O Que é Um Método Artesanal de Produção? Como se Define Gestão da Produção? Como Evoluíram os Métodos de Produção? Qual Foi o Impacto da Produção em Série da Ford?
Quando se ouve falar em Gestão da
Produção ou de Administração da Produção, a maioria das pessoas confunde com uma
atividade fabril qualquer e, ao ouvi-las, as pessoas logo imaginam um local
cheio de máquinas, pessoas andando de um lado para o outro, produtos sendo
fabricados, vagões ferroviários ou caminhões sendo carregados e descarregados e
assim por diante. Não resta dúvida que tudo isso tem a ver com a Administração
da Produção, mas a imagem é incompleta, pois os bancos, hospitais, escolas,
aeroportos, que são todas atividades classificadas como serviços, têm também a
ver com os conceitos e técnicas que iremos explorar. Assim, pode-se dizer que Gestão
da Produção é uma atividade de gerenciamento de recursos escassos e processos
que produzem e entregam bens e serviços, visando atender as necessidades e/ou
desejos de qualidade, tempo e custo de seus clientes. Toda organização – vise ela
ao lucro ou não – tem dentro de si uma função de produção, pois gera algum
“pacote de valor” para seus clientes que inclui algum composto de produtos e
serviços, mesmo que, dentro da organização, a função de produção não tenha este
nome. Então, pode-se afirmar que a Gestão da Produção é, acima de tudo, um
assunto prático que trata de problemas reais, pois tudo o que vestimos, comemos
e utilizamos passa de alguma maneira por um processo produtivo (Slack et al.,
2008), e organizar este processo eficaz e eficientemente é o objetivo da Gestão
da Produção de Bens e Serviços.
Evolução Histórica da
Área
Na história da humanidade as
pessoas que fizeram a diferença foram as que inovaram. Não importa em qual área
do conhecimento elas atuavam, o que importa é que elas não se contentaram com o
que existia até então, e buscaram descobrir uma nova forma de se fazer as
coisas. Foi por meio destas inovações que a humanidade – e tudo que faz parte
dela – evoluiu. A história da indústria não é diferente, pois foi por meio das
inovações de pessoas que buscavam “algo mais” que os meios de produção
evoluíram e proporcionaram grandes melhorias contribuindo para o
desenvolvimento da humanidade. No final do século 14 a produção era
caracterizada pelo artesanato. Neste tipo de produção a força de trabalho era
altamente qualificada, e muitos trabalhadores progrediam por meio de um
aprendizado abrangendo todo um conjunto de habilidades artesanais. Muitos
esperavam administrar suas
próprias oficinas, tornando-se empreendedores autônomos trabalhando para firmas
de montagem. As organizações eram altamente descentralizadas, ainda que
concentradas em uma só cidade. O sistema era coordenado por um proprietário/empresário,
em contato direto com todos os envolvidos: consumidores, empregados e
fornecedores. Além disso, os produtos eram sempre individualizados e só
produzidos sob encomenda. A produção artesanal pode ser considerada a primeira
forma de produção organizada, posto que os artesãos estabeleciam prazos de
entrega e, consequentemente, instituindo prioridades, atendiam as
especificações preestabelecidas e fixavam preços para suas encomendas. Como
exemplo de produção artesanal temos a empresa Panhard e Levassor (P&L),
que, em 1894, era considerada a principal companhia automobilística no mundo. A
produção da P&L era artesanal, e seus funcionários, que na maioria das
vezes trabalhavam como empreiteiros, eram habilidosos artesãos. A empresa tinha
um baixíssimo volume de produção (cerca de mil automóveis ou menos por ano, dos
quais 50 ou menos com o mesmo projeto, e mesmo entre estes 50 não havia 2
carros idênticos, pois, as técnicas artesanais produziam, por sua própria natureza, variações), o que tornava
o automóvel extremamente caro (cerca de U$ 3.000,00).
Este cenário demonstrava que a
produção artesanal tinha muitas desvantagens, como os elevados custos de
produção, que não diminuíam com o volume, fazendo com que somente os mais
abastados tivessem automóveis. Além
disto, cada carro era na verdade um protótipo que os próprios proprietários
acabavam testando, pois, a sua consistência e a sua confiabilidade eram
ilusórias. No ano de 1776, James Watt vendeu seu primeiro motor a vapor na
Inglaterra (instalado inicialmente em fábricas de artefatos de ferro e aço),
disparando assim a chamada Primeira Revolução Industrial e substituindo,
gradativamente, a produção artesanal. De acordo com Correa (2003), esta
Primeira Revolução Industrial mudou de forma radical a face da indústria, com
uma crescente mecanização das tarefas anteriormente executadas de forma manual.
Avanços tecnológicos importantes facilitaram a substituição de mão de obra por
capital e permitiram o desenvolvimento de
economias de escala, tornando interessante o estabelecimento de “unidades
fabris” e, com isso, surgiram novos conceitos como:
·
Padronização dos produtos; –
·
Padronização dos processos de fabricação; –
·
Treinamento e habilitação da mão de obra direta;
–
·
Criação e desenvolvimento dos quadros gerenciais
e de supervisão;
·
Desenvolvimento de técnicas de planejamento e
controle da produção;
·
Desenvolvimento de técnicas de planejamento e
controle financeiro;
·
Desenvolvimento de técnicas de vendas
Muitos destes conceitos que hoje
nos parecem óbvios não o eram na época. O conceito de padronização de
componentes, por exemplo, introduzido por Eli Whitney em 1790, quando conduziu
a produção de mosquetes com peças intercambiáveis, forneceu uma grande vantagem
operacional aos exércitos. Teve início o registro, por meio de desenhos e
croquis, dos produtos e processos fabris, surgindo a função de projeto de
produto, de processos, de instalações, de equipamentos, etc. No fim do século
19 surgiram nos Estados Unidos os trabalhos de Frederick Taylor. Taylor era um
estudioso das formas de aumentar a produtividade em processos produtivos. Sua
intenção era claramente ligada à eficiência: fazer mais produtos com menos
recursos. Para tanto, desenvolveu a
chamada Administração Científica, que consiste
basicamente em quebrar as tarefas em subtarefas elementares e trabalhar
excessivamente para tornar cada uma delas tarefas mais eficientes. Segundo Martins e Laugeni (1999), a procura
incessante por melhores métodos de trabalho e processos de produção, com o objetivo
de se obter melhoria da produtividade com o menor custo possível, é ainda hoje
o tema central em todas as organizações, mudando-se apenas as técnicas
empregadas.
Por volta de de 1910, Henry Ford começou
a desenvolver os princípios da produção em massa, a partir da percepção de um
potencial mercado consumidor de baixa renda para automóveis e da constatação de
que a produção artesanal não era a melhor maneira de produção para este tipo de
consumidor, uma vez que os custos eram elevados. Ford aliou os conceitos da
intercambialidade de peças (de Whitney) à Administração Científica (de Taylor)
e acrescenta o conceito de “Linhas de Montagem Seriada”. Como resultado conseguiu fabricar produtos
padronizados com pouca variedade que, a cada aumento de quantidade de produção,
reduzia o custo desta; ou seja, conseguiu “Economias de Escala”. Cada vez que ele
aumentava a quantidade produzida, mais diminuía o preço dos seus produtos, e de
U$ 3.000,00 (valor do carro artesanal) um carro Ford passou a custar U$ 600,00.
“Construirei um carro
para as grandes
massas, feito com
os melhores materiais, pelos
melhores homens que
puderem ser contratados
e seguindo os projetos
mais simples que
a moderna engenharia
puder conceber (...)
de preço tão baixo que qualquer homem que ganhe um bom
salário seja capaz de possuir –e de desfrutar
com a sua
família a benção
das horas de
prazer nos grandes
espaços abertos da natureza” –declaração de Henry Ford no início da
carreira como produtor de carros (Tedlow, 2002 apud Correa, 2003, p. 46). Dessa
forma, Ford conseguiu liderar uma indústria que logo se tornou a maior do
mundo, por ter sido o primeiro a dominar os princípios da produção em massa. Entre
as principais características da produção em massa, podemos destacar:
·
Linhas de montagem / Posto de trabalho / Estoques
intermediários / Monotonia do trabalho / Arranjo físico ou layout /
Balanceamento de linha / Produtos em processo / Motivação / Sindicatos / Manutenção
preventiva.
A partir de 1927, último ano de
produção do modelo “T”, Henry Ford defrontou-se com a demanda em queda. Isto
ocorreu devido à percepção da General Motors (GM), então liderada por Alfred Sloan,
de uma nova necessidade de mercado: a variedade (cores e modelos). Desta forma,
utilizando-se dos mesmos princípios da produção em massa, mas com um aumento na
variedade dos produtos, a GM passou a liderar o mercado de automóveis,
oferecendo carros de cores e modelos variados com um preço um pouco maior do
que Ford. A produção em massa fez uma revolução na indústria, conseguindo
economias de escala (os produtos se tornaram acessíveis a um maior número de
pessoas). No decorrer dos anos, no
entanto, apareceram as deficiências deste modelo de produção, como a
geração de grandes estoques, a padronização dos produtos, a alienação do
trabalhador e os altos índices de desperdício. Neste contexto, a partir dos
anos 50, surgia uma nova ideia de produção capaz de suprir as necessidades de
ampla variedade e curta vida útil dos produtos, de qualidade assegurada, de
trabalho de acordo com a demanda e redução dos custos. Desta forma, irrompe o
Sistema Toyota de Produção (STP), que começou a ser desenvolvido a partir de
uma visita de Fiji Toyoda, filho do fundador e então diretor da Toyota, à
fábrica Rouge da Ford nos Estados Unidos. Toyoda voltou de lá com a certeza de
que não poderia introduzir o modelo de produção americano (produção em massa)
no Japão, devido às diferenças culturais, econômicas e geográficas e também por
perceber alguns dos problemas daquele tipo de produção. Sendo assim, o Sistema
Toyota de Produção – STP –, foi desenvolvido instintivamente por Taiichi Ohno,
o então engenheiro de produção da Toyota, pela necessidade de atender à demanda.
Entre as principais características do STP, podemos citar:
·
Just in time
·
Kanban
·
Fluxo e nivelamento da produção
·
Eliminação de desperdícios
·
Células de produção
·
Melhoria contínua
·
Benchmarking.
O STP foi o modelo de produção
que originou a chamada produção enxuta. A produção enxuta pode ser considerada
uma espécie de “ocidentalização” do STP, na medida em que trouxe seus
princípios e ferramentas para a realidade das empresas ocidentais, a fim de
transformar empresas baseadas na produção em massa em empresas “enxutas”, para
sobreviver em tempos de variedade e restrição. Ao longo desse processo de
modernização da produção, cresceu em
importância a figura do cliente, em nome do qual tudo se tem feito. Pode-se
dizer que a procura da satisfação do consumidor é que tem levado as
organizações a se atualizarem com novas técnicas de produção, cada vez mais
eficazes, eficientes e de alta produtividade. É tão grande a atenção dispensada
aos clientes que este, em muitos casos, já especifica em detalhes o “seu”
produto, sem que isso atrapalhe os processos de produção, tamanha a
flexibilidade. Assim, estamos caminhando
para a produção customizada, que, sob certos aspectos, é um retorno à produção
artesanal, sem a figura do artesão, mas aliada às modernas técnicas e
tecnologias da produção em massa e da produção enxuta.
REFERÊNCIAS
CORREA, Henrique L. Administração da produção e operações –manufatura e serviços: uma abordagem estratégica. São Paulo: Atlas, 2004
.______. Teoria Geral da
Administração –abordagem histórica da gestão de produção e operações. São
Paulo: Atlas, 2003.
GOLDRATT, Elijah; FOX, Jeff. A meta. São Paulo: Nobel, 2002.
MARTINS, Petrônio G.; LAUGENI,
Fernando P. Administração da produção. São Paulo: Saraiva, 1999.
______. Administração da
produção. São Paulo: Saraiva, 2001.MOREIRA, Daniel Augusto. Administração da produção e operações. São Paulo: Thonson Learning, 2002.
ROCHA, Duílio. Fundamentos técnicos da produção. São Paulo: Makron
Books, 1995.
RUSSOMANO, Victor H.
Planejamento e acompanhamento da produção. São Paulo: Pioneira, 1979.
______. Planejamento e controle
da produção. São Paulo: Pioneira, 2000. Disponível em: <http://
www.eps.ufsc.br/disserta96/armando/cap2/cap2.htmhttp://www.eps.ufsc.br/disserta96/armando/
index/index.htm
–sumariohttp://www.eps.ufsc.br/disserta96/armando/cap4/cap4.htm>. Acesso em:
21 jun. 2010.
SANTOS, Carlos Maurício.
Ergonomia: análise e projeto
ergonômico do posto de trabalho. SLACK,
N. et al. Administração da produção. São Paulo: Atlas, 1997.
______. Administração da
produção. São Paulo: Atlas, 2008.

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