segunda-feira, 16 de março de 2026

Os Primórdios da Filosofia Política

Por Que Sócrates Foi Emblemático Para a Compreensão da Filosofia Política? Qual a Relação Entre a Filosofia Política e o Poder? Que Razões Levaram Platão a Rejeitar as Ideias de Sócrates Sobre a Monarquia Aristocrática?

 



A Filosofia Política é o ramo da Filosofia que estuda as questões fundamentais da organização social e do poder, buscando entender as relações entre o ser humano, o Estado e a sociedadeEla analisa temas como justiça, liberdade, e a natureza do governo, e se diferencia da ciência política por sua carga de valores e crítica normativa, buscando dizer como a política deveria ser, embora também possa descrever como ela é. Para o estudo da Filosofia Política a figura de Sócrates é emblemática, pois com ele, a Filosofia começou a refletir sobre o que podemos chamar de “poder do poder”; ou  seja, sobre o poder da verdade que é verdadeira e da verdade que  é aparência, que é apenas verossímil, que parece verdadeira mas não é, que por extensão parece justa mas é injusta. O poder político entra em questão, pois é a política que estabelece como e quem tem o poder de tomar decisões, sejam justas ou não. As reflexões acerca do poder e da justiça, no entanto, vêm de muito antes.  Desde os seus primórdios, no pensamento dos primeiros filósofos gregos, a filosofia refletiu de alguma maneira sobre o poder do conhecimento e da razão, sobre a relação entre o poder e a justiça. Anaximandro – por exemplo – afirmou que o princípio de todos os seres é o ilimitado, pois é dele que vêm os seres e para onde se corrompem segundo a justiça e a ordenação do tempo. Assim, os seres se geram e se corrompem segundo uma justiça contrária ao caos, à bagunça e à injustiça, motivo pelo qual os deuses são justos; ou seja, a justiça é o padrão de relação dos deuses entre si, a justiça e o tempo se impõem aos deuses como meio para evitar o caos, a justiça e o tempo são poderes impostos aos deuses. Há, assim, deuses com esses poderes específicos, Zeus (ou Júpiter) representando a justiça e Cronos (ou Saturno) como o senhor do tempo.

Parmênides (530 a.C.-460 a.C.), por sua vez, afirmava que “o ser é, o não-ser não é”, ou seja, o ser tem o poder para ser e o não-ser não tem o poder para ser e por isso não é. Desde o nascimento da Filosofia, já estavam presentes reflexões acerca do poder e da justiça. Será, no entanto, em Atenas, em meio à efervescência política da formação histórica da democracia que o problema político e as reflexões acerca da natureza do poder se colocarão de forma mais premente. À medida que a reflexão sobre o poder adquire um sentido mais propriamente político, o poder na polis entra em questão. O meio pelo qual o pensamento sobre o poder e a política se estruturava na Grécia Antiga e na origem da Filosofia estava vinculado à reflexão sobre as formas de governo. Quem, na Antiguidade, quisesse compreender o funcionamento e o princípio regulador da vida política perguntava qual era a forma de governo vigente na polis. Assim a tipologia das formas de governo caracterizou as primeiras reflexões da Filosofia Política e do poder político. A primeira exposição sistemática acerca das formas de governo foi apresentada pelo historiador Heródoto (485 a.C.-420 a.C.). Em sua obra, História (Heródoto, 1985, livro VIII, 79-81), ele narra a conversa entre três persas, Otanes, Megabises e Dario, que após a queda do tirano Cambises discutiam a fim de decidir a melhor maneira de reorganizar a Pérsia após a tirania. Cada um dos três defende uma forma de governo diferente e critica outra, apresenta argumentos favoráveis a uma ou outra.

Otanes afirma que a monarquia, devido à riqueza e inveja do monarca, degenera sempre em tirania, e o mesmo ocorre entre os que disputam a riqueza e o poder político, concluindo então que o melhor é entregar o poder ao povo e constituir uma democracia. Megabises, o segundo a falar, concorda com a crítica da monarquia, mas tem ressalvas quanto à democracia, pois a massa é inepta e desatinada. Trocar a prepotência de um tirano pela prepotência da turba implicaria no mesmo resultado.  Defende então a aristocracia, o poder entregue àqueles escolhidos como os melhores homens da Pérsia.  Dario, por sua vez, afirmou que, em seu estado perfeito, todas as três formas de governo são boas, mas entre elas a monarquia é a melhor quando ocupada pelo melhor homem, pois numa oligarquia surgem conflitos entre os que querem ser chefes, e numa democracia ocorre corrupção nos negócios públicos. Podemos notar que encontramos a classificação das formas de governo e um julgamento de cada uma. Uma questão é quantos governam e outra é como se governa. Há assim uma descrição de cada forma e em seguida o elogio de uma delas. Essa conversa inaugura o modelo teórico que a Antiguidade grega adotou na reflexão acerca das formas de governo.

 

Platão: A Lei e Degeneração da Lei

 

Platão discutiu as formas de governo no diálogo intitulado “República”, tradução usada para a palavra grega politeia, que por sua vez designa o que traduzimos como forma de governo. Nesse diálogo, as personagens discutem acerca do conceito de justiça. Inicialmente, o diálogo trata de refutar algumas teses apresentadas acerca da natureza da justiça. Em seguida, pesquisa a noção de cidade justa. Trata-se de encontrar a calipolis, a cidade ideal, a “cidade das palavras”, aquela que é totalmente descrita por meio do planejamento e da reflexão, em que todos os problemas são cuidadosamente pensados e resolvidos. Platão discutiu as diversas formas de governo e apresentou uma justificativa racional em defesa daquela que, para ele, era a melhor forma de governo. No livro VIII, Sócrates, um dos interlocutores da República, apresentou os tipos de homens e os tipos de polis. Na sua tipologia, a cidade ideal é a monarquia governada pelo mais sábio entre os sábios, o filósofo-rei, que recebe a melhor e mais completa educação, e que ouve atentamente os outros filósofos. Contudo essa calipolis é uma polis ideal, um “lugar no céu” (topos uranos, em grego), pois as polis reais são todas sombras projetadas pela polis ideal do mundo inteligível, não passam de degenerações no mundo da sensibilidade. Assim, todas as formas de governo são más, exceto a monarquia ou a aristocracia de sábios.

Platão elaborou então uma lista de razões pelas quais a calipolis monárquico-aristocrática se degenera.  Inicialmente surge a timocracia, ou seja, uma falsa aristocracia em que não são os melhores que governam, mas os que têm timé, honra, os que têm a reputação e a fama, os que parecem melhores. Estabeleceu-se uma distinção entre ser e parecer, o que parece pode ser, mas não é necessariamente. Os que parecem melhores, mas não são, usarão o poder para acumular riquezas e honrarias, e não para o bem comum. Assim, pouco a pouco a timocracia se degenera em oligarquia, quando o poder está com os ricos. Os ricos governam e se entregam às mais diversas dissipações.  Com isso, alguns ricos se esbaldam e empobrecem.  Uma vez empobrecidos e inconformados com sua situação, insuflam os pobres contra os ricos.  Com os distúrbios, a oligarquia degenera em democracia, onde os pobres, ou a maioria, governa. Quando a maioria governa, a tendência é a licenciosidade, cada um faz o que quer e não se preocupa com as leis, caímos em uma anarquia em que todos governam para ninguém e, na confusão, alguém impõe pela força a ordem política, surge a tirania, a pior das formas de governo.  O tirano domina pela força e violência, portanto, ninguém ter nenhuma segurança porque o tirano é sempre ameaçador e governa pelo medo. As análises de Platão são notáveis porque a cidade ideal (calipolis) só existe no mundo das ideias; poderíamos chamá-la de uma ideia reguladora para pensar a cidade, a polis, ou o Estado: um governo sábio e prudente que nunca se corrompe. Mas a distinção inevitável no mundo da vida é que não podemos saber quem é verdadeiramente sábio, precisamos nos contentar em aceitar quem parece, ou que aparece como sábio, nunca teremos certeza. Então é a honra, a time, que nos servirá para designar os melhores.  A degeneração desta é a oligarquia dos ricos, em que o que conta são os bens materiais e não a capacidade. Esta se transforma na boa democracia, onde todo o povo faz a lei da polis, um elemento de equilíbrio pelo pensamento, pela reflexão, a lei. Em seguida, ocorre a degeneração em licença e anarquia, a má democracia, quando a lei não vale mais nada e se suscita o que há de pior na polis: a tirania, o descontrole da violência e da força dos poderosos.

Então, podemos deduzir   que a reflexão e o pensamento presente na polis por meio da lei nos permite discriminar boas e más formas de governo: de um lado, timocracia e democracia, que têm a lei como referência, são as boas formas; e oligarquia, anarquia e tirania, de outro, em que se destaca a riqueza, a licenciosidade da plebe e a violência do chefe, são as más formas. Assim, a (boa) democracia é o pior regime entre os melhores, e a (má) democracia ou anarquia é o melhor regime entre os piores. Podemos observar a rejeição de Platão pela democracia, especialmente a democracia ateniense. Na democracia antiga, todos os cidadãos livres tinham direito a voz e voto na polis, os cargos públicos (taxis ton archon) eram distribuídos por sorteio. Segundo Platão, o bem falar é mais valorizado do que o bem pensar, a retórica é mais importante que a filosofia, o parecer mais considerado do que o ser. O exemplo que Platão dá no diálogo Górgias, acerca desse  sofista,  é  que  um  canastrão  que  se  apresente  como  médico  sem entender nada de medicina mas conhecedor das regras de persuasão pode convencer o doente a fazer um tratamento, ao passo que um médico capaz e bem preparado que desconhece a retórica não conseguirá convencer o doente a seguir o tratamento. A discussão é bastante interessante e, diante disso, pode-se perguntar: quem é dono da verdade? O filósofo que pensa bem, mas não sabe convencer, ou o orador que não sabe pensar mas convence bem?

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

CHATELET, F. ET AL. (ORG.). História das ideias políticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983. CHAUI, M. Introdução à história da filosofia. SÃO PAULO: COMPANHIA DAS LETRAS, 2002-2010. (2 V.)

CONSTANT, B. Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos. REVISTA FILOSOFIA POLÍTICA, PORTO ALEGRE, N.2, P. 9-25, 1985

DUSO, G (Org.). O poder: história da filosofia política moderna. Petrópolis: Vozes, 2005.

HAVELOCK, E. Prefácio a Platão. Tradução Enid Abreu Dobranzsky. Campinas: Papirus, 1996.

MONTEAGUDO, R.  Filosofia e paradigma em Cícero.  Trans/Form/Ação, Marília, n.25, p.53-65, 2002.  Disponível em:  <http://www.scielo.br/pdf/trans/v25n1/ v25n1a04.pdf>. Acesso em: 10 dez. 2010.

PLATÃO.  Protágoras.  Tradução Carlos Alberto Nunes.  Belém:  Ufpa, 1983.  Disponível em:  <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000034.  Pdf>.  Acesso em:  10 dez. 2010. PLATÃO. República. Tradução Anna Lia de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

 

 

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