segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Evolução da Administração da Produção

 O Que é Um Método Artesanal de Produção? Como se Define Gestão da Produção? Como Evoluíram os Métodos de Produção? Qual Foi o Impacto da Produção em Série da Ford?

 



 

Quando se ouve falar em Gestão da Produção ou de Administração da Produção, a maioria das pessoas confunde com uma atividade fabril qualquer e, ao ouvi-las, as pessoas logo imaginam um local cheio de máquinas, pessoas andando de um lado para o outro, produtos sendo fabricados, vagões ferroviários ou caminhões sendo carregados e descarregados e assim por diante. Não resta dúvida que tudo isso tem a ver com a Administração da Produção, mas a imagem é incompleta, pois os bancos, hospitais, escolas, aeroportos, que são todas atividades classificadas como serviços, têm também a ver com os conceitos e técnicas que iremos explorar. Assim, pode-se dizer que Gestão da Produção é uma atividade de gerenciamento de recursos escassos e processos que produzem e entregam bens e serviços, visando atender as necessidades e/ou desejos de qualidade, tempo e custo de seus clientes. Toda organização – vise ela ao lucro ou não – tem dentro de si uma função de produção, pois gera algum “pacote de valor” para seus clientes que inclui algum composto de produtos e serviços, mesmo que, dentro da organização, a função de produção não tenha este nome. Então, pode-se afirmar que a Gestão da Produção é, acima de tudo, um assunto prático que trata de problemas reais, pois tudo o que vestimos, comemos e utilizamos passa de alguma maneira por um processo produtivo (Slack et al., 2008), e organizar este processo eficaz e eficientemente é o objetivo da Gestão da Produção de Bens e Serviços.

 

Evolução Histórica da Área

 

Na história da humanidade as pessoas que fizeram a diferença foram as que inovaram. Não importa em qual área do conhecimento elas atuavam, o que importa é que elas não se contentaram com o que existia até então, e buscaram descobrir uma nova forma de se fazer as coisas. Foi por meio destas inovações que a humanidade – e tudo que faz parte dela – evoluiu. A história da indústria não é diferente, pois foi por meio das inovações de pessoas que buscavam “algo mais” que os meios de produção evoluíram e proporcionaram grandes melhorias contribuindo para o desenvolvimento da humanidade. No final do século 14 a produção era caracterizada pelo artesanato. Neste tipo de produção a força de trabalho era altamente qualificada, e muitos trabalhadores progrediam por meio de um aprendizado abrangendo todo um conjunto de habilidades artesanais.   Muitos   esperavam   administrar suas próprias oficinas, tornando-se empreendedores autônomos trabalhando para firmas de montagem. As organizações eram altamente descentralizadas, ainda que concentradas em uma só cidade. O sistema era coordenado por um proprietário/empresário, em contato direto com todos os envolvidos: consumidores, empregados e fornecedores. Além disso, os produtos eram sempre individualizados e só produzidos sob encomenda. A produção artesanal pode ser considerada a primeira forma de produção organizada, posto que os artesãos estabeleciam prazos de entrega e, consequentemente, instituindo prioridades, atendiam as especificações preestabelecidas e fixavam preços para suas encomendas. Como exemplo de produção artesanal temos a empresa Panhard e Levassor (P&L), que, em 1894, era considerada a principal companhia automobilística no mundo. A produção da P&L era artesanal, e seus funcionários, que na maioria das vezes trabalhavam como empreiteiros, eram habilidosos artesãos. A empresa tinha um baixíssimo volume de produção (cerca de mil automóveis ou menos por ano, dos quais 50 ou menos com o mesmo projeto, e mesmo entre estes 50 não havia 2 carros idênticos, pois, as técnicas artesanais produziam, por sua   própria natureza, variações), o que tornava o automóvel extremamente caro (cerca de U$ 3.000,00).

Este cenário demonstrava que a produção artesanal tinha muitas desvantagens, como os elevados custos de produção, que não diminuíam com o volume, fazendo com que somente os mais abastados tivessem automóveis.  Além disto, cada carro era na verdade um protótipo que os próprios proprietários acabavam testando, pois, a sua consistência e a sua confiabilidade eram ilusórias. No ano de 1776, James Watt vendeu seu primeiro motor a vapor na Inglaterra (instalado inicialmente em fábricas de artefatos de ferro e aço), disparando assim a chamada Primeira Revolução Industrial e substituindo, gradativamente, a produção artesanal. De acordo com Correa (2003), esta Primeira Revolução Industrial mudou de forma radical a face da indústria, com uma crescente mecanização das tarefas anteriormente executadas de forma manual. Avanços tecnológicos importantes facilitaram a substituição de mão de obra por capital e   permitiram o desenvolvimento de economias de escala, tornando interessante o estabelecimento de “unidades fabris” e, com isso, surgiram novos conceitos como:

 

·        Padronização dos produtos; –

·        Padronização dos processos de fabricação; –

·        Treinamento e habilitação da mão de obra direta; –

·        Criação e desenvolvimento dos quadros gerenciais e de supervisão;

·        Desenvolvimento de técnicas de planejamento e controle da produção;

·        Desenvolvimento de técnicas de planejamento e controle financeiro;

·        Desenvolvimento de técnicas de vendas

 

Muitos destes conceitos que hoje nos parecem óbvios não o eram na época. O conceito de padronização de componentes, por exemplo, introduzido por Eli Whitney em 1790, quando conduziu a produção de mosquetes com peças intercambiáveis, forneceu uma grande vantagem operacional aos exércitos. Teve início o registro, por meio de desenhos e croquis, dos produtos e processos fabris, surgindo a função de projeto de produto, de processos, de instalações, de equipamentos, etc. No fim do século 19 surgiram nos Estados Unidos os trabalhos de Frederick Taylor. Taylor era um estudioso das formas de aumentar a produtividade em processos produtivos. Sua intenção era claramente ligada à eficiência: fazer mais produtos com menos recursos.  Para tanto, desenvolveu a chamada Administração Científica, que consiste   basicamente em quebrar as tarefas em subtarefas elementares e trabalhar excessivamente para tornar cada uma delas tarefas mais eficientes. Segundo   Martins e Laugeni (1999), a procura incessante por melhores métodos de trabalho e processos de produção, com o objetivo de se obter melhoria da produtividade com o menor custo possível, é ainda hoje o tema central em todas as organizações, mudando-se apenas as técnicas empregadas.

Por volta de de 1910, Henry Ford começou a desenvolver os princípios da produção em massa, a partir da percepção de um potencial mercado consumidor de baixa renda para automóveis e da constatação de que a produção artesanal não era a melhor maneira de produção para este tipo de consumidor, uma vez que os custos eram elevados. Ford aliou os conceitos da intercambialidade de peças (de Whitney) à Administração Científica (de Taylor) e acrescenta o conceito de “Linhas de Montagem Seriada”. Como   resultado conseguiu fabricar produtos padronizados com pouca variedade que, a cada aumento de quantidade de produção, reduzia o custo desta; ou seja, conseguiu “Economias de Escala”. Cada vez que ele aumentava a quantidade produzida, mais diminuía o preço dos seus produtos, e de U$ 3.000,00 (valor do carro artesanal) um carro Ford passou a custar U$ 600,00. “Construirei  um  carro  para  as  grandes  massas,  feito  com  os  melhores materiais,  pelos  melhores  homens  que  puderem  ser  contratados  e  seguindo  os projetos  mais  simples  que  a  moderna  engenharia  puder  conceber  (...)  de  preço  tão baixo que qualquer homem que ganhe um bom salário seja capaz de possuir –e de desfrutar  com  a  sua  família  a  benção  das  horas  de  prazer  nos  grandes  espaços abertos da natureza” –declaração de Henry Ford no início da carreira como produtor de carros (Tedlow, 2002 apud Correa, 2003, p. 46). Dessa forma, Ford conseguiu liderar uma indústria que logo se tornou a maior do mundo, por ter sido o primeiro a dominar os princípios da produção em massa. Entre as principais características da produção em massa, podemos destacar:

 

·        Linhas de montagem / Posto de trabalho / Estoques intermediários / Monotonia do trabalho / Arranjo físico ou layout / Balanceamento de linha / Produtos em processo / Motivação / Sindicatos / Manutenção preventiva.

 

A partir de 1927, último ano de produção do modelo “T”, Henry Ford defrontou-se com a demanda em queda. Isto ocorreu devido à percepção da General Motors (GM), então liderada por Alfred Sloan, de uma nova necessidade de mercado: a variedade (cores e modelos). Desta forma, utilizando-se dos mesmos princípios da produção em massa, mas com um aumento na variedade dos produtos, a GM passou a liderar o mercado de automóveis, oferecendo carros de cores e modelos variados com um preço um pouco maior do que Ford. A produção em massa fez uma revolução na indústria, conseguindo economias de escala (os produtos se tornaram acessíveis a um maior número de pessoas). No decorrer dos anos, no   entanto, apareceram as deficiências deste modelo de produção, como a geração de grandes estoques, a padronização dos produtos, a alienação do trabalhador e os altos índices de desperdício. Neste contexto, a partir dos anos 50, surgia uma nova ideia de produção capaz de suprir as necessidades de ampla variedade e curta vida útil dos produtos, de qualidade assegurada, de trabalho de acordo com a demanda e redução dos custos. Desta forma, irrompe o Sistema Toyota de Produção (STP), que começou a ser desenvolvido a partir de uma visita de Fiji Toyoda, filho do fundador e então diretor da Toyota, à fábrica Rouge da Ford nos Estados Unidos. Toyoda voltou de lá com a certeza de que não poderia introduzir o modelo de produção americano (produção em massa) no Japão, devido às diferenças culturais, econômicas e geográficas e também por perceber alguns dos problemas daquele tipo de produção. Sendo assim, o Sistema Toyota de Produção – STP –, foi desenvolvido instintivamente por Taiichi Ohno, o então engenheiro de produção da Toyota, pela necessidade de atender à demanda. Entre as principais características do STP, podemos citar:

 

·        Just in time

·        Kanban

·        Fluxo e nivelamento da produção

·        Eliminação de desperdícios

·        Células de produção

·        Melhoria contínua

·        Benchmarking.

 

O STP foi o modelo de produção que originou a chamada produção enxuta. A produção enxuta pode ser considerada uma espécie de “ocidentalização” do STP, na medida em que trouxe seus princípios e ferramentas para a realidade das empresas ocidentais, a fim de transformar empresas baseadas na produção em massa em empresas “enxutas”, para sobreviver em tempos de variedade e restrição. Ao longo desse processo de modernização da   produção, cresceu em importância a figura do cliente, em nome do qual tudo se tem feito. Pode-se dizer que a procura da satisfação do consumidor é que tem levado as organizações a se atualizarem com novas técnicas de produção, cada vez mais eficazes, eficientes e de alta produtividade. É tão grande a atenção dispensada aos clientes que este, em muitos casos, já especifica em detalhes o “seu” produto, sem que isso atrapalhe os processos de produção, tamanha a flexibilidade.  Assim, estamos caminhando para a produção customizada, que, sob certos aspectos, é um retorno à produção artesanal, sem a figura do artesão, mas aliada às modernas técnicas e tecnologias da produção em massa e da produção enxuta.

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

CORREA, Henrique L. Administração da produção e operações –manufatura e serviços: uma abordagem estratégica. São Paulo: Atlas, 2004

.______. Teoria Geral da Administração –abordagem histórica da gestão de produção e operações. São Paulo: Atlas, 2003.

GOLDRATT, Elijah; FOX, Jeff. A meta. São Paulo: Nobel, 2002.

MARTINS, Petrônio G.; LAUGENI, Fernando P. Administração da produção. São Paulo: Saraiva, 1999.

______. Administração da produção. São Paulo: Saraiva, 2001.MOREIRA, Daniel Augusto.  Administração da produção e operações.  São Paulo: Thonson Learning, 2002.

ROCHA, Duílio. Fundamentos técnicos da produção. São Paulo: Makron Books, 1995.

RUSSOMANO, Victor H.  Planejamento e acompanhamento da produção.  São Paulo: Pioneira, 1979.

______. Planejamento e controle da produção. São Paulo: Pioneira, 2000. Disponível em: <http:// www.eps.ufsc.br/disserta96/armando/cap2/cap2.htmhttp://www.eps.ufsc.br/disserta96/armando/ index/index.htm –sumariohttp://www.eps.ufsc.br/disserta96/armando/cap4/cap4.htm>. Acesso em: 21 jun. 2010.

SANTOS, Carlos Maurício.  Ergonomia:  análise e projeto ergonômico do posto de trabalho. SLACK, N. et al. Administração da produção. São Paulo: Atlas, 1997.

______. Administração da produção. São Paulo: Atlas, 2008.

______. Administração da produção. São Paulo: Atlas, 2002.


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