles suficientemente sábios para seguir a estrela – os Magos – fossem realmente entendidos astrólogos?

 

 

 

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([1])  BOORSTIN, Daniel J. Os Descobridores. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1989. P. 55

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