segunda-feira, 13 de abril de 2026

A Industrialização é o Objetivo Central da Política Econômica Brasileira?

O Que Caracterizou a Economia nos Primeiros Anos do Governo Vargas? Como se Desenvolveu o Pensamento Econômico na América Latina Pós-Segunda Guerra Mundial? Como o Brasil Saiu da Era Vargas em Termos Estruturais? Quais as Três Deficiências do Plano de Metas Dessa Época?

 



 

Os primeiros anos do governo Getúlio Vargas não foram marcados por uma descontinuidade na política econômica e, diante da perspectiva de depressão prolongada nos países centrais na década de 1930, optou-se pela busca do ajuste macroeconômico e proteção ao setor exportador. Porém, como sinaliza Tavares (1983), os recursos destinados à compra de estoques de café serviram de estímulo ao mercado interno. Na impossibilidade de importar com a facilidade de épocas anteriores, acelerou-se o processo de internalização da produção. Segundo TAVARES, a crise prolongada dos anos trinta, no entanto, pode ser encarada como o ponto crítico da ruptura do funcionamento do modelo primário-exportador. A violenta queda na receita de exportação acarretou de imediato uma diminuição de cerca de 50% na capacidade para importar da maior parte dos países da América Latina [...].  A profundidade do desequilíbrio externo fez com que a maior parte dos governos adotasse uma série de medidas tendentes a defender o mercado interno dos efeitos da crise no mercado internacional. [...] O processo de industrialização que se iniciou a partir daí encontrou, sem dúvida alguma, seu apoio na manutenção da renda interna resultante daquela política. Como você pode ver, as políticas econômicas adotadas para reverter as recorrentes crises de superprodução de café terminavam por liberar recursos que estimulavam o nosso mercado interno. Os barões do café aplicavam parte desses recursos na indústria. Um segundo impacto da instabilidade do modelo primário-exportador foi a geração de trabalho excedente, que impulsionou a migração do campo para os grandes centros urbanos, fornecendo mão de obra em quantidade necessária para a expansão industrial que se desenhava no início do século XX.

O rápido crescimento populacional da cidade de São Paulo no período, que atingiu seu primeiro milhão de habitantes em 1930, foi um fator bastante ilustrativo desse fenômeno. Diante desse cenário, o governo Vargas passou por uma clara reviravolta na orientação de sua política econômica a partir do golpe de 1937 em que se instaurou o Estado Novo. A partir de então, a posição do Estado brasileiro passou a ser de apoio explícito ao processo de industrialização, adotando medidas favoráveis à expansão industrial. O entendimento dos governos que se seguiram era de que a modernização industrial representava o caminho mais adequado para superar nossa condição subdesenvolvida. O conjunto de ideias econômicas que davam fundamento à retórica de mudança radical na trajetória de nossa evolução econômica ficou conhecido como pensamento desenvolvimentista. O desenvolvimentismo, que teve em Raul Prebisch, economista da CEPAL, e Furtado como suas figuras centrais, torna-se o pensamento econômico dominante na América Latina no pós-Segunda Guerra Mundial. A construção do consenso em torno dessas ideias é fundamental para que você entenda a mudança qualitativa que sofre o processo de industrialização no Brasil. Destaquemos, em primeiro lugar, a evolução do contexto internacional daquele período. Nos anos de 1930, uma alternativa real se consolidava no questionamento ao modelo liberal decadente de organização econômica:  o comunismo soviético. 

O modelo adotado na URSS dava sinais ao mesmo tempo de capacidade de enfrentar a grande depressão sem a retração social e econômica que marcava a experiência das potências ocidentais e da possibilidade de superar o atraso industrial do País com massivos investimentos estatais e planejamento econômico centralizado. Entretanto, na maioria dos países ocidentais, houve uma versão menos coletivista do planejamento e da regulação econômica que surgiu, o que se deve essencialmente à contribuição de Keynes, considerado um dos economistas mais influentes do século XX, em especial após o papel exercido na configuração do novo sistema financeiro internacional após 1944. Em sua obra principal, Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, publicada nos anos de 1930, Keynes coloca a ênfase na necessidade de atuação anticíclica do Estado em tempos de crise, por meio de políticas econômicas no sentido de estimular a demanda. Essas políticas deveriam ter o objetivo tanto de dar condições aos investimentos se realizarem como de possibilitar ganhos no poder aquisitivo da classe trabalhadora, potenciais   consumidores das mercadorias produzidas em uma economia. No Brasil, a influência da noção de planejamento econômico do Estado se faz sentir já nos anos de 1940.

Durante a era Vargas (1930-1945), período em que se dá a reorientação no papel do Estado em nossa economia, o parque industrial brasileiro triplicou de tamanho. O processo de industrialização, agora induzido por meio de políticas tarifárias e creditícias específicas, bem como por investimentos produtivos do Estado, atingia setores estratégicos como o químico e o siderúrgico. A substituição de importações dá um passo adicional em termos de complexidade produtiva, passando de uma fase inicial em que contemplava apenas o setor de bens de consumo não duráveis (como alimentos   e   vestuários), para   abarcar   o   de   bens   de   consumo   duráveis (eletrodomésticos) e de bens intermediários (insumos industriais). É dessa época que data  a  construção  da  primeira  grande  indústria  nacional  com  capitais  do  Estado,  a Companhia Siderúrgica Nacional, fundada em 1941.Outro  elemento  fundamental  para  se  entender  a  transição  da  economia brasileira   um   modelo   primário-exportador   para   um   modelo   desenvolvimentista industrializante,  centrado  na  dinâmica  interna  de nosso  mercado,  consiste  no surgimento, mesmo que tardio, de mecanismos de proteção social voltados à classe trabalhadora. Deve-se igualmente à iniciativa de Vargas a adoção desses primeiros elementos de um Estado de bem-estar, no Brasil, a partir da instituição do salário mínimo (em 1940), de leis reguladoras das relações de trabalho (1943), e da consolidação de uma estrutura pública de fornecimento de serviços de educação, saúde e previdência. Porém, dada a imensa proporção de trabalhadores informais no País à época, boa parte da população terminaria por não ser contemplada por esses benefícios.

De qualquer forma, apesar dos limites e das contradições presentes na ditadura do Estado Novo, o País saiu da era Vargas com uma estrutura produtiva transformada e um mercado interno em franca expansão. Na Guerra Fria, que então se iniciava e que confrontaria durante as próximas quatro décadas as duas maiores potências do globo, EUA e URSS, o Brasil se apresentava como um território extremamente estratégico.  Essa variável é decisiva para entender os êxitos daquele período, mas também a frustração dos objetivos nacional desenvolvimentista sem nosso país entre os anos de 1945 e 1964. Os diferentes governos que atuaram no interregno democrático do pós-Guerra (1946-1964) tiveram de lidar com elementos novos na   política nacional: a reorganização política da classe trabalhadora e a   resistência   de   setores conservadores da elite nacional. Assim, por um lado, cresce no período a pressão por um progresso mais rápido nas políticas distributivas do governo, em especial a reforma agrária. Por outro lado, o aumento do papel do Estado na economia era visto com  maus  olhos  pelos  defensores  do  livre  mercado  e,  consequentemente,  dos interesses das grandes corporações multinacionais que se consolidam no período.Com o retorno de Vargas ao poder, cresce a insatisfação desses segmentos conservadores,   na   medida   em   que   vai   se   consolidando   um   processo   de industrialização  com  forte  participação  de  capitais  do  Estado,  como  se  dá,  por exemplo, na criação da Petrobras em 1953, além da adoção de políticas econômicas que visavam explicitamente proteger a indústria nacional, como foi o caso da política de taxas múltiplas de câmbio instituída naquele mesmo ano. De acordo com Tavares (1976, p.  71), a reforma cambial empreendida pelo governo Vargas instituiu[...] um sistema de leilão de divisas no qual se classificavam as importações em cinco categorias, de acordo com o seu grau de essencialidade e as possibilidades de produção interna [...]. [Isso] não só permitiu comprimir o quantum de importações ao nível da capacidade para importar existente nesse ano, como tornou relativamente mais atraente a produção interna de uma série de produtos industriais básicos e matérias-primas cujo preço de importação em moeda nacional passou a subir consideravelmente por ficar sujeito ao pagamento de crescentes ágios cambiais.

O suicídio de Vargas em 1954 deve ser entendido como fruto desse contexto econômico e político particular. A atitude desesperada do presidente na iminência de um golpe militar permitiu adiar em dez anos a retomada do poder pelos segmentos mais conservadores. Café Filho, representante da oposição a Vargas que assumiu a presidência após a sua morte, não teve legitimidade para colocar em prática a política econômica de controle inflacionário e redução dos gastos do governo. Conforme Bielshowksky (2000, p. 367), mesmo com a volta de intelectuais representantes do neoliberalismo, tal como Gudin (economista da época), durante o curto governo Café Filho, torna-se claro que “não basta coragem para implementar uma política de estabilização, sendo necessária também força política”. O   governo de Juscelino Kubitschek, pouco depois, foi considerado o ápice do desenvolvimentismo brasileiro. Todos os esforços se concentravam no sentido de promover a aceleração do processo de industrialização, objetivo que é atingido com grande êxito.

O emblema desse período foi o estabelecimento de um Plano de Metas, que consistia em um vasto planejamento de investimentos visando transformar o     deficiente quadro da infraestrutura nacional e trazer, consequentemente, ganhos de eficiência e de produtividade para o setor industrial. Sendo assim, entre 1950 e 60 foi triplicada a potência instalada nas usinas geradoras de energia. As rodovias federais aumentam em 60% a sua extensão. A produção de alumínio cresceu 11 vezes no período. O índice de nacionalização da produção na indústria automobilística se aproxima da marca de 90%.  O que explica a redução praticamente a zero na importação de automóveis, combustíveis, ferro e aço, registrada no início dos anos 1960. Nas palavras de Lessa (1983), a economia brasileira logrou sob o esquema do Plano de Metas a aquisição de um setor secundário com um perfil de economia madura. Durante esse período foi possível observar que a direção do desenvolvimento esteve fortemente apoiada e facilitada pela política econômica. Em certo sentido, a política esteve à frente do processo de transformação da economia. Se o Estado teve participação decisiva nos investimentos em infraestrutura no Plano de Metas, coube ao capital estrangeiro papel de destaque na expansão da capacidade produtiva da indústria em território nacional, com destaque para o setor automobilístico.  Na verdade, ainda no segundo governo Vargas, adotou-se uma política bastante flexível, visando facilitar a entrada de capitais e créditos externos destinados a segmentos-chave da economia nacional. Apesar do sucesso em promover crescimento econômico e diversificação produtiva do parque industrial, o Plano de Metas apresentou, ao menos, três (3) deficiências principais:

 

·        A falta de ênfase nos gastos sociais. Os projetos educacionais representavam apenas 3% do total de gastos previstos pelo Plano;

·        A opção pelo financiamento inflacionário e endividamento externo, ou seja, a inexistência de avaliação rigorosa dos possíveis desequilíbrios de um programa de expansão executado sem lastro monetário sustentável no longo prazo;

·        A ausência de preocupação com o setor agrícola, que se beneficiaria apenas de forma indireta por meio de metas como as de aumento na produção nacional de tratores e fertilizantes.

 

As consequências disso se repercutiram sobre o período seguinte na forma de uma grave instabilidade macroeconômica, desembocando em uma crise no início dos anos de 1960 que interrompeu, por sua vez, um longo ciclo de crescimento econômico acelerado.  De fato, a queda no ritmo de expansão do PIB foi drástica.  A economia saiu da taxa de crescimento anual de 7% em média e fechou em 1963 com apenas 2%.  Ao mesmo tempo, a inflação passou de 25%, em 1960, para 73%, em 1963, deslocando a atenção da política econômica das metas de industrialização para o controle dos preços internos. Diante desse cenário, o governo João Goulart assumiu com um duplo desafio: ao mesmo tempo contornar a instabilidade econômica e evitar os transtornos políticos que se desenvolviam de maneira rápida no País.  O principal fator de instabilidade econômica era a inflação, o que exigia medidas de desaquecimento da economia interna, contrariando os objetivos desenvolvimentistas declarados daquele governo. Na realidade, havia o entendimento por parte dos integrantes da equipe de Goulart segundo o qual a principal ameaça de crise no modelo de desenvolvimento perseguido   até   então provinha de fatores estruturais. Logo, uma política de recuperação do poder de compra dos trabalhadores se fazia necessária, como forma de estimular novamente o mercado interno.

No entanto, apesar das concessões à classe trabalhadora realizadas no período, como a instituição do 13º salário e do salário-família, seguidas greves contribuíam para tornar o ambiente político ainda mais conturbado. Essa posição pró-distribuição de renda do governo Goulart, ainda que insuficiente na ótica dos movimentos sociais, o coloca em atrito com segmentos conservadores que vinham pressionando por uma mudança nos rumos econômicos do País desde a redemocratização, em 1946. A relação com o Fundo Monetário Internacional (FMI) é bastante ilustrativa nesse sentido.  A negociação de novos empréstimos frente à comunidade internacional é dificultada pelo ambiente político interno, o que leva o governo a declarar uma moratória, em 1963.As dificuldades não impediram, contudo, que o governo mantivesse suas metas de substituição de   importações, definidas no Plano Trienal, em 1962. Os investimentos concentraram-se especialmente nos setores de energia e transportes, e   estabeleceu-se   um   organismo   específico   para   tratar   da   acentuação   das desigualdades regionais característica do modelo brasileiro de desenvolvimento, a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE).

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

BIELSCHOWSKY, Ricardo.  Pensamento econômico brasileiro.  4.  ed.  Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.

TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Ensaios sobre economia brasileira. 11. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

TAVARES, Maria da Conceição; FIORI, José Luís.  (Des) ajuste global e modernização conservadora. São Paulo: Paz e Terra, 1996.



https://www.facebook.com/juliocesar.s.santos

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