Por Que os Cristãos Acreditavam Que Não Podia Haver Antípodas? Qual Foi o Legado Deixado Por Cosmas de Alexandria? Por Que os Mapas de Erastóstenes, Hiparco e Ptolomeu Mostravam Jerusalém no Centro do Mundo?
Cosmas de Alexandria – um
convertido recente e fanático – foi o autor de “Topographia Christiana”, a qual sobreviveu séculos até hoje para
espanto dos cristãos modernos. Não se sabe ao certo o seu verdadeiro nome, mas muitos
chamavam-lhe de Cosmas – em função da fama da sua obra geográfica – e teve por
alcunha “o Viajante Indiano” por ter sido mercador em uma determinada época e ter
viajado à volta do Mar Vermelho, do Oceano Índico e seguindo até o Ceilão. E,
depois da sua conversão ao Cristianismo, fez-se monge e retirou-se para um
mosteiro no Monte Sinai, onde acabou escrevendo suas memórias e a defesa da sua
visão cristã da Terra. Esse tratado foi ilustrado em doze (12) tomos e nos
forneceu os mais antigos mapas – de origem cristã – que chegaram até os tempos
modernos. Sendo assim, Cosmas de Alexandria recompensou seus fiéis com uma
medida muito bem atestada de vitríolo ([2]) contra o erro
pagão e um diagrama simples do Universo cristão. Logo no primeiro livro
destruiu a heresia da esfericidade da Terra e, a seguir, expôs o seu sistema
apoiando-se, claro, nas Escrituras e depois nos doutores da Igreja, e
finalmente em algumas fontes não cristãs. O que ele ofereceu foi menos uma
teoria do que um simples, claro e atraente modelo visual e, quando o Apóstolo
Paulo declarou na Epístola aos Hebreus que o primeiro tabernáculo de Moisés era
o modelo deste mundo inteiro, forneceu a Cosmas, de bandeja, o seu plano com
todos os pormenores necessários. Ele não teve qualquer dificuldade em traduzir
as palavras de São Paulo para a realidade física, tanto que o primeiro
tabernáculo tem regulamentos de culto divino e um santuário terrestre.
Com um “santuário terrestre” São
Paulo queria significar que “era por assim dizer, um modelo do Mundo, onde
estava também o candelabro, significando com isso os luminares do Céu e a mesa;
ou seja, a Terra, e o pão da proposição, significando com isso os frutos que
ela produz. Quando as escrituras diziam que a mesa do tabernáculo deveria ter 2
cúbitos de comprimento e um de largura, significava que a Terra plana tinha de
comprimento, de Leste para Oeste, o dobro da largura. No atraente plano de
Cosmas a terra era uma imensa caixa retangular, muito semelhante a uma arca com
uma tampa arqueada – a abóboda do Céu – por cima da qual o Criador observava
sua obra. No Norte havia uma grande montanha, à volta da qual o Sol se movia e
cujas obstruções à luz solar explicavam as durações variáveis dos dias e das
estações. As terras do Mundo eram simétricas no Oriente, os Indianos, no Sul,
os Etíopes no Ocidente, os Celtas e no Norte, os Citas. E do Paraíso fluíam os
4 grandes rios: o Ganges, para a Índia; o Nilo através da Etiópia, para o Egito
e o Tigres e Eufrates que banhavam a Mesopotâmia. Havia apenas uma face da
Terra – aquela que Deus nos dava, os descendentes de Adão – o que tornava
qualquer sugestão da existência de antípodas, além de absurda, também uma
sugestão herética.
Geógrafos cristãos encontraram um
tesouro de recursos nas antigas fantasias e, desdenhando a ciência pagã que era
considerada ameaça à fé cristã, os seus preconceitos não incluíam os mitos
pagãos. Estes eram tão numerosos e tão contraditórios que satisfaziam aos mais
dogmáticos objetivos cristãos. Apesar de temerem os cálculos muito aproximados
da realidade de Erastóstenes, Hiparco e Ptolomeu, adornavam alegremente seus
piedosos mapas que tinham Jerusalém como centro, com as mais extravagantes
especulações da imaginação pagã. Júlio Solino (cognominado “Contador de
Variadas Histórias”) forneceu a fonte do mito geográfico durante todos os anos
do grande interregno, do século IV até o século XIV. Provavelmente ele não era
cristão e, nove décimos da sua “Coletânea de Coisas Maravilhosas”, publicada
entre 230-240 d.C., provinha diretamente da “História Natural” de Plínio,
embora Solino sequer mencione o seu nome. E o resto foi forjado com base em
outros autores clássicos, pois o talento peculiar de Solino era “extrair a
escória e deixar o outro”. Porém, é duvidoso que alguém tenha, durante um
período tão longo, influenciado a Geografia tão profunda e nocivamente. No
entanto, a escória de Salino exercia grande atração, pois o próprio Santo
Agostinho bebeu na sua fonte, assim como outros pensadores da Idade Média. As
histórias e as fabulosas imagens de Salino deram vida aos mapas cristãos até a
Era dos Descobrimentos e se tornaram uma rede abrangente de fantasia,
substituindo a esquecida grelha racional de Latitude e Longitude que tinha sido
o legado de Ptolomeu.
Enquanto uma Terra esférica era a
base da cartografia grega, uma Terra plana era a dos Chineses. Na altura em que
Ptolomeu fizera seu o trabalho no Ocidente, cartógrafos chineses criaram
técnicas de grelhas de mapas e uma rica tradição de cartografia do Mundo, a
qual cresceu sem o amnésico interregno que atormentou o Ocidente. Os Gregos
também tinham elaborado seu sistema de grelha por meio de linhas de latitude e
longitude tão facilmente traçadas à volta de uma esfera. Mas, como era muito
difícil projetar uma superfície esférica numa folha plana, na prática o sistema
de grelha helênico (de latitude e longitude) não era diferente do que teria
sido se eles tivessem concebido a superfície da Terra como sendo plana.
Visto o sistema de grelha
helênico ter nascido dos requisitos de uma forma esférica, a grelha retangular
chinesa – que tornou possível toda a sua cartografia – deve ter tido outras
origens completamente diferentes. Quais? Na consulta aos antigos registros
encontramos referências a mapas e a seus usos. A China era simultaneamente a
criatura e o criador de uma imensa burocracia que tinha de conhecer as
características de suas extensas regiões. E, quando o imperador Zhou viajava
pelo seu reino, o geógrafo real ia a seu lado, explicando-lhe a topografia e os
produtos característicos de cada parte do país. No apogeu da cartografia religiosa
na Europa, os Chineses avançaram firme no sentido da cartografia quantitativa.
Antes mesmo de Ptolomeu ter feito o seu trabalho em Alexandria, um pioneiro
chinês já tinha projetado uma rede de coordenadas acerca do céu e da Terra e
calculado na base dela. Passados dois séculos, o Ptolomeu chinês – Pei Xiu –
aplicou essas técnicas para fazer um mapa da China. No prefácio de seu atlas,
Pei Xiu deu instruções para se fazer um mapa na escala devida, com grelhas
retangulares: _ “Se traçarmos um mapa sem as divisões graduadas, não existiria
maneiras de distinguir entre o que é perto ou longe. Assim, mesmo que existam
grandes obstáculos como altas montanhas ou grandes lagos, tudo pode ser tomado
em consideração e determinado. Quando o princípio da grelha retangular é
devidamente aplicado, então o reto e o curvo, o próximo e o distante não podem
ocultar-nos nada da sua forma”.
([1]) Quem, em relação a outra pessoa, vive do outro lado da
Terra. Habitante de um lugar, no mundo, diametralmente oposto a outro: o
japonês é antípoda do brasileiro.
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